Notas iniciais
A boa notícia? Até que eu não demorei tanto assim, dessa vez. A má notícia? Esse é o último capítulo antes do epílogo.

Chega a noite e, com ela, o silêncio. Desde o momento em que acordou pela primeira vez, Santana teve a impressão de que o seu quarto tinha se tornado o destino de um interminável desfile de médicos e enfermeiros, todos cutucando e espetando e perguntando e observando, quando tudo o que ela queria era estar em casa, na sua cama, deitada com Brittany. Mas a sua médica tinha deixado bem claro que isso só aconteceria no dia seguinte. Resignada, Santana se acomodou melhor sobre o ombro de Brittany, apertou o braço que ela tinha ao redor da cintura da namorada, fechou o olhos e tentou dormir.

O problema com o silêncio é que ele deixa muito espaço para todo o resto. Ele deixa espaço para os pensamentos e para as lembranças e para as imagens que se gostaria de deixar para trás. Sem muitas opções de posição, Santana cerra bem os olhos e os dentes, procurando o sono que parecer escapulir por entre os seus dedos.

– O que houve, San? — A médica ouve a voz sonolenta de Brittany e estica o pescoço para encarar a namorada.

– Não houve nada, Britt. Tá tudo bem.

– Como tudo bem, San? Eu tô conseguindo ouvir você ranger os dentes. — Brittany levou a mão até a linha do maxilar de Santana e afagou a pele até sentir a médica relaxar sob seus dedos. — Anda, vai. O que que houve?

– Eu só não tô conseguindo dormir, baby.

Brittany se virou na cama para encarar melhor Santana. Mesmo na pouca claridade do quarto, ela podia ver o desenho que as mãos de Sebastian tinham pintado no pescoço da outra mulher.

– Você tá sentindo alguma coisa? Quer que eu chame a enfermeira?

– Não, — Santana exclamou, segurando o pulso de Brittany antes que a namorada pudesse alcançar o botão na parede. — Elas finalmente me deixaram em paz. Eu não tô sentindo nada, Britt. Eu só...

– Você tá pensando no que aconteceu.

Por um segundo, Santana considerou mentir. Por um segundo, ela considerou dizer que apenas tinha perdido o sono, que mal se lembrava do que havia acontecido, que era apenas culpa da agulha ainda em sua mão e da cama desconfortável. Por um segundo, ela se esqueceu de que quem a encarava, com aqueles olhos de infinitude, não era apenas a sua namorada, que parece lê-la como livro escancarado. Quem estava a sua frente era alguém que tinha passado por, praticamente, a mesma situação. Brittany também já temera por sua vida, já vira o gelo dentro dos olhos azuis do mesmo homem. Foi essa lembrança, de que talvez a sua namorada a entendesse melhor do que ninguém, que fez com que Santana assentisse.

Um sorriso triste tomou conta dos lábios de Brittany quando ela puxou Santana contra o seu corpo e a abraçou. Ela tinha certeza de que esse momento chegaria — ela soubera antes mesmo de entrar naquele quarto -, mas ela esperava que elas pudessem estar em casa quando finalmente acontecesse. A professora ainda se lembrava de como tinha sido difícil dormir naquelas primeiras noites, de como tinha sido quase impossível fechar os olhos e não ser afogada pelas lembranças.

E com Santana tremendo contra ela, Brittany também se lembrava do que tinha facilitado um pouco as coisas.

– Sabe o que me ajudava a dormir naquelas primeiras noites? — Santana apenas sacudiu a cabeça contra o peito de Brittany. — Você.

A resposta simples da loura fez com que Santana se desgrudasse o suficiente do corpo dela para ver o sorriso quase triste que a lua pintava no rosto claro. Era como se Brittany estivesse revivendo noites há muito deixadas para trás; como se ela pudesse rever e revisitar as mulheres que elas eram quando se conheceram.

– Eu? — A voz da médica não era mais do que um sussurro arranhado.

– É. Eu não sei por que, mas conversar com você sempre me distraiu o suficiente pra eu conseguir dormir. Logo que eu fui para a casa do Mike, eu acho que eu só dormia por pura exaustão.

