Notas iniciais
Ainda tem alguém por aí? Então, eu sei que eu sumi por muito tempo, mas tem um motivo... Como essa vida de escritora de fanfiction não coloca dinheiro na conta bancária de ninguém (infelizmente), eu estudando para concurso. E, se alguém aí já estudou para concurso, sabe que tempo livre é artigo de luxo. Por isso tanto tempo para terminar esse capítulo. Quanto aos próximos (eu acho que faltam dois para terminar), eu não tenho como prometer quando eles serão postados, apenas que serão. Espero que vocês gostem e não deixem de ler as notas ao final do capítulo. Tenho uma novidade...

Uma luz forte cegou Santana quando ela tentou piscar os olhos. Suas pálpebras pesavam toneladas e ela sentia uma vontade enorme de voltar a dormir, mas uma campainha irritante não permitia. Ela sabia que conhecia aquele som e que ele devia significar alguma coisa para seu cérebro letárgico, mas era como se seus pensamentos estivessem recheados de teias de aranha e bolas de algodão.

O som se tornava cada vez mais definido à medida que Santana se mantinha acordada. Ela ainda não tinha tentado abrir os olhos novamente — o incômodo não parecia valer a pena -, mas o barulho intermitente começava a fazer algum tipo de sentido em sua cabeça. Ela tinha certeza de que já tinha ouvido aquilo antes, mais de uma vez, e de que ela não deveria estar escutando aquilo ao acordar.

Um leve movimento de seus dedos lançou uma dor aguda até seu cotovelo. A sensação fez a médica franzir a testa. Ela se lembrava de ter sentido uma dor como aquela, durante a faculdade, quando ela precisou passar uma noite no hospital depois de comer um sanduíche de origem duvidosa numa lanchonete perto da biblioteca. As duas enfermeiras de plantão não conseguiram colocar o soro em sua veia na dobra do braço e a estudante implorou que elas procurassem por uma em sua mão. A troca evitou que ela se transformasse em uma peneira humana, mas ela se lembrava daquela agulha a cada movimento, por menor que fosse.

Mas, por que ela tinha uma agulha em sua mão? E, se ela tinha uma agulha em sua mão, isso só podia significar que ela estava num hospital, o que significava que aquele barulho era...

De repente, essa cadeia de pensamentos fez com que Santana se lembrasse dos seus últimos momentos de consciência. A conversa com Alice, o momento em que Sebastian entrou no quarto, a maneira como ele a arremessou para o outro lado do quarto e se sentou sobre o seu corpo e apertou a sua garganta com um brilho nos olhos que a fizeram acreditar, por um momento, que ele só pararia quando ela não estivesse mais respirando.

Santana se sentou na cama com um sobressalto. Ela tinha a respiração descompassada e podia ouvir a maneira como o monitor cardíaco que acompanhava os seus batimentos acelerou. Ela levou a mão que não estava atrelada a uma agulha e uma bolsa de soro até garganta e engoliu seco quando ela sentiu a musculatura dolorida.

– Está tudo bem, mi hija, tudo bem. Você está no hospital.

A última voz que Santana esperava ouvir invadiu seus ouvidos e ela arregalou os olhos, esquecendo a luz forte que machucava suas retinas. Num canto do quarto, o dr. Antonio Lopez se levantou da poltrona solitária e caminhou até a cama que a filha ocupava. Ele tinha uma expressão indecifrável no rosto, um misto de contrição e alívio.

– Como você está se sentindo, Santana?

– O que você está fazendo aqui? — A voz da médica saiu arranhada, mas seu olhar se manteve firme.

Antonio Lopez, por sua vez, achou graça na pergunta dela. Com uma meia risada, ele sacudiu a cabeça e se sentou na beirada do colchão. Ele a olhava como se ela fosse uma menina tola. Era como ela sempre se sentira na frente dele, mas ele nunca percebeu. Assim como ele não percebeu a maneira como ela afastou as pernas quando ele se sentou.

– Como assim, o que eu estou fazendo aqui? Eu sou seu pai, Santana.

