How To Save A Life
2 Losing Your Memory
Notas iniciais
Exatamente três dias depois da minha tentativa (falha) de fuga, Mary Margaret tentou convencer David Nolan a me dar alta, com o argumento de que não fazia muito sentido me manter ali se eu continuaria tentando fugir de qualquer forma. Não sei como diabos ele caiu na conversa dela, mas quem era eu pra reclamar?
Foi estranho vestir roupas que não fossem uma camisola de hospital ou pijamas. Fazia bastante tempo, afinal. Refiz as contas que eu já tinha feito tantas vezes (apesar de não ser muito fã de números e ter o que em termos médicos se chama de “alergia a exatas”): Dois meses no hospital, sem nem colocar o nariz para fora. Três em coma. E um que minha memória deletou.
Nas minhas consultas com o psicólogo, insistiam em me dizer que meu cérebro “apagou” os momentos do acidente, como um mecanismo assustado de autodefesa. Infelizmente, ele não anda fazendo direito o trabalho de cérebro de me proteger dos momentos ruins, porque além de outras coisas terem ido junto eu tinha pesadelos.
[O acidente: Não sou a pessoa mais recomendada para falar dele, considerando que não me lembro de nada. Me acharam na calçada e ,aparentemente, eu cai do terceiro andar de um prédio – e olha só, vai ficando cada vez melhor: de um prédio em que não me lembro de já ter estado na vida, e da janela de alguém que não conheço -. Tive uma quantidade além do que se recomenda de ossos quebrados, e caso alguém se pergunte se doeu, não tenho certeza por não lembrar, mas imagino que MUITO. Obrigada pela preocupação]
Eu vesti minha jaqueta vermelha, jeans, e Mary insistiu em fazer uma trança no meu cabelo.
— Você vai tomar os remédios?
— Vou, Mary.
— Todos os dias?
— Uhum.
— Nas horas certas?
— Yep.
— Nas doses certas? Porque você sabe que se tomar alguma coisa errada, você pode...
Me virei bruscamente, desfazendo a trança de Mary.
— Vou ficar bem, é sério – ela abriu a boca, provavelmente cheia de argumentos sobre a minha irresponsabilidade e falta de capacidade de sequer pronunciar o nome de tudo que eu tinha que tomar (eu tinha nomes bizarros de medicamentos anotados nas palmas das duas mãos), mas acabou não dizendo nada – Eu venho te visitar, prometo. E você vai me visitar também.
Minha enfermeira me abraçou, fungando, e de início fiquei meio sem jeito. Contato físico não era uma coisa que realmente me atraísse. Demorei uns cinco segundos para retribuir, mas o fiz. Mary tinha se tornado uma amiga.
— Pelo amor de deus, não faz nenhuma besteira, Emma – foi a última coisa que ouvi dela antes de sair do quarto. Me ofende um pouco que todo mundo fique me dando essa recomendação o tempo inteiro. Não sou louca. Irresponsável, sim. Louca, não.
Revirei os olhos, mas com um sorriso no rosto.
Eu não queria admitir, mas estava morta de medo. Nas poucas visitas em que Henry fez para mim, estava convencido de que eu ia me lembrar de tudo rápido. Eu odiava toda aquela pressão de todo mundo, esperando que as memórias voltassem instantaneamente. Miojo é instantâneo, meu cérebro, não. Apesar de eu sentir uma urgência desesperadora de lembrar o que quer que estivesse faltando. Todo dia, quando eu acordava, parecia que faltava uma peça do quebra cabeça, alguma coisa vital. Eu me forçava, fechava os olhos, ouvia fragmentos de frases que ouvi durante o coma, mas nada significativo, só vários vazios.
Soltei a respiração de vagar. Me disseram para evitar pensar no assunto para não me estressar. O Dr. Hopper recomendou que eu tivesse pensamentos felizes, como a Wendy de Peter Pan quando queria voar.
Pensamentos felizes, Emma, felizes. Pense no azul. Algodão doce. Unicórnios.
Só notei que estava realmente compenetrada no meu trabalho de ter pensamentos felizes quando Killian apareceu para me buscar.
— Pensando em mim, Swan? – provocou.
— Isso mesmo – sorri sarcasticamente – em quanto eu te odeio por me deixar aqui esperando.
