Notas iniciais
Dessa vez vocês não precisam querer me matar... Voltei antes de uma semana com capítulo novo. Espero que gostem.
Boa leitura!

- Dra. Lopez, o seu pager. Você não vai responder?

A enfermeira magricela tremeu quando Santana fixou seus olhos nela. Satã Lopez estava de volta e não tinha interesse em fazer reféns. Com um gesto rápido, ela verificou o aparelho que apitava em sua cintura e saiu na direção do chamado, deixando uma mulher quase congelada para trás.

Acontece que Santana Lopez é como um elástico. Ao longo dos anos, ela se enroscou firmemente ao redor de si mesma, numa tentativa desesperada de se proteger. E cada vez que ela é puxada em outras direções, ela retorna com força ao estado inicial em que ela se colocou. Quanto mais vulnerável, mais arisca Santana se torna. Afinal de contas, todo mundo se afasta de gato que mostra as garras. Todo mundo menos Brittany.

Brittany.

Santana andava pelo hospital, olhando para os lados e se perguntando se alguma daquelas pessoas podia perceber o que tinha acontecido, como ela tinha se permitido abrir daquele jeito. Ela se perguntava se eles podiam ver que ela se sentia vulnerável, se eles podiam ouvir as palavras daquela corretora nos seus passos, se eles podiam ver como o coração dela tinha acelerado ao ver Brittany sentada na igreja.

Além de Quinn, mais ninguém do hospital havia comparecido à cerimônia. Santana não contara nada a ninguém além de Sue, mas o aviso de falecimento havia sido publicado no jornal local e ela podia sentir alguns olhares se demorando nela por um segundo a mais. Todos sabiam o que tinha acontecido, mas ninguém se atrevia a se aproximar da cerca elétrica que ela havia instalado ao redor dela.

- Mercedes, o que vocês têm pra mim? – A voz dela era um pouco mais dura do que o habitual, mas a enfermeira nem se abalou. Ela era a única que não tinha medo de Santana e a médica a respeitava um pouco mais por isso.

- Um policial acabou de ser trazido. A Dra. Fabray já está com ele, mas ele disse que conhece você. Eles estão no quarto 10.

Santana franziu o cenho, tentando entender o que um policial de Lima poderia querer com ela, até que se lembrou do detetive Puckerman. Ele devia ser a única pessoa da polícia da cidade que a conhecia a ponto de usar seu nome no hospital.

O nome do homem se assentou em seu estômago como uma bola de chumbo. Ela não se preocupava particularmente com ele, mas se algo acontecesse ao detetive, todo o progresso feito no caso de Sarah seria perdido. E Brittany teria que passar por aquele tormento novamente.

Imersa demais em seus pensamentos e na preocupação por Brittany que a consumia, Santana nem notou que caminhava em direção ao quarto ocupado pelo policial. Era uma regra tácita da equipe de sempre colocar os policiais em quarto individuais quando se tratava de algum ferimento durante o trabalho, mesmo os mais simples. Era uma maneira de demonstrar respeito pelo trabalho deles e de facilitar o da própria equipe, sem todos os outros pacientes da enfermaria tentando adivinhar o que teria acontecido.

Santana nunca ligara muito para essa regra, mas a seguia para não irritar ninguém desnecessariamente — ela só fazia isso em situações especiais. Mas, apoiando-se na maçaneta, ficou feliz pela privacidade que teria. Ela abriu a porta e dois pares de olhos voaram em sua direção.

- Detetive Puckerman, a que devemos a honra da sua visita? – Um esgar cortava o rosto de Santana.

- Oi, doutora. Eu falei que não precisavam incomodar você, foi só um arranhão.

- Ah, mas me incomodar é o esporte preferido das pessoas desse hospital. Não é mesmo, Dra. Fabray?

Noah Puckerman não pôde fazer nada além de encarar enquanto um olhar gelado era trocado entre as duas médicas. Ele tentava não usar muito das suas técnicas de interrogatório e análise de testemunhas fora do horário de trabalho — parecia cansativo demais e com recompensas de menos -, mas qualquer um poderia perceber que a temperatura do quarto tinha acabado de cair alguns graus.

- Bom, mas já que eu estou aqui. — Santana se soltou do olhar que ela trocava com Quinn e se voltou para o detetive, seu rosto um pouco mais suave do que quando abriu a porta. — Será que eu posso falar com você um instante, detetive?

- Claro. Assim que a Dra. Fabray me liberar. Ela é quem manda.

