Notas iniciais
Capítulo novo chegando. E o negócio é o seguinte: esse é o último do ano. Eu vou estar com acesso à internet bastante limitado e só volto a publicar os próximos capítulos em janeiro. Mas não se preocupem, eu não vou abandonar a história. É apenas uma pequena pausa.

Brittany não conseguia se lembrar de uma segunda-feira tão cansativa quanto aquela em muito tempo. Normalmente, seus alunos voltavam do fim de semana mais lentos e pesados e seus movimentos não eram tão precisos quanto nos outros dias. Mas, naquela segunda, Mike teve que sair mais cedo e ela precisou assumir alguns grupos que não estavam na sua programação. A turma avançada dele iria participar de uma competição no fim do mês e Brittany podia sentir cada músculo reclamando enquanto subia as escadas da entrada do prédio.

A cada passo que Brittany dava, as solas dos seus pés pareciam queimar dentro dos sapatos. Depois de usar todo o corpo para abrir a porta da rua, ela decidiu usar o elevador para subir até o seu apartamento. Ela costumava usar as escadas — esperar pelo elevador costumava ser tempo demais -, mas hoje ela sentia que talvez suas pernas falhassem antes do seu andar.

Ter o carro de Santana para voltar tinha aliviado um pouco do cansaço, mas a carga extra de turmas a tinha realmente exaurido. Tudo em que Brittany conseguia pensar, naquele momento, era em tomar um banho quente, comer tudo o que ela tivesse dentro da geladeira e desmaiar no sofá. Nessa ordem.

Mas alguma coisa em sua linha de pensamento a fez parar no corredor antes de abrir a porta do seu apartamento. Ela ainda estava com o carro de Santana, o que significava que existia uma possibilidade de a médica ainda estar na casa dela. Esperando por ela. Afinal, a própria Santana tinha dito que não seria capaz de sair da cama hoje.

Um sorriso pequeno surgiu no rosto de Brittany quando ela abriu a porta do apartamento e foi recebida pelo cheiro de comida sendo preparada. Santana tinha ligado o rádio e um jazz antigo embalava o lugar. Brittany jogou o casaco nas costas do sofá e a bolsa que ela usava em cima das almofadas. Ela se sentia como um personagem de desenho animado, flutuando, seguindo o cheiro que preenchia todo o apartamento até a cozinha.

Santana estava na frente do fogão, de costas para onde Brittany a observava. Ela tinha os cabelos presos num coque bagunçado e era possível ver alguns fios ainda úmidos. Ela usava uma calça larga, de malha preta e uma regata cinza. A blusa era cavada nas costas e Brittany conseguia ver os músculos do seu ombro cedendo e se esticando enquanto ela mexia alguma coisa numa das panelas.

Brittany não podia ver, mas Santana sorria. Ela tinha ouvido a namorada abrir a porta e jogar suas coisas pela sala, como ela fazia todas as vezes. E ela tinha ouvido Brittany ir até a cozinha e ela sabia que era observada naquele instante. Santana queria se virar, sorrir para Brittany, fechar o espaço que as separava e beijá-la até que as duas estivessem sem fôlego. Mas ela podia ouvir passos pela cozinha e se manteve imóvel.

- Você devia usar mais as minhas roupas. Eu gosto — Brittany disse, segurando Santana pelo quadril e passeando com os polegares pela faixa de pele que escapava entre a camiseta e a calça.

Santana apoiou a cabeça no ombro de Brittany e a olhou com um sorriso torto nos lábios. Depois de beijar a namorada, ela descansou a colher que usava no cabo da panela e se virou nos braços de Brittany, abraçando-a pelo pescoço. Ela tinha os pés descalços e precisava entortar a cabeça para olhar Brittany nos olhos.

No passado, Santana se sentira insegura com a sua altura. Ela se achava pequena e o fato de todos os caras com quem ela saía serem muito maiores do que ela não ajudava. Ela se sentia diminuída na frente deles, vulnerável, um camundongo tentando fazer frente a um leão. Mas com Brittany era diferente. Com Brittany, ela se sentia protegida. Ela gostava da maneira como ela podia enterrar o rosto no pescoço de Brittany e inspirar o cheiro dela. E de como os braços fortes da loura pareciam dar a volta na sua cintura, a trazendo sempre para mais perto. E de como a calça de Brittany arrastava no chão quando ela usava e como ela precisava enrolar as mangas das suas blusas. E de como, às vezes, ela se sentia uma boneca de pano nas mãos de Brittany, mole e manipulável. Moldável. Ela era líquida dentro daqueles braços, cera quente derretida; todas as decisões, todos os problemas, todas as dificuldades deixados para trás.

- Eu também gosto. Só tem um probleminha — ela respondeu franzindo o nariz.