— Odeia mas não vive sem – disse, enquanto me ajudava com as bolsas que eu carregava com meus pertences pessoais – É uma relação de amor e ódio, essa aqui.
Me apoiei no idiota do meu amigo e segui com ele, mancando a passos de tartaruga, até a saída do hospital. Quase todo mundo daquele hospital já me conhecia. Alguns pacientes me cumprimentavam ao passar por mim e as enfermeiras se despediam, algumas agradecendo a todos os santos possíveis por eu estar indo em bora (digamos que sou uma paciente difícil). Até a recepcionista, que juro que é igualzinha a aquela bibliotecária do Monstros S.A., falou comigo.
Eu soube que estava tudo bom demais para ser verdade quando Killian, abrindo a porta para mim, me olhou e disse:
— Emms, por favor, não surte.
E o que eu vi estacionado bem na minha frente foi meu fusca amarelo. Meu olhar desceu até as mãos de Killian e, confirmando minhas suspeitas, uma segurava as chaves. As chaves do MEU carro.
— Killian Jones – rosnei – você se apoderou do meu fusca?
Ele deu de ombros.
— Existem várias interpretações para isso. Podemos pensar como “Tomar conta”.
— Bom, agora eu já tive alta, não precisa mais ficar de babá do meu carro. Eu dirijo – me estiquei para puxar as chaves da mão, mas meu corpo inteiro travou com o movimento, me lembrando dos machucados nas costelas e do meu braço cheio de ataduras.
— A única coisa que você vai dirigir é o seu traseiro para o banco do carona.
— Não te amo mais – fiz bico, entrando no carro.
— Emma, bobinha – Killian disse em tom sarcástico, bagunçando meus cabelos antes de colocar a chave na ignição – Eu sou lindo demais para não ser amado.
— Só cale essa maldita boca e dirija – eu pretendia soar irritada, mas acabei sorrindo.
— Não era você que não queria que eu dirigisse?
Arqueei uma sobrancelha para ele.
—Tudo bem , vossa alteza.
[...]
Killian me guiou por quase todo o edifício que era minha casa, mas que eu não me lembrava do momento em que passou a ser. Meu senso de orientação ali dentro era zero – provavelmente porque a mudança foi poucas semanas antes do acidente, pelo que Killian me disse –, e ele fez questão de me mostrar todas as coisas que estivessem no caminho, por mais banais que fossem. “Esse é o elevador”, “Essa é a planta de plástico do segundo andar”, “Essa é a janela”. Eu me sentia uma criancinha numa visita guiada, mas conseguia entender a intenção de Killian, então apenas segui com ele e forcei sorrisos.
Não era difícil deduzir sem que me dissessem qual era a porta do aparamento. Killian e Ruby eram as únicas pessoas que eu conhecia que pendurariam placas com dizeres do tipo “Vai encher o saco de alguma outra pessoa” na porta, e ainda deixariam Henry desenhar nela com giz.
Rubs já devia estar esperando por nós atrás da porta, porque nem precisamos bater para que ela abrisse e se jogasse em cima de mim.
— Emma, se você acabasse morrendo eu ia te matar – foi a primeira coisa que ouvi dela. Eu adoraria dar uma resposta irônica, mas ela estava praticamente me sufocando com seu abraço. Ruby me apertou por uns bons minutos antes que Killian nos desse um empurrão em direção à porta.
— Vocês podem se abraçar lá dentro, anda – revirou os olhos.
— Isso é ciúme de mim ou da Ruby? – ri de sua expressão.
— Com ciúme de mim ou não, ainda acho melhor que durma de olhos abertos – Ruby o fuzilou com o olhar – porque se não pode acabar acordando sem uma mão qualquer dia desses.
— Okay, o que foi que você fez? – encarei Killian, que estava ocupado demais desviando do olhar mortífero de Ruby.
A morena passou o braço pelos meus ombros e me guiou para dentro.
— Acredita que o Jones cozinhou na minha cozinha? – disse para mim.
Desde que começamos a morar todos os quatro juntos – e até mesmo quando éramos só eu, Henry e Ruby – sempre teve uma regra : A cozinha pertencia a Lucas, sem discuções. Nunca reclamei muito disso, em primeiro lugar porque nem uma pipoca de microondas eu fazia sem queimar, e em segundo porque a comida de Rubs era maravilhosa. Ela tinha aprendido quase tudo o que sabia com a avó, e seu sonho era abrir um restaurante próprio.
