Notas iniciais
Acho que eu só tenho a dizer boa leitura e feliz ano novo (se é que ainda tem alguém aí...). Nos vemos em 2014!

– Isso quer dizer que você aceita a minha oferta? – Santana perguntou quando ela recuperou o fôlego que Brittany lhe tinha roubado.

Um sorriso torto parecia ter sido pendurado no rosto da loura e seus olhos azuis refletiam as luzes acesas da sua sala de estar. Ela tinha atacado o pescoço da namorada no mesmo momento em que terminou de trancar a porta. Depois da oferta que Santana fizera no estúdio, tudo o que Brittany queria era arrastá-la para casa e mostrar o que aquela oferta tinha significado.

Várias vezes.

– Não. Isso quer dizer que eu amo você. – Brittany se inclinou um pouco e beijou os lábios da namorada. – E que eu vou conversar com o Mike amanhã.

– Jura?

Os olhos castanhos de Santana se acenderam naquele instante. Brittany parecera tão reticente quando ela fizera a proposta, que Santana não tinha certeza se ela aceitaria. Mas a verdade é que, na maioria dos dias, a médica nem se lembrava do que ela tinha em sua conta bancária.

Após a morte de Rafa, a médica não esperava herdar nada além da casa que ela às vezes dividia com o marido – e, mesmo assim, apenas porque o imóvel estava no nome dos dois. Então, quando o advogado ligou para discutir o que ela receberia, Santana pensou em mandar tudo para a família dele. Não parecia justo herdar alguma coisa de alguém que nunca fora seu marido de verdade.

Uma longa conversa com o advogado convenceu Santana do contrário. O dinheiro foi depositado numa conta separada da que ela usava para receber seu salário do hospital e esquecido até o momento em que ela chegou a Lima. Foi esse dinheiro que pagou seus primeiros meses num hotel. Foi esse dinheiro que pagou um ano de aluguel do apartamento em que ela morava. E seria esse dinheiro que garantiria que Brittany não perderia uma das coisas que ela mais amava na vida.

– Eu não tenho certeza se ele vai aceitar, mas... Não custa nada tentar, né?

– Não, Britt, não custa nada. – Santana se virou de lado, ignorando a maneira como o tapete arranhava a sua pele suada, e jogou o braço ao redor da cintura da outra mulher. – E eu acho que o Mike vai ser louco se ele não aceitar.

– Você pode dizer isso pra ele, amanhã.

– Como assim, eu posso dizer pra ele?

– É que eu pensei em chamar ele pra almoçar aqui amanhã. – A voz da loura era incerta, como se ela tivesse medo da possível reação de Santana. – Eu não acho que isso seja conversa pra telefone e... Sei lá, eu queria você comigo. Afinal de contas, o dinheiro é seu.

– O dinheiro é nosso. – O sorriso de Santana calou o protesto de Brittany. – E eu concordo com você. Isso não é conversa pra telefone.

– Então, você vai almoçar com a gente?

– Se é o que você quer, Britt...

– Ótimo! Porque alguém precisa cozinhar.

O cérebro de Santana demorou uns dois segundos para registrar a resposta de Brittany e se sentir ultrajada por ela. Quando a médica finalmente reagiu, a loura já estava estirada no chão, gargalhando abertamente. Era um dos seus sons preferidos e Santana rolou sobre o corpo esguio só para escutá-lo mais de perto.

Ao sentir um par de coxas ladeando o seu quadril e dedos se entrelaçando com os seus, a gargalhada de Brittany morreu em sua garganta e ela abriu os olhos. Santana a encarava com rosto sério e olhos intensos.

– Quer dizer que é só pra isso que eu sirvo, é? – O tom de voz de Santana era brincalhão, mas Brittany conseguia distinguir uma sombra predatória no castanho dos seus olhos.

– Acho que eu consigo pensar em mais uma coisa ou outra.

Os olhos de Santana escureceram e a garganta de Brittany secou. Era impossível ignorar a maneira como seu corpo pulsava sob a morena e como correntes elétricas a atravessavam cada vez que a mulher se movia.

– É? – Santana mordeu o lábio inferior de Brittany e engoliu seu gemido. – Então, por que você não me mostra lá no quarto? Acho que a gente já passou da idade pra ter queimadura por causa do carpete.

***

Santana se manteve em movimento durante toda a manhã. Quando Brittany acordou, o café da manhã já estava pronto e ela teve vontade de perguntar à namorada se um exército iria se juntar a elas, mas a loura sabia que aquilo era apenas ansiedade. Brittany sabia que Santana devia estar fervilhando por dentro, mas em momento algum ela tentou cancelar o almoço e Brittany a amava ainda mais por isso.