– Por que você nunca me contou isso?

– Não sei. Acho que eu tentei apagar aquelas semanas da minha memória.

– E conseguiu?

– Não. — Uma respiração trêmula ecoou no quarto e Brittany tomou o rosto de Santana em uma das mãos antes que ela pudesse desviar o olhar. — Mas chegou uma hora que eu consegui conviver com a lembrança. Eu não me esqueci do que aconteceu, do que eu vi, mas eu não deixo mais isso tirar o meu sono.

– E como é que você conseguiu isso, Britt? Agora parece que eu nunca mais vou conseguir fechar os olhos sem ver o rosto daquele homem.

– Oh, San! — Brittany puxou o corpo de Santana contra si. Ela sabia o quão difícil devia ter sido para a outra mulher admitir isso. — Você vai conseguir sim, meu amor. Eu prometo pra você.

– Eu acredito em você, Britt. Mas... — Santana inspirou longamente antes de ajeitar a cabeça sobre o ombro de Brittany. — Agora, fica um pouquinho acordada comigo? Eu não quero tentar dormir de novo.

– Claro, amor. O que você quiser. Tem alguma coisa que você queira conversar?

– Qualquer coisa, desde que seja boa.

– Hummmmm... O que você pretende fazer no feriado de Ação de Graças?

– Ação de Graças? — A médica trocou de novo de posição para poder encarar o rosto da namorada. — Não sei, por quê?

– Bom, eu não tinha falado nada antes porque eu achei que você fosse estar de plantão, mas já que a Dra. Sylvester te deu as próximas duas semanas de folga, eu --

– Britt, eu já falei que eu não --

– Santana, ela te deu folga e você vai ficar em casa, sim. — Brittany interrompeu a tirada de Santana com voz forte. Elas já tinham discutido sobre aquilo algumas vezes desde a visita da diretora do hospital. — Você precisa descansar, meu amor. Mas, como eu estava falando antes de você me interromper, eu pensei que a gente podia passar o feriado com a minha família.

– Com a sua família? Eu não sabia que você queria passar o feriado em casa.

– Como eu não sabia como ia ser o seu plantão, eu preferi não falar nada. Mas a minha mãe me ligou, na semana passada, perguntando se eu ia pra casa. A Hannah também ligou. Ela queria saber se eu ia apresentar você pra família no feriado.

– Você sabe que essa parte não me ajuda, em nada, a dormir, né?

– Relaxa, amor. — Brittany riu baixinho e beijou a testa morena. — Não é nada demais. Só eu, meus pais, a Hannah, a Holly e a família dela. A gente não precisa ir, se você não quiser. Mas eu queria que você conhecesse a minha família. E eu acho que ia ser bom, sair daqui um pouco, descansar.

– Não sei, Britt. E se--

– Eles vão adorar você. — Brittany interrompeu, plenamente consciente do que estava preocupando sua namorada. — Assim como a Hannah. Eu queria tanto te apresentar pra Holly.

– Eu prometo que eu vou pensar, tá?

***

Alguma coisa na cadeira de rodas em que Santana era empurrada pelos corredores do hospital rangia alto e a médica não queria nada mais do que se levantar e voltar para o seu quarto usando as próprias pernas. Mas, quando Santana ameaçou caminhar até a sala de exames, o enfermeiro que a acompanhava deixou bem claro que não hesitaria em usar de força para garantir que ela se mantivesse sentada durante todo o trajeto.

– Muito bem, Dra. Lopez. Nós já che... — Santana nem esperou o enfermeiro terminar antes de se levantar da cadeira de rodas e esticar a coluna. — ...gamos. O Dr. Anderson deve vir ver você assim que ele receber os resultados dos seus exames.

Com a mudança na equipe de plantão, a médica que atendera Santana no dia anterior passou o caso para o Dr. Blaine Anderson, o que não tinha ajudado no mau humor dela. O médico era suficientemente competente, na opinião de Santana, mas ele tinha um ar de eterna condescendência que irritava a latina.

