How To Mend A Broken Heart
12 Capítulo 12
Notas iniciais
A casa parecia ter envelhecido vinte anos nos últimos cinco. Era esse o tempo que Santana não colocava os pés naquele caminho pavimentado que levava até a porta principal. O jardim, antes sempre perfeitamente cuidado, estava esquecido. A grama das laterais da alameda tinha sido coberta por um mato alto e selvagem. A roseira que adornava a margem direita do terreno tinha secado e a maioria das árvores da parte da frente da casa tinha sido arrancada.
Santana não precisava ver para ter certeza de que o jardim da parte de trás da casa devia estar da mesma maneira. Era estranho pensar em como, às vezes, é apenas a pura vontade de uma única pessoa que mantém as coisas no lugar. Quando essa vontade some, as coisas somem junto, como cinzas depois de um sopro.
O cascalho crepitava embaixo dos pés da latina e o som trazia lembranças de uma infância que não parecia sua. Olhando em volta, ela conseguia se lembrar do local exato em que costumava ficar a árvore em que seu pai pendurou um balanço no seu aniversário de cinco anos. Esticando o pescoço, ela encontrou a janela que costumava usar para subir no telhado quando queria observar as estrelas e de onde caiu quando tinha oito anos, quebrando o braço. Memórias de festas e amiguinhos correndo por aqueles jardins invadiram a mente dela, enquanto Santana tentava definir quais daquelas lembranças eram reais e quais tinham sido fabricadas pelo tempo. Depois de pintar um passado mais idílico do que ele tinha realmente sido por tanto tempo, ela não confiava muito na própria memória.
A cada passo que ela dava em direção à casa, uma nova onda de sensações assolava seu corpo. A médica se sentia oca, seu coração batendo contra as costelas com violência e o som ecoando por todo o corpo. Calafrios percorriam sua pele mesmo debaixo do sol e Santana se arrepiava e suava ao mesmo tempo. Era como se seu cérebro estivesse tão sobrecarregado por suas emoções que ele não sabia mais como mandar seu corpo se comportar. Assim, ela sentia tudo ao mesmo tempo. Seus sentidos estavam próximos do esgotamento e tudo o que Santana conseguia ouvir era o fluxo do seu sangue correndo em suas veias; o sol já brilhava alto no céu e a médica tinha sido parcialmente cegada por seu brilho, caminhando em frente por puro instinto.
A porta de madeira, grande e pesada, ainda era a mesma. Uma nova camada de tinta a cobria e Santana podia notar que ela já tinha começado a descascar nos cantos. Ela olhou em volta e quando percebeu que ninguém a tinha visto ali, pensou em desistir. Ainda dava tempo. Ela podia refazer seus passos, entrar no carro que tinha deixado estacionado na beira da calçada, voltar para o hotel e reencontrar a garota que a tinha feito ir ali.
Mas ela sabia que essa não era uma possibilidade real. Ela precisava fazer aquilo, precisava enfrentar essa parte da sua vida que ela tanto queria esquecer. Ela precisava provar para si mesma que ela tinha razão em ter se afastado, em ter mantido o máximo de distância entre ela e as pessoas que a puseram no mundo. Ela precisava provar que não era nenhuma covarde.
Com um dedo trêmulo, ela tocou a campainha e respirou fundo. Era agora ou nunca. Os últimos segundos antes que ela não pudesse mais voltar atrás. Quando seu corpo ameaçou ceder ao medo que ainda fazia residência em seu coração, um barulho do outro lado da porta a parou no meio do movimento de voltar para o carro. Logo, um rosto conhecido a encarava debaixo do batente.
Seu pai tinha envelhecido junto com a casa. Novas rugas estavam gravadas em seu rosto e o cabelo tinha perdido os últimos fios negros. Ele parecia mais magro e curvado, em nada lembrando o homem que fazia Santana pensar numa torre cada vez que o via. A médica estudou cada traço, a maneira como os ossos do rosto pareciam mais saltados e como a bochecha estava oca, os olhos sem brilho. A única coisa que não parecia ter mudado era o nariz, o mesmo que a morena via quando se olhava no espelho.