- É? Qual?

- Eu passei o dia inteiro sentindo o seu cheiro.

Brittany sorriu seu sorriso mais lento antes de sussurrar contra os lábios de Santana:

- E isso é um problema por quê?

- Foi uma tortura — Santana respondeu, sem se afastar. — Chinesa.

Brittany riu baixinho, o som morrendo quando ela grudou novamente sua boca à de Santana. Ela beijava a namorada devagar, sentindo o veludo da língua dela contra a sua, a coluna num arco sutil sob as suas mãos, os dedos que subiam do seu pescoço para se perderem nos seus cabelos embaraçados. Ela beijava Santana, cuidando para não pressionar o corpo pequeno contra o fogão atrás delas, e podia sentir seus músculos se soltando, o cansaço do dia se transformando em vagarosidade. Ela já não precisava mais de banho, de comida, de sofá. Ela só precisava de Santana.

Depois de prender o lábio inferior de Brittany entre os dentes e encerrar o beijo, Santana se virou novamente dentro do abraço de Brittany, voltando sua atenção para as panelas que fumegavam em cima do fogão. Brittany apoiou o rosto no ombro da namorada e se deixou hipnotizar pelo movimento ritmado que Santana fazia com as mãos. Ela podia sentir suas pálpebras pesadas, o cheiro dos temperos nublando a sua consciência. Era bom. Era novo. Era familiar.

Brittany tinha a boca colada ao pescoço de Santana quando seu estômago roncou alto, abafando os sons que escapavam das panelas. Santana riu, os movimentos do seu corpo vibrando contra a pele de Brittany.

- Acho que tem alguém com fome.

- Ahan. Eu não almocei hoje.

- Como assim, você não almoçou, Brittany? Você não pode ficar sem comer, baby, ainda mais dando aula o dia inteiro. — Santana se virou um pouco, dividindo seu olhar entre Brittany e o jantar.

- E quem é que tá falando isso, a médica ou a minha namorada?

- As duas. Eu não consigo separar. — Um sorriso torto ameaçou aparecer no rosto de Brittany, mas Santana continuou falando. — Mas não tenta mudar de assunto. Por que você não almoçou?

- O Mike precisou resolver algumas coisas na rua e eu assumi algumas turmas dele. Não deu tempo, só isso.

Apenas quando Brittany deu de ombros é que Santana notou o cansaço gravado nos traços dela. Os ombros um pouco caídos, a postura curvada, o sorriso que não parecia se iluminar completamente, os braços um tanto menos firmes.

- Você parece exausta. Por que você não vai tomar um banho enquanto eu termino isso aqui?

Brittany sorriu um pouco, se lembrando da lista mental de desejos que ela fizera ao chegar.

- Mas não é justo, San, você fazer tudo sozinha. Eu tenho que te ajudar.

- Você não tem que fazer nada, Britt. Além disso, como é que me abraçar desse jeito constitui ajuda?

- Hummm... — Brittany murmurou, olhando para a parede atrás de Santana como se ela pudesse ler as repostas nos azulejos. — Apoio moral?

- Boa tentativa, mas você pode me dar apoio moral do banheiro — Santana beijou Brittany antes que o bico que ela tanto temia se formasse.

- Mas --

- Já tá quase tudo pronto. Faltam só mais uns 15 minutos. Anda.

- Tem certeza que não quer ajuda?

- Britt, você já esqueceu que hoje eu cheguei em casa e tinha um café da manhã inteiro me esperando? Me deixa cuidar do jantar.

Mas Brittany não respondeu. Ela apenas encarava Santana com um sorriso satisfeito, daqueles que deixam para trás rugas nos olhos e nas bochechas.

- O que foi, Britt? — Ela continuava sem responder. — Aconteceu alguma coisa? Eu deixei cair molho na sua roupa?

Santana se contorcia entre Brittany e o fogão, tentando encontrar alguma mancha nas roupas que ela usava ou qualquer outra coisa que explicasse por que Brittany a encarava daquele jeito.

Braços fortes a prenderam, imobilizando seus braços, e Santana foi obrigada a olhar para cima.

- Você não deixou cair nada na roupa, San.

- Então o que aconteceu pra você fazer essa cara?

- Você disse casa. — Santana franziu o rosto, confusa, e Brittany continuou. — Você disse que você chegou hoje em casa, mas você veio pra cá. Você veio pra cá de manhã e você disse que chegou em casa. Não na minha casa. Só...casa.

Os olhos de Santana se arregalaram um pouco, um lampejo de entendimento iluminando contas castanhas. Ela realmente tinha chamado o apartamento de Brittany de casa e o que a surpreendia é que aquilo não a assustava. A palavra tivera um gosto natural na sua língua e parecia normal se referir ao lugar onde Brittany morava daquela maneira. Quase como se fosse dela também.