– Acho que eu conheço bem o procedimento, obrigada! — A médica tentava se manter calma, mas já passava das 10 da manhã e ela ainda não tinha sido liberada do hospital e nem tinha bebido nenhuma gota de cafeína desde o dia anterior.

– Claro, claro. Você precisa de mais alguma coisa, doutora?

– O que eu preciso, você não pode me dar. Então, não. Pode ir.

O enfermeiro se apressou em sair do quarto, deixando uma Santana de cara amarrada para trás. Ela encarava fixamente a porta, tentando lembrar se ela tinha algum favor a coletar que a pusesse do lado de fora daquele prédio mais rápido, mas nada lhe vinha à mente.

– Isso não foi muito legal, San.

– Huh? — Santana se virou para encontrar Brittany parada no batente da porta do banheiro, a cabeça torta como um filhote abandonado.

– Agora, com esse enfermeiro. Eu ouvi você do banheiro. A culpa não é dele, você ainda estar aqui.

A voz de Brittany agia como um bálsamo e Santana se viu esvaziada de todo o mau humor, de toda a vontade de brigar com qualquer um que cruzasse seu caminho. Tudo o que ela queria, naquele momento, era ir embora para casa — qualquer uma das duas, ela não tinha preferência — e se enroscar ao redor do corpo de Brittany, um cobertor pesado sobre elas, e deixar o mundo inteiro do lado de fora.

– Eu sei, B. É só que... Eu não aguento mais ficar dentro desse hospital. Eu sei que eu tô bem e eu sei que eu posso ir embora, mas ninguém quer me dar alta. E parece que todo mundo aqui dentro sabe o que aconteceu e fica todo mundo me olhando pelos corredores e eu acho que todos os enfermeiros já entraram nesse quarto desde que eu acordei e ninguém ainda me deixou beber café. E você sabe como eu fico sem café de manhã.

Durante o seu discurso, Santana tinha se sentado na cama, trançando os dedos sobre o colo, as pernas balançando no ar como uma criança que espera a punição do diretor da escola. Com um sorriso torto, Brittany se aproximou de Santana, apoiou as mãos em seus joelhos e afastou suas pernas até que ela pudesse ficar de pé entre elas. Depois, ela entrelaçou seus dedos com os da médica e trouxe as mãos da outra mulher aos lábios, beijando cada uma antes de deixá-las cair novamente.

– Eu sei que você tá entediada e doida pra ir embora, amor. Mas brigar com a equipe inteira não vai adiantar de nada.

– Eu sei. — Santana murmurou entre dentes, fazendo Brittany rir baixinho. Ela enterrou os dedos da mão direita em fios negros, raspando as unhas curtas contra a pele da namorada.

– Se eu conseguir café pra você, ajuda? — Santana respondeu apenas com um animado aceno de cabeça, os olhos arregalados diante da possibilidade. — E você me promete que você pode beber café? Que isso não é só o seu vício falando?

– Eu posso. Não tem problema nenhum.

– Então, por que você não deita um pouco e relaxa, enquanto eu vou na lanchonete comprar o maior copo de café que eles tiverem pra você?

– Sério? Obrigada, obrigada, obrigada. Eu te amo, Britt.

– Eu espero que você se lembre disso quando você tiver que me visitar na cadeia por tráfico de café.

***

No momento em que o Dr. Blaine Anderson começou a desfiar uma lista de precauções que ele queria que Santana tomasse na próxima semana, a médica se desligou do discurso do homem. Ela já sabia o que ele ia falar. Ela já tinha feito aquelas mesmas recomendações mais vezes do que era capaz de lembrar — Santana tinha certeza de que seria capaz de repetir aquelas mesmas palavras em seus sonhos.

Ela podia até ter se desligado das palavras do seu médico, mas, um olhar para o lado, e Santana percebeu que Brittany as ouvia como se quisesse memorizá-las, como se elas fossem uma garantia de que tudo ficaria bem. E, enquanto Santana sabia que ela estava bem (fisicamente, pelo menos), uma onda de calor se avolumou em seu peito ao ver a preocupação tão claramente estampada no rosto da namorada. Fazia muito tempo que ninguém cuidava, assim, dela.