Depois da louça lavada, Brittany assistiu com um sorriso nos lábios enquanto Santana navegava entre as mais de quinze abas abertas no computador atrás da receita perfeita para aquela tarde. Brittany tinha toda intenção de deixar a namorada lidar com o seu nervoso da maneira dela. Mas, quando Santana começou a se perguntar em voz alta aonde ela conseguiria encontrar codorna em Lima, a dançarina achou melhor interferir.

– Hum, San, o que você tá fazendo? — Brittany perguntou se sentando ao lado de Santana no sofá e fechando o computador pousado no colo dela.

– Procurando uma receita pra hoje?

– Isso eu percebi. O que eu quero saber é por que.

– Você não chamou o Mike pra almoçar aqui? Então, eu preciso encontrar a receita certa e depois eu tenho que comprar os ingredientes e, e eu acho que é melhor sair logo senão não vai dar tempo. Talvez se eu for naquele mercado --

Brittany calou a voz de Santana com um beijo longo. Ela enterrou os dedos em cabelos negros e deixou que sua língua se encontrasse com a de Santana numa dança sensual. A médica era refém dos movimentos da namorada e se entregou às unhas que lhe arranhavam a nuca e ao corpo sobre o seu. Quando elas se afastaram, Brittany estava no colo de Santana, suas testas coladas.

– Por que você tá tão nervosa, San? É só o Mike.

– Eu não tô nervosa. — Uma sobrancelha erguida de Brittany e Santana pendurou a cabeça e respirou fundo. — Tá bom. Talvez eu esteja um pouco nervosa.

– Só um pouco? — Santana concordou com a cabeça e Brittany sorriu. — Eu vou fingir que acredito. Mas, por que, San? Você não ficou desse jeito quando a Hannah veio visitar.

– Eu sei disso, amor. É que... Sei lá, a sua irmã não mora aqui. Então, não sei, acho que foi mais fácil encarar ela do que o Mike, que trabalha contigo todo dia.

– Mas você já conhece o Mike.

– Como sua amiga, Britt. Eu fui apresentada ao Mike como sua amiga e agora ele sabe que eu sou sua namorada e...e...e eu quero.

– E você quer que ele goste de você.

A frase de Brittany não foi uma pergunta, ela não deixava espaço para contestação. Santana apenas suspirou e deixou a cabeça cair no encosto do sofá atrás dela. Logicamente ela sabia que era ridículo se sentir daquela maneira, mas certos hábitos são mais difíceis de serem abandonados do que outros. Principalmente essa necessidade quase irracional de ser perfeita.

– San, em primeiro lugar, o Mike sempre desconfiou que a gente tivesse alguma coisa. E quando eu confirmei, ontem, pra ele, ele só faltou começar a dançar no meio da recepção. — Brittany se debruçou sobre a outra mulher com um sorriso e a beijou. — E em segundo lugar, a única pessoa que tem que gostar de você sou eu. E eu meio que te amo, sabia?

– Eu também te amo, Britt. Mas, e se o Mike não gostar de nós duas juntas? E aí? Como é que fica? Vocês trabalham juntos. Vocês vão ser sócios, Britt.

– A gente vai ser sócio no estúdio, San, não na minha vida pessoal.

– Mas...

– Pelo pouco que o Mike conhece de você, ele já gosta de você, amor. É só você ser você mesma que eu sei que ele vai te adorar.

– Britt, quem eu sou é uma médica controladora, insegura, grossa e desbocada, que não tem coragem nem de segurar a mão da própria namorada na rua.

– Verdade. — Brittany deu de ombros e Santana esbugalhou os olhos. — Mas você também é determinada, protetora, leal, carinhosa. Ninguém é perfeito, San.

– Você é.

– Não, eu não sou. Mas eu sou perfeita pra você e você é perfeita pra mim. E o Mike vai ver isso.

Simples.

Olhos azuis soletravam. Sorriso escancarado enunciava. Dedos longos gritavam. Talvez as coisas realmente pudessem ser simples, Santana pensou. Talvez uma realidade simples, sem medo, sem esconderijos fosse possível. Talvez ela pudesse, afinal, ser feliz.

***

A codorna virou um macarrão com molho. A conversa entre Brittany e Santana tomou mais tempo do que o esperado e, quando a loura finalmente permitiu que a namorada se levantasse do sofá, a médica teve que se virar com o que havia na despensa.

