How To Save A Life
4 Haunting
Notas iniciais
Uma vez, em um dos vários artigos que li sobre perda de memória, diziam algo sobre as lembranças estarem no meu inconsciente, temporariamente presas. Tudo que eu precisava fazer era encontrar um jeito de acessá-las, e o faria quando estivesse pronta, principalmente emocionalmente.
Eu estava descobrindo aos poucos que aquilo era uma mentira gigante, provavelmente escrita por alguém que nunca perdeu a memória.
Mary falou comigo o tempo inteiro durante o caminho para a sala de arquivos, sem nem ao menos deixar tempo para resposta, o que era bom porque quando eu não estava tendo flashes aleatórios estava tentando não esquecer o rosto da pista mais estressada que já tive até agora.
Quem fica com tanta raiva só por causa de um copo de café derramado? Torci o nariz, me lembrando do modo como a Dra. Mills tinha me olhado. Grossa, era isso que ela era.
— Aqui, Emma – Mary me chamou e puxou meu braço. Eu estava distraída o suficiente para passar direto pela sala de arquivos mesmo que tivesse uma placa enorme na porta. Minha consciência não deixou essa passar em branco. “Nem parece que foi alfabetizada, Emma”. Comecei um debate mental comigo mesma, e só fui puxada de volta a realidade pelo barulho da fechadura rangendo enquanto Mary enfiava a chave, como que reclamando por ser aberta com tamanha delicadeza.
Um nervosismo fez com que meu estômago se agitasse antes que Mary abrisse a porta, como se lá dentro fosse uma dimensão mágica onde eu teria todas respostas de que precisava instantaneamente. Uma ilusão idiota, já que era só um almoxarifado com muita poeira, afinal.
Tive um ou dois acessos de tosse ao entrar que Mary ignorou enquanto acendia a luz e estudava as prateleiras quase infinitas de caixas de arquivos.
— Mary? – chamei, passando os dedos sobre um dos móveis brancos de tão empoeirados e desenhando uma carinha feliz.
— O quê?
— Isso foi limpo pela última vez na época de Colombo ou na do Império Romano?
Ela rolou os olhos, hábito que imaginei ter adquirido comigo.
— Deixa de ser rabugenta, Emma.
—Por que vocês têm arquivos de quem visita os internados? – comecei a entreabrir as caixas e espiar dentro delas mesmo sem saber se tinha permissão para isso.
— Tivemos alguns problemas com a entrada de pessoas erradas em lugares errados — respondeu, afastando as caixas em que eu mexia de mim – Atualmente só deixamos família e amigos com autorização familiar.
Eu não gostava daquela regra. Família é uma coisa completamente relativa, tanto que enquanto a da maioria das pessoas tem famílias formadas por laços de sangue, eu tinha uma família de amigos, unida por afinidade e acasos que nos fizeram acabar juntos. A minha família, do jeito que era, era tão verdadeira quanto a de qualquer um. Eu me perguntava se teve algum tipo de burocracia para que Killian e Ruby me visitassem.
— Seu arquivo de visitas não vai ser difícil de achar, é recente – Mary continuou, puxando de dentro de uma das caixas perto de si uma folha que confirmava o que ela dizia.
Arranquei a folha da mão dela, amassando-a um pouco devido a minha ansiedade.
— Você pode não achar nada nessa, especificamente, mas podemos procurar mais no... – Mary permanecia falando, mas eu não ouvia mais uma palavra do que ela dizia. Estava perdida correndo os olhos por uma lista infinita de Rubys Lucas, Killians Jones e Henrys Swan.
Sabe quando você quer desesperadamente que uma coisa aconteça, precisa que aconteça, e repete para si mesmo o tempo inteiro que acontecerá numa tentativa de se convencer porque no fundo você duvida? Você procura com medo de no fim não achar nada, um pré-sofrimento e uma agonia por uma situação que nem mesmo aconteceu ainda. Era aquilo que eu estava fazendo desde o início, e foi por isso que meu coração deu um salto e minha boca se abriu em um perfeito “O”, devido a minha surpresa, quando achei um nome seguido de Mills.
Respirar. Inspirar. Respirar. Inspirar.
Parecia patético obrigar meus pulmões a fazer uma coisa que deveria ser automática, mas também era uma distração interessante para a dor.