– Momento interessante para começar a exercer a função — Santana quase cuspiu as palavras, uma ruga rasgando sua testa. — Você não é o meu contato de emergência. Como é que você sequer ficou sabendo que eu estava aqui?

– Até parece que você não conhece fofoca de corredor de hospital, Tana. Antes de eles te trazerem para esse quarto eu já sabia o que tinha acontecido.

– E você resolveu, simplesmente, invadir o meu quarto enquanto eu estava inconsciente? Foi isso?

Era visível que a paciência dos dois médicos estava chegando ao fim. Antonio pressionava as pálpebras com as pontas dos dedos, como se assim pudesse alterar a imagem da filha a sua frente e o enigma que ela era. Santana, por sua vez, se esforçava para não demonstrar que cada músculo do seu corpo doía e que seus olhos pesavam como chumbo e que sua cabeça era um emaranhado de dúvidas e perguntas. Apenas uma pessoa seria capaz de tornar tudo melhor.

– Do que você está falando, nena? Você deve ter batido a cabeça com mais força do que eles acharam. – A última frase do homem foi dita em um resmungo e Santana pôde sentir sua respiração acelerar. – Você é minha filha, Santana. É claro que eu tenho que estar aqui. Eu sou sua família.

– Não! – O grito de Santana ecoava no quarto fechado como círculos na superfície de um lago calmo. Ela nunca tinha sido conhecida pela sua paciência, mesmo. – Você nunca foi minha família. Você até pode ser meu parente, mas a gente nunca foi uma família.

– San--

– Eu quero que você saia desse quarto. – Santana interrompeu o homem e se virou o mínimo possível sobre a cama para acionar o botão que chamaria uma enfermeira até seu quarto. Um botão que ela já instruíra inúmeros pacientes a usar. Um botão que nunca lhe parecera tão importante.

– Você prefere ficar sozinha?

– Eu nunca disse isso.

– Então... Eu não estou entendendo, Santana.

– É claro que você não está entendendo. Você não me escuta. Você nunca me escutou, por que começar agora, né?

– Do que você está falando, Santanita?

– Eu tô falando do que eu disse no consultório da dra. Sylvester. Você, por acaso, escutou alguma coisa do que eu disse naquele dia?

– E-eu--

– Eu disse, — Santana continuou como se não tivesse sido interrompida. – Eu disse que, se alguma vez eu estivesse numa cama de hospital, eu iria querer ver a minha namorada quando eu acordasse. Não um homem que nunca se preocupou em ser meu pai. Não teve nada de hipotético no que eu falei, mas parece que você não me escutou. De novo.

– Você... Mas... Eu...

– Dra. Lopez, que bom ver você acordada. – A enfermeira preferida de Santana entrou no quarto, interrompendo a discussão entre pai e filha.

– Obrigada, Mercedes. É bom estar acordada. Será que você pode me fazer um favor? Bipar a dra. Fabray e pedir para ela dar um pulo aqui? Nada urgente, eu só quero falar com ela.

– Claro, doutora. Mais alguma coisa?

– Você poderia acompanhar o dr. Lopez até a recepção? Ele já está de saída.

– Santana--

– Obrigada, Mercedes.

Antonio Lopez olhou uma última vez na direção da filha antes de sair do quarto. Ela tinha o rosto virado para a janela e ele não entendia o que tinha acontecido naqueles últimos minutos. Aquela não era a filha de que ele se lembrava, aquela não podia ser a sua filha. A Santana que ele conhecia tinha sido casada com um homem, não se deixava dominar pela emoção, se preocupava com regras e convenções e aparências. Mas, talvez, ele nunca a tivesse conhecido de verdade. Deus sabia que ele nunca tivera muito tempo para ser pai enquanto ela crescia. Será possível que eles tivessem se tornado completos estranhos daquela maneira? Será que só agora ele estava vendo a filha de verdade, sem máscaras, sem influência do que sua esposa sempre esperou da menina?