- É. Acho que eu disse.

A voz de Santana não passava de um sussurro, mas Brittany ouvira. Ela também podia ver como os olhos escuros da médica brilhavam, uma suavidade inundando as suas feições. Elas se encontraram no meio do caminho, num beijo coberto por mais uma camada de entendimento.

Às vezes podia não parecer, mas Brittany sabia que Santana estava caminhando.

- Agora, anda. Vai logo tomar esse banho antes que você me faça queimar a comida.

Caminhando, não correndo.

***

Brittany agora entendia todos os gatos que ela tivera durante a vida — Lordes Tubbington I, II e III. O calor da comida que Santana fizera para ela ainda a aquecia por dentro e ela estava deitada no sofá, a cabeça apoiada nas pernas da namorada, unhas curtas arranhando seu escalpo de leve, arrancando cansaço da sua pele. Se fosse possível, Brittany teria ronronado quando ela sentiu os dedos de Santana dançando sobre a pele sensível logo atrás da sua orelha. Olhando para cima e vendo a expressão divertida no rosto moreno, Brittany achou que talvez tivesse.

- O que você está lendo? — Brittany perguntou, colando as costas nas almofadas do sofá.

- É um livro de poesias de um poeta chileno. Pablo Neruda.

Santana colocou o dedo na página que estava lendo e virou a capa para que Brittany visse a capa do livro.

- Eu não sabia que você falava espanhol.

- Eu não falo, eu gaguejo — Brittany sorriu para ela e Santana deixou que a mão livre pousasse em sua barriga. — Eu ainda consigo ler, mas eu perdi fluência. Quando eu era criança, a gente praticamente só falava espanhol em casa. Quando os meus pais começaram a freqüentar a sociedade de Lima, se é que isso existe, eles abandonaram a língua. Acho que não pegava bem.

- E o Rafa? Ele não falava?

- Uma palavra aqui, outra ali. Mas a gente só conversava em inglês. Eu acabei comprando alguns livros pra não esquecer. Esse aqui tava numa das caixas que a gente abriu. Eu tinha até me esquecido dele.

- Parece muito usado.

- É — Santana respondeu, passando o dedo pela borda amarelada das folhas, alisando uma dobra formada pelo tempo. — É do meu poeta preferido. Eu coloquei na bolsa antes de sair pro plantão.

- Lê alguma coisa pra mim? O seu preferido.

- Tá em espanhol, Britt. Eu não sei se eu vou conseguir traduzir direito.

- Não, sem traduzir. Eu quero ouvir você falar em espanhol.

Santana podia sentir seu rosto quente enquanto ela procurava uma de suas passagens preferidas. Há quanto tempo ela não falava mais do que três ou quatro palavras naquela língua em voz alta? Seis anos? Oito anos? Mais? Ela não tinha certeza, mas quando seus olhos pousaram nos versos já tão familiares, os sons rolaram de sua língua como se eles nunca a tivessem abandonado, como se eles tivessem morado dentro dela todo esse tempo.

- Déjame sueltas las manos y el corazón, déjame libre! Deja que mis dedos corran por los caminos de tu cuerpo. La pasión — sangre, fuego, besos — me incendia a llamaradas trémulas. Ay, tú no sabes lo que es esto!

Um sorriso encantado pintava o rosto de Brittany quando Santana terminou de ler. Ela fechara os olhos e agora os abria devagar, como se não quisesse quebrar a mágica das palavras estrangeiras aos seus ouvidos. Santana fechou o livro e o largou no chão ao lado do sofá. Ela ainda tinha uma das mãos apoiadas na barriga de Brittany e a outra desenhava os contornos do rosto dela.

- Isso foi lindo, San. Eu não entendi uma palavra, mas foi lindo.

Santana riu baixinho antes de se dobrar e beijar o sorriso de Brittany. Seus movimentos eram lentos, como se ela estivesse tentando andar debaixo d'água, e Brittany os acompanhava sem dificuldades. Quando a médica tentou endireitar o corpo, a loura a seguiu e se sentou em seu colo, os braços enroscados ao redor do seu pescoço. Ela ainda sorria e Santana podia ver um brilho diferente boiando entre os tons de azul.

- Ele pede pra amante dele deixar as mãos e o coração dele livres e que ela deixe que os dedos dele corram pelo corpo dela. — Dedos morenos deslizam por pernas longas, arrancando arrepios. — Porque uma paixão o incendeia e ela não sabe o que é isso.