— Você tem algum tipo de problema? – a voz ficava mais rouca quando ela se irritava, eu tinha notado nos últimos minutos. Deitada na maca, com os olhos entreabertos e tentando incansavelmente permanecer viva, eu conseguia uma visão de sua silhueta de costas, dos cabelos castanhos curtos – Eu não sei o nome dela. Também não sou seu contato de emergência. A encontrei caída no chão e chamei a ambulância, foi isso.
Mary se posicionou ao meu lado, lendo a folha por cima do meu ombro.
— Ela te achou... — sussurrou.
Respirar. Inspirar. Respirar. Inspirar.
Eu tinha uma noção vaga de uma voz respondendo, de um interrogatório sobre onde me acharam, que tipo de relação nos tínhamos e o que tinha me trazido ao estado atual, mas era mais como um zumbido, como quando falam com você embaixo da água. Acredito que o nome do meu estado seja semiconsciência.
— Eu não a conheço – sua voz tremeu quando disse isso, como se fosse uma mentira daquelas grandes – mas não podia deixa-la lá. Quer dizer, o que você esperava que eu fizesse? E enquanto você está aqui tentado me arrancar milhares de informações que eu não tenho, ela está morrendo, e eu não sei se você sabe, mas morte é um negócio meio definitivo, não tem volta depois – a discussão continuava acaloradamente, sempre contando com toques de seu sarcasmo, e meus olhos continuavam a alternar entre abertos e fechados, como faziam desde o momento do impacto com o chão, o tempo inteiro me lembrando da dor.
Todas as partes do meu corpo queimavam, me deixando completamente desorientada, e tudo que eu podia desejar era que parasse. Engasguei tentando puxar um pouco de ar, e foi aí que meu corpo pareceu começar a lutar contra mim e meus olhos pesaram o suficiente para se fecharem contra a minha vontade.
Uma das pessoas que eu sentia verificando meus sinais e revirando meu corpo disse algo sobre meu pulso fraco. Falta de oxigenação no cérebro. Perdendo muito sangue muito rápido.
O ar poeirento do almoxarifado começou a parecer difícil de respirar conforme eu absorvia todas aquelas informações de uma vez.
— O sangue, encontramos uma doadora tão rápido – Mary comentou -, faz mais sentido agora.
Respirar. Inspirar. Respirar. Inspirar.
Ouvi passos, vozes, nomes estranhos de remédios. Estavam tentando contatar alguém, mas era difícil sem saber meu nome. Eu era incapaz de responder enquanto minhas pálpebras pesavam daquela maneira e mal conseguia respirar, quanto mais falar.
Eu tinha medo até mesmo de um exame de sangue, então a ideia do liquido vermelho escorrendo a ponto de eu precisar que alguém me doasse mais era desesperadora. Alguns afirmavam que eu ia morrer por ter um sangue tão raro. Mas antes da parada cardíaca e da escuridão que a sucedeu, antes que conseguissem me trazer de volta, consegui ouvi-la gritando que doaria. Insistiu para fazer aquilo, com o tom de voz cheio de urgência, de desespero. Uma completa estranha, por uma jogada do destino, tinha o mesmo sangue que eu e iria me salvar.
A primeira coisa que conheci sobre ela foi que salvou minha vida.
— Regina Mills – Mary pronunciou o nome devagar, me causando um arrepio – Dra. Mills, como eu não tinha pensado nisso antes? Parece tão óbvio agora.
Eu era incapaz de esboçar qualquer reação. Me apoiei num móvel qualquer atrás de mim, como se de alguma forma isso pudesse me ajudar a me recompor. A qualquer tentativa de formar uma linha de raciocínio coerente, minha cabeça se enchia de Regina Mills, dos fragmentos de sua voz que eu tinha em meus sonhos, de sua careta quando tivemos o único contato realmente concreto.
Eu vejo quando as pessoas mentem, e o jeito como ela ficou tensa, desviando da pergunta cheia de sarcasmo quando foi questionada sobre me conhecer só provava que ela mentia. Por que mentir sobre isso? Por que vir comigo até o hospital, se eu era apenas uma desconhecida acidentada na rua? Por que tanto desespero na voz ao pedir para me salvar?
— Emma? – Mary me lançou um olhar preocupado – Você está bem?
Bem. Defina bem.
Fiz um esforço quase sobre-humano para abrir a boca para responder que, considerando as atuais condições, eu estava razoavelmente bem mas não foi necessário.
— Srta. Swan? – a voz do Dr. Nolan, também conhecido como especialista em dar um fim as minhas fugas, irrompeu pelo cômodo depois do ranger da porta – Esse não seria o horário de sua consulta psicológica?