Uma onda de cansaço caiu sobre a médica quando ela escutou a porta se fechar. Seu lado profissional sabia que aquela sensação tinha a ver com o que Sebastian lhe fizera, mas era inevitável pensar que a discussão com o pai a tinha exaurido.

Há algum tempo, já, Santana pensava em como seria essa sua conversa com seu pai. Como ela dissera a Brittany, ela sabia que a aprovação do homem já não era mais necessária em sua vida, mas ela estaria mentindo se dissesse que não desejava reparar a sua relação com ele. Ela sabia que eles não teriam mais muitos anos juntos, mas talvez eles ainda tivessem tempo para ter algum tipo de relacionamento saudável. Santana não confessaria isso a quase ninguém, mas ela ainda sentia saudades do pai que ele um dia fora.

Só que, agora, ela não tinha certeza se isso seria possível. Desde a sua conversa com Brittany, Santana sabia que precisaria de calma e paciência se ela tinha alguma esperança de fazer seu pai entender que uma filha gay, uma filha namorando uma outra mulher não era o fim do mundo. E, apesar disso, ela tinha ido e feito exatamente o oposto. Ao invés de conversar e explicar, ela tinha se irritado e explodido e vomitado palavras que deveriam ter sido medidas e pensadas e pesadas. E, para piorar, ela expulsou o homem do quarto antes que ele pudesse tentar entender o que estava acontecendo.

Definitivamente, não tinha sido dos seus melhores momentos.

– Eu não achei que você fosse acordar tão cedo.

A voz de Quinn assustou Santana. Ela tinha se perdido tanto no labirinto dos próprios pensamentos que nem sequer ouviu a outra médica entrar no quarto. Virando-se, Santana encontrou um rosto preocupado, apesar do sorriso pequeno nos lábios da amiga.

– Eu achei que você me conhecesse melhor do que isso, Fabray – Santana disse ao redor de um meio sorriso. – Você sabe que eu sou teimosa demais pra morrer assim, tão fácil.

Santana mal teve tempo para terminar a sua frase antes que Quinn se jogasse em seus braços. A morena podia sentir a amiga tremendo, seus ombros sacudindo com soluços mal contidos. Santana não sabia o que fazer. Em todos os anos em que ela conhecia Quinn, ela nunca tinha visto a amiga dar uma demonstração tão aberta de emoção. Não era nisso que a amizade delas se baseava. Elas apenas se sabiam cúmplices e isso bastava.

– Uh... Q? Quinn? – Santana tentou se afastar um pouco para enxergar o rosto da amiga, mas os braços ao redor do seu pescoço não permitiram. – Você tá me enforcando, Fabray, e eu acho que é um pouco cedo para tentar isso de novo.

Mais uma vez, os movimentos de Quinn foram rápidos demais para que Santana os registrasse. Tudo o que ela conseguiu perceber foi que, num momento, Quinn se agarrava a ela como se ela tivesse medo de que Santana pudesse desaparecer diante de seus olhos. E, no outro, a loura estava de pé, ao lado da cama, e seu ombro esquerdo ardia. (Quinn sempre teve tapas poderosos.)

Apenas os olhos marejados da loura denunciavam o seu breve descontrole.

– Não tem graça, S. Qu-quando o Noah arrombou a porta daquele quarto e eu te vi ali no chão... – Quinn respirou fundo e os olhos de Santana se suavizaram.

– Ei, ei, tá tudo bem, Q. eu prometo que eu tô bem. Só uma dor de cabeça monstruosa, mais nada. Você já pode até me dar alta.

– É, na verdade, eu não posso, San.

– E por que não? – Santana perguntou lentamente. – Eu juro que eu tô bem. Eu nem vou reclamar de fazer os testes que você quiser.

– O problema não é esse. É que...eu não sou a responsável pelo seu caso.

– Como assim? Mas você acabou de dizer que você tava com o Puckerman quando ele me encontrou.

– E estava. Mas... – Quinn deixou os olhos caírem para o chão por um segundo antes de continuar. – Eu não tinha condições de cuidar de você, San. Eu tava tremendo e eu não podia...e se alguma coisa...

