Notas iniciais
Esse negócio de curso e Olimpíadas acabou com a minha programação, por isso eu demorei um pouco para postar o novo capítulo. Mas, para compensar o tempo, esse é o maior até agora. Finalmente, vamos entender um pouco mais da Santana...
E para quem reclamou sobre o fato de a Santana ter sido casada com um homem, não se preocupem. Tudo tem um motivo e será explicado no momento certo...
Como sempre, boa leitura!

Santana mal tomou conhecimento da maneira como o colchão afundou quando Brittany se sentou a sua frente. A mão quente da dançarina sobre seu joelho era o único fio que ligava a médica com a realidade e a impedia de escorregar de vez para o passado. As últimas palavras ainda preenchiam o ambiente, sentadas no peito de Santana, roubando-lhe o ar.

Lágrimas se formaram no canto dos olhos da médica. Eram lágrimas grossas, acumuladas depois de tanto tempo projetando fortaleza. Mas agora ela não tinha mais forças para segurar a represa dentro de si. Santana não sabia se tinha sido o vinho ou se era a presença inebriante da loura, mas algo dentro dela tinha se partido e ela simplesmente precisava deixar vazar. Ela estava cansada demais.

- Eu conheci o Rafael durante a faculdade. Ele fazia Direito e eu, pre-med. Uns amigos em comum nos apresentaram e nós logo começamos a namorar.

Brittany observava como a voz de Santana falhava no meio das frases, como se a latina estivesse correndo em uma pista acidentada. O rosto moreno estava pálido e os lábios carnudos, brancos e comprimidos em uma linha fina.

- A gente fazia sentido, sabe? Nós dois éramos hispânicos, ambiciosos, de famílias tradicionais. Então, fez sentido ficar com ele. Depois do que aconteceu no último ano de colégio, eu não queria saber de amor, paixão, romance, essas coisas. Eu achava que era melhor pensar em segurança, conforto, comodidade, sei lá. E aquela parecia a melhor opção que eu tinha: era um relacionamento que fazia sentido, que parecia seguro e normal o bastante.

A voz de Santana era baixa, abafada pela dor que sentia. Brittany assistia àquela confissão sem piscar. Ela tinha medo de fechar os olhos e perder alguma nova emoção no rosto moreno. Milhares de perguntas batalhavam por sua atenção, mas ela sentia que aquele momento era de Santana. Aquilo não era uma conversa, era um monólogo.

- A gente se casou quando eu estava na metade da faculdade de medicina. Ele ia se candidatar pela primeira vez e não iria pegar bem para o eleitorado um candidato morando com a namorada antes do casamento. Então, fazia mais sentido que nós fossemos casados. Logo a gente virou o casal de ouro: bonitos, sorridentes e felizes. Era assim que nos descreviam. Era isso que as fotos mostravam.

Santana sentia os olhos arderem com as lágrimas que continuavam a se formar. Naquele momento ela não estava mais no quarto de hotel. Ela flutuava, observando cenas de uma vida que não tinha realmente vivido. Ela tinha existido.

A médica se via em eventos, discursos, inaugurações, sempre o mesmo sorriso calcificado no rosto. Os traços eram duros, uma ruga de preocupação sempre encravada no alto do nariz e uma grande tristeza nos olhos. Quem olhasse para ela, via apenas uma esposa adequada, dedicada, perfeita. Mas quando ela olhava para o homem que segurava sua mão com mais força do que o necessário, ela se perguntava onde ela tinha se perdido. Um dia, cansada de não ter resposta, ela parou de se perguntar.

- Com o tempo, a gente se afastou. Ele tinha sido eleito para o congresso e eu estava fazendo residência. A gente quase não se via. Era como se eu fosse casada só no papel. Às vezes, eu só me lembrava disso, quando olhava via a aliança. O mais engraçado é que isso não me incomodava. Parecia natural que fosse assim. Eu não conhecia outra realidade, então...

A latina engoliu seco, prevendo a pior parte da narrativa se aproximar. Brittany percebeu a hesitação e esticou a mão para secar seu rosto. O calor que se espalhou pela sua pele arrancou Santana brevemente de suas lembranças e um sorriso lento se espalhou em seu rosto quando ela conseguiu focalizar Brittany por entre as lágrimas. Dois poços azuis, transbordando carinho, a encaravam de volta.