Santana encarava fixamente o líquido vermelho que borbulhava na panela quando ouviu o interfone. O som enviou uma espécie de corrente elétrica pelo corpo moreno e ela precisou segurar a colher com mais força para que ela não tremesse. Era estranho se sentir tão nervosa no apartamento de Brittany depois de tanto tempo.

– Eu vou abrir a portaria pro Mike, tá bom? — Brittany falou ao pé do ouvido, um braço ao redor da cintura de Santana. A resposta foi apenas um aceno de cabeça. Duro. — Relaxa, meu amor. Vai ficar tudo bem.

O pedido de Brittany caiu em ouvidos surdos. A última coisa que Santana conseguiria, naquele momento, seria relaxar. Ela era uma grande bola de energia nervosa e podia sentir seus pensamentos quicando, inquietos dentro da sua cabeça.

– Entra, Mike. Mi casa, su casa.

A voz de Brittany invadiu a consciência de Santana como um sino de igreja e ela levantou a cabeça em tempo de ver os dois amigos entrando no apartamento. Brittany tinha um sorriso enorme no rosto e ela mal parecia ser capaz de conter a sua animação em seu corpo. Mike, por outro lado, tinha uma versão menor do sorriso dela estampada e um resquício da preocupação do dia anterior ainda pesava em seus traços. Santana tinha certeza de que ele não devia ter dormido nada naquela noite.

– Mike.

– Santana. — O rapaz respondeu no mesmo tom curto que a médica usou e ela não tinha certeza se isso era um bom ou um mau sinal. — Uau. A gente vai usar a sua mesa de jantar? Acho que eu a primeira vez. Eu preciso ficar preocupado?

– Claro que não, Mikey. É só um almoço.

– Sei... Você disse que queria conversar comigo, Britt. Sobre o quê?

– Por que a gente não almoça primeiro? — Santana entrou na conversa. — A comida vai esfriar.

Vencidos os primeiros minutos de desconforto e estranheza, a refeição seguiu tranqüila. Santana contou algumas histórias sobre a sua infância em Lima e sobre a sua residência, mas, principalmente, ela ouviu as histórias que os dois professores tinham para contar. Eles falaram sobre o estúdio, seus melhores alunos, alguns pais mais entusiasmados e seus anos em companhias de dança. Um sorriso enorme se plantou no rosto da médica ao ouvir sua namorada em seu elemento.

– Você se lembra daquela competição em Chicago? — Brittany perguntou entre risadas. — Quando a minha roupa rasgou?

– Claro que eu me lembro. Santana, você tinha que ter visto. Essa daqui foi pra um canto, arrancou o short e subiu no palco só com um collant. A plateia enlouqueceu.

– O quê? Britt? Só de collant?

– Ué, minha fantasia rasgou e eu precisava dançar. Mas o público gostou da minha apresentação. Pena que eu fui desclassificada.

– Eu sei bem do que eles gostaram.

– San! — Brittany tinha os olhos arregalados, mas Santana conseguia enxergar uma sombra de sorriso em seu rosto. — Quer saber, eu vou pegar a sobremesa antes que vocês terminem de acabar comigo.

Santana baixou a cabeça e a sacudiu devagar, tentando imaginar umas versão mais nova da namorada entrando num palco apenas com metade da fantasia. Por alguma razão, ela não tinha a menor dificuldade em visualizar a cena.

Uma limpada de garganta lembrou à médica de que ela não estava sozinha. Ela ergueu os olhos apenas para encontrar Mike a observando. Ele tinha um meio sorriso no rosto e uma revoada de borboletas levantou voo no estômago de Santana. Tinha chegado o momento que ela mais tinha temido desde que Brittany sugerira aquele almoço, quando Mike lhe diria que ela não era boa o suficiente para a sua amiga e que o melhor que Santana tinha a fazer era se afastar dela.

Tantas palavras de defesa se formaram dentro dela que elas deram um nó em sua garganta. A língua seca, grudada no céu da boca, também não seria capaz de formar nenhuma delas.

– Santana, antes que a Britt volte, eu só queria dizer que eu fiquei muito feliz quando ela me contou que vocês estão namorando. — A morena piscou os olhos algumas vezes e abriu a boca, mas resposta nenhuma saiu. — Ela me fez prometer que eu não ia fazer nenhum comentário, mas eu queria que você soubesse.

– É...obrigada, Mike.

– Eu sei que você não se sente muito confortável em falar sobre o assunto, mas você faz bem a Britt e é só isso que importa.