– Q, tá tudo bem. Não tem problema. Só...quem é que tá com o caso?

– A Rose?

– Você tá perguntando ou respondendo? – Diante da sobrancelha erguida de Quinn, Santana se deixou cair na cama. – Uhg. Já sei que eu não saio daqui hoje, então.

– Ela disse que vinha ver você mais tarde. E a Sylvester deve vir aqui também. Só um aviso.

– Que ótimo. Nem quase morrendo aquela mulher me deixa em paz.

– Acho que nem se você tivesse morrido de verdade. – As duas médicas trocaram uma risada sem graça antes de um silêncio incômodo se colocar entre elas. – Olha, S, eu preciso voltar pros atendimentos. Afinal de contas, a gente tá com uma médica a menos, né? Você precisa de alguma coisa antes de eu sair?

Apenas um pensamento existia na cabeça de Santana: Brittany. Ela sabia que não receberia alta antes do meio da manhã seguinte e que a namorada se preocuparia se não a visse ao acordar. Mais do que isso, Santana precisava dela; do corpo esguio colado ao seu, da mão dela na sua, do coração de Brittany batendo sob o seu ouvido para silenciar seus demônios. Depois do dia que Santana tinha tido, tudo o que ela precisava era deitar dentro dos braços que a faziam se sentir em casa – mesmo que, para isso, ela precisasse revelar o seu relacionamento para a segunda pessoa naquele dia.

– Na verdade, sim. Tem como você—

– Antes que eu me esqueça, a Brittany tá esperando na recepção.

– O quê? A Britt tá aqui?

– É. Ela procurou por você lá na frente e a Beiste achou melhor me chamar. Você já tinha sido transferida para o quarto, mas como o seu pai tinha sido notificado, eu achei melhor ela esperar você acordar lá na recepção.

Alguma coisa brilhava por trás dos olhos de Quinn que Santana não conseguia decifrar, quase como se ela quisesse que a morena entendesse algo que as suas palavras não podiam alcançar. Santana engoliu seco, se lembrando de todas as vezes em que ela tinha tentado contar a Quinn sobre o seu relacionamento com Brittany, mas não tinha sido capaz. Por tantas vezes, ela tinha engasgado na sua própria covardia e, agora, ela não via outra alternativa.

Há uma certa clareza que só se alcança em situações limítrofes e Santana precisava, apenas, ser.

– Quinn, eu... – A médica começou com uma voz que não era sua, quase agarrada na garganta, apesar da certeza.

– Eu sei, S. Eu sei.

– Hã? Como assim? Sabe o quê, Q?

– Eu sei sobre você e a Brittany. Vocês estão juntas, não estão?

– Estamos. Nós estamos juntas, sim. – Como um peso que se erguia do peito, Santana deixou as palavras escaparam de seus lábios em uma espécie de libertação. – Nós estamos namorando.

– Que bom, San. Eu fico feliz por você?

Olhos castanhos se arregalaram diante da resposta blasé.

– É só isso que você tem a dizer? Que você tá feliz por mim?

– O que mais você quer que eu diga, Santana? – Quinn tinha os braços cruzados e sua postura pareceria defensiva, não fosse o sorriso em seu rosto.

– Não sei, alguma coisa. Tipo... desde quando você sabe?

Santana sabia que aquelas perguntas não eram importantes, mas era a única maneira que o seu cérebro conhecia para lidar com a situação. Era mais fácil questionar Quinn do que se deixar aceitar que a amiga não se importava com o relacionamento que ela tinha escondido por tanto tempo.

– Eu não sei exatamente quando eu tive certeza, mas eu sempre suspeitei de alguma coisa. Principalmente depois que você disse que ela ajudou você a encontrar o seu apartamento. Que eu ainda não conheço, diga-se de passagem.

– Eu quase não paro nele – Santana murmurou entredentes e sentiu um calor subindo pelo pescoço quando notou o olhar questionador de Quinn. – Mas, por que você nunca falou nada?

