Notas iniciais
Lá vamos nós de novo... Boa leitura!

Quando Santana fez a oferta a Brittany, ela não pensou na logística daquilo. Tirar a loura do apartamento destruído e colocá-la dentro do carro tinha sido fácil. Depois de jogar algumas roupas em uma mochila, Brittany tinha ficado mais do que feliz em sair daquele lugar. Mas conforme o carro da médica se aproximava do destino das duas, Santana sentia como se, de repente, seu estômago tivesse abandonado seu corpo e ela tivesse sido deixada com um vazio no lugar.

Ela morava num hotel. Não havia como negar nem como fugir disso por muito mais tempo. E agora que ela estava a cinco quadras do prédio, Santana pensava em como resolveria aquela situação. Claro que ela poderia conversar com o gerente do hotel e mudar a sua suíte para uma com duas camas, mas já passava das sete da noite e ela não tinha muita certeza de como estava a lotação do estabelecimento.

Mas esse não era o pensamento com mais destaque na mente da mulher. O que mais a preocupava era o que Brittany pensaria quando as duas chegassem lá. Quando Santana ofereceu abrigar a loura pelos próximos dias, ela apenas queria manter Brittany protegida. Era um desejo legítimo, ela achava. Só que Brittany deveria achar que esse convite envolvia uma casa ou um apartamento; talvez um quarto ou, pelo menos, um sofá. Com certeza, envolveria um cômodo separado. Nem em seus mais loucos pensamentos, Brittany acharia que o convite de Santana envolveria um quarto de hotel com apenas uma cama de casal e uma poltrona. Entretanto, era exatamente isso que as esperava quando Santana virou o volante na direção do hotel e parou o carro na frente da portaria.

A médica se virou para alcançar a mochila de Brittany que havia sido largada no banco de trás e deteve-se no meio do movimento quando seu olhar encontrou o da loura. Era exatamente esse o momento que ela temia. Santana imaginava que a outra mulher deveria estar chocada, irritada, surpresa, se sentindo traída, para dizer o mínimo. Mas tudo o que encontrou nos olhos azuis foi curiosidade e um pouquinho de confusão.

Com a voz baixa, como se não quisesse que mais ninguém no mundo ouvisse, Santana respondeu à pergunta que ela podia ler nos olhos que a encaravam.

- É aqui que eu moro.

Brittany apenas sorriu e assentiu. Ela não estava em posição de questionar uma mão estendida e, na verdade, ela nem queria. A mesma sensação estranha que ela tinha desde que conhecera a médica – de que podia confiar cegamente nela – persistia no fundo da sua mente. Era uma aposta que ela estava disposta a pagar para ver.

A expressão de Brittany se suavizou e Santana conseguiu voltar a respirar. Até ali, a reação dela tinha sido melhor do que o esperado. Agora ela tinha que levar a garota para seu quarto e ver como as coisas ficariam.

As duas saíram do carro e Santana entregou a chave para o manobrista enquanto pendurava a alça da mochila de Brittany no ombro.

Pelo canto do olho, Santana notava que Brittany olhava em todas as direções, absorvendo o máximo do ambiente. A médica sorriu. Ela gostava disso na garota. Era como se ela tivesse uma curiosidade por tudo o que a cercava, mesmo as coisas mais comuns se tornavam incríveis quando observadas por ela. E era exatamente assim que Santana se sentia quando estava na mira daquele par de olhos azuis: uma coisa banal que se tornava na mais espetacular do planeta.

A sensação de ser vista de verdade por alguém, fez com que algo que Santana julgava morto há muito tempo, acordasse. Algo que ela podia jurar que tinha matado antes mesmo da faculdade. Algo com o qual ela não sabia e não queria lidar. Era como uma onda que tomava conta do corpo da médica e a fazia se sentir uma adolescente de novo. Apenas uma garota assustada, com sentimentos fortes demais para caberem no próprio peito.

Os movimentos de Santana até o elevador eram automáticos. Ela estava perdida demais em tudo o que se passava no seu mundo particular para prestar atenção no ambiente que a cercava. Brittany seguia dois passos atrás, notando a arquitetura, a decoração do lugar e o movimento sutil dos quadris de Santana quando ela andava. Depois de anos trabalhando como dançarina, ela poderia jurar que nunca tinha visto movimento mais bonito.

O elevador chegou com um toque agudo e Santana prendeu a porta para que Brittany entrasse primeiro. Algo na loura fazia com que todas as células cavalheirescas que ela não deveria ter entrassem em ação.

Dentro da caixa de metal, o espaço era pequeno e o ar rarefeito. Era quase impossível ficar ali dentro sem reparar na pessoa ao lado. Brittany notava a fina ruga de preocupação que Santana tinha bem entre as sobrancelhas e a maneira como a médica mantinha as costas eretas, sempre rígida, sempre pronta para um embate. Apesar disso, havia uma mistura de doçura com tristeza nos olhos dela que a dançarina ainda não tinha conseguido desvendar.