Os passos de Brittany voltando à sala permitiram que Santana não precisasse revirar seu cérebro atrás de uma resposta para o comentário de Mike. Aceitação integral, sem questionamentos, ainda era um conceito alienígena para ela.

– Sundae? — Mike perguntou para Brittany quando ela colocou um pote na sua frente. — Ok, Britt, agora eu sei que você tá aprontando alguma coisa. Anda, o que você queria falar comigo?

Santana e Brittany trocaram um olhar. Tinha chegado a hora. E por mais que Brittany tivesse tentado não se animar muito com a possibilidade de se tornar sócia de Mike — a chance de ele dizer não ainda era grande -, ela não tinha conseguido. E agora que ele a encarava, esperando, uma onda nervosa subiu pelo seu corpo e parecia difícil de respirar.

Por baixo da mesa, Santana tomou a mão de Brittany na sua e apertou os dedos longos entre os seus.

– Eu acho que a gente encontrou uma maneira de resolver o problema do estúdio — Brittany disse num único fôlego, antes que a sua coragem sumisse. — Quer dizer, foi a San que teve a idéia, na verdade.

– Muito bem, qual a sua idéia, Santana? Porque eu já pensei em todas as possibilidades e nenhuma me pareceu viável.

Santana respirou fundo antes de responder. Ela sentia como se muita coisa dependesse das suas próximas palavras e ela não tinha tinha certeza se era capaz de encontrar as corretas.

Dessa vez é Brittany quem apertas seus dedos sob a mesas e Santana sorri.

– Bom, Mike, eu tenho um dinheiro guardado e--

– Desculpa, Santana, mas eu preciso te interromper. Eu agradeço, mas eu não posso aceitar o seu dinheiro.

– Eu entendo, mas eu não tô oferecendo um empréstimo. — A médica olhou para o lado e flagrou o sorriso nos lábios da namorada. — É mais um...investimento.

– Acho que eu não tô acompanhando, gente. Como assim, investimento?

– Eu entro com a grana e a Britt vira sua sócia.

Os olhos do homem se arregalaram até o limite e ele encarou Brittany e Santana alternadamente, como que procurando algum sinal de que ele era parte de uma pegadinha bastante elaborada. Quando ele não disse nada por vários segundos, Brittany sorriu e tocou sua mão sobre a mesa.

– Mike? Tá tudo bem? Você não disse nada.

– Desculpa, Britt. Acho que eu tô tentando processar a idéia. — Ele focou novamente seus olhos na outra professora. — Sócia? Eu nunca achei que você quisesse ser minha sócia, Britt.

– Na verdade, eu nunca pensei muito sobre isso.

– A idéia foi minha, Mike. — Santana voltou a participar da conversa. — Vocês trabalham super bem juntos e é uma maneira de o estúdio sofrer o mínimo possível. Além de acalmar a mãe da Britt.

– É verdade. A idéia foi da San, mas... Não sei. Depois que ela falou, eu fiquei pensando e eu acho que eu vou gostar muito de ser sua sócia, Mike.

– Uau. Eu...eu não sei o que dizer.

– Não precisa dizer nada agora. A gente sabe que essa é uma decisão importante. Quando você tiver um resposta, a gente volta a conversar.

– Obrigado, Santana. — Mike sorriu para a médica e voltou sua atenção para a outra mulher. — Isso quer dizer que você vai mesmo ficar em Lima?

– Como assim?

– Sei lá, Britt. A gente nunca conversou direito sobre o futuro e a sua decisão de se mudar pra cá foi meio impulsiva. Eu sempre achei que isso aqui fosse temporário pra você. Além do mais, você nunca gostou de ficar parada no mesmo lugar por muito tempo.

– Antes eu não tinha motivo pra gostar — Brittany respondeu com um sorriso, encarando os olhos castanhos de Santana.

Uma onda de calor subiu pelo pescoço de Santana quando Brittany ergueu as mãos que elas tinham entrelaçado sob a mesa e as trouxe até os lábios. O beijo foi simples, não durou mais do que um segundo, mas foi o suficiente para acelerar o coração da médica dentro do peito. Naquele momento, não existia Mike, estúdio, dinheiro, encanamento, plantão, hospital, nada. Tudo o que Santana conseguia registrar era o amor enorme que ela sentia pela mulher a sua frente.

– Bom, moças — Mike interrompeu o momento das duas. — O almoço foi maravilhoso, mas eu preciso ir embora.

– Já?

– Já, Britt. Eu quero ver como a obra tá indo. Além do mais, eu tenho muito em que pensar, né?