- Desde o início do namoro, a nossa vida – Santana fechou os olhos antes do restante da frase, envergonhada – sexual nunca foi lá essas coisas. Era uma coisa meio que para cumprir tabela. Acho que eu via o Rafa mais como amigo e não me importava muito, sabe? Na verdade, era quase um alívio. Não sei bem por que. Eu sabia que ele tinha amantes, sempre soube, mas eu não me importava. Mesmo assim, eu sabia que tinha alguma coisa errada. Eu sabia que ele escondia alguma coisa, alguma coisa pior, que ele não queria que ninguém descobrisse. Principalmente eu.

Brittany não conseguia combinar as duas Santanas que tinha conhecido em uma. Primeiro a médica competente e enérgica, mas capaz de grandes demonstrações de carinho. E agora essa sombra, quebrada e magoada. A dançarina sabia que tinham destruído o espírito da médica e que essa compartimentalização de sentimentos era uma maneira de se proteger.

- Até que uma noite, eu recebi uma ligação do assessor do Rafa. Ele tinha sofrido um infarto e morrido. Trinta e dois anos, casado com uma médica e morto por uma porcaria de ataque cardíaco. Parecia surreal demais, mas não era nem o começo.

O rosto de Santana se contorceu, num misto de dor e escárnio. Ela já tinha oscilado entre tantos sentimentos ao longo dos últimos anos, que ela não sabia mais como realmente se sentia. A sua frente, a médica podia sentir a tensão no rosto normalmente tranqüilo da dançarina. Ela ainda mantinha a mão no joelho de Santana, como se ela quisesse absorver por ali todo o sofrimento e vergonha que via nos olhos cada vez mais negros. A latina agradeceu em silêncio por aquele contato.

- No dia seguinte, a notícia da morte dele era manchete em vários jornais. Eu já imaginava isso, mas quando eu li uma das matérias, foi que eu descobri os detalhes das circunstâncias em que ele tinha sido encontrado. – Santana respirou fundo e se concentrou no rosto de Brittany, retirando dali forças para continuar a falar. – Ele morreu num clube de sado-masoquismo. Aparentemente ele era freqüentador assíduo do lugar e outro membro tirou fotos dele amarrado e vazou para a imprensa.

Brittany sentiu cada pelo do seu corpo se arrepiar ao ouvir aquilo. Ela se lembrava vagamente do escândalo e dos comentários maldosos nos jornais e nas ruas. Ela não era muito ligada em política e, particularmente, não entendia qual a relação entre a vida privada do homem e sua capacidade como profissional. Mas o resto do mundo parecia não concordar com ela e ela se lembrou de como tudo o que fora feito pelo político de repente parecia contaminado e de como sua viúva tinha sido caçada pela imprensa sensacionalista. A mesma viúva que agora se sentava a sua frente, com o mais triste sorriso nos lábios e um caminho de lágrimas secas manchando as bochechas. Ela parecia pequena demais e o coração de Brittany se apertou diante da percepção de que ela podia fazer muito pouco.

- Santana...

- A TV montou acampamento na minha porta – a médica continuou, ignorando a interrupção. – Todo mundo queria um pedaço da viúva idiota e enganada. A minha vida virou um circo, tinha fotógrafo me seguindo até no hospital em que eu trabalhava. Eu não conseguia sair de casa, por causa deles. Eu não conseguia ficar em casa, sozinha. Eu não conseguia trabalhar. E eu tinha tanta raiva. Raiva do Rafa, raiva de todo mundo que sabia e nunca me contou nada. Raiva dos abutres que estavam vendendo aquela história como se não fosse a minha vida. Mas, principalmente, raiva de mim, por ter permitido ser colocada naquela situação.

Os ombros da médica caíram, exaustos de sustentar o peso daquelas palavras por tanto tempo. As pessoas que a conheciam na época sabiam da história, mas ela nunca tinha falado sobre aquilo com ninguém. Ela nunca tinha falado porque cada vez que tentava, as sensações de vergonha e ódio se acumulavam em seu estômago de forma dolorosa, seu corpo se retorcia em nós e ela tinha se acostumado a viver assim. Ela nunca tinha falado sobre aquilo até então. Até Brittany.