Algo novo e sem nome cresce e explode dentro do peito de Santana quando ela se dá conta de que todos os poemas de amor foram escritos para ela e Brittany. Porque, como dizem, a poesia não é de quem escreve e, sim, de quem precisa. E, naquele momento, a mulher loura sentada em seu colo, com lábios inchados e sorriso brilhante, encarna todas as musas que já existiram. Tudo é ela, tudo é Brittany e Santana tem certeza de que não sabe mais respirar se não for pelos lábios dela.

Então, como que lendo os pensamentos que se passam por detrás de olhos castanhos, mais rápidos do que ela consegue registrar, Brittany espalma uma das mãos no pescoço de Santana e traz seu rosto para mais perto, para que ela possa retomar uma boca que já é sua. Que lhe foi entregue numa bandeja de prata, junto com todos os beijos que ela possa ter.

Brittany não se apressa em beijar Santana. Ela sabe que agora elas têm tempo, que ninguém irá fugir correndo pela porta quando seus lábios se descolarem, e ela se concentra em cada sensação que invade os seus sentidos. Dedos serpenteando pela sua cintura, o gosto do jantar que ainda persiste na sua língua, o abdômen que se contrai quando ela usa os dentes, a pele morena que cede sob as suas unhas, o gemido rouco que ela engole. Santana é dela, inteira, entregue, fera domada. Uma certeza que a toma de assalto cada vez que ela se perde nos redemoinhos castanhos que ela tem no rosto.

- Por que esse é o seu preferido?

- Não sei. Acho que, na época que eu li, eu achei que eu nunca mais fosse sentir isso. Ele escreve muito sobre amor, sobre paixão, entrega e, sei lá, eu morria de inveja dele. Eu achei que eu tivesse perdido a minha chance.

- Ainda se sente assim?

- Não. Eu encontrei a minha segunda chance.

Um sorriso enorme surgiu no rosto de Brittany quando ela puxou o lábio inferior de Santana entre os seus num beijo rápido. Ela ainda não tinha se acostumado a essa nova versão da namorada, uma que estava disposta a expor seus sentimentos assim, sem capas de proteção. Era uma novidade que ainda fazia com que seu estômago desse nós, uma revoada de borboletas alçando vôo dentro do seu corpo. Ela beija Santana mais uma vez, beija sua bochecha, o pedaço de pele atrás da sua orelha e seu pescoço ao aninhar o rosto ali.

Santana aperta Brittany contra o seu corpo. Seus dedos brincam com dedos pálidos no colo da loura, um silêncio doméstico se instalando entre elas. Santana sentia como se ela fosse um barco em alto mar e agora, de repente, com o motor quebrado, ela se movimentava ao sabor do vento e das ondas; ora rápido, ora mansamente. Ela nunca tinha certeza de quando a velocidade iria mudar e esse não saber o que ia acontecer a mantinha tranqüila.

- Eu andei pensando no que você falou — Santana falou depois de alguns minutos de silêncio. Sua voz era pouco mais do que um sussurro.

- Sobre a gangue de gatos da rua de trás?

- Não exatamente, Britt. Sobre procurar a Laura. Conversar.

Brittany se ajeitou sobre o colo de Santana, afastando seus corpos e observando o perfil da médica. Ela tinha os olhos baixos, sombras pintando dureza em seus traços enquanto brincava com os dedos de Brittany unidos aos seus. Apenas quando Brittany levou seus dedos entrelaçados até os lábios e beijou a pele morena, é que Santana voltou a encarar a loura sentada sobre as suas pernas. Brittany sorria para ela, suave, e Santana se viu refletindo a expressão.

- E o que aconteceu pra você mudar de idéia?

- Eu não mudei de idéia exatamente. Eu disse que eu ia pensar no assunto, lembra?

- Ok. O que aconteceu pra você decidir falar com ela?

- Não sei. Nada específico. Só... — A voz de Santana balançava como árvore nova em meio a uma tempestade. — Acho que ter encontrado com o meu pai me fez ver como eu ainda tô presa ao meu passado. Acho que eu preciso de encerramento.

- Que bom. Eu fico muito orgulhosa. Acho que vai te fazer bem, San.

- Então guarda esse orgulho, porque eu não sei se você vai gostar da próxima parte.

- O que foi? — Brittany perguntou, a cabeça pendendo para um dos lados.

- Bom, como eu não tinha falado com ela desde que eu fui pra faculdade, eu não sabia mais nada sobre ela. Então, eu meio que entrei no sistema do hospital pra pegar os contatos dela.

- Você invadiu o sistema por um número de telefone?

- Eu não invadi, por assim dizer. Eu só usei uma senha que não era minha para acessar uma informação sem fins médicos. — Depois de um segundo, Santana acrescentou, quase como uma justificativa: — E eu peguei o endereço dela também.

Do seu colo, Brittany a encarava com olhos apertados, um franzido desfigurando lábios finos. Ela parecia ter o futuro da humanidade suspenso pelas suas próximas palavras.