Santana podia ouvir o mel nas palavras do homem e o leve tom de rosa que cobria as bochechas da amiga. A médica mal pôde evitar que seus olhos se revirassem ao notar a maneira como os dois se encaravam, como se ela não existisse naquele momento. Foi quando um pensamento ganhou vida em sua cabeça. Será que ela também ficava assim quando estava com Brittany? Uma falta de ar tomou conta dela e uma série de tosses roucas rompeu de sua garganta.

O som quebrou o transe de Quinn e Noah, que trocaram sorrisos tímidos antes que a médica loura encontrasse sua voz.

- Eu vou deixar vocês dois a sós enquanto eu verifico o resultado do seu raio-x. Eu já volto.

Quinn se levantou da cadeira que ocupava e retirou as luvas de látex das mãos. Santana tinha se postado ao lado da porta e a aproximação das duas foi inevitável. Quando a latina ia se adiantando em direção ao leito, ela pôde ouvir uma voz rouca em seu ouvido:

- Depois eu quero falar com você, S. E nem adianta tentar fugir.

O detetive parecia não ter ouvido as palavras que Quinn dirigira à Santana e a médica tentou ignorar o que a amiga poderia querer. Um problema de cada vez. E agora era hora de lidar com um deles.

Assim que ouviu o clique da porta, Santana se adiantou para a cadeira que havia sido abandonada ao lado da cama e se sentou. Ela e o detetive se encaravam atentamente, sabendo aonde a conversa levaria, mas estudando qual deveria ser o próximo passo.

- Posso perguntar o que aconteceu? — Santana preferiu começar com algo simples e apontou para a bandagem que cobria uma parte do braço esquerdo do policial.

- Nada demais, só um bandidinho de merda que resolveu brincar de tiro ao alvo comigo — o detetive só costumava fazer esse tipo de comentário quando estava entre seus amigos, mas a mistura de adrenalina e remédios para dor removeu todos os filtros do homem. — Mas ele está pior do que eu.

- Sempre bom saber. Eu acho. Mas e você? Está bem? — havia uma nota genuína de preocupação em sua voz.

- Esse arranhão? Já tive bem piores, doutora. Ossos do ofício.

- Por falar em ossos do ofício... — Santana tinha se cansado de dançar ao redor do assunto que os dois sabiam ser o motivo da presença dela ali.

- Você quer saber se há alguma novidade sobre o caso.

A frase de Puckerman não era uma pergunta porque não havia nenhuma dúvida sobre os motivos da presença da médica ali, em seu quarto de hospital. Se não bastasse a ligação que ele sabia existir entre Santana e Brittany, a própria médica tinha sido ameaçada indiretamente. A última pista concreta que eles tinham naquele caso tinha sido enviada para o hotel em que ela morava, endereçada a ela. Santana tinha tanto direito em ter interesse no caso quanto Brittany ou Rachel.

- Exatamente. Alguma novidade?

- Infelizmente, não. Eu queria ter boas notícias, mas a verdade é que o nosso suspeito sumiu no mapa. Depois que ele deixou aquele envelope no seu hotel, nada. Como se ele tivesse virado fumaça.

Noah estava sendo sincero e aquilo só servia para revirar ainda mais o estômago de Santana. Tudo o que ela queria era que aquele capítulo da sua história acabasse. Nem tanto por ela, mas por Brittany. Ela tinha visto a maneira como a loura ficava ao encarar a porta do consultório em que a amiga trabalhava. E como ela ficava silenciosa de vez em quando, perdida em seus próprios pensamentos. Santana queria poder ajudar Brittany, arrancar essa tristeza por dentro, mas ela sabia que só o que poderia começar a fazer isso seria uma resolução do caso. E as palavras do detetive faziam essa possibilidade parecer cada vez mais distante.

- E não tem nada que vocês possam fazer?

- Nesse momento, não. Um mandado de prisão já foi expedido e a polícia de todo o estado foi notificada. Mas nós esgotamos todas as nossas pistas. Agora, só nos resta esperar que ele faça alguma besteira.

Essa era a parte do seu trabalho que Noah mais detestava, ter que dizer para alguém que, apesar dos seus esforços, não havia mais nada a fazer. Mesmo depois de anos na corporação, não havia se tornado mais fácil encarar uma pessoa e assumir que todo o aparato policial de que dispunha não tinha sido suficiente para colocar mais um desgraçado detrás das grades. Porque a verdade é que não havia aparato suficiente para a quantidade de desgraçados que pareciam brotar das rachaduras das calçadas a cada dia. Mesmo numa cidade do tamanho de uma noz como Lima, os mocinhos ainda estavam perdendo a batalha.