– Quer que eu vá com você?

– Não precisa, B. Aproveita o dia de folga. Você merece.

***

Manhã seguinte e nenhuma resposta de Mike. Santana tentava se manter otimista, mas ela podia ver como o sorriso de Brittany não era tão largo quanto costuma ser quando elas se sentam para o café. O silêncio entre as duas também não é o mesmo. Normalmente, ele é recheado de toques e olhares e sorrisos e uma convivência cúmplice. Agora, a médica acha que ela quase consegue ouvir as engrenagens do cérebro de Brittany funcionando, seus olhos azuis embaçados e perdidos.

– Britt? — Santana chama e toca sua mão sobre a mesa. — Britt?

– Uh? Oi. Ai, desculpa, San. Acho que eu viajei um pouco.

– Tá tudo bem, meu amor?

– Claro, claro que sim. — A voz da loura saiu levemente esganiçada e ela limpou a garganta antes de continuar. — Por que não estaria?

– Não sei, Britt, mas você tá com essa cara de que atropelaram o seu gato desde que a gente levantou.

– Não é nada, San. Tá tudo bem.

A resposta foi rápida e vazia, como um balão que se solta da mão antes de se lhe amarrar a boca. Um gosto incômodo de não saber cobriu a língua de Santana e ela abandonou as panquecas pela metade no prato. Apenas o amargo do café se confundia com o amargo que ela trazia dentro enquanto pensava. O líquido parecia grudar na garganta, grosso, viscoso, deixando para trás um rastro estranho, quente e arranhado.

– Você tá assim porque o Mike ainda não ligou — Santana suspirou entre uma respiração e outra.

Os olhos azuis se fecharam por um segundo e o balão vazio, agora, virou Brittany. Seus ombros se curvaram e ela escorregou um pouco na cadeira antes de voltar a olhar para a namorada do outro lado da mesa.

– Britt?

– Eu não queria, San. Eu juro que eu tentei, mas... — Brittany respirou fundo antes de continuar. — Eu não consegui. Eu criei expectativas e o Mike não ligou, então...

– Britt...

Santana alongou a vogal, uma suavidade se espalhando dos seus olhos para a sua voz e tomando o seu ser. Uma respiração pesada escapou do seu nariz e ela deixou a cabeça pender para o lado, analisando a mulher a sua frente. Os olhos vagos, o lábio inferior projetado, os dedos que dançavam sobre os talheres. Com um sorriso triste, a médica se levantou, deu a volta na mesa e se sentou no colo de Brittany.

– Eu juro que eu não queria.

– Tá tudo bem, amor. — Santana respondeu, enlaçando a namorada pelo pescoço. — É normal criar expectativas.

– Eu sei, mas o Mike não ligou e agora eu to triste por causa de uma coisa que nunca foi nem certa.

– O Mike ainda pode ligar, meu amor.

– Você tá falando isso da boca pra fora.

– Britt, são seis e pouco da manhã — Santana respondeu com um sorriso torto e enterrou os dedos em cabelos louros. — O Mike ainda deve estar dormindo. Que é o que qualquer pessoa normal estaria fazendo.

– Não sei, San. E se--

As dúvidas de Brittany foram silenciadas pela boca de Santana. Ela deixou que seus lábios deslizassem juntos, línguas e dentes se encontrando até Brittany suspirar contra a pele morena.

– Ainda é cedo, Britt. Dá mais um tempo pra ele.

– Você acha?

– Eu tenho certeza. — Um selinho rápido fez com que Brittany sorrisse um pouco. — Se ele não te ligar até eu terminar o meu plantão, aí a gente fica triste e pensa no que fazer, tá legal?

– Tá bom.

– Ótimo. Agora eu preciso ir senão eu chego atrasada. Promete que não vai ficar em casa o dia inteiro esperando o telefone tocar? — Como Brittany não respondia, Santana apertou os dedos ao redor do seu cabelo. — Britt?

– Tá bom, tá bom. Eu prometo.

***

Às vezes, dar início a mais um plantão pode ser um intervalo bem-vindo, um interlúdio entre dois momentos. Porque, do lado de dentro daquele prédio, Santana não costuma ter tempo para pensar na vida que ela deixou, suspensa, do lado de fora. Entre pacientes, exames e diagnósticos; em meio a uma corrida acelerada, Santana costuma respirar melhor. Como se a vida normal fosse lenta demais e seus pulmões não soubessem trabalhar naquele ritmo.