- Eu acho que, nesse caso, o meio justifica o fim. Ou será que é o contrário? Eu nunca acerto.

Santana sorriu e riu e suspirou em seqüência, uma coisa morna e líquida preenchendo todas as cavidades do seu peito que não pulsavam. Ela projetou o corpo devagar, como se ela precisasse se mover em câmera lenta para não perturbar o destino, e roçou o seu nariz no de Brittany antes de tomar lábios rosados entre os seus.

Brittany correspondeu com paixão, mão enterrada no cabelo de Santana, suas línguas se encontrando e se perseguindo num balé interminável. Ela se moveu sobre a namorada e plantou os dois joelhos no sofá, um de cada lado do quadril de Santana. Brittany ondulava seu corpo contra a médica, sentindo cada centímetro dela sob si, pressionando seu corpo contra a almofada.

As mãos de Santana passeavam por Brittany como o pedido do poema. Ela subia com unhas curtas por pernas fortes até perder-se por dentro da blusa larga que Brittany usava. Santana usava a ponta dos dedos para traçar o alto relevo da coluna da loura que ondulava ao seu toque. A pele macia era quente, o calor se esgueirando para dentro de Santana por debaixo das suas unhas e a aquecendo pelo avesso. Respirar era um esforço cada vez menos importante.

As mãos de Brittany estacionaram nas laterais do pescoço de Santana quando ela descolou suas bocas. Ela tinha um sorriso torto nos lábios que mandou o estômago de Santana numa montanha-russa. Uma sobrancelha se ergueu sobre um olho castanho e elas travaram uma conversa silenciosa. Até que Brittany abriu um sorriso enorme, capturou o lábio superior de Santana mais uma vez e se levantou do colo dela.

- Britt! Aonde você vai? — Santana choramingou quando ela tentou agarrar o pulso da loura, mas conseguiu apenas segurar o ar. — Você prometeu me compensar, lembra?

Brittany olhou para trás por cima do ombro e piscou para a morena desabada em cima do sofá. Ela desligou a televisão e parou na frente da sua pilha de CDs, passando o dedo pelos títulos até que ela pareceu encontrar o que estava procurando.

- Eu pensei que... — Brittany disse enquanto caminhava até o aparelho de som no canto da sala. — Já faz tanto tempo desde a nossa última aula. Dança comigo?

Um sorriso enorme cresceu no rosto de Santana quando seu cérebro registrou a mulher parada na frente dela com uma das mãos estendidas num convite. Os primeiros acordes dos violões começavam a soar pela sala e Santana deslizou as pontas dos dedos pela palma virada de Brittany até que a loura tomou-lhe o pulso e puxou seu corpo contra o dela. Num átimo, Santana estava colada a Brittany, respirando o mesmo ar que ela, parada na posição inicial de dança sem nem perceber como isso tinha acontecido.

O corpo de Brittany se movia ao som da música, carregando Santana junto com ela ao redor da sala. A médica ainda se lembrava dos passos básicos que Brittany já tinha lhe ensinado, mas o fogo que ela podia ver queimando por trás dos olhos azuis fazia com que seus joelhos bambeassem e ela precisasse se apoiar um pouco mais nos braços fortes que a seguravam. Brittany a conduzia como se Santana fosse uma boneca de pano.

Um vídeo passava na cabeça de Santana, da primeira vez que ela tinha dançado com Brittany. Ela se lembrava da música, do estúdio, da paciência da loura com a descoordenação dela, mas, principalmente, Santana se lembrava de como a aula tinha terminado. Ela ainda conseguia se lembrar da temperatura do espelho onde Brittany a imprensara e de como tinha sido difícil pedir que ela parasse tudo quando a dançarina enroscou a sua perna ao redor da cintura dela. Santana ergueu o rosto e quando seu olhar se prendeu no de Brittany, ela percebeu que as mesmas lembranças deviam estar se repetindo na mente dela.

Aproveitando a mão que ela tinha no ombro de Brittany, Santana deslizou os dedos pela pele clara e trouxe o rosto dela para um beijo apaixonado. Brittany aproveitou o momento e curvou o corpo sobre Santana, engolindo os lábios e o fôlego dela num só movimento. A música, o tango, a dança, nada mais existia. Só elas. Sempre apenas elas.

Se Brittany ainda estava se acostumando com uma Santana mais aberta sobre seus sentimentos, ela adorava essa Santana decidida, rédeas nas mãos, que a puxava pelo pescoço e que arrancava a sua blusa. Brittany tinha certeza de que nunca deixaria de descobrir novas versões de Santana — e ela sabia que nunca se cansaria de encontrá-las.