Ao ouvir as palavras do detetive, o rosto de Santana se desfez. Pela primeira vez desde que aquele pesadelo havia começado, a médica se permitiu afrouxar a compostura na frente do policial e fechou os olhos, apertando a ponte entre os olhos, e soltou um suspiro trêmulo. Ela só queria que aquilo acabasse logo e o detetive enxergou na mulher a sua frente a mesma coisa que já havia visto milhares de vezes, em milhares de outros casos diferentes, preocupação. Ele abriu os lábios para tentar dizer alguma coisa que pudesse aplacar Santana, mas enquanto procurava por palavras a porta do quarto se abriu novamente e Quinn entrou no recinto, com um raio-x em mãos e um sorriso no rosto.

- Boas notícias, detetive. O osso está intacto. — Como não obteve nenhuma reação, a médica encarou a dupla a sua frente, a milhas de distância dela. — Está tudo bem aqui?

A pergunta de Quinn arrancou Santana do estado emocional em que ela tinha se permitido entrar durante a conversa com o detetive e ela abriu os olhos, recolocando a máscara dura que costumava usar durante o trabalho. Ela sabia que Quinn era uma das poucas pessoas que conseguia enxergar alguma coisa além dessa proteção, mas ela não conseguia encarar o mundo sem ela agora. Estava tudo perto demais da superfície.

- Tudo ótimo, Q. Eu já estava de saída. E, detetive, espero que você não tenha que usar dos nossos serviços tão cedo. — Ela tinha seu sorriso mais profissional ao caminhar até a porta, ostensivamente evitando encarar Quinn. — Mas, se precisar, eu tenho certeza de que a Dra. Fabray aqui não vai se importar em ajudar você de novo. Não é mesmo, Q?

O veneno escorria em cada palavra que tinha saído de sua boca e Quinn se virou, uma expressão gelada no rosto. Santana sabia que ia pagar caro por aquele comentário. Mas, só pela expressão dos dois, tinha valido a pena.

***

— Santana, qual é o seu problema?

Quinn invadiu o quarto do hospital em que Santana havia se escondido para tentar recuperar algumas horas de sono. Era início da madrugada e o ritmo na emergência estava calmo o suficiente para que ela pudesse escapar por alguns preciosos minutos.

- Nesse exato momento, é uma médica loura, intrometida e cheia de si que está atrapalhando o meu sono.

- Não banca a engraçadinha, S — Quinn respondeu com o mesmo veneno na voz, acendendo a luz do ambiente e ganhando um gemido como resposta.

- Q, eu não sei se você está familiarizada com o conceito, mas algumas pessoas precisam dormir de vez em quando. Nem todo mundo pode ser um robô como você.

- É. E eu acho que nem todo mundo pode ser uma babaca desalmada como você.

O clima no quarto era tenso e a respiração de Quinn era superficial. A última frase da médica acertou Santana em cheio e ela desistiu de voltar a dormir. Se tinha uma característica que as duas médicas compartilhavam, era a teimosia. A morena se sentou na cama e cruzou pernas e braços na frente do corpo. Seus movimentos eram lentos e deliberados, a todo momento estudando as feições da outra mulher.

- Muito bem, Q. Você conseguiu. Estou acordada. Por que, então, você não fala o que realmente está nessa sua cabecinha.

- Eu quero saber o que diabos está acontecendo com você.

- Isso tem alguma coisa a ver com o que eu falei para o detetive Puckerman? Porque aquilo foi uma piada. Lembra o que é isso? Aquela coisa que uma pessoa fala e as outras riem?

- Não, Santana. Isso não tem nada a ver com o que você falou para o detetive. Isso tem a ver com as duas enfermeiras que eu encontrei chorando no refeitório, hoje, depois de trabalharem com você. E com o homem que eu tive que convencer a não fazer uma queixa formal contra a senhorita depois que você disse que ele podia colocar de volta o sutiã.

- Eu só estava fazendo um favor à humanidade. Ninguém devia ter que encarar aquela visão do inferno depois do almoço.

- Você não se importa com ninguém, né, Santana? Quer dizer, na faculdade esses insultos até eram divertidos, mas isso já está ficando um pouco antigo, você não acha?

- Olha, Quinn, eu sei que a minha mãe morreu e tudo o mais, mas você não precisa bancar a minha babá, ok? Eu sei cuidar de mim mesma.