– Não sei. Acho que eu queria que você se sentisse confortável o suficiente para me procurar.

O sorriso de Quinn não alcançava seus olhos e Santana se lembrou de que seus problemas nem sempre são apenas seus.

– Olha, Q, eu... Nunca foi por sua causa, sabe? Eu tentei te contar, é só que...

– Eu sei, Santana. Não tem problema. Olha, a gente pode conversar melhor sobre isso depois, tá? Se você quiser. Agora, eu realmente preciso voltar ao trabalho e, aparentemente, você tem uma namorada preocupada para acalmar.

Pela segunda vez desde que acordou, Santana viu e ouviu a porta do quarto se fechar. Mas, agora, era com o peito leve que ela encarava as paredes brancas. Se a conversa com o pai não tinha sido perfeita – longe disso –, era bom saber que ela ainda tinha alguém no seu corner, apesar de tudo. Alguém que desvendou seus segredos e leu suas mentiras e continuou ali, como se nada tivesse mudado. Porque, na verdade, nada tinha e era isso que Santana começava a aprender a entender.

Santana descobriu que tinha uma amiga que preferia enxergá-la por quem ela era a ouvir tudo aquilo que lhe tinha sido ensinado.

Os segundos se transformaram em minutos e Santana se pegou olhando ao redor do quarto atrás de um espelho. Depois de tudo que tinha lhe acontecido, a médica tinha certeza de que sua aparência não devia ser das melhores e a última coisa que ela queria era preocupar Brittany. Embora ela tivesse certeza de que devia ser um pouco tarde demais para isso.

Antes que Santana pudesse pensar em se levantar da cama e arrastar todos os equipamentos atrelados a seu corpo até o banheiro, a maçaneta cedeu e um sorriso rasgou o rosto moreno antes mesmo de a porta se abrir por completo.

Brittany invadiu o quarto num borrão de movimentos e cabelos louros até que ela estacou no meio do caminho, olhos arregalados, como se estivesse numa brincadeira de estátua. Sem entender o porquê da interrupção, Santana abriu a boca para perguntar, quando seus olhos se desviaram do rosto da namorada e encontraram Quinn as observando da porta. Um sorriso suave curvou seus lábios ao entender que, mesmo num momento como aquele, Brittany estava protegendo seu segredo. Um segredo que não precisava mais ser guardado.

– Vem cá, amor. Tá tudo bem.

No espaço dos dois próximos passos de Brittany, uma conversa silenciosa aconteceu entre as duas mulheres. Olhos azuis se arregalaram mais quando ouviu a maneira como Santana se referiu a ela e seus passos eram lentos, como que querendo mascarar o tamanho do que as unia, como que querendo decifrar o que estava acontecendo sem ter que perguntar.

A mão estendida de Santana – a que não estava presa a uma agulha – respondeu mais do que palavras poderiam e Brittany cerrou o espaço que as separava e jogou os braços ao redor do pescoço moreno, onde ela enterrou o rosto. Santana podia sentir seu peito descompassado vibrando contra o seu, a respiração irregular contra a sua pele, dedos trêmulos agarrando a camisola padrão do hospital.

Santana estava em casa.

– Eu... eu vou deixar vocês a sós.

Quinn falando tão perto da bolha que elas criaram com seus corpos trouxe as outras duas mulheres de volta à realidade. Brittany desenterrou o rosto do pescoço de Santana e se virou para a outra médica. Ela secava as bochechas com uma das mãos, a outra ainda tocando qualquer parte do corpo da namorada.

– Desculpa. Eu...

– Tá tudo bem, Brittany. Eu preciso voltar ao trabalho, mesmo.

– Obrigada, Q. Por tudo.

Palavras de agradecimento, quando não direcionadas a Brittany, ainda tinham um gosto estranho na língua de Santana, mas ela estava lentamente se acostumando a ele. Quando não se espera perfeição, é mais fácil reconhecer ajuda.