Os dedos de Brittany encontraram a barra da blusa que Santana usava e ela a puxou sobre a sua cabeça, revelando um torso moreno inteiramente nu — uma visão que ainda deixava a sua garganta seca. Ela umedeceu os lábios e colou a boca à de Santana novamente, unindo seus corpos. Um gemido se perdeu na música quando o calor das suas peles se chocou. As unhas de Santana arranharam as costas de Brittany quando a língua da loura começou a desenhar um caminho do seu maxilar até a base do seu pescoço.

Ao mesmo tempo em que raspou os dentes na clavícula saltada da médica, Brittany desceu as mãos pelo seu corpo, as firmou na parte posterior das suas coxas e voltou a se erguer, trazendo Santana junto consigo. A latina entendeu o movimento e abraçou a cintura de Brittany com as pernas. Nessa nova posição, elas tinham quase a mesma altura e Santana aproveitou para ondular seu corpo contra Brittany e aproximar seus centros a cada passo que Brittany dava na direção do quarto.

Os movimentos de Santana quase fizeram com que Brittany batesse no batente da porta e Santana gargalhou quando ouviu o grunhido frustrado da loura.

- Tá rindo, é?

- Não fui eu que quase errei a porta do quarto.

Brittany olhou para baixo, para os seios nus de Santana, para o ponto onde seus corpos quase se fundiam, e voltou a olhar para a médica com um sorriso torto.

- Não. Mas foi você que me distraiu.

Santana sorriu e ergueu as mãos que ela enterrara no cabelo de Brittany. Ao mesmo tempo, ela parou todos os movimentos que fazia com o corpo, jazendo imóvel nos braços de Brittany.

- Desculpa. Quer que eu pare? — ela perguntou fingindo inocência.

- Parar? — Brittany rosnou enquanto terminava de cruzar o quarto. Parada ao pé da cama, ela olhou Santana intensamente nos olhos: — Quem foi que falou em parar?

O corpo de Santana praticamente voou quando Brittany a jogou no colchão. A gargalhada dela preencheu o quarto e, logo, Brittany estava deitada sobre ela, uma perna aninhada entre as de Santana, seus lábios grudados num beijo sufocante. Suas mãos deslizavam pela pele morena sem destino e Santana podia sentir seu corpo respondendo ao peso de Brittany sobre ela, o mesmo calor brilhante — agora já tão conhecido — se acumulando onde a perna dela pressionava. Santana nunca deixava de se surpreender com o poder que Brittany parecia ter sobre o seu corpo.

Mas não era isso que ela queria. Santana queria fazer Brittany se contorcer embaixo dela. Ela queria ter o corpo da loura nas mãos, trêmulo, ofegante, suado, exausto, brilhando; e ela queria saber que tinha sido ela a causar aquilo. Ela queria que Brittany sentisse, em cada movimento, cada toque, cada beijo, o quanto Santana a amava. Um pouco mais a cada dia. Que ela podia ter chamado o apartamento de Brittany de casa, mas que a sua casa era, na verdade, Brittany.

Reunindo toda a sua força, Santana conseguiu virar as duas e colou as costas de Brittany na cama. Ela tinha os braços apoiados ao lado do corpo de Brittany, a encarando com uma sobrancelha erguida e um sorriso enorme no rosto. Brittany parecia surpresa com o movimento, mas ela enroscou uma mão pelo pescoço de Santana e a puxou para mais um beijo. Quando Santana sentiu a língua de Brittany invadir a sua boca, seus braços cederam e ela tombou, suas peles quentes provocando pequenas descargas elétricas ao longo da sua espinha.

Talvez fossem as mãos de Brittany arranhando as suas costas, mas Santana já não tinha muita certeza de nada.

Santana ainda se equilibrava com uma das mãos, a outra explorando o lado do corpo de Brittany, seus dedos se enterrando nos músculos da cintura da mulher que ofegava embaixo dela. Ela os deslizou para cima, sentindo o entalhe das costelas contra a pele clara, a curva de um seio que cabia na sua mão. Santana tinha pressa em se afogar em Brittany e ela deixou que seus lábios escorregassem pelo maxilar dela, dentes cravando onde ela quase conseguia ver sua pulsação, sua língua acalmando a pele em seguida. Ela serpenteava sobre Brittany, tentando sentir a textura de cada centímetro do corpo dela, como se ainda houvesse alguma coisa nova para explorar.

Talvez sempre houvesse.

A língua de Santana dançava na depressão ao final da garganta de Brittany quando ela sentiu mãos invadindo a sua calça, pele contra pele, dedos se fechando sobre a sua bunda e a arrastando para cima. Quando ela abriu os olhos, Santana encontrou Brittany com um enorme sorriso malicioso no rosto.

- Sem calcinha também, Dra. Lopez? — Brittany disse com voz rouca, apertando as mãos que ela tinha sobre Santana, arrancando um gemido dela.