- Depois de um tempo tentando levar minha vida normalmente, apesar de estar tudo do avesso, eu desisti. Eu joguei a toalha e voltei para cá. Eu conhecia a Quinn da faculdade e ela tinha me dito que eles estavam precisando de alguém na equipe e eu achei que essa cidade era pequena e atrasada o bastante para ninguém ter lido nada sobre o Rafa. – Novamente, Brittany viu o brilho triste nos olhos negros. – O mais irônico de tudo isso é que eu vim me esconder justamente no lugar de onde eu lutei tanto para sair.

Santana secou as últimas lágrimas perdidas, inspirou profundamente e deixou que a sensação de estar viva, com os pulmões cheios de ar, preenchesse todas as suas células. Só quando sentiu o peito queimar, ela deixou o ar escapar lentamente pelo nariz, levando embora um pouco do peso dos últimos meses. Nada havia mudado, mas, ainda assim, ela se sentia mais leve.

Olhos azuis observavam atentamente todos os movimentos da médica. Brittany tinha tentado se manter impassível durante todo o desabafo de Santana, mas ela sabia que em alguns momentos ela devia ter se denunciado. Sua garganta seca e uma sensação de pulsação forte no pescoço denunciavam o quanto a história a tinha afetado.

Por um longo tempo, Santana permaneceu com o olhar distante, perdida em lembranças dolorosas e tentando entender o que aquela conversa com Brittany significava. Ela sabia que não podia atribuir ao álcool ter despejado tudo aquilo em cima da loura – ela nem tinha bebido tanto assim. Mas, depois de ter se acostumado a manter tudo para si mesma, ela não compreendia a necessidade que teve de contar tudo para uma quase estranha.

Uma risada abafada escapou da garganta de Santana, ecoou pelo quarto e ela ergueu novamente o olhar. Ela tentava ler o que estava se passando na cabeça de Brittany naquele momento. Depois de tanto tempo guardando aquelas palavras dentro do peito, ela não tinha certeza se saberia lidar com uma possível rejeição. Mas o rosto da dançarina era um enigma, uma esfinge perdida em pensamentos. Santana achou que aquilo não devia ser um bom sinal.

- Acho que você deve estar querendo fugir daqui, né? – Ela podia sentir suas defesas se reerguendo.

- Não.

A resposta de Brittany foi rápida e automática demais para que Santana pudesse acreditar tão rapidamente. Com um suspiro longo, Brittany reforçou a mensagem, balançando a cabeça para os lados, os cabelos louros brilhando na luz com o movimento.

Como ainda via apenas descrença e uma profunda aversão a si mesma no rosto de Santana, Brittany se arrastou pela cama, parando a milímetros de distância da médica. Seus corpos estavam tão próximos que era possível sentir o calor emanado pela outra. Era uma espécie de casulo e Santana se sentiu protegida ali dentro. A dançarina tomou a mão da médica entre as suas antes de responder novamente:

- Não. Eu não vou fugir.

A voz de Brittany era firme. Tinham muitas coisas na história de Santana que ela ainda não entendia completamente, muitas perguntas ainda brigavam por espaço em sua cabeça, mas de uma coisa ela não tinha dúvidas: ela não iria fugir de Santana. Na verdade, o sentimento era exatamente o contrário. Brittany sentia como se houvesse uma força invisível que a impulsionava na direção da médica. Tudo naquela mulher falava com Brittany num grau que ela muitas vezes não conseguia compreender, mas ela sabia que seria inútil tentar fugir.

As duas permaneceram num silêncio cúmplice por um tempo, cada qual perdida em seus próprios pensamentos. Brittany ainda tinha a mão de Santana entre as suas, atenta a todos os movimentos da médica. Depois de ouvir a história, a dançarina tinha um respeito ainda maior por ela. Manter a cabeça erguida depois de ter passado por tudo isso não devia ser fácil. Ao lado da loura, Santana se perguntava o que Brittany estaria pensando. Ela nunca tinha contado essa história a ninguém e as poucas pessoas que sabiam a conheciam o bastante para não comentar. Ela não sabia quais seriam as reações naturais e isso a assustava.

- Posso fazer uma pergunta?