Mas também existem dias em que nem a sala de emergência mais lotada é capaz de desviar os pensamentos da médica do mundo real. Quando sua cabeça ganha vida própria entre um atendimento e outro. Quando seu cérebro não é só da medicina e seu corpo não pertence à correria.

Hoje é um desses dias.

– Dra. Lopez? — A voz de uma das enfermeiras alcança Santana como se ela estivesse debaixo d'água. — Dra. Lopez, tá tudo bem?

Santana apertou os olhos e balançou a cabeça, se forçando a voltar ao presente. Quando ela se virou, a sala de exames estava vazia, a não ser pela enfermeira que chamou a sua atenção. Nem sinal do seu último paciente e a médica não tinha a menor idéia de há quanto tempo ela estava parada ali.

– Só um pouco de dor de cabeça — Santana apenas meio mente. — Avisa lá na frente que eu vou almoçar, tá?

A cara da enfermeira teria feito Santana rir em qualquer outra ocasião. Ela não se lembrava da garota — provavelmente alguém de outra escala cobrindo uma falta — e a garota não devia conhecer esse seu lado ligeiramente mais calmo. A Santana de meses atrás nunca teria admitido nem uma simples dor de cabeça. Ela teria gritado impropérios para a enfermeira e atendido mais uns dez pacientes antes de descansar. Só para provar que ela era capaz.

A Santana se hoje sentia necessidade de provar bem pouco.

***

A tarde se arrastava quando Santana encontrou Quinn pela primeira vez depois do início do plantão. A médica loura preenchia alguns papeis na mesa da sala dos médicos quando Santana entrou. Apenas o cheiro do copo de café deslizando sobre a mesa foi capaz de fazer Quinn erguer os olhos.

– Valeu, S.

– Você parece que tá precisando mais do que eu.

O silêncio, cortado apenas pela caneta dançando sobre o papel, era bem-vindo. Depois de passar horas de pé, correndo entre atendimentos e ouvindo mais crianças chorando do que uma professora de maternal, a quietude de uma sala vazia era como uma versão muito particular de paraíso para Santana.

– Como tá a sua paciente, Q? — Santana perguntou depois de alguns minutos, apenas para se manter acordada.

– Ainda internada. Dois detetives estiveram aqui, mas ela disse que se machucou caindo da escada.

– Previsível.

– É, o Puck falou a mesma coisa. Ele disse que...

Mas Santana já não estava mais ouvindo.

É engraçado como, às vezes, uma única palavra pode dar início a uma reação em cadeia e derrubar todas as peças de dominó cuidadosamente enfileiradas.

Quando a médica ouviu a amiga falar o nome do namorado detetive, foi como se o cérebro de Santana encaixasse a última peça de um quebra cabeças. Ela se lembrou da noite em que ela encontrou Brittany, assustada, no meio da rua. Ela se lembrou do primeiro depoimento da loura, naquele mesmo hospital, quando ela exigiu que Santana estivesse presente. Ela se lembrou das ameaças a Brittany. E ela se lembrou de uma conversa com o detetive — uma das várias ligações que ela fizera para saber se havia algum progresso — alguns meses atrás, quando ele deixou escapar um nome que Santana tentava esquecer, mas que sempre estivera presente em seu sub-consciente. Sebastian Smythe.

Todas essas lembranças invadiram a mente de Santana ao mesmo tempo, arrancando o ar dos seus pulmões. Santana tinha certeza de que seus joelhos teriam cedido caso ela estivesse de pé. Ela também sabia que precisava se certificar de que o que o seu cérebro gritava era verdade. Eram coincidências demais e Santana não acreditava em coincidências.

– S? Tá tudo bem?

Apenas quando a pele quente de Quinn tocou seus dedos gelados, Santana voltou à realidade e se deu conta de que estava de pé, no meio da sala. Ela abriu e fechou as mãos algumas vezes, tentando se livrar do tremor que tomara conta delas. Ela olhava ao redor como se não reconhecesse o cômodo e não tivesse certeza do que devia fazer no momento.

Ela não tinha.

– Santana? — A voz da médica era mais alta e ganhou a atenção da outra mulher. — O que tá acontecendo? Você tá me assustando.

– Q, qual é mesmo o nome da sua paciente? — Santana perguntou numa voz controlada, ignorando a preocupação da amiga.

– Alice.

– O nome completo, Fabray.

Há muito tempo Quinn não ouvia Santana usar aquele tom de voz, como se ela mordesse o final de cada palavra.

– Alice Smythe.