Sustentando o olhar que o homem enfraquecido lhe lançava, Santana tentou sorrir para ele, mas parou na metade do caminho. Aquilo não era normal, eles não sorriam um para o outro. Não depois. Com uma nova resignação, ela se contentou em apenas encarar o pai. Era ela que estava visitando, então ela esperaria que ele tomasse alguma atitude. Ela sabia que estava sendo teimosa, mas algo naquele homem era capaz de despertar toda a teimosia que a latina trazia em suas células.
- Santana.
- Papai.
As duas palavras foram pronunciadas sem a menor emoção. Eles podiam estar discutindo o tempo ou a política econômica do país que não faria a menor diferença. Certamente, não pareciam pai e filha que não se viam há quase um ano.
Santana podia sentir os olhos do pai a estudando, analisando cada centímetro da pessoa que ela se tornara. Diante daquele olhar tão conhecido, a médica se sentiu uma adolescente perdida novamente e ela começou a alisar as marcas de dobra em sua camisa, tentando se aproximar o máximo do ideal de perfeição que o homem a sua frente esperava. O Dr. Lopez sempre teve esse efeito nela, de sentir que ela não era adequada. Mesmo quando ela tinha feito tudo o que ele esperava, não tinha sido o suficiente. Mesmo quando ela se tornara praticamente uma cópia dele, ainda não era o suficiente.
Um suspiro resignado escapou dos lábios do homem e ele movimentou-se sutilmente, era o mais próximo que ele conseguia chegar de efetivamente convidar sua filha a entrar na casa em que ela tinha morado durante boa parte de sua vida. Com os olhos baixos, Santana cruzou a soleira da porta e, imediatamente, um cheiro invadiu suas narinas. Não era o cheiro familiar da casa da infância que muita gente costuma sentir quando volta para a casa dos pais. Não, esse era um cheiro diferente, de ar parado, de coisa estagnada. A médica teve a impressão de que alguém acabara de abrir um armário que tinha ficado fechado durante muito tempo. O ar pesava em seus pulmões quando ela tentava respirar.
Numa tentativa de esquecer o cheiro opressor, Santana deixou seus olhos passearem pelo que ela conseguia ver da casa. A pequena saleta de entrada, a sala de visitas, um pedaço da sala de jantar, a grade das escadas. Tudo parecia ter envelhecido junto com seu proprietário e com o exterior do móvel. Ela olhava em volta e se lembrava de como a casa antigamente parecia brilhar, sempre cheirando a um produto de limpeza diferente, sempre impecável. Quando criança, ela costumava pensar que a mãe estava sempre à espera de uma equipe de uma daquelas revistas de decoração de que ela gostava tanto.
Mas, agora, o estofamento de algumas poltronas estava gasto e ela podia perceber que a madeira do assoalho não devia ser encerada a alguns meses. Era como se a casa inteira estivesse adormecida junto com a sua dona.
Não querendo invadir ainda mais a intimidade do pai, Santana voltou seu olhar para ele sem saber como iniciar uma conversa. Ela encarava os olhos castanhos do homem e se perguntava como eles tinham chegado até ali. Durante sua infância, o médico tinha sido seu grande protetor. A felicidade que ela sentia quando era erguida nos braços fortes dele não poderia ser descrita por sua mente infantil. E mesmo durante a maior parte da adolescência, os dois sempre foram uma espécie de aliados. Ela o admirava e queria apenas duas coisas na vida: ser feliz e dar orgulho para seu pai. Próxima dos trinta anos, ela não tinha conseguido nenhum dos dois.
- Como você está?
Não era interesse real, era apenas educação, Santana pensou. E junto com o sorriso plastificado que ela pendurou no rosto, a médica ponderou que seria melhor manter a civilidade da conversa.
- Bem, me adaptando à rotina do hospital.
- Que bom. A Dra. Sylvester pode ser bastante exigente.
E da mesma maneira que tinha começado, a conversa morreu no ar. Eram dois antigos conhecidos, se encarando enquanto tentavam caminhar num campo minado. Cada passo era incerto, sem saber o que poderia desencadear a próxima explosão.