- Só pra você, baby. — Santana beijou o sorriso de Brittany uma, duas, três vezes. — E não é como se eu tivesse o meu armário aqui.

Santana continuou sua exploração. Ela descia com languidez, seu corpo se ajustando ao de Brittany conforme ela deixava que sua boca redescobrisse todos os seus lugares preferidos; a pele atrás da orelha esquerda, a parte sob o queixo, a coluna da garganta, a pinta que ela tinha bem entre os seios e que sempre a fazia suspirar e gemer e se arrepiar, a curva --

- Talvez você devesse, San. Ter... Quer dizer, você... É...

Os lábios de Santana se desgrudaram da pele de Brittany com um estalo e ela olhou para cima com um sorriso divertido neles.

- Agora é você que tá pensando demais, baby. — Os rostos delas se encontravam no mesmo nível quando Santana terminou a frase. — Britt, menos falatório e mais beijo, ok?

A pergunta de Santana mal se formou no ar antes que ela reclamasse a boca de Brittany num beijo profundo. Brittany podia sentir a língua se Santana contra os seus dentes, provando o seu céu da boca, escorregando sobre a sua num molhado veludo. E tudo o que ela podia fazer, tudo o que ela conseguia fazer, era enroscar os dedos no cabelo da namorada, enterrar a outra mão na pele dela, abraçá-la com as pernas e trazê-la para mais perto — sempre para mais perto.

Brittany exalou um suspiro longo quando Santana voltou a escorregar novamente pelo seu corpo. Mas dessa vez, não havia curvas no seu caminho. Ela descia em linha reta, do pescoço para o vale entre os seios, pela linha formada ao longo do abdômen até o umbigo. Santana usava apenas a ponta do nariz e os lábios para roçar a pele de Brittany, mansa, num toque-fantasma. Seus dedos desceram com a mesma leveza pela lateral do corpo esguio e se engancharam no cós da calça dela ao mesmo tempo em que ela mordiscava a pele logo abaixo do umbigo.

Santana removia a roupa de Brittany devagar, como quem abre um presente e não quer rasgar o papel. Ela acompanhava o movimento com os olhos, encantada. Ainda. Brittany sorria e arfava e usava os pés para tocar os braços morenos, os próprios braços jogados para cima.

A roupa de Brittany caiu com um som surdo no chão e Santana se ergueu ao pé da cama. Seus olhos eram quase negros quando eles se prenderam aos azuis-acinzentados e ela puxou o cadarço que mantinha a sua roupa presa aos seus quadris. O tecido negro deslizou pelas pernas de Santana e empoçou ao redor dos seus pés. Com os dentes ao redor do lábio inferior, a médica engatinhou sobre o corpo de Brittany, felina, até que suas respirações se confundissem novamente. Ela tocou o nariz claro com o seu antes de fechar a boca na de Brittany e pousar sobre ela, seus corpos se misturando ao longo da cama. Dois longos gemidos vibraram quando seus centros se encontraram, a soma do calor o multiplicando.

Santana pairava sobre Brittany, sorrindo, enquanto sua mão passeava em espirais descendentes. Ela adorava esse momento, como uma calmaria antes da tempestade, quando tudo o que ela podia ouvir era o seu coração pulsando em seu ouvido e a respiração pesada de Brittany, quando o quarto tinha apenas o cheiro delas, quando a pele de Brittany tinha a mesma temperatura que a dela e era como se elas fossem uma só.

Talvez felicidade fosse aquilo, pequenos momentos perfeitos costurados ao longo dos dias.

- Eu amo você, sabia? — Santana respirou. A voz presa na garganta, os olhos presos nos de Brittany.

Ela abaixou o rosto sorrindo e beijou Brittany mais uma vez. Os lábios da loura se abriram no mesmo instante e Santana aprofundou o beijo enquanto ela trilhava a parte interna da perna de Brittany com a ponta dos dedos. O toque era leve e ela podia sentir a pele arrepiada sob suas digitais, a maneira como Brittany se abria um pouco mais, o calor líquido que irradiava e a atingia e a engolia.

- Eu também amo você-SANTANA!

Os olhos de Brittany se fecharam e seu pescoço arqueou quando os dedos de Santana encontraram seu clitóris. A médica movia as mãos em círculos preguiçosos, sugando a pele do pescoço exposto para ela.

Aos poucos, Brittany pareceu relaxar em seus braços e ela voltou a olhar para Santana sob pálpebras pesadas.

- Eu achei que eu é que tivesse que compensar você — ela disse com a sobrancelha erguida, as palavras saindo entre longos suspiros e beijos roubados.