- É aí que eu acho que você está errada. — Quinn trancou a porta e caminhou até a cama, se sentando de frente para Santana. — Eu sei que você e a sua mãe não eram próximas, mas eu não estou conseguindo entender você desde o enterro.

- Hum...

- Primeiro, você pede uma folga para a Sylvester. Depois você volta ao trabalho antes da hora. E mais intragável do que nunca. Tem gente querendo mudar de escala só pra não trabalhar com você.

- Se eles não agüentam a Satã, eles que mudem.

- Peraí. Você sabe desse apelido?

- Por favor, Q! Fui praticamente eu quem inventou!

Quinn se permitiu rir por um momento, até que ela se lembrou de outra coisa que estava passando por sua cabeça desse o enterro de Margarida.

- O que a Brittany estava fazendo na igreja? — ela perguntou com o cuidado de um membro do esquadrão anti-bombas.

- Ela leu sobre a cerimônia no jornal e decidiu aparecer — Santana deu de ombros, repetindo o gesto que tinha exibido à Brittany.

- E vocês estavam juntas quando você sumiu? Todo mundo percebeu que você não acompanhou o cortejo.

- Eu não precisava encarar aquela parte. Era demais para o meu estômago. — Com um suspiro, Santana concentrou seus olhos nos dedos dos pés. — Eu fui para o jardim, na parte de trás da igreja, e ela me achou lá. A gente conversou um pouco, só isso.

O silêncio que se assomou entre as duas tinha peso e massa. Ele subia pela pele de Santana, deixando um caminho arrepiado por onde passava. Ela ainda tinha os olhos colados nos próprios pés e Quinn a encarava com atenção, tentando ler o que ela escondia por trás daquelas esferas negras. Mas Santana estava muito bem protegida atrás de suas muralhas. E Quinn não havia sido convidada.

- Santana...

- Olha, Quinn, tem um monte de coisa acontecendo na minha vida agora e eu até posso ter exagerado um pouco. Eu continuo achando que aquele homem não devia sair de casa com aquelas coisas balançando, mas eu vou tentar maneirar. Satisfeita?

Aquilo era o mais próximo que Quinn chegaria de um pedido de desculpas real de Santana Lopez e ela sabia disso. Era melhor aceitar qualquer vitória que ela conseguisse, por menor que parecesse.

- Satisfeita. Mas eu continuo preocupada com você, S. Você já afastou todo mundo de você. — A loura esticou a mão e apertou os dedos morenos entre os seus. – Você sabe que pode falar comigo sobre o que você precisar, né?

- É melhor você parar por aí antes que isso aqui vire uma cena de uma merda de musical e você saia pelo quarto dançando e cantando, com um monte de doentes fazendo coreografia em cadeiras de roda pelo quarto. Eu posso seriamente vomitar diante disso.

As duas mulheres se encararam por um segundo, antes que Quinn fizesse uma cara de nojo e elas mergulhassem em gargalhadas histéricas. Depois de um longo minuto, Quinn recuperou seu fôlego e secou uma lágrima que tinha se acumulado no canto do olho.

- E aí está, senhoras e senhores. Santana Lopez está de volta.

- Eu te odeio nesse momento.

- Naaaahhhhh! Você me ama.

- Por falar em amor, o que está rolando entre você e o detetive?

Uma onda de calor subiu pelo pescoço de Quinn e tingiu seu rosto de um tom de vermelho forte. Ela parecia um cervo estatelado na frente de faróis.

- Eu acho que eu vou deixar você voltar a dormir. Você já está tendo alucinações.

- Você que sabe... Mas você sabe que eu só falo a verdade!

***

Passava um pouco das oito da noite quando Brittany finalmente terminou sua última aula da noite. As meninas da turma de hip-hop para adultos estavam particularmente animadas naquela noite e a loura concordou em ensinar mais um ou dois passos para elas. Era uma das suas turmas preferidas. Cerca de 15 mulheres, todas mais velhas do que Brittany, a maioria delas chegava direto do trabalho. Elas se reuniam duas vezes por semana e permitiam que a batida da música e os movimentos derretessem as preocupações do dia. Era quase uma terapia de grupo e Brittany sempre saía daquelas aulas com um sorriso no rosto. Ultimamente, ela andava precisando daquelas sessões mais do que suas alunas.