Depois de alguns segundos de silêncio, Santana achou que era a sua vez de tentar. Sem saber por onde começar e sem ter energias para perguntar o que realmente queria saber, ela achou melhor se manter num tópico que os dois podiam discutir como médicos e não como família. Era mais fácil assim.
- Como ela está?
Durante os quinze minutos seguintes, Antonio descreveu o estado de saúde de sua mulher. Margarida Lopez havia sofrido um derrame isquêmico oito meses atrás e se encontrava em estado vegetativo. Quando os médicos afirmaram que existia muito pouco que pudesse ser feito por ela, ele a levou para casa, onde cuidava dela desde então.
Santana tinha visitado a mãe ainda no hospital. É o que era esperado dela e tão pouco tempo depois de enterrar o próprio marido, ela não tinha forças para tentar impor suas vontades. Mas no mesmo momento em que a viu, a médica que existia dentro dela sabia que pouco ou quase nada podia ser feito. No dia seguinte, Santana se despediu da mãe, voltou para casa e não viu mais os pais. Até aquele momento.
Parecia estranho ter aquele tipo de conversa no meio do corredor de uma casa, como se estivessem num hospital, mas a medicina era a única coisa que unia Santana e Antonio naquele momento. E era exatamente isso que eles eram ali, dois médicos discutindo o estado de saúde de um paciente. Não eram pai e filha; não falavam sobre a esposa do primeiro e nem sobre a mãe da segunda. Era como eles sabiam existir.
- Você quer vê-la?
A frase pegou Santana de surpresa. Ela não tinha pensado nessa possibilidade quando dirigiu até lá. Tudo o que ela queria com aquela visita era ter certeza, mais uma vez, de que a melhor coisa que ela podia fazer era se manter afastada. Que essa era a decisão correta. Mas o leve apelo que ela sentiu na voz do pai a fez repensar sua proposição. Talvez não tivesse problema nenhum em subir novamente aqueles degraus e rever o rosto da mãe. Depois de tanto tempo, Santana tinha alguma dificuldade em se lembrar dos traços daquele rosto que ela devia conhecer bem.
Ela acenou fracamente com a cabeça e seguiu o pai quando ele se dirigiu para as escadas. A madeira rangia sob o peso e Santana pensou que o ar pesava ainda mais conforme ela subia. Os dois pararam na frente da porta do quarto principal e Antonio deu um sorriso triste para a filha antes de sair da frente.
- Eu vou dar um momento a vocês.
Santana observou o pai se afastar antes de colocar a mão na maçaneta gasta. Ela parecia não ter força suficiente para abrir a porta e encontrar o que a esperava do outro lado. Por mais que a relação entre as duas nunca tenha sido incrível e que só tenha piorado no último ano de escola da latina, Margarida ainda era sua mãe e vê-la no estado que Santana sabia que encontraria ainda incomodava.
Nem os anos de faculdade e os outros depois de formada tinham preparado Santana. Ver sua mãe em cima daquela cama, todos os tubos e fios saindo do seu corpo pequeno, transformaram os joelhos da médica em gelatina. Quando sentiu que seria capaz de andar sem cair, Santana caminhou até a cadeira que tinha sido colocada ao lado da cama. Pela aparência dela, seu pai devia passar muito tempo sentado ali.
Depois de encarar cada um dos aparelhos com olhos treinados, Santana deixou seu olhar pousar no corpo inerte em cima da cama. Ela tinha visto a mãe logo que ela fora internada, mas agora, tantos meses depois, ela parecia menor, como se estivesse afundando lentamente entre lençóis e travesseiros.
Ela não sabia o que fazer agora. Depois de tanto anos, ela já não sabia como conversar com a mãe, mesmo naquela situação. Então, ela se contentou em segurar a mão ossuda na sua e a olhar pela janela, imaginando como as coisas teriam sido se o passado tivesse sido diferente. Se elas tivessem sido diferentes.
Esses pensamentos começaram subir pela garganta da médica e ela logo sentiu um nó se formar dentro dela. Era como se tudo o que ela tivesse vivido, sentido ou pensado nos últimos anos fosse um emaranhado disforme, lutando para sair de dentro dela para que ela pudesse encontrar as pontas, puxar e começar a desfazer aquela bagunça. Mas Santana não estava pronta para isso ainda, então ela simplesmente engoliu seco, olhou uma última vez para a mãe e foi embora.