Com um sorriso pequeno no rosto, Santana apoiou a cabeça no ombro de Brittany e, pacientemente, esperou que o médico terminasse de listar as suas recomendações e assinasse a sua alta. A sua inquietação anterior tinha diminuído com um pouco de cafeína correndo em suas veias — mesmo que fosse o café ruim do hospital — e ela estava contente em deixar Brittany fazer todas as perguntas que quisesse. Se aquilo fosse capaz de tranquilizar a sua namorada, então Santana esperaria o tempo que fosse.

Acontece que o tempo que fosse não foi tanto tempo assim e, logo, o Dr. Anderson estava sorrindo para as duas e deixando-as a sós no quarto de hospital. Brittany se levantou para fechar a porta para o médico e Santana se deixou cair pesadamente em cima do travesseiro, um suspiro longo escapando por entre seus lábios. Menos de 24h tinham se passado desde que ela acordara naquele quarto, mas seu corpo e sua cabeça estavam cansados como se ela estivesse completando um ano de internação.

Muito dessa exaustão se devia à decisão que ela havia tomado, de não esconder mais seu relacionamento com Brittany. Santana não se arrependia do que tinha feito, mas uma nova descarga de adrenalina entrava em sua corrente sanguínea a cada vez que a porta se abria e ela estava deitada nos braços de Brittany. A médica precisava conscientemente se convencer a não se mover, a não esconder o rosto, a não afastar aquele corpo do seu.

Depois de sentir a sua vida escapando por entre os dedos de um assassino, Santana não queria mais perder tempo, mas era difícil convencer seu corpo a não reagir da mesma maneira que ele reagia há tanto tempo.

Talvez por isso a médica estivesse tão pronta para ir embora para casa. Mais do que saber que ela não precisava continuar internada, Santana queria calma. Ela queria se concentrar apenas em ser e em respirar e em aprender a existir nessa nova realidade que ela mesma tinha criado.

Mas antes de ir embora do hospital pelas próximas duas semanas, Santana tinha uma última visita a fazer.

– San, aonde a gente tá indo? — Brittany perguntou quando Santana ignorou os elevadores e entrou num corredor à esquerda.

– Já que você e a Sylvester estão me forçando a tirar duas semanas de folga, eu quero me despedir de uma pessoa.

– Quem?

– Você já vai descobrir.

A resposta de Santana veio no mesmo momento em que ela parou na frente de uma porta fechada, sem nada de especial sobre ela. Uma placa ao lado indicava o número 1273 e a médica parou por um momento para respirar fundo antes de bater levemente e entreabri-la.

– Posso entrar? — Ela perguntou para as ocupantes do quarto, apenas com a cabeça para o lado de dentro e sem deixar Brittany ver nada além de parede e teto.

– Dra. Lopez! — A resposta que Santana recebeu fez com que ela erguesse uma das sobrancelhas e a garota sorriu. — Santana. É claro que pode. Mas eu achei que o seu plantão já tivesse acabado.

– Eu tive um probleminha ontem e tive que ficar até um pouco mais tarde. — Santana respondeu entrando no quarto, levando Brittany por uma das mãos. Ela usava o casaco da namorada completamente fechado, escondendo as marcas escuras em seu pescoço, ainda mais distintas naquela manhã. — Na verdade, é por isso que eu vim aqui. Eu vou tirar duas semanas de férias forçadas, então eu não vou estar aqui quando você tiver alta. E tem uma pessoa que eu queria que vocês conhecessem.

Durante muito tempo — quase toda a sua carreira -, Santana tinha batalhado para que os seus mundos não colidissem, para que eles sequer se tocassem. O que ela tinha aprendido desde que Brittany entrara em sua vida é que dividir-se em mundos diferentes significa nunca estar inteira em nenhum deles, há sempre algo faltando, incompleto. E tudo o que Santana queria, daquele momento em diante, era ser inteira para Brittany. Para ela mesma.