Com a porta do quarto novamente fechada, Santana voltou sua atenção para a namorada. Mesmo com tudo o que tinha acontecido, apenas um olhar na direção de Brittany era capaz de colocar um sorriso nos lábios da médica.

– O que aconteceu, San? Como você tá? A Quinn só me disse que você tinha sido atacada e que eu--

– Shhh... – Santana silenciou o discurso descontrolado de Brittany com dois dedos sobre lábios rosados. – Eu tô bem. Prometo. Só a maior dor de cabeça da história, mas tá tudo bem.

– M-mas...

Brittany ergueu a mão e deixou a ponta dos dedos traçarem levemente a marca arroxeada ao redor do pescoço da namorada. Santana ainda não tinha visto os efeitos que o ataque de Sebastian tinham causado em seu corpo, mas ela podia adivinhar a imagem que nublava seus olhos azuis preferidos. Com um suspiro, ela tomou a mão com que Brittany a tocava e as usou para erguer o rosto dela.

– Ei, Britt, olha pra mim. – Santana esperou que seus olhos se encontrassem para continuar. – Eu prometo que tá tudo bem. Nenhum dano permanente.

– Tem certeza?

– Absoluta. Amanha mesmo eu já devo sair do hospital.

Aproveitando a mão que ainda contornava o rosto de Brittany, Santana a trouxe para mais perto e plantou um beijo suave em seus lábios, tentando extrair dali sua recuperação, seu remédio. Quando elas se separaram, Brittany notou como Santana manteve os olhos fechados por mais tempo do que o normal e como a sua respiração se tornou mais elaborada.

– San? O que aconteceu? Tá tudo bem? Quer que eu chame alguém? – ela perguntou com uma das mãos na testa morena, agora gelada e úmida.

Santana abriu os olhos devagar, demorando a focá-los na mulher que se sentava a sua frente e a encarava com uma expressão preocupada.

– Tá. Eu só fiquei um pouco tonta. – A voz normalmente aveludada continuava a sair arranhada da garganta e Santana fez uma careta. – Pega um pouco d’água pra mim?

Os dedos de Brittany tremiam contra o vidro do copo e ela precisou de um segundo ou dois para reunir força suficiente para erguer a jarra. Seu corpo parecia se rebelar contra toda a adrenalina que ele tinha sido obrigado a suportar desde que Quinn, com olhos baixos e voz pesada, lhe contou que Santana havia sido internada. As palavras da médica pintaram inúmeros cenários na mente da dançarina e ela cogitou se esgueirar pela recepção e procurar a namorada em um daqueles intermináveis corredores.

Apenas quando o detetive Puckerman apareceu para acompanhar dois policiais e seus olhos se encontraram acima da confusão é que Brittany realmente entendeu o que tinha acontecido. Sebastian. E uma onda de culpa a enraizou na mesma cadeira até Quinn vir buscá-la.

– Aqui meu amor. – Brittany voltou a se sentar na beirada da cama de Santana e a observou tomar pequenos goles. – Melhor?

– Desde que você chegou.

As duas mulheres trocaram um sorriso e Brittany pôde sentir seu corpo pesando sobre o colchão, cansado de não poder fazer nada.

– Foi o Sebastian, não foi? A Quinn não quis me dizer nada, mas eu vi o detetive Puckerman chegar com outros dois policiais e--

– Foi.

Por um segundo, Santana cogitou mentir, dizer que um paciente alterado a tinha atacado, mas ela sabia que devia a verdade a Brittany. De uma maneira meio torta, ele tinha sido responsável por uni-las.

Os olhos de Brittany se encheram de lágrimas ao ouvir a resposta da namorada. Ela já tinha certeza sobre o que tinha acontecido, mas ouvir Santana confirmando--

– Me perdoa, San. Me perdoa.

Santana arregalou os olhos quando Brittany continuou a repetir aquele ‘me perdoa’ como se fosse um mantra, como se houvesse algo a ser perdoado. Ela tomou o rosto de Brittany entre as mãos e forçou a loura a encará-la.

– Britt, me escuta, por favor. Você não tem culpa de nada, entendeu? De nada. Foi ele que me atacou.