***
O quarto de Santana estava escuro quando ela voltou. O ritmo lento da respiração de Brittany indicava que ela ainda estava dormindo e a médica não queria atrapalhar. Ela, então, se livrou dos sapatos ainda ao lado da porta, colocou a bolsa delicadamente na poltrona e deu a volta na cama de armar, deitando na cama de casal ainda bagunçada. Ela encostou as costas na cabeceira e esticou as pernas. Dessa posição, Santana conseguia observar Brittany dormindo. Ela parecia tão calma, tão tranquila que a morena teve um pouco de inveja daquela paz. Uma paz que ela achava que nunca iria encontrar.
Mas observar Brittany, perceber o jeito como seus lábios se moviam durante um sonho qualquer, como ela parecia suspirar de vez em quando, como seus cabelos se espalhavam em todas as direções; isso acalmava a turbulência de emoções de Santana. Era como se a dançarina fosse seu próprio calmante particular e a latina começou a sentir um pouco das tensões acumuladas saírem do seu corpo.
Santana se perdeu naquela calma contemplação. Ela não pensava, não calculava, não planejava, apenas observava Brittany e deixava que a calma que aquela garota irradiava preenchesse sua mente. Bem quando ela achou que poderia ficar daquele jeito para sempre, os olhos de Brittany se abriram e Santana foi brindada com a mais bela visão de sua vida: sob a luz fraca que entrava pela fresta da cortina, os olhos da loura pareciam dois pedaços roubados do meio do oceano e cuidadosamente colocados naquele rosto. Eram poças d’água e Santana teve certeza de que ela nunca se afogaria ali, de que seria sempre seguro.
Um sorriso preguiçoso surgiu no rosto de Brittany e Santana tinha certeza de que ela espelhava o movimento. A dançarina esfregou os olhos, tentando afugentar o resto de sono que ainda persistia, e sentou-se, sempre mantendo seu olhar preso no da latina.
- Bom dia – a voz de Brittany ainda era rouca, presa no fundo da garganta.
- Bom dia, dorminhoca.
Brittany deu uma risada baixinha antes de falar de novo e Santana sentiu sua pele arrepiar com o som.
- Que horas são?
- Passa das onze – Santana respondeu como se já não fosse quase hora do almoço.
- Santana! Por que você me deixou dormir tanto?
- Você parecia tão tranquila dormindo, que eu não quis te acordar. Além do mais, achei que depois dos últimos dias, você merecia.
E ali estava de volta a Santana que Brittany gostava tanto. Não era a Santana machucada que ela tinha visto na noite anterior. Era a Santana carinhosa, preocupada, atenciosa que ela tinha conhecido no meio da rua. A Santana que tinha cuidado dela e que tinha levado ela para dentro de casa, mesmo sem conhecê-la de verdade. Brittany decidiu que gostava mais daquela Santana.
- Você vai sair? – Brittany apertava os olhos, incomodada com a claridade, quando finalmente reparara nas roupas de Santana.
- Eu já saí. Acabei de voltar.
Uma onda de tristeza passou pelo rosto de Santana e Brittany achou que era melhor mudar de assunto. O que quer que a médica tivesse ido fazer, não tinha sido uma experiência agradável.
- Você saiu, voltou e eu não acordei? Acho que eu estava realmente precisando dormir.
As duas riram da tentativa frustrada de Brittany de fazer piada e Santana agradeceu silenciosamente por ela não ter feito perguntas sobre o que a médica tinha ido fazer aquela manhã. Por mais que fosse agradável conversar com a dançarina, ela ainda não estava preparada para contar sobre aquela parte da sua vida. Não com tudo o que aquilo envolvia.
- Por que você não toma um banho, se arruma e a gente sai para almoçar?
O convite foi aceito por Brittany com um sorriso e ela logo pulou da cama de armar na direção do banheiro. Assim que o barulho do chuveiro invadiu os ouvidos de Santana, ela ligou a televisão para não pensar na loura de pernas compridas do outro lado da parede.