Uma respiração profunda. Santana se permitiu um segundo para que a peça final do quebra cabeças fosse encaixada e ela pudesse ver a imagem completa a sua frente. Quando ela abriu novamente olhos que ela nem notara que fechara, Santana sabia o que deveria fazer.

E o que ela realmente faria.

– Ela ainda tá no mesmo leito?

– Não. O Dr. Anderson a transferiu para um quarto particular, daqueles que a gente usa pra polícia, pra dar mais privacidade para os detetives.

– Ok. Q, eu preciso que você me faça um favor. — Santana começou numa voz calma que não enganava nem a ela e nem a Quinn. Seus olhos gritavam tempestade. — Eu preciso que você ligue para o seu namorado e peça para ele vir agora para o hospital. Diz que--

– O quê? O que é que tá acontecendo, Santana? E o que você quer com o Noah?

– Só... Só faz o que eu tô te pedindo, Q, por favor. Depois eu explico. — Santana já havia aberto a porta quando ela se voltou mais uma vez para a outra médica. — Diz pra ele que eu acho que a esposa do Sebastian tá internada aqui.

***

Os corredores do hospital são mais familiares para Santana do que os do seu próprio apartamento. Ela sabe quais são as paredes que possuem marcas escuras por onde macas foram arrastadas e quais luzes zumbem durante todo o dia. Ela conhece os elevadores mais rápidos e os corredores mais vazios e, quando a médica se deu conta, ela já estava de frente para a porta do quarto de Alice Smythe.

Santana tentou engolir o pedregulho que se alojara em sua garganta, mas a secura desértica tornava a tarefa impossível. Depois de respirar fundo algumas vezes e de controlar a maneira como suas mãos tremiam, Santana se lembrou de por quem ela precisava entrar naquele quarto e empurrou a porta.

Alice parecia pequena em cima da cama do hospital. Os cobertores quase engoliam a mulher de cabelos acobreados e a pele clara contrastava contra o enorme hematoma que havia se formado em seu rosto. A mão esquerda, imobilizada, estava apoiada em cima do corpo e ela tinha os olhos fechados e o rosto voltado para a parede oposta.

(Depois de um tempo, o rosto dos pacientes começa a se confundir. Mas, de alguma maneira, Santana sabia que não conseguiria esquecer aquela mulher.)

O prontuário dela não revelava muito mais do que Santana havia lido dois dias antes. Alguns remédios para dor, resultados de diversos exames e nenhuma resposta para as perguntas que proliferavam em sua cabeça. Seria ela esposa de Sebastian Smythe? Teria sido ele o responsável por ela estar no hospital? Será que ele iria atrás de Brittany novamente?

– Você é minha nova médica?

Uma voz fraca arrancou Santana de suas indagações. Ela ergueu a cabeça e encontrou olhos castanhos a encarando de volta. Eles eram mais claros do que os seus, âmbar e madeira misturados, e ela pode enxergar uma ponta de medo há muito arraigado dentro deles.

– Hum, não exatamente. A dra. Fabray pediu a minha opinião sobre o seu caso.

– Ah, mais uma, então.

Santana preferiu não responder ao comentário. Ela tinha ido até àquele quarto em busca de respostas — ou de pistas, pelo menos — e antagonizar a mulher não ia ajudar em nada.

– Sra. Smythe, a senhora pode me dizer como você se machucou?

– Eu já respondi isso para a dra. Fabray, para o dr. Anderson, para aqueles dois detetives que vocês chamaram e pra todas as enfermeiras desse hospital. Por que você não pergunta pra um deles?

– Porque eu estou perguntando pra senhora.

Se havia uma reação que Santana conhecia era atacar quando se está sentindo ameaçado. Ela tinha passado anos aperfeiçoando a técnica e sabia que a pior coisa que ela poderia fazer seria aceitar as provocações de Alice. Seria como jogar gasolina numa fogueira.

Mesmo que manter a voz serena e o rosto impassível estivesse consumindo todo o seu auto controle.

– Como você se machucou, sra. Smythe? — Santana perguntou novamente após um momento de silêncio.

– Eu caí da escada.

– A senhora caiu da escada?

– Exatamente. E eu já falei isso pra todos os seus colegas. Então, por que você não me deixa em paz e me dá logo alta?

– Porque, sra. Smythe, os seus ferimentos no pulso não são compatíveis com uma queda. — A mulher em cima da cama arregalou os olhos por um segundo antes de voltar a encarar a parede. — Na verdade, eu acho que alguém torceu o seu braço com tanta força que o osso se partiu. Foi isso que aconteceu, Alice?