Ela roubou um olhar para o relógio acima da porta e decidiu ir embora logo. Ela tomaria um banho em casa. Depois de jogar as suas coisas dentro da bolsa, ela tirou o aparelho de som da tomada, apagou as luzes da sala e trancou a porta que levava às salas de aula. A recepção estava deserta e ela se apressou em trancar tudo, apagar as últimas lâmpadas e ir embora. Brittany nunca tinha sido uma pessoa medrosa, mas, desde o que acontecera com Sarah, ela se sentia um pouco ansiosa quando era a última a sair do estúdio. Alguma coisa a deixava arrepiada e a sensação costumava durar por uma ou duas quadras.

Não foi exatamente uma surpresa quando Brittany abriu a porta de entrada do estúdio e deu de cara com Santana, sentada no capô do carro, um dos pés apoiado na roda, com um sorriso torto nos lábios. Elas não tinham combinado nada para aquela noite, mas tinham se encontrado tantas vezes nas últimas duas semanas, que a médica tinha decorado os horários das aulas da loura.

A busca por um apartamento ainda não tinha rendido frutos e Santana começava a se sentir impaciente com a demora. Alguns tinham parecido promissores, mas nenhum que se encaixasse exatamente nos seus altos padrões. Apesar da frustração com a demora, a companhia de Brittany era algo de positivo que ela podia tirar dessa saga. A loura a tinha acompanhado em quase todas as tentativas, sempre animada e esperançosa, fazendo comentários bobos sobre quem teriam sido os antigos moradores do lugar e encantando corretores e proprietários no caminho. Depois de cada visita, elas costumavam parar em algum lugar para comer alguma coisa e discutir os defeitos que Santana tinha encontrado em mais um apartamento. Era uma rotina simples, cada vez mais confortável para as duas. Elas tinham iniciado aquela dança em lados opostos do salão, mas, lentamente, tinham se encontrado exatamente no meio. E, se elas ainda não dançavam a mesma coreografia, elas estavam aprendendo os passos, sincronizando o ritmo.

- Santana — ela cumprimentou a médica, avançando até ela e plantando um beijo rápido na bochecha morena. Aos poucos, elas se sentiam mais a vontade com demonstrações físicas de afeto. — Tudo bem?

- Tudo. E você? Como foi a aula?

- Foi boa. As meninas estavam animadas hoje, a gente acabou estendendo um pouco a aula — ficaram em silêncio por um momento, sem saber como continuar. — Mas, você não veio até aqui para perguntar sobre a minha aula de hip-hop, né?

Santana riu abertamente e deixou a cabeça pender para frente, balançando de um lado para o outro.

- Não, não foi para isso. Você tem que correr para casa ou eu posso te seqüestrar por uma meia hora?

A resposta de Brittany foi apenas uma sobrancelha erguida e um brilho intrigado nos olhos. Era raro para Santana ser tão misteriosa e espontânea. Normalmente, ela planejava as coisas com, pelo menos, algumas horas de antecedência.

- Lembra daquele apartamento que eu falei que ia ver hoje de manhã? — Brittany assentiu. Santana a tinha convidado para fazer uma visita naquele dia, mas a loura tinha uma aula e não pôde ir. — Então, eu gostei dele e queria que você visse.

- Eu posso, estava indo pra casa mesmo. Mas, não está meio tarde? O corretor topou?

- Ele mora no prédio, então disse que não tinha problema. E então, vamos?

- Claro, vamos sim.

Santana abriu um sorriso largo, do tipo que apertava seus olhos e exibia uma covinha na bochecha, antes de pular do capô e dar a volta no carro. Brittany precisou de um momento antes de ser capaz de se mover novamente. Ela adorava aquele sorriso aberto de Santana e ele era tão raro que, quando aparecia, a loura sentia seus joelhos virarem água.

***

Santana podia sentir uma onda de excitação subir pelo seu corpo ao colocar a chave na porta. Desde que tinha ligado o motor do carro para levar Brittany até ali, ela não tinha sido capaz de fechar o sorriso que tinha se instalado em seu rosto. Naquele momento, ela ainda não conseguia entender porque a opinião da loura sobre seu futuro apartamento era tão importante, mas a verdade é que Santana queria muito saber o Brittany acharia do lugar. Como se a aprovação dela validasse a opinião da própria médica. Era loucura, mas Santana não andava exatamente racional.

O cheiro forte de tinta fresca invadiu o corredor no mesmo instante em que Santana abriu a porta. Ela precisou tatear a parede para achar o interruptor e acender a única lâmpada instalada na sala. Com um movimento de cabeça, ela convidou Brittany a cruzar a soleira da porta e começar a inspeção.