– Britt, essas daqui são a Dani e a Julia que eu falei pra você. — Santana sorriu para a namorada e apertou a sua mão. Olhos azuis estavam rasos d'água diante do que ela sabia que significava aquele gesto. — Meninas, vocês me perguntaram por que eu me esforcei tanto para ajudar vocês. Então, essa aqui é a Brittany. Minha namorada.

***

No momento em que as portas do elevador se abriram no andar térreo do hospital, Santana se lembrou de uma imagem que ela vira na internet, há alguns anos. Era uma foto de um livro aberto com a pergunta 'Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?' impressa em letras garrafais. Na época, Santana não deu muita importância pra pergunta — isso exigiria pensar demais sobre situações que ela gostaria de esquecer. Mas, ali, prestes a fazer algo que a assustava pela primeira vez, a médica se lembrou daquela imagem com um sorriso.

Seria inocente da parte dela pensar que a equipe inteira do hospital ainda não tinha ouvido sobre a sua história. Como ela fora atacada pelo marido de uma paciente, como uma mulher desconhecida tinha passado a noite em seu quarto e como Santana estava sempre em seus braços quando alguém entrava no quarto. Nos corredores daquele hospital, fofoca é uma coisa que corre rápido, principalmente quando envolve alguém da equipe. E seria inocente, também, pensar que ela não se sentiria nervosa naquele momento. Era uma coisa ter certeza de que todos deviam estar se perguntando quem seria a loura a seu lado e criando diversas teorias sobre o relacionamento entre elas — algumas corretas, com certeza. Mas era outra coisa, bem diferente, confirmar aqueles sussurros e teorias, dizer sem palavras que eles estavam certos. Que ela é gay e que tem uma namorada e que não usaria mais disfarces.

Depois de anos sob uma grossa capa de negação, apenas ser fazia com que ela se sentisse nua.

Mas Santana não queria mais esconder quem ela era. Então, mesmo com a palma suando, mesmo com a mão gelada e os dedos trêmulos, Santana tomou a mão de Brittany na sua, antes mesmo que elas dessem dois passos.

Brittany podia sentir o nervosismo da namorada borbulhando sob sua pele morena e tentou puxar a mão. Ela não queria que Santana se sentisse forçada a provar nada, ainda mais depois de tudo o que tinha acontecido. A loura tinha certeza de que a namorada não precisava desse estresse extra. A situação delas podia não ser a mais confortável, mas ela sabia — tinha certeza — de que elas estavam na mesma página sobre o relacionamento delas e era isso que importava. Santana era dela e ela era de Santana. Simples, como sempre fora.

– Não. Eu quero fazer isso, Britt.

O tom de Santana — forte, apesar da leve rouquidão que ainda persistia — não deixava espaço para réplica. Brittany ainda se lembrava dessa sensação, dessa necessidade de tomar sua própria vida pelas rédeas, de se escancarar o que se é para mostrar que não se tem medo. E ela ainda se lembrava de como, apesar da coragem, apesar da vontade, é aterrorizante dar aqueles primeiros passos. De como olhares pesam e secam a garganta, de como sussurros se tornam gritos e ensurdecem.

E ela se lembrou da mão que segurou a sua naqueles dias, que a segurava de pé quando seus joelhos já não pareciam colaborar, do abraço apertado a cada vez que ela vencia mais uma batalha, mais uma barreira. Com um sorriso e um aceno de cabeça, Brittany apertou os dedos de Santana entre os seus numa comunicação silenciosa e caminhou ao lado da médica, olhando em frente e ignorando os pescoços virados em sua direção.

No estacionamento, Brittany viu o momento em que Santana deixou que um longo suspiro escapasse de seus lábios, quase como se ela estivesse prendendo o ar dentro do corpo desde o hospital. Ela parecia mais pesada, agora, a seu lado, com passos lentos e arrastados. Brittany sabia que isso não era efeito dos remédios ou da noite anterior. Ela conhecia bem essa sensação de exaustão emocional. Com um sorriso, ela beijou as costas da mão de Santana que segurava a sua e a soltou, abraçando-a pelos ombros e dividindo, entre elas, o peso que a médica carregava.