Santana riu e acelerou em uma fração os seus movimentos, arrancando um gemido rouco da garganta de Brittany. Ela prendeu um lábio fino entre os seus dentes antes de responder.

- Uma coisa não impede a outra, baby. A noite é longa — Santana falou contra o ouvido de Brittany.

Antes que Santana pudesse registrar o que tinha acontecido, Brittany já estava enterrada dentro dela, um arrepio subindo pela sua coluna, congelando seus movimentos por um segundo. Quando ela conseguiu desenterrar o rosto do pescoço de Brittany, Santana reencontrou o sorriso malicioso nos lábios da namorada. Numa conversa em silêncio, Santana ergueu a sobrancelha e imitou a ação de Brittany sem aviso.

O grito-gemido-suspiro de Brittany foi engolido pela boca de Santana.

O que começou lento se transformou numa corrida atrás delas mesmas. Santana se movia sobre Brittany e sentia Brittany se movendo sob ela sem saber onde uma começava e onde a outra acabava. Ela acelerava seus movimentos e Brittany a alcançava. Ela tremia e Brittany a acompanhava. Ela vibrava e Brittany reverberava. Até que ela pôde sentir os músculos de Brittany se contraindo ao redor dos seus dedos, o movimento ecoando nos seus próprios músculos. Santana não sabia quando isso tinha acontecido, mas ela tinha a testa apoiada na de Brittany, respirando a expiração dela porque qualquer outra coisa parecia esforço demais.

- Britt!

- San!

Santana não sabia quem tinha gritado primeiro, quem tinha explodido depois. Seu cérebro não funcionava em absolutos naquele momento. Tudo o que ela sabia é que ela tinha o corpo quase inerte, exausto, se movendo devagar, arrancando as últimas chamas de dentro delas; os ecos das suas vozes ainda quicando entre as paredes.

Foi necessária uma grande dose de esforço, mas Santana conseguiu erguer o rosto em tempo de ver Brittany reabrindo os olhos, o brilho azul parecendo ofuscar todo o resto. Era a visão preferida de Santana, quando Brittany tinha um sorriso lento no rosto, seus olhos se ondulando em calma e ela não parecia querer mais nada além do que ela via.

***

Santana tinha a cabeça no ombro de Brittany, metade do seu corpo sobre o dela, dedos nos seus cabelos pesando as suas pálpebras, quando a voz distante de Brittany a alcançou novamente.

- Eu acho que você devia ter, San.

- Do que você tá falando, Britt? — Santana perguntou apoiando o queixo no peito de Brittany.

- É que você disse que não era como se você tivesse o seu armário aqui. — Santana concordou com a cabeça e continuou a encarar Brittany, esperando o restante da conversa. — Então, eu acho que você devia ter.

- Você quer que eu traga o meu armário pra cá? — ela perguntou com uma risada mal disfarçada.

- Não ele inteiro, San. Mas...mas é que tem vezes que você fica mais aqui do que no seu apartamento e eu acho que ia ser mais fácil se você já tivesse algumas das suas coisas aqui e eu podia liberar umas duas gavetas pra você. M-mas se você não quiser não tem problema, foi só uma idéia.

- Britt — Santana chamou em sua voz mais doce e esperou até que os olhos da namorada se desgrudassem do teto e se focassem nos dela. — Eu acho que essa é uma idéia de gênio.

- Sério?

Os olhos de Brittany estavam quase tão arregalados quanto seu sorriso. Santana sorriu também e se esticou para alcançar sua boca e lhe dar um beijo rápido.

- Ah-hã. Você mesma falou, eu fico aqui quase tanto quanto lá. Faz sentido.

Brittany sorriu de novo e beijou Santana até que a médica estivesse com as costas coladas no colchão. Quando Santana tentou aprofundar o beijo, Brittany se afastou e se sentou no colchão, com as pernas para o lado de fora. Santana conseguiu segurá-la pelo pulso no último segundo antes que ela se levantasse.

- Hum, Britt? Aonde você vai?

- Eu vou arrumar o meu armário, San.

- Não, não, não, não — Santana falou se arrastando, de joelhos, pela cama. Ela tinha o rosto colado ao de Brittany, os braços ao redor do seu pescoço, quando ela continuou: — Você vai voltar pra essa cama e vai ficar deitadinha aqui, comigo, até amanhã. O seu armário pode esperar.

- Só deitada? Mais nada?

- Se você voltar pra cama, você pode fazer o que você quiser, Britt.

A voz de Santana saiu num grito quando ela sentiu que o colchão sumiu de debaixo das suas pernas. Brittany encontrou seus lábios antes que ela pudesse registrar completamente o que estava acontecendo e Santana teve certeza de que aquela seria uma longa noite.

Notas finais
Feliz natal e que o próximo ano seja incrível!
Até 2013!