Santana levou um susto ao ouvir a voz de Brittany. Tinha chegado o momento que ela tanto temia. Ela sabia que a loura devia ter uma dezena de perguntas a fazer e ela não tinha certeza de poderia ou conseguiria responder.

Como a médica não dava sinais de ter ouvido a pergunta, Brittany apertou-lhe a mão de leve, apenas o suficiente para que ela se virasse. Santana tinha os olhos um pouco apertados quando encarou a outra. Ela já se preparava para os mesmos julgamentos que tinha lido e ouvido meses antes. Mas o que viu no rosto alvo foi algo bem diferente. Sim, Brittany estava curiosa sobre algumas coisas, mas uma tranqüilidade em suas feições dizia que Santana não precisava responder nada. Ela aceitava a médica e sua história como fosse.

Essa percepção acendeu uma pequena chama de coragem no peito de Santana e ela se viu concordando com a cabeça, incapaz de fazer qualquer palavra brotar da garganta seca. Brittany apertou a mão de Santana mais uma vez antes de continuar, com a voz baixa, como se estivessem em uma sala lotada e ela quisesse que apenas Santana ouvisse.

- Por que você ainda usa a aliança?

- Não sei.

Era uma resposta sincera. Santana já tinha se perguntado aquilo inúmeras vezes ao longo dos últimos meses, mas seu cérebro não parecia ser capaz de decifrar aquele enigma. Nos primeiros meses, usar a aliança era uma maneira de se manter fiel ao que Rafa representava e de mostrar que os comentários maldosos não a atingiam. Enquanto o país jogava na lama tudo o que ele tinha feito, manter aquele anel no dedo era a única resposta que Santana conseguia dar.

Mas agora, tantos meses e quilômetros depois, ela não sabia por que era tão difícil desnudar o dedo.

- Acho que... acho que virou uma espécie de proteção meio torta. Muita gente te olha de um jeito diferente quando acha que você é casada. Tem um tipo de respeito aí.

Havia mais naquela atitude do que apenas se proteger contra possíveis cantadas e Brittany sabia disso. Mas ela também sabia que aquele não era o momento de questionar. Contar detalhes da história tinha sido o suficiente para Santana por um dia.

Santana encarou a loura por um segundo e o que viu acalmou seu coração. Ela podia ver que a outra mulher sabia que ela ainda se escondia por trás de palavras e reticências, mas ela não pressionaria Santana a contar nada que ela não quisesse. Depois de toda a paciência que a médica tinha demonstrado no hospital, nem caberia entre elas.

As duas trocaram um olhar de entendimento. Elas estavam em território novo e teriam que descobrir o que fazer dali para frente, mas nenhum passo seria apressado. Santana sorriu para Brittany e ligou a TV. Não havia mais nada a falar e elas se deixaram escorregar para um silêncio confortável.

***

- O detetive Puckerman ligou.

Brittany estava sentada em cima da bancada da área que separava a falsa cozinha do restante do quarto. As pernas compridas balançavam, exibindo músculos definidos e algumas sardas espalhadas. Santana sentiu a garganta secar e achou melhor terminar de secar e pentear os cabelos no banheiro – assim, continuaria conversando com ela sem correr o risco de encarar mais do que devia.

- Ah, é? E o que ele queria?

- Pelo que ele falou, a Rachel foi lá hoje. Acho que ele quer que eu faça um reconhecimento. Sei lá.

Santana não podia ver o rosto de Brittany, mas podia sentir a tensão em sua voz. A convivência entre as duas estava sendo tão tranquila que elas quase tinham se esquecido das circunstâncias em que se conheceram e do por que Brittany estava ali. A ligação do detetive tinha sido suficiente para acabar com a ilusão.

Um rosto moreno apareceu no vão da porta do banheiro. Olhos negros estudaram as feições carregadas da loura antes de falar:

- Você está bem com isso? Eu tenho plantão amanha, mas posso tentar trocar com alguém.

- Não precisa, Santana. Está tudo bem.

- Certeza?

Isso era uma coisa que Brittany não tinha, mas ela sabia que não podia continuar dependendo da médica para tudo. Ainda mais conhecendo os próprios problemas que ela tinha que enfrentar diariamente. Apesar disso, a simples oferta fez Brittany se aquecer por dentro. Era bom se sentir cuidada e um sorriso sincero escapou até os lábios finos.