– Eu sei, mas se você não estivesse comigo...

– Brittany, para com isso. Eu decidi entrar naquele quarto. Eu decidi falar com a mulher dele. E ele decidiu me atacar. Você não tem culpa de nada.

– Mas...

– Sem mas, baby. Já foi. Eu tô bem e eu não me arrependo do que eu fiz. E eu, com certeza, não me arrependo de namorar você.

Um soluço alto ecoou no quarto e Brittany espelhou a posição de Santana e puxou a namorada para um beijo. Seus movimentos eram frenéticos e imprecisos, como se ela quisesse se certificar de que Santana estava falando a verdade, de que estava tudo bem.

– Eu também não me arrependo de namorar você.

– Que bom. Agora, deita aqui comigo? A cama é meio pequena, mas eu acho que a gente dá um jeito.

– Mas... – Brittany tentou começar, mas sua boca abria e fechava sem que nenhum som saísse, enquanto seus olhos percorriam toda a extensão do corpo de Santana, se demorando em seu pescoço e nas marcas que o manchavam.

– Eu prometo que você não vai me machucar, Britt. Eu só quero deitar um pouco com você. Eu só consigo pensar nisso desde que eu acordei.

– Tem certeza? E se alguém entrar?

– Que entre! – Diante dos olhos arregalados de Brittany, Santana riu baixinho. – Britt, eu quase morri hoje. E sabe qual foi a última coisa em que eu pensei, antes de perder a consciência?

– Não.

– Que, se, de alguma forma, eu conseguisse sair dessa, eu não ia mais ter medo. Porque eu tenho a namorada mais incrível do mundo e eu quase morri sem nunca ter, nem ao menos, segurado a sua mão na rua.

– San--

– Então, eu não tô nem aí se alguém entrar nesse quarto e vir você deitada comigo. Quem eu queria que soubesse por mim, já sabe. O resto... você é muito mais importante do que o resto, Britt.

Com um sorriso, Brittany puxou as cobertas e se aninhou contra o corpo de Santana. Os fios e tubos atrelados ao corpo pequeno dificultavam a tarefa, mas elas logo encontraram uma posição confortável e Santana já podia sentir a combinação de medicamentos, cansaço e uma provável concussão pesando suas pálpebras novamente, quando uma ideia passou pela sua cabeça.

– Britt, o que você tava fazendo aqui no hospital? A gente não tinha marcado nada, tinha?

– Não. Eu queria fazer uma surpresa. O Mike ligou mais cedo e disse que aceita a nossa proposta.

– Sério? Isso é ótimo, B. Eu preciso ligar para o meu gerente do banco e--

– Agora você precisa deitar e descansar – Brittany disse com uma voz firme, empurrando Santana pelo peito até que ela se deitasse novamente. – Não tem nada que a gente não possa resolver depois.

– Sim, senhora. – Ela se aninhou contra Brittany e deixou o sono chegar. – Eu amo você.

– Eu também te amo, San.

***

A segunda vez que Santana acordou naquele quarto de hospital, ela se recusou a abrir os olhos. Dessa vez, os apitos ritmados das máquinas atreladas ao seu corpo não soavam alienígenas a seus ouvidos e ela tinha os dedos de Brittany dançando trilhas em seu braço. Era o mais relaxada que ela tinha se sentido desde ligar os pontos entre Alice e sua namorada.

Brittany sabia que Santana estava acordada há alguns minutos – quando tudo o que se tem a fazer é contar o número de cílios que fecham um par de olhos e notar como respira um corpo que dorme; quando tudo o que se pode fazer é observar e rezar e cuidar, não é difícil notar qualquer alteração. Mas, se Santana precisava de mais aqueles minutos de olhos fechados e mundo do lado de fora, Brittany se sentia mais do que feliz em lhe proporcionar isso – ela tinha tudo o que precisava bem ali.