- Cuidado para não encostar nas paredes. A tinta ainda está fresca em algumas delas.

Brittany assentiu e deixou que seus olhos estudassem o ambiente. A lâmpada solitária não emprestava muita luz, mas ela conseguia identificar os limites do cômodo em que se encontrava. Era uma sala de estar grande para os padrões dos apartamentos que elas já tinham visto — certamente, muito maior do que a sala do apartamento minúsculo da loura. Bem em frente, uma enorme área envidraçada permitia que um pouco da claridade da noite da cidade criasse longas sombras pelo piso claro.

- Vem comigo.

Santana não esperou uma resposta de Brittany e a puxou em direção a uma passagem logo à esquerda da porta de entrada. Acendendo a luz, ela revelou uma cozinha apertada, mas bem organizada. Os armários brancos contrastavam com os azulejos amarelados e delimitavam o espaço para os eletrodomésticos que seriam colocados ali um dia.

- Qual é a desses azulejos? Eles estavam em promoção, por acaso? — Brittany perguntou com uma careta de quem tinha acabado de engolir alguma coisa amarga.

- Eu disse que tinha gostado, não que ele era perfeito — a resposta de Santana tinha uma risada velada e ela logo arrastou a garota de volta para a sala e pelo corredor.

Os cômodos seguintes eram um banheiro pequeno, à esquerda do corredor, e um quarto de hospedes em frente, que Santana pretendia transformar em um escritório. Não era como se ela tivesse muita gente para receber ali.

Agora faltava apenas um, o quarto principal. Mesmo sabendo que não havia nada além de quatro paredes brancas e um armário de madeira a esperando do outro lado da porta, Santana se sentia um pouco nervosa ao girar a maçaneta. O apartamento não era seu, mas havia algo de muito íntimo em levar Brittany até ali — mais ou menos como ela se sentira ao entrar no apartamento da loura, algumas semanas antes. E ela realmente queria que Brittany gostasse do espaço.

- E esse é o quarto — falou com uma animação exagerada, que não ajudava em nada a esconder seu nervosismo.

Brittany apenas sorriu e encarou o ambiente. Não havia muita coisa ali para ver, mas ela tentou fazer o mesmo exercício de imaginação que ela tinha feito em todos os outros apartamentos que tinha ido visitar com Santana. Ela pensava nas cores que podiam ser colocadas nas paredes, na maneira como o sol iluminaria o espaço pela manhã, na cama que dominaria o espaço, em Santana esparramada nos lençóis, olhando para ela com os olhos quase negros...

- É...é...grande.

O caminho de seus pensamentos tinha feito uma labareda subir pela coluna de Brittany até seu rosto e ela agradecia à má iluminação do ambiente que escondia o tom de rosa que manchava suas bochechas.

Ela e Santana ainda não tinham conversado sobre nada do que tinha acontecido entre elas; nem o beijo, nem a última noite que elas tinham passado juntas no hotel, nem a maneira como a médica tinha reagido ao comentário da corretora alguns dias antes. Eram histórias que se impunham entre elas, incômodas como roupas apertadas no verão. Brittany sabia que elas precisavam falar sobre aquilo. Fugir e fingir que não tinha acontecido não era uma opção, mas, toda vez que ela tentava iniciar uma conversa, a lembrança dos soluços de Santana sacudindo seu corpo pequeno engoliam a coragem de Brittany. Ela sentia que as duas já tinham caminhado tanto juntas, que Santana começava a se sentir confortável a seu lado novamente, que ela voltava a mostrar uma parte da sua vida que permanecia escondida, que Brittany não conseguia viver com a idéia de ser a pessoa a trazer à tona aquela dor novamente. E, com isso, ela empurrava a conversa e seus sentimentos para o fundo da mente, garantindo a si mesma que era de uma amiga que Santana precisava naquele momento e que era isso que ela seria. Mesmo que fosse quase impossível explicar para o seu corpo que ele não devia se acender daquele jeito cada vez que a latina pousasse seus olhos negros nela.

- E então, o que você achou?

As duas tinham voltado para a sala e observavam a cidade abaixo, envoltas por um silêncio quase confortável.

- Eu gosto. Você está pensando em fazer uma proposta?

- Ainda não sei. Quer dizer, o apartamento é bom e o bairro é bacana, mas eles ainda estão terminando umas reformas. Nunca se sabe quando essas coisas vão acabar.

- Eu ia mesmo perguntar, por que a reforma?