- Sim. Certeza. Pode deixar.

- Eu saio cedo amanhã, mas se você quiser uma carona...

- Não vai dar. Ele me pediu para ir lá de tarde. Mas obrigada mesmo assim.

- Tudo bem, então.

***

O som do despertador rasgou o silêncio do quarto. Santana tateou, às cegas, a procura do celular para não acordar Brittany. A loura ainda podia dormir um pouco mais e ela não queria atrapalhar seu sono. A médica afastou as cobertas do corpo, deixando que o ar frio acordasse seus músculos. Murmurando reclamações para ninguém, ela caminhou cambaleante até o banheiro. Santana não era ninguém antes de um banho e de uma xícara de café.

A água quente corria pelo corpo da médica e ela sentia, pela primeira vez em meses, que estava relaxada. Por mais que quisesse negar, Santana precisava admitir – mesmo que em silêncio e apenas para si mesma – que Brittany lhe fazia bem.

Do lado de fora, a dançarina também já estava acordada. Na verdade, ela mal havia fechado os olhos durante toda a noite. Cada vez que ela tentava, ela se lembrava da conversa que tivera com Santana e do que a esperava na delegacia mais tarde. Eram pensamentos demais e seu cérebro corria de um lado para o outro, como uma criança depois de tomar muito refrigerante. Como tentar dormir era inútil, ela resolveu se fazer útil.

O cheiro de café invadiu as narinas de Santana assim que ela abriu a porta do banheiro. Aquele odor em seu quarto era tão inusitado que ela chegou a pensar que ainda estivesse dormindo. Mas o som leve da risada de Brittany indicava que era real demais. Apoiando o ombro no batente da porta, Santana se deixou observar Brittany por um momento.

A dançarina estava de costas, ocupada com alguma coisa na área em que o hotel jurava que existia uma mini cozinha. Os cabelos louros estavam presos num coque bagunçado, expondo o pescoço delicado e a curva dos ombros. Ela se movia com facilidade pelo espaço e Santana começava a duvidar que ela pudesse ser tão desastrada quanto ela tinha afirmado, até que o barulho de um joelho encontrando com um armário alcançou seus ouvidos.

- Caramba!

O xingamento quase infantil foi mais do que Santana podia agüentar e ela não conseguiu impedir a gargalhada que fugia da sua garganta. Brittany se virou sobre o próprio eixo na mesma hora. Quando seus olhos se encontraram com os da médica, ela sentiu um calor subindo pelo pescoço e pelo rosto, alcançando até a ponta das orelhas. Ela tinha certeza de que devia estar quase roxa e Santana achou que ela nunca pareceu tão adorável.

- Tudo bem aí?

- Já estou acostumada. Mas eu acho que seus armários andaram conversando com as minhas cadeiras.

Novamente a mistura de rosto sério com olhar travesso deu um nó no estômago de Santana.

- Acho que existe uma possibilidade – ela decidiu entrar na brincadeira e piscou para Brittany, que corou violentamente.

- Er...café da manhã? – gaguejou.

- Claro. O que você está aprontando aí?

- Só café com torradas. Eu achei algumas coisas por aqui. Espero que não se importe.

- De jeito nenhum. O cheiro está maravilhoso.

E então o rosto de Brittany se abriu naquele sorriso que Santana adorava. Era largo, verdadeiro, com um brilho quase inocente e a médica achava difícil olhar diretamente para ele – era como tentar encarar o sol. Mas ela também não conseguia desviar o olhar. Naturalmente seu rosto também se iluminou, refletindo a expressão da loura.

Ainda sorrindo, Brittany serviu duas xícaras de café e dividiu as torradas em dois pratos. Santana já tinha preparado dois locais na bancada para a refeição. O espaço era apertado e sem cadeiras, por isso as duas comiam de pé; Brittany dentro da cozinha improvisada e Santana com as costas voltadas para as camas.