Mary Margareth deixou a caixa de arquivos cair com o susto, alternando entre encarar a mim e Nolan como se fôssemos duas adolescentes pegas no flagra fazendo uma besteira. O que era exatamente o que estava acontecendo, excluindo apenas a parte do “adolescentes”.
— O que vocês duas estão fazendo?
Engoli a seco e respirei fundo uma, duas, três vezes antes de conseguir falar:
— Eu precisava lembrar.
Ele suspirou, como eu já esperava que fizesse.
— Emma, eu já disse que...
— Eu dependo disso, Nolan – o interrompi – Tem vozes na minha cabeça, e Regina Mills. Eu estou ficando louca, completamente louca.
— Regina Mills? – ele repetiu, como se essa fosse a parte mais estranha de tudo que eu tinha acabado de dizer, e eu, tendo esgotado minha paciência para explicar qualquer coisa, estendi a folha em sua direção.
Ele correu os olhos pelos dados rapidamente, franzindo o cenho por alguns segundos antes de soltar uma gargalhada baixa. Não pareceu ter lido todas as informações dela, mas dobrou-a mesmo assim, me entregando com um mistério nos olhos que tornaria difícil para mim acreditar que ele não sabia de nada depois dessa.
— Só não fique aqui por tempo suficiente para outra pessoa perceber e cumpra sua sessão de uma hora – deu de ombros, indo embora quase tão rápido quanto tinha chegado.
Voltei a me apoiar no móvel, igualmente transtornada a maneira que eu estava antes que ele chegasse.
A única conclusão que eu tinha no momento era que algo ali estava acontecendo há tempo demais, e eu é que tinha me atrasado para notar.
[...]
— Me desculpa, Emma – Ruby abriu um sorriso triste ao colocar meu prato de panquecas na minha frente. Sempre com a calda em duas grandes poças e uma linha curvada em baixo, como um sorriso – mas eu não me lembro de nenhuma Regina.
Suspirei, desfazendo a linha que formava o sorriso com o garfo e fazendo com que o de Ruby fosse pelo mesmo caminho que o da minha panqueca feliz.
Na manhã seguinte a invasão do almoxarifado, acordei de uma série de sonhos – e pesadelos – com Regina Mills. O problema todo de quando você vive com um fantasma na cabeça é quando ele ganha um nome e um rosto além de apenas olhos expressivos. E desde que tal coisa tinha acontecido comigo, minha razão parecia estar se despedaçando aos poucos.
— Você tem certeza sobre já ter ouvido a voz dela? – Killian, que até então ouvia calado, se manifestou – Porque se ela tivesse entrado no seu quarto em algum momento imagino que nós teríamos notado.
— Tenho.
Essa era a única certeza que eu tinha, afinal. Mesmo só tendo a visto uma vez na vida eu conhecia todos os seus tons de voz, do seu sarcasmo amargurado ao jeito frágil e sincero de quando deixava uma brecha em suas barreiras. Minutos são pouco para se conhecer uma pessoa mas seis meses são o bastante, e eu a conhecia a seis meses.
— Não faz essa cara, Emms – Killian arrastou a cadeira o suficiente para que a proximidade fizesse nossos braços se encostarem e minha cabeça tombou no seu ombro – Você saía sozinha com Zelena várias vezes por semana, ela pode saber de alguma coisa.
Zel era uma possibilidade extremamente remota. Apesar de prometer diariamente vir me visitar eu não a tinha visto desde sua última ida ao hospital. Suas ligações sempre contavam com respostas curtas demais, atípicas de Zelena Mills, e suas mensagens era secas e quase inexistentes. Nem mesmo Rubs tinha notícias dela, e isso era meio assustador.
— Killian, pare de prolongar o assunto – Ruby se sentou de frente para mim, com a boca cheia enquanto falava – Lembra o que aconteceu da última vez?
Uma onda quase insuportável de dor de cabeça, que me fez cerrar os olhos com uma força absurda e não abri-los até que tomasse aquela quantidade gigante de remédios.
Assenti.
— Graham arrumou uma festa para irmos, daquele tipo que você gosta – Ruby sorriu para mim, trocando o tema da conversa – Sabe, bastante gente, open bar, esse tipo de coisa.
— Você sabe que eu não...
— Por Deus, Emma, se você disser não vou te levar de volta para o hospital e dizer que o impacto que você teve na cabeça além de afetar sua memória afetou sua personalidade – Rubs arqueou uma sobrancelha para mim – Graham convenceu até mesmo Belle a ir, tem noção disso? Belle French!