Sem pensar sobre onde ou quem, Santana abraçou Brittany pela cintura com os dois braços e deixou que o calor do corpo da outra mulher acalmasse seu coração acelerado.

***

A primeira coisa que Santana via a cada vez que ela entrava em seu apartamento era a parede vermelha que ela e Brittany haviam pintado juntas alguns meses antes. Ela escolhera a cor numa tentativa consciente de distanciar o espaço dos tons frios e apagados do hospital. Funcionava, também, para dar um aspecto um pouco mais aconchegante para um cômodo que ela nunca soubera muito bem como decorar ou habitar. Santana estava mais acostumada a ambientes estéreis e impessoais. Naquela manhã, entretanto, ela se sentiu contente com a sua decisão.

– Britt, eu vou tomar um banho e trocar essa roupa, tá? — Santana disse sem esperar pela resposta da namorada. Apenas quando passos a acompanharam até o banheiro, ela se virou. — O que você tá fazendo?

– Eu só queria ver se você precisa de ajuda.

– E algo me diz que essa oferta não é nem um pouco sexy. — Brittany franziu o cenho diante da piada e se preparou para responder, mas suas palavras ficaram presas na garganta quando Santana a enlaçou pelo pescoço. — Amor, eu já saí do hospital. Eu não preciso de mais uma enfermeira. Eu só preciso da minha namorada. Eu prometo que eu tô bem.

– Tem certeza?

– Absoluta. Mas você pode assistir, se quiser.

***

Talvez a sensação de mãos trêmulas e coração acelerado fosse algo a que Santana tivesse que se acostumar nos próximos meses. Diante da absoluta falta de comida em seu apartamento, as duas decidiram almoçar num restaurante próximo ao prédio da médica. E, fiel à sua nova resolução, Santana segurou a mão de Brittany por toda a quadra e meia que elas caminharam.

Ninguém a xingou em altos brados. Ninguém lhe atirou ovos nas costas. Ninguém caminhou até ela para dizer que suas mãos enlaçadas eram uma aberração e que o seu amor era pecado.

Os olhares existiram (esses talvez sempre existam), mas eles não eram tão perturbadores quanto teriam sido meses antes. Alguns eram carregados de reprovação e repulsa, um ódio irracional escorrendo dos cantos das bocas retorcidas. Diante desses, Santana sentia sua mão tremer um pouco mais e Brittany apertava seus dedos com ainda mais força, um lembrete de por que aquela sensação valia a pena. Outros olhares eram carregados de uma espécie de curiosidade acusatória, como se não conseguissem entender como duas belas e jovens mulheres pudessem escolher andar de mãos dadas na rua ao invés de ter um homem a seu lado — muitos desses eram acompanhados de um balançar negativo de cabeça. Alguns, entretanto, passavam por elas como se a imagem não fosse nada fora do habitual, como se eles não pudessem enxergar ali, nelas, nada que merecesse sua atenção por mais do que um segundo.

Numa cidade como Lima, cada um desses enchia o peito de Santana com uma gota a mais de coragem.

Mas havia, ainda, um quarto tipo de olhar. Um que tinha algo terno derramando dele. Um que vinha acompanhado de um meio sorriso torto ou de um leve aceno de cabeça, quase como se Santana estivesse sendo recebida numa sociedade secreta, escondida bem às vistas de todos. Não que essa descoberta levasse Santana a acreditar que o mundo inteiro estava prestes a mudar e aceitar seu relacionamento com a naturalidade de um dia ensolarado no verão, ou que ela fosse começar a andar por aí com um cartaz pendurado no peito. Mas era bom se sentir parte de algo maior do que ela mesma. Há muito tempo Santana não se sentia assim.

A médica estava tão absorta em seus pensamentos que só notou que já estavam no restaurante quando sentiu uma cadeira tocando a parte de trás dos seus joelhos. Com um sorriso, ela agradeceu o garçom e se sentou de frente para Brittany. Uma miríade de emoções dançava no rosto que a encarava do outro lado da mesa: orgulho e adoração boiavam em olhos azuis; amor se derramava por entre lábios escancarados num sorriso; e uma espécie de plenitude amansava rugas tão recentes de preocupação. E aquele — ah!, aquele era o olhar mais importante de todos.