O almoço foi tranqüilo. Apesar de não concordarem sobre várias coisas, a conversa entre as duas mulheres fluía com naturalidade. A curiosidade que Santana tinha percebido em Brittany se estendia para ela, e a dançarina parecia genuinamente interessada em conhecer a morena. E não apenas a personagem que ela exibia todos os dias, mas a pessoa que ela lutava tanto para esconder. Era uma novidade interessante para a médica. Depois de tanto tempo usando uma máscara pesada, era bom poder deixar o show um pouco de lado.
Durante a conversa, Santana se flagrou contando mais sobre a sua vida para Brittany do que já tinha contado para qualquer outra pessoa na vida. Talvez apenas Quinn a conhecesse mais do que a dançarina naquele momento. E algo dentro de Santana dizia que isso era apenas questão de tempo. Ela não sabia bem o que era que Brittany tinha que a fazia querer se abrir daquela maneira, mas ela não estava muito inclinada a questionar. Não quando era tão bom.
Da mesma maneira que Brittany parecia interessada nela, Santana queria saber tudo o que fosse possível sobre a loura. E ela estava mais do que disposta a contar. Brittany era daquele tipo de pessoa tão tranquila na própria pele, tão segura de quem ela era, que a médica achava que não havia assuntos proibidos, ou partes da vida da loura que estivessem fora do alcance. Ela era a versão humana da expressão “um livro aberto”. Um livro que Santana estava muito interessada em ler.
Depois da refeição, as duas voltaram para o hotel. O restaurante era perto e elas caminhavam pelas calçadas, aproveitando o sol. Elas riam como duas colegiais e Santana achava adorável o jeito como Brittany saltitava de leve quando elas falavam sobre alguma coisa que realmente excitava a loura. Mais uma vez aquela sensação de que Brittany tinha mais energia do que seu corpo podia conter inundou a mente de Santana e ela começou a gostar de estar rodeava por essa eletricidade.
As risadas ainda persistiam no ar quando Brittany fechou a porta do quarto. Ela estava contando alguma coisa sobre um gato que tinha tido durante a adolescência e Santana não conseguia parar de rir diante da imagem de uma Brittany mais nova andando de um lado para o outro com um gato obeso debaixo do braço. Era demais para sua cabeça.
A médica se jogou na cama e esticou a mão para pegar o controle remoto que tinha sido colocado em cima da mesa de cabeceira. No movimento, seus olhos encontraram a aliança que ela usava e as risadas da médica pararam na hora. Ela podia sentir o nó voltando para sua garganta. O mesmo emaranhado de sentimentos que ela tinha sentido na casa da mãe.
Brittany sentiu a mudança no clima do quarto e procurou Santana com os olhos. O que viu expulsou todo o ar que ela tinha em seus pulmões. A médica estava em cima da cama, a mão esquerda apoiada na outra, na frente do corpo, um olhar perdido nos olhos. Os ombros dela caídos para frente, como se eles tivessem que suportar um peso enorme. Brittany sabia que Santana tinha algum segredo enorme que ela precisava compartilhar, mas aquilo tinha que ser feito no tempo dela e a dançarina iria esperar. O tempo que fosse preciso.
Quando o nó que tinha se formado em sua garganta cresceu ainda mais, Santana sabia que aquele era um daqueles momentos em que se pode fazer duas opções: correr ou ficar; contar ou calar. Ela olhou para Brittany e viu na doçura dos olhos que a encaravam, que a dançarina tinha percebido o turbilhão que se passava dentro dela. Mas ela também viu que a loura não iria pressioná-la a nada. E essa certeza decidiu por Santana. Ela estava cansada de calar.
- Ele era político.
A voz saiu tão baixa dos lábios de Santana que Brittany achou que ela tinha imaginado as palavras. Ela olhou para a médica mais uma vez – ela tinha o olhar perdido no passado novamente – e se aproximou. A dançarina se sentou na cama, de frente para Santana, e apoiou uma das mãos no joelho dela. Agora era a sua vez de escutar.
- O meu marido. Ele era político.
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