Silêncio. Os olhos castanhos de Alice piscavam rapidamente, mas, fora isso, ela não dava sinais de sequer ter escutado a pergunta da médica. Santana deu a volta na cama e se sentou na beira do colchão.

– Foi o seu marido que fez isso com você, Alice? — A mulher apenas sacudiu a cabeça e apertou os olhos. — Você pode confiar em mim, Alice. Você está segura aqui. Se o seu marido--

– Não! — A voz de Alice rasgou o quarto e ela se voltou para a médica. — O Seb me ama. Você não sabe nada sobre ele. O Seb me ama.

– Seb? O nome do seu marido é Sebastian, Sebastian Smythe, certo? — A indiferença da outra mulher estava acabando com a paciência de Santana e ela podia sentir uma onda de ansiedade subindo pela garganta. — Foi o seu marido que te machucou? Foi o Sebastian que fez isso com você?

– E não é que a medicazinha mexicana é bem espertinha? — Uma voz dura como lâmina invadiu os ouvidos de Santana e mandou um arrepio por seu corpo. — Uma pena que você não sabe ficar quieta, né?

O estalo da porta sendo trancada ecoou alto no quarto silencioso e Santana precisou engolir seco antes de se virar para encarar o homem parado a alguns metros de distância. O rosto bonito não combinava com o monstro que Santana pintara em sua cabeça. Mas os olhos apertados e frios denunciavam do que o homem era capaz. Eles correspondiam à descrição que Brittany fizera tanto tempo atrás e a médica pôde sentir a sua respiração acelerar.

– Sebastian. — Santana tentou usar sua voz mais forte. — O que você está fazendo aqui?

– Eu vim visitar a minha querida esposa no hospital, doutora. — O homem tinha um sorriso enorme no rosto e avançou dois passos na direção da médica. — Mas parece que eu cheguei na hora pra resolver um outro probleminha.

– Por favor, Sebastian. Nós dois sabemos que foi você que machucou a sua esposa. Assim como você fez com a Brittany e com a Sarah.

Nesse momento, Santana tentou ler a reação da mulher deitada em cima da cama, mas ela apenas fechou os olhos e inspirou fundo. Talvez nada daquilo fosse novidade para ela.

– E se foi? O que é que você vai fazer sobre isso?

Meia dúzia de respostas atravessadas subiram pela garganta de Santana, mas ela fechou os lábios para impedir que elas escapassem. Aquele não era o momento para deixar o seu temperamento esquentado dominar a situação. Santana sabia que estava trancada num quarto com um ex-policial que já tinha assassinado uma mulher à sangue-frio e batido na própria esposa o suficiente para que ela fosse internada. Ela sabia do que Sebastian era capaz e apenas Quinn tinha uma noção de onde ela estava. Aquele não era o momento de fazer nenhuma burrice.

– Você acha que eu tenho medo de você, Sebastian?

E lá se foi a oportunidade de ficar calada.

– Não sei... Mas deveria.

Os próximos segundos da vida de Santana passaram num borrão. Em um momento, ela e Sebastian estavam em extremidades opostas da cama de hospital e, no outro, ele estava agarrando as lapelas do seu jaleco e a arremessando do outro lado do quarto. A cabeça de Santana bateu no chão com um baque surdo e o mundo perdeu o foco. Ela podia ouvir Alice chorando ao fundo, mas o som chegava abafado até ela. A médica ainda tentou ficar de pé, mas seus joelhos pareciam gelatina e uma onda de náusea tomou conta dela. Quando Santana conseguiu, finalmente, voltar a focalizar o que estava acontecendo ao seu redor, Sebastian avançava em sua direção com um sorriso predatório. Ele se ajoelhou sobre Santana, uma perna prendendo cada um dos seus braços junto ao corpo, e se sentou sobre o seu torso. Tonta e imobilizada, Santana estava à mercê dele.

– Sabe, eu achei que você fosse me dar mais trabalho. — Ele disse, avançando com os dedos ao longo do pescoço de Santana. — A sua amiguinha loura lutou um pouquinho mais.

Os olhos frios dele foram a última coisa que Santana viu antes que o mundo escurecesse.

Notas finais
Eu não sei se vocês viram, mas o Rodrigo Castellani, do The Voice, cantou a música que a Santana canta para a Britt no bar. Se alguém quiser conferir, o link é esse: http://tvg.globo.com/programas/the-voice-brasil/programa/noticia/2013/11/rodrigo-castellani-canta-paul-mccartney-no-tira-teima.html