Uma batida na porta arrancou Brittany de sua contemplação e ela cogitou ignorar quem quer que estivesse do lado de fora e continuar naquela bolha protegida, só ela e Santana. Brittany não queria admitir, mas ela ainda não estava pronta para testar essa nova coragem de Santana. A dançarina sabia que, se a médica fugisse dos seus braços, aquilo doeria mais do que qualquer outra fuga.

A voz de Santana, sonolenta e arrastada, mandando a pessoa entrar ecoou no quarto e Brittany sentiu o sangue gelar em suas veias. Ela preparou o corpo para uma rejeição que nunca veio. Depois de escutar o barulho metálico do trinco, Santana apenas apertou mais o braço que ela tinha ao redor do corpo da outra mulher.

(Impossível não sorrir naquele momento. Talvez sonhos realmente se tornassem realidade, Brittany pensou.)

– Oi, San, Britt. Desculpa atrapalhar, mas o Noah queria conversar com você ainda hoje. Tudo bem?

Quinn bem que tentou esconder seu sorriso ao ver a posição em que as duas mulheres estavam deitadas. Depois de anos vendo a sua melhor amiga se escondendo por trás de máscaras e farsas e ataques, era estranho vê-la assim, calma, vulnerável. Mas nem tudo que é estranho é ruim.

– Tudo. Pode falar pra ele entrar.

– Acho que é melhor eu sair, também, então. – Brittany disse quando Quinn saiu do quarto.

– Não. Fica, Britt. Essa história inteira te envolve também.

– Tem certeza, amor?

– Absoluta.

Se o detetive Puckerman se surpreendeu ao ver as duas testemunhas ligadas ao seu caso se beijando em cima de uma cama de hospital, ele escondeu bem. Não era a primeira vez que uma investigação revelava coisas interessantes sobre seus envolvidos. Nem seria a última.

– Doutora. Como você está se sentindo?

– Bem, obrigada, detetive. Estaria melhor se eu pudesse ir logo pra casa, mas...

– Deixa de ser teimosa, Santana. Você vai pra casa quando a sua médica disser que você pode ir.

– Hã, eu também sou médica, Britt, ou você já se esqueceu disso?

Uma risada escapou pelo nariz do detetive diante daquela cena. A médica que ele conhecera – e que a namorada descrevia em casa – em nada lembrava a mulher que ele via, tentando manter uma postura imponente apesar da roupa de hospital e do rosto pálido.

O olhar torto que ele recebeu das duas lembrou o detetive que ele estava ali a trabalho.

– Muito bem. – Puckerman limpou a garganta. – Doutora, eu só queria dizer que nós levamos o Sebastian Smythe sob custódia e que nós vamos precisar que você vá à delegacia para dar um depoimento formal sobre o que aconteceu.

– Quanto antes melhor, Puckerman.

– Ótimo. A Quinn disse que você deve ter alta amanha, então eu ligo para marcar. E, Brittany, aproveitando que você está aqui, depois do depoimento da Santana, eu vou precisar que você vá até a delegacia, reconhecer o homem que a gente prendeu como o assassino da Sarah. Eu não quero correr nenhum risco com esse caso.

– Nem eu, detetive.

– Muito bem, então, senhoritas. Eu vou deixar vocês a sós por enquanto e eu ligo amanhã.

– Puckerman – Santana chamou quando ele já tinha uma das mãos na maçaneta. – Vocês já entenderam por que ele sumiu por tanto tempo?

O detetive tinha um sorriso torto nos lábios ao se virar e encarar novamente as duas mulheres.

– Vocês não souberam por mim – ele começou, num tom conspiratório. – Mas parece que ele estava se escondendo em outra cidade na casa do namorado.

– Peraí. Namorado?

– Exatamente, doutora. Os dois brigaram, ele voltou para Lima, descontou a raiva na mulher e o resto você já sabe.

Notas finais
Quando eu finalmente conseguir terminar essa história, eu vou transformar a minha primeira, A Second Chance, em um livro. Então, para os que gostaram daquela história e quiserem saber quando ele for publicado, é só mandar um email para segundachance.livro @ gmail.com para receber novidades.