— Eu estava com fome e você ainda não tinha chegado – Killian protestou.
— Era para esperar com fome, não para prender uma panqueca no teto – bufou, enquanto eu prendia o riso – Não dirija a palavra a mim até encontrar um jeito de limpar aquilo decentemente.
— Mas é no teto!
— Problema seu – Ruby retrucou, com um sorriso maldoso nos lábios.
A nossa sala de estar era exatamente o que eu esperaria de nós três. Cada parede era de uma cor: Azul, preto, verde e vermelho – e essa última parecia ter sido uma escolha minha -. Uma TV grande, perfeita para longas maratonas de série, se encostava na parede azul, de frente para um sofá de couro gasto. O tapete era infantil, provavelmente obra de Henry, e havia giz, folhas e brinquedos espalhados pelo chão, sem deixar dúvidas de que uma criança vivia ali.
— Onde está Henry? – varri a sala com os olhos, procurando-o.
— Calma, Swan, não vendemos o garoto para traficantes de órgãos – Killian riu do meu desespero (que não tinha nenhuma graça) e se jogou no sofá – Ele só foi na casa de um colega fazer um trabalho, deve chegar logo.
Soltei a respiração que até então não tinha notado que estava prendendo. Diziam que eu era muito super protetora com ele, mas Henry é uma criança. Ele só tem nove anos, precisa de proteção.
Ruby apareceu na sala com uma caneca de chocolate quente com canela para mim e outra para ela, dando língua para Killian e dizendo que se ele também quisesse que fosse buscar. Sentei no sofá e ela se jogou entre mim e Killian, ligando a TV em algum canal com um reality show ruim.
— Belle, Graham e Zelena ligaram – anunciou.
Killian se remexeu no sofá, fazendo careta para a TV e encarando o controle remoto em cima do criado mudo como se tentasse movê-lo por telepatia.
— Eles não vinham?
— Vinham? – abri um sorriso.
Se nós quatro éramos como uma família, aqueles três eram os agregados.
Belle e Graham eram colegas de trabalho que costumavam suportar comigo o nosso chefe. O que começou só com cobrir uns aos outros nos atrasos e dar língua para o Gold em conjunto quando ele virava as costas acabou se transformando em noites de hora extra em que dividíamos uma garrafa de vinho barato e falávamos dos nossos sonhos, do que esperávamos do futuro, do que pensávamos. Depois de uma ou duas semanas que os dois passaram me ouvindo cantar minhas músicas favoritas no escritório, totalmente desafinada – o que fazia meus vizinhos quase terem uma síncope -, sem reclamar, decidi que eram oficialmente da família.
Zelena era um caso diferente. Era uma amiga virtual de Ruby e veio de Londres há dois anos, sem lugar para ficar. Como isso aqui parece um albergue, a ruiva acabou com a gente. Com o seu jeito completamente louco, nos arrastava para baladas toda noite, e assistia sem reclamar nossas sagradas maratonas de série. Depois de seis meses acabou se mudando para um apartamento a duas quadras do nosso, mas sem deixar de ser presente em nossas vidas.
Quero dizer, eu acho que o apartamento de Zelly é a duas quadras daqui. Uma pessoa com amnésia não é exatamente um GPS perfeito.
— Vinham, mas hoje não vão poder – Ruby deu um sorriso diplomático, como que se desculpando.
— O Gold está fazendo com que Belle e Graham trabalhem como escravos desde o acidente – Killian explicou.
— E Zelena está com problemas familiares – Rubs acrescentou de modo vago. Não sabíamos muito sobre a família dela, e não tocávamos no assunto o suficiente para termos informações. A menção de sua mãe a fazia ter acessos de raiva, e ao falar da irmã Zelena ficava quieta e deprimida, o que não era típico dela.
Franzi a testa para Ruby, mas ela apenas negou com a cabeça e sibilou um “Te explico depois”.
— Apesar de ela ter dito que vai tentar aparecer amanhã – Killian tentou me animar.
— E Belle e Graham deixaram recado — Ruby me disse – Belle disse que Gold é um encarregado do demônio, E Graham disse que se tiver que fazer mais uma hora extra não remunerada vai acabar preso por assassinar o chefe.