- Parece que o apartamento ficou fechado por muito tempo, problemas de herança, eu acho. E quando o proprietário finalmente resolver alugar, ele precisou mexer em muita coisa.

- E não podia ter trocado o azulejo da cozinha? — Brittany perguntou com a mesma cara de repulsa que tinha feito na cozinha, arrancando uma gargalhada de Santana.

- Eu sei — ela conseguiu falar entre risadas. — Eu acho que eu vou esperar a reforma acabar. Se até lá eu não encontrar nada melhor, talvez eu fique com esse.

Os únicos sons que invadiam aquele apartamento eram dos carros passando na rua logo abaixo, seus motoristas correndo para voltar para casa depois de um dia de trabalho, as luzes vermelhas piscando em fila indiana. Mas os barulhos eram abafados pelos seis andares que separavam a janela em que Brittany e Santana se encontravam e o chão. E Santana, depois de ter vivido tanto tempo em meio à agitação das maiores cidades do país, se viu em paz dentro daquela bolha.

Uma sensação de calma se espalhava pelo peito da médica e ela apoiou a testa no vidro gelado, fechando os olhos e sentindo a temperatura calar seus pensamentos, sempre tão barulhentos. Ali, ao lado de Brittany numa sala vazia, seus demônios internos eram como os carros que se moviam abaixo dos seus pés: ela sabia que eles estavam lá e até podia ouvi-los se fizesse o esforço necessário, mas não parecia valer à pena. Santana inspirou longamente e sentiu seus pulmões se inflando contra as costelas. Ela se manteve assim, imóvel por um segundo, antes de soltar o ar ao mesmo tempo em que abria os olhos.

Uma fina camada de vapor havia se acumulado no vidro da janela e as luzes dos carros e dos postes pareciam aquelas luzes de natal, brilhando e piscando para ela à distância. Um sorriso lento se espalhou pelo rosto de Santana e ela se virou para Brittany, encontrando olhos azuis focados nela, refletindo as mesmas luzes que ela tinha visto.

Novamente, quando negro e azul se encontraram, todo o mundo se desintegrou. Não havia mais cheiro de tinta no ar. Não havia mais carros passando, luzes acesas, apartamento, gravidade, nada. Não havia mais paredes, não havia mais chão. Quando negro e azul se encontraram novamente, havia apenas elas. Apenas duas mulheres flutuando, pairando, inevitavelmente atraídas uma a outra, causa e conseqüência, pólos opostos de um imã.

Um dedo moreno correu pela pele alva do braço de Brittany, deixando uma trilha arrepiada para trás, mas elas não se atreveram a quebrar a ligação entre seus olhos. Elas ainda não estavam prontas para deixar o mundo voltar a existir ao redor delas. A mão de Santana alcançou o rosto de Brittany e ela deixou que suas digitais sentissem a textura da pele dela, a temperatura que parecia queimar com as chamas que lentamente surgiam por trás dos olhos azuis. A respiração da loura se tornava cada vez mais superficial e uma vontade quase irresistível de apoiar o rosto contra a mão de Santana começava a tomar conta de seu corpo, mas ela se obrigava a se manter imóvel. Ela podia ler nos olhos negros que a encaravam intensamente, que Santana precisava tomar a iniciativa, que aquele era um passo que ela precisava dar. Brittany apenas se mantinha ali, parada, sentindo o calor da pele de Santana invadir sua sanidade e acompanhando todas as emoções que dançavam nos olhos da médica.

E assim, sem desviar os olhos, Santana fechou o espaço que as separava e, apenas quando elas respiravam o mesmo ar, deixou que seus lábios provassem novamente a textura da pele de Brittany.

Uma onda de eletricidade se espalhou pelos dois corpos no mesmo momento. Mas, diferentemente das outras vezes em que elas tinham se permitido aquele tipo de contato, essa onda não se transformou em choque. Eram como ondas que se formavam, enormes, ainda em alto mar, mas que perdiam força antes de chegar à margem e as areias fossem banhadas apenas por movimentos suaves, um ir e vir de água fresca. Brittany tinha o rosto de Santana entre suas mãos, se agarrando ao momento como podia, mas sem aprofundar o beijo. Ela continuava permitindo que Santana ditasse o ritmo daquela dança.