Revirei os olhos, sabendo que ela continuaria insistindo enquanto eu continuasse negando.
— Vou pensar, okay?
— Isso quer dizer sim – ela afirmou, e o sorriso que tinha sumido voltava rapidamente aos seus lábios.
— Não, isso quer dizer que eu vou pensar – eu disse, colocando uma grande porção de panqueca com caramelo na boca e fazendo disso um motivo para ficar calada.
O som de Cannibal, o toque de celular de Ruby, chegou até nós e ela empurrou a cadeira, se levantando, e fez menção a ir procurá-lo na cozinha.
— Só – sussurrou, com um toque leve na minha mão antes de se virar – não desista de viver, Emma.
Eu conhecia aquelas palavras.
— Eu não sei o que te dizer, Em. De verdade. Não é como se tivesse um manual do tipo “O Que Dizer Para Sua Amiga Em Coma” – eu sabia que aquela voz demoraria a aparecer, e afinal, estava certa. Ruby sempre foi o tipo de pessoa que evita os problemas a fim de fingir que eles não existem e como seu mais recente problema emocional, eu seria evitada. Não me magoava e, de qualquer forma, ela não tinha como saber o que se passava na cabeça de uma pessoa em coma, do quanto eu tinha ansiado que ela viesse do quanto era reconfortante que finalmente estivesse ali.
Um barulho entrecortado de tentativa de prender o choro. Minha mão sendo apertada com força. Eu não podia apertar de volta, mas o monitor cardíaco registrava fielmente o máximo de reação corporal que eu podia dar.
— Lembra aquele dia, quando nos conhecemos? – ela fungou e fez uma pausa que imaginei ser uma tentativa de se recompor – Era meu primeiro trabalho de meio período, o primeiro de muitos e o seu primeiro também, acho – Você derrubou molho em mim e brigamos por gorjeta. Nos odiamos mortalmente, mas naquele final de expediente e em muitos outros que se seguiram fomos obrigadas a fazer praticamente o mesmo caminho para as nossas respectivas casas. Sempre haviam provocações, alfinetas, encaradas raivosas. Não sei como, mas no meio de tudo isso nossa amizade encontrou um jeito de dar certo. Me encantei com a garota de sorriso fácil e humor matinal difícil. Você se tornou minha família de uma maneira que eu nunca poderia imaginar, sendo a melhor em decifrar meus piores dias por meio dos momentos em que eu passava pela porta com meus melhores sorrisos ensaiados. Sua praticidade sempre conseguia resolver tudo.
Gotas caíam em meu braço. Gotas de suas lágrimas, eu sabia pelo jeito que sua mão tremia agora segurando a minha. Choro.
— Sinto falta de suas reclamações frequentes quando chegava em casa depois do trabalho. Killian sempre olha suas fotos antes de dormir, aquelas tiradas com as caretas idiotas que você insiste em fazer para a câmera. Henry pergunta de você todo dia porque não conseguimos contar que você está em coma, dissemos que viajou.
O aperto em minha mão relaxou e em seguida desapareceu. O barulho da cadeira sendo arrastada devia indicar que ela estava se levantando.
— Sei que parece um “Precisa-se de Emma Swan” desesperado, um SOS – ela riu sem humor – Mas eu só estou dizendo...só estou pedindo...não desista de viver, Em.
— Emma? – Ruby apareceu de volta na bancada segundos depois, me tirando rápido da lembrança a qual eu estava presa e ao fazê-lo, me deixando meio desorientada.
Levantei o olhar para a morena de mechas vermelhas, alarmada pelo seu tom de voz, e encontrei os olhos azuis arregalados se destacando no rosto.
— Aconteceu alguma coisa? – Killian perguntou de um jeito que fazia parecer uma afirmação.
— Hen...Henry – conseguiu dizer finalmente, em um sussurro estrangulado – Acidente, na escola. Ele quebrou a perna bem feio, mas não sabem dizer se há mais alguma coisa porque ele não para de chorar de dor e chamar por você.
Os acontecimentos seguintes não passaram de cenas borradas. Ignorando os protestos de Killian e Ruby, eu peguei a chave do meu fusca, com o coração batendo descontroladamente, e corri pelo prédio.
Eu saberia chegar a escola, depois da amnésia?
Não importava. Nada importava. Eu acharia um jeito de chegar a Henry, ao meu pequeno príncipe.
Fale com o autor