Elas faziam a refeição em silêncio, aproveitando a companhia que normalmente não tinham naquele horário. Desde a morte de Rafael, Santana havia se fechado para qualquer tipo de relacionamento. Nas raras vezes em que ela se deixava dominar por hormônios e instinto, a situação era tão complicada, que a vontade de fugir surgia assim que sua cabeça batia no travesseiro, o que ela sempre acabava fazendo. Já Brittany tinha se mudado para focar em sua carreira e curar seu coração. Nenhuma das duas atividades combinava com romances eventuais.

Então, as duas haviam recebido a novidade com satisfação.

Santana mantinha os olhos baixos, ouvindo os sons que Brittany fazia e se concentrando em analisar o desenho em sua xícara. Ela não confiava em si mesma o suficiente para encarar a loura do outro lado. Das últimas vezes, ela tinha perdido a noção do tempo embaraçosamente e ainda não tinha realmente entendido o por quê. Brittany também tentava não prestar atenção na mulher a sua frente. A presença da médica fazia com que a dançarina se sentisse, de repente, sem peso, flutuando em direção a ela. Brittany tinha certeza de que era correspondida em algum nível, mas sua intuição lhe dizia que a latina ainda não estava pronta para nenhuma investida. Era não queria correr o risco de estragar o que elas já tinham apressando coisas que podiam tomar seu tempo. Assim, tudo que ela se permitia eram alguns olhares rápidos, roubados, só para ver, mais uma vez, a covinha que se formava em uma das bochechas morenas quando Santana mastigava.

Numa dessas escapulidas do olhar, os olhos das duas mulheres se encontraram – azul e negro; manhã e madrugada se chocando. O momento não durou mais do que dois segundos, mas foi o bastante para que a pele de Brittany reassumisse um tom vivo de vermelho e Santana sentisse um calor subindo pelo pescoço. O mesmo sorriso bobo apareceu nos dois rostos, mas elas não viram. Elas não se atreveram a levantar os olhos até o final da refeição.

Santana foi a primeira a terminar seu café da manhã. Ela largou a xícara e o prato dentro da pia e voltou para o quarto para terminar de arrumar suas coisas antes de ir para o hospital. Tinha suas costas voltadas para Brittany quando a ouviu se movimentando pelo espaço. A mente de Santana preenchia o espaço, imaginando o que a outra mulher fazia. Nesse devaneio, Santana ficou parada, mão estendida no ar, momentos antes de guardar o celular na bolsa.

Quando um barulho mais alto a arrancou das imagens criadas, Santana se xingou mentalmente. Como podia um simples caminhar a tirar do eixo daquela maneira? E de uma mulher! Aquilo já estava passando dos limites e era melhor ela ir logo para o hospital.

Ela terminou de jogar o que precisava dentro da bolsa. Com um último olhar pelo quarto, ficou satisfeita de que não havia se esquecido de nada e virou-se nos calcanhares. O meio giro colocou em seu campo de visão a imagem de Brittany de costas para ela, dançando devagar pela cozinha enquanto lavava a pouca louça do café, uma luva protegendo a mão imobilizada. Santana sentia os joelhos falharem e era preciso fazer uma força sobre-humana para levantar os pés do chão. De novo aquele nó se alojou na garganta da médica e ela não sabia se ainda era capaz de respirar.

- Brittany?

A voz que Santana conseguiu forçar era pouco mais que um sussurro e a dançarina não esboçou reação. Vencendo as raízes que tinham se formado em seus pés, Santana avançou pelo quarto e notou que Brittany tinha fones nos ouvidos.

Sem ser percebida, a latina se colocou atrás da outra e tocou-lhe o ombro de leve. O contato com a pele levou uma onda de eletricidade pelo braço de Santana e ela removeu a mão rapidamente, como se tocasse em brasa.

Uma sensação semelhante tomou conta do corpo de Brittany e ela deu um pulo, assustada. Ela se voltou para Santana enquanto removia os fones dos ouvidos.

- Desculpa, eu não te ouvi – falou apontando o fio que tinha na mão na direção de Santana.

- Tudo bem. Eu só queria avisar que eu já estou saindo. Você precisa de alguma coisa?

- Não, não. Bom trabalho – respondeu distraidamente ao retirar a luva de borracha amarela.

- Sabe, você não precisa fazer isso. Uma das vantagens de morar aqui é não ter que se preocupar com arrumação, lembra?