Um sorriso se espalhou no rosto de Santana no meio do beijo. Ela se sentia como se estivesse na beira de um lago. Um lago azul da cor dos olhos de Brittany e onde ela queria muito mergulhar. Era uma vontade maior do que ela, mas alguma coisa a prendia no que ela achava que era terra firme. A água parecia convidativa, mas durante toda a sua vida ela havia ouvido para não entrar no lago, não era seguro. Até que, quando ninguém estava olhando, ela caminhou até a beira, tirou os sapatos e mergulhou a ponta do dedo na água, testando a temperatura. A água era morna e um arrepio suave subiu pelo corpo de Santana. Ela calçou novamente os sapatos e foi embora do lago. Ela ainda não tinha tido coragem de mergulhar como queria, mas a água já não assustava mais como antes. Ela sabia que era seguro e que iria mergulhar ali. Ela só precisava esperar o momento certo.

Com esse pensamento, Santana afastou os lábios de Brittany e encerrou o beijo. O mesmo sorriso suave ainda brincava em seu rosto e uma expressão semelhante se espelhava no rosto de Brittany. As duas mulheres suspiraram ao mesmo tempo e Santana deixou que a cabeça pendesse para frente, enterrando a testa na curva do pescoço de Brittany, enlaçando-a pela cintura. Longos braços a prenderam pelo pescoço e ela pôde sentir o corpo de Brittany se moldando ao seu. Suas respirações ainda eram rápidas e os dois corações batiam acelerados, se encontrando numa sincronia ensaiada.

Se Santana olhasse para cima, talvez ela tivesse visto no rosto de Brittany uma expressão parecida com a que ela tinha visto ao assistir a loura dançar. Seus olhos estavam fechados e um enorme sorriso iluminava seu rosto, enquanto ela se concentrava em decorar cada detalhe do corpo de Santana contra o seu. Ela não sabia o que aconteceria dali para frente, mas ela tinha certeza de que aquele era um daqueles momentos que merecem ser guardados para sempre. E ela sabia que, não importava quando tempo vivesse, ela sempre se lembraria da maneira como Santana havia olhado para ela no exato instante em que elas abriram os olhos novamente.

E ali, seis andares acima da cidade, no meio de uma sala vazia, Santana entendeu o quanto ela tinha a perder se decidisse continuar fugindo. E, pela primeira vez na vida, ela escolheu ficar.

***

Sombras disformes faziam desenhos no teto do quarto de Brittany e ela acompanhava os movimentos sem conseguir piscar os olhos. Já era meio da madrugada e a cidade inteira dormia, mas o beijo que Santana lhe dera algumas horas antes ainda passava em sua cabeça. Parecia que o botão de repetição tinha se quebrado e ela não conseguia mudar a cena.

Esse não tinha sido o primeiro beijo das duas, mas tinha sido a primeira vez em que a médica não tinha fugido de alguma maneira. Brittany tinha visto uma emoção diferente nos olhos de Santana quando elas se afastaram, mas ela ainda não sabia o que aquele beijo significava para as duas. Elas, novamente, não tinham conversado depois. Santana apenas afrouxou o abraço que prendia Brittany, ligou seu mindinho com o dela e a conduziu de volta ao carro. Não cabiam palavras naquele momento, nada que desviasse o foco da maneira como elas se sentiam. E, apesar do silêncio, Brittany sentia que Santana estava próxima a ela, como nunca antes.

***

O quarto de hotel nunca pareceu tão estéril e tão aconchegante ao mesmo tempo para Santana. Alguma coisa borbulhava dentro dela desde que ela tinha deixado Brittany em casa e agora ela não sabia o que fazer consigo mesma. Ela não entendia de onde tinha surgido aquela vontade incontrolável de beijar os lábios rosados da loura. Ou melhor, de onde tinha surgido a vontade, ela sabia. O que ela ainda não tinha conseguido entender era onde ela tinha encontrado coragem.

Santana olhou para as mãos que tinha esticado a frente dos olhos e notou que elas ainda tremiam. A sua respiração já tinha voltado ao ritmo normal, mas ela ainda podia sentir a adrenalina correndo em suas veias. Era como voltar à tona depois de um longo mergulho e inspirar pela primeira vez, enchendo os pulmões de vida. E, naquele momento, Brittany era o seu ar.

Notas finais
Sim, senhoras e senhores, podem soltar os fogos de artifício! Finalmente Santana Lopez criou um pouquinho de vergonha na cara e tomou uma atitude - e isso demorou apenas 20 capítulos! ;)
E aí? O que vocês acharam? Podem soltar o verbo lá nas reviews. Eu leio todas e adoro as opiniões de todo mundo sobre essa história que eu resolvi contar. É realmente muito bacana ver como vocês embarcaram comigo nessa maluquice.
Até o próximo capítulo.