Não tinha graça – principalmente quando você é/foi empregado do Gold -, mas nós três começamos a rir descontroladamente. Eu não sabia se era só nostalgia ou felicidade por, por alguns instantes, parecer que nada nunca mudou. Mas o fato é que rimos até a barriga doer e por tempo o suficiente para nos esquecermos até do motivo, e só paramos quando estávamos sem ar. Acabei com a cabeça apoiada no ombro de Killian e com as pernas de Ruby sobre as minhas, todos nós nos encarando em silêncio, provavelmente porque não havia nada que realmente precisasse ser dito.
O primeiro a quebrar o silêncio foi Killian:
— Tem sorvete de chocolate no congelador.
Aquilo só poderia significar uma coisa.
— Maratona de Friends, como nos velhos tempos? – perguntei.
— Maratona de Friends – ele confirmou.
[...]
Ruby tinha me prometido que Henry chegaria as oito, mas quando ele apareceu já eram 9h45min. Ruby Lucas, sempre um exemplo perfeito de responsabilidade.
Henry pode ser uma criança, mas é esperto. E considerando que ele mora comigo, Ruby e Killian, é o mais responsável da casa. Ele tem loucura por contos de fadas e vive com a cara enfiada em livros com algum deles. Desde que acordei, já tinha escutado quase todo o tipo de comparação que se possa imaginar com a Bela Adormecida.
Quando Henry chegou eu estava sentada no sofá, lendo e com os fones no ouvido. O garoto puxou os fones e se jogou no meu colo, amassando algumas páginas do que meu e me abraçando.
— Preciso de relatos sobre como foi o seu sono – ele disse, sem mal ter falado um “Oi” antes.
— Não sei, garoto – dei de ombros – eu estava dormindo.
— Isso é importante, Emma – disse, sério – Você pode ter sido enfeitiçada.
Eu ri, bagunçando os cabelos do meu irmão.
— Não me lembro de ter espetado o dedo numa roca ou encontrado com a Malévola.
— Você não tá me levando a sério – ele ficou emburrado.
— Okay, okay – suspirei, me rendendo – talvez uma maçã envenenada?
— Eu não tinha pensado nisso – ele abriu um sorriso – É uma boa teoria. Talvez você não tenha precisado de alguém pra te acordar te beijando, mas talvez pra trazer sua memória de volta?
Eu sabia que esse assunto acabaria surgindo em algum momento. Baixei o olhar decepcionada e comecei a mexer as mãos nervosamente antes que Henry me abraçasse. Ele quase sempre sabia quando eu precisava de um abraço.
— E se eu nunca mais me lembrar de nada, garoto?
As palavras surtiram um efeito quase mágico no meu cérebro. Ironia, acho. Cenas começaram a se juntar de novo na minha cabeça.
Eu forçava minhas pálpebras, mas elas se mantinham fechadas. Tentava mover os dedos. Falar. Gritar. Mas nada acontecia. Era como se todos os comandos do meu cérebro fossem bloqueados, e tudo que eu pudesse fazer fosse continuar no pesadelo contínuo das cenas. Cenas confusas, embaralhadas. Eu não sabia ao certo o que tinha acontecido. A única coisa que eu sabia era que alguém em algum momento tinha entrado e dito – se referindo a mim, suponho – que o que me prendia era um coma.
A única coisa que me tirava do meu pesadelo eram as vozes. As pessoas sentavam para conversar comigo, perguntavam para os médicos se eu ouvia o que diziam. Ouvi a voz de Ruby, Killian, Zelena, Graham ,Belle, Henry...e dela.
Eu não sabia exatamente quem era, só que vinha todos os dias. Estava ali hoje, junto com Henry.
— Como ela se chama? – a voz perguntou. Que tipo de pessoa visita alguém que não sabe nem o nome?
— Emma – Henry respondeu — Ela é minha irmã e se chama Emma.
— Emma – repetiu lentamente – Ela é bonita.
A lembrança me assustou e me deixou estática. Eu não tinha me lembrado de nada concreto ou realmente significativo até agora. O que me trouxe de volta a realidade foi a voz de Henry.
— Se você não lembrar, criamos lembranças novas – disse, apertando a minha mão.
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