Brittany sorriu ao se lembrar da primeira conversa mais longa entre elas e ao perceber que Santana também se lembrava.

- Eu sei, mas eu preciso fazer alguma coisa.

Santana viu um relance de tristeza nos olhos de Brittany antes que ela os desviasse para o chão. A visão se assomou no peito da médica com força e seu coração perdeu uma batida.

- Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? – perguntou pousando a mão no rosto de Brittany e se aproximando mais um passo.

- Não aconteceu nada de novo. Só estou pensando nessa minha ida à delegacia. Eu queria poder ir logo, sabe? Essa espera é uma agonia. E o pior é pensar que ainda tem muito mais por vir.

- E você tem certeza de que não quer que eu vá com você? – ela movimentou os dedos, forçando Brittany a encará-la.

- Tenho. Eu já invadi a sua casa, não quero atrapalhar seu trabalho também.

A voz de Brittany foi engolida pelo ar, mas as duas continuaram presas nos olhos da outra. O tempo parecia se mover de maneira diferente naquela bolha. De repente, Santana se sentiu muito consciente de tudo ao seu redor. As gotas que caíam da torneira, o barulho do elevador do outro lado da porta, os raios de sol que invadiam o quarto pela janela, a respiração lenta e compassada de Brittany e o calor da pele dela contra sua mão. Era como se ela estivesse sendo engolida por uma onda de lava, se derretendo e se moldando em uma coisa nova. Mas ali o fogo não queimava. Ele apenas aquecia. Era quase uma carícia.

As sinapses de Brittany também trabalhavam com violência, tentando absorver cada detalhe do rosto tão próximo. O brilho âmbar nos olhos escuros, que pareciam eternamente apertados, como se quisessem enxergar dentro da alma de Brittany. As maçãs do rosto delineadas e salientes. Os lábios entreabertos. O tom da pele que lhe lembrava seu caramelo favorito da infância. Sem tomar consciência do próprio corpo, a loura ergueu uma das mãos até o rosto da médica, repetindo seu gesto.

Quando um dedo pálido roçou o canto de sua boca, a respiração de Santana falhou. A mão de Brittany estava gelada da água, mas ainda assim queimava a pele morena. A sensação era tão nova que Santana se permitiu fechar os olhos e relaxar na mão de Brittany. Ter o toque da loura em seu rosto era como voltar para casa depois de uma longa viagem.

Lentamente Santana reabriu os olhos e encontrou Brittany a admirando, os olhos azuis enevoados e escuros com um sentimento novo que a médica não conseguia identificar. Ela podia perceber que a loura se aproximava, mas, ao invés de obedecer sua razão e sair dali, Santana se via refém. Ela tinha entrado na órbita de Brittany e agora não existia alternativa a não ser se chocar contra a superfície.

Com milímetros as separando, elas pararam por um momento, estudando uma última vez o rosto que viam. Respiravam o mesmo ar e o calor que trocavam incendiava seus corpos por inteiro. Com um movimento sutil dos dedos, Brittany fechou o espaço entre elas e tocou os lábios de Santana com os seus. Era um toque leve, quase inexistente, mas o suficiente para garantir a Brittany de que não havia coisa mais certa para ela no mundo.

Mas, como a médica permanecia imóvel, a dançarina achou que o sentimento não fosse recíproco e começou a se afastar. Ela se odiava naquele momento por ter confundido a generosidade de Santana com algum tipo de interesse diferente, principalmente depois de ela ter confiado tanto na dançarina.

O movimento pareceu despertar Santana, que escorregou a mão até o pescoço de Brittany, trazendo-a de volta para o beijo.

O que começou leve e delicado, não mais do que o roçar das asas de uma borboleta, logo ganhou vida. E fome. Brittany se refez do susto rapidamente e, com uma das mãos na base das costas da latina, moldou o corpo de Santana ao seu.

Elas não sabiam quem tinha tido a iniciativa, mas suas línguas dançavam juntas e era possível sentir o sabor fraco do café da manhã que tinham compartilhado. Um gemido satisfeito escapou da garganta de Santana quando ela sentiu dentes puxando seu lábio inferior. Brittany sorriu no meio do beijo. O som, alto no silêncio do quarto, era a prova de que a médica estava entregue e de que ela queria aquilo tanto quando a loura.