Do outro lado, a morena notava o brilho dos cabelos louros debaixo da luz fluorescente do elevador, a linha elegante do pescoço e o jeito como a garota parecia não conseguir parar por nenhum segundo. Mesmo de pé, dentro de um elevador, alguma parte do corpo de Brittany precisava estar em movimento. Era como se a energia que corria em suas veias fosse forte demais para a total imobilidade.

Cada vez que olhos castanhos e azuis se encontravam, um sorriso brotava nos rostos e um calor esquentava o coração das duas. Fazia pouco tempo que se conheciam, mas era uma companhia boa.

Finalmente, décimo andar. Novamente, Santana jogou o braço na frente da porta para que Brittany passasse. Quando a loura virou na direção da outra para agradecer com um sorriso, a luz do corredor refletiu exatamente no dedo anelar da mão esquerda de Santana. Uma aliança. Não tinha como confundir o que era aquele anel e o que ele significava. Uma aliança na mão esquerda. Então, Santana era casada. A descoberta deste detalhe da biografia da médica caiu como uma rocha sobre o coração de Brittany. Claro que as duas quase não tinham conversado sobre suas vidas pessoais e ela não tinha nenhuma razão para acreditar que a médica fosse solteira, mas uma ponta de esperança começou a surgir diante de todo o cuidado que a latina parecia lhe dispensar. Certamente, não era o cuidado normal de um médico. E agora, um único aro de metal acabava com uma possibilidade que ainda nem havia começado.

Santana sacou a chave do seu quarto do bolso, alheia à maneira como Brittany estudava sua mão, seu rosto e seus movimentos. A concentração da médica estava toda voltada para o que as esperava do outro lado da porta e a reação de Brittany.

Ela abriu a porta e entrou primeiro no quarto, procurando pelo interruptor. As luzes se acenderam no mesmo momento em que Santana ouviu o barulho da porta. A médica se virou para ver a reação de Brittany.

- Bom, essa é a minha casa – disse com um sorriso quase envergonhado.

- Aconchegante?

As duas se encararam por alguns segundos antes que caíssem em gargalhadas. De repente, toda a tensão que Santana tinha sentido desde que saíram do apartamento de Brittany fugia de seu corpo. Ela ainda não sabia como iria fazer para resolver a situação da acomodação, mas pelo menos a dançarina não parecia muito assustada. Isso era bom, certo?

- Como você pode ver, eu tenho só uma cama e uma poltrona extremamente desconfortável. Eu vou descer e conversar com o gerente, para ver o que eu consigo resolver. Enquanto isso, se você quiser tomar um banho, o banheiro fica atrás daquela porta.

A frase foi dita de uma só vez. Santana tinha medo que Brittany recobrasse a consciência e decidisse que aquela não era uma ideia tão boa no final das contas. A dançarina avançou dois passos, se colocando bem a frente de Santana e pousando uma das mãos no braço nu da médica. O toque da pele macia da loura queimava a pele da morena.

- Está tudo bem, Santana. A gente dá um jeito.

A voz de Brittany era doce, como a de uma mãe cantando cantigas de ninar para um bebê. E era assim que Santana se sentia na frente dela: um bebê ao mesmo tempo frágil e protegido. Era uma sensação nova para a médica, mas nem por isso ruim.

A médica engoliu em seco e apenas assentiu com a cabeça, ela não conseguia confiar que sua voz não iria falhar caso tentasse falar.

Depois de garantir que Brittany estava bem acomodada, Santana saiu do quarto a procura do gerente. Depois de alguns meses morando naquele hotel, pagando uma taxa mensal ridiculamente alta, era de se esperar que ele fizesse de tudo para acomodar as necessidades de uma de suas melhores hóspedes.

Ou era isso que ela achava.

- Eu lamento muito, Dra. Lopez, mas o hotel está completamente lotado. Estamos recebendo uma convenção de dentistas e todos os quartos estão ocupados. Não há nada que eu possa fazer pela senhora.

Uma onda de raiva e nervosismo tomou conta de Santana. Por que ela tinha resolvido trazer Brittany para ali? Por que ela não ligara para o hotel antes? Por que uma estúpida convenção de dentistas tinha que estar acontecendo bem naquela semana? Por que a dançarina que tomava banho no seu quarto era capaz de tirá-la do sério daquele jeito?

A última pergunta apareceu sem convite na cabeça de Santana e ela se sentiu, de repente, sem chão. Aquele não era o momento para questionamentos existenciais. Ela tinha um problema bastante real que precisava ser resolvido. Voltando novamente seu melhor olhar de Satã Lopez para o gerente, a médica quase conseguiu ouvir o coração do homem acelerar no peito. Ela gostava de causar aquele efeito nas pessoas, gostava do respeito.

- O que eu posso fazer, doutora, é ver se nós ainda temos alguma cama de armar livre. Eu vou pedir para um dos rapazes verificar e levar para a senhora.

- Ótimo. Eu também preciso de outro cartão-chave.

- Claro, claro. Eu vou fazer agora mesmo.

Com