E o resto do almoço foi assim, um silêncio quase sagrado entre elas enquanto Brittany observava Santana como se a visse pela primeira vez, como se algo fundamental houvesse se movido e mudado toda a estrutura da mulher nas últimas 24 horas. Para Brittany, era como se apaixonar novamente pela mesma pessoa. E Santana sentia como se aquele fosse o primeiro encontro delas. Não aqueles momentos roubados no hospital, ou os almoços em que ela passava metade do tempo olhando por sobre o ombro, ou uma noite quase escondida num bar afastado. Não, aquela era a primeira vez em que ela se sentava frente a Brittany inteira, completa. E quando, anos mais tarde, lhe perguntassem sobre seu primeiro encontro com a loura, seria esse o momento do qual Santana se lembraria.

– San? — Brittany quebrou o silêncio quando elas saíram do restaurante. — Você ainda tem o telefone do corretor que achou o seu apartamento?

– Eu devo ter no meu celular, sim, por quê?

– É que quando você tava fazendo exames, o dono do meu apartamento me ligou pedindo ele de volta. Acho que o filho dele vai voltar para Lima, ou coisa parecida. Não sei. Ele disse que eu não preciso correr, mas eu vou ter que procurar um novo apartamento.

– Claro. Eu vou olhar pra você.

A resposta de Santana não poderia ter sido mais distraída, se concentrando mais nas lembranças que ela tinha daquele apartamento do que nas palavras que ela dizia. Ela se lembrou de quando estacionou pela primeira vez na frente do prédio. E de uma noite chuvosa, com braços longos ao redor da sua cintura. E de conversas pós-café da manhã no sofá da sala. E de pizza e vinho com Hannah e Wes. E de poesias em espanhol. E de madrugadas passadas enroscada ao redor de Brittany.

E Santana pensou em todas as coisas que ela tinha pensado que aconteceriam naquele apartamento. Talvez um jantar com Quinn e o detetive Puckerman. Com certeza mais danças no meio da sala e risadas pelos corredores. Uma foto delas, sorrindo, no móvel da sala.

Foi então que Santana se deu conta de que ela não tinha pensado no que poderia acontecer naquele apartamento. Ela tinha planejado seu futuro com Brittany.

Como uma engrenagem que de repente trava, Santana sentiu todos os seus músculos congelarem e ela estacou na calçada em frente ao seu prédio. Ela podia sentir que começava a hiperventilar e toda aquela sensação de nervoso que ela sentira mais cedo voltou ao seu corpo. Mas, agora, era um nervoso bom.

– Não procura outro apartamento, não. — A voz da médica saiu num sussurro espremido, quase como se ela tivesse medo de dizer aquelas palavras.

– Como assim, não procura, amor? Eu acabei de falar que o dono do meu apartamento quer ele de volta.

– Eu sei, mas você não precisa procurar outro. Porque você já tem um.

– Do que você tá falando, Santana? — Brittany encarava Santana como se buscasse por respostas por trás dos olhos castanhos. Ela parecia ter entendido o destino das palavras da namorada, mas tinha medo de acreditar completamente nele.

– Britt, quando foi a última vez que nós dormimos separadas? Ou quando foi a última vez que nós saímos do trabalho e não fomos para o apartamento em que a outra estava? Você não precisa procurar por outro apartamento, porque você já tem um, baby. Esse.

– San...

– Vem morar comigo, B. — Santana continuou como se Brittany não a houvesse interrompido. — Não faz sentido a gente não morar junto. E se a gente não morasse em Ohio, eu acho que eu estaria te pedindo em casamento agora, mas como aqui isso não é possível... Vem morar comigo?

– Sim, sim, sim. É claro que sim, San!

E ali, em frente ao prédio delas, com lágrimas salgando seus lábios, Santana beijou Brittany em público, sob a luz do sol, pela primeira vez. E o mundo não se acabou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.