Como gasolina numa fagulha, a resposta de Santana inflamou Brittany, que a trouxe para impossivelmente mais perto, enterrando os dedos pálidos nos cabelos negros.

Ondas de eletricidade percorriam o corpo de Santana e ela não sabia se seria capaz de se manter de pé por muito tempo. Ela se agarrava à Brittany como se daquilo dependesse sua própria vida. Cada centímetro de pele cor de caramelo estava em brasa e um calor começava a se instalar entre suas pernas quando pôde sentir os lábios de Brittany passeando pela linha do seu maxilar até sua orelha direita. Num misto de língua, lábios e dentes, Brittany conseguiu fazer a controlada e calculada Santana perder o controle. A médica enterrou as mãos nos cabelos louros e esticou um pouco o pescoço, facilitando o acesso à boca faminta.

- Você é linda.

Santana podia sentir a voz de Brittany vibrando contra seu rosto. A dançarina tinha abandonado a exploração e agora mantinha a médica no lugar com as duas mãos em suas costas. Suas pernas estavam levemente abertas, permitindo que ficassem na mesma altura. A loura admirava com atenção o rosto moreno a sua frente. Ela queria voltar a beijar Santana, mas precisava encarar os olhos dela uma última vez antes disso.

A médica sentiu falta do contato faminto e desesperado. Lentamente, abriu os olhos novamente, como se despertasse naquele momento de um sonho bom. E junto com esse despertar, seu cérebro voltou a funcionar, registrando a beleza simples da mulher que a encarava. Os lábios inchados pelos beijos, a pele avermelhada, os olhos semicerrados e ansiosos. Um sorriso lento começou a se espalhar pelas feições de Santana, mas antes que pudesse alcançar seus olhos, uma percepção atravessou seu corpo como um terremoto: ela tinha beijado Brittany. Ela tinha beijado uma paciente. Ela tinha beijado uma mulher. De novo.

E para Santana aquilo era tão errado, em tantos níveis, que todos os seus músculos se contraíram no mesmo instante. As mãos que descansavam nos ombros delgados foram arrancadas dali, como se ela tivesse tentado segurar uma pedra de gelo por tempo demais. Brittany percebeu a hesitação nos olhos agora arregalados e deixou as mãos caírem ao lado do corpo. Elas ainda estavam próximas fisicamente, mas as barreiras que a médica tinha erguido em instantes as afastavam por milhas.

Santana olhava para Brittany como se ela fosse uma estranha, sentindo a culpa – sua velha conhecida – preencher novamente todos os espaços vazios em seu peito. Os olhos azuis tinham uma mistura de dor e perplexidade, o que apenas aumentava o vazio que Santana sentia. Ela tinha certeza de que aquilo era errado e de que não deveria ir adiante, mas a maneira como Brittany a olhava, com uma expectativa silenciosa, esperando que ela desse o próximo passo, apenas servia para enfraquecer os joelhos da médica.

Ela precisava sair dali. Precisava se afastar de Brittany o suficiente para não sentir o calor da sua respiração contra o seu rosto. Precisava não ter aquelas flechas azuis tentando penetrar seus pensamentos. Precisava estar longe o suficiente para não tocar seu corpo com o mais sutil dos movimentos. Ela precisava conseguir respirar de novo.

- Eu...eu...eu preciso ir para o trabalho.

Brittany podia perceber o conflito que estava acontecendo na cabeça de Santana e decidiu que o melhor que ela tinha a fazer era facilitar as coisas. Ela assentiu e deu as costas para a latina, caminhou até o banheiro e fechou a porta. Era o melhor que ela podia fazer naquele momento.

Santana apoiou as mãos na pia, trêmula dos pés à cabeça. Seu coração batia com força contra seu peito, como se estivesse protestando contra a decisão que a médica tinha tomado. Ela ainda não tinha entendido porque Brittany confundia tanto os seus sentidos e sentimentos, mas tinha certeza de que ficar ali e perder seu plantão não ajudaria a clarear seus pensamentos. Com um longo suspiro, ela endireitou as costas, pendurou a bolsa no ombro e caminhou até a porta. Um último olhar para a porta que Brittany havia fechado e ela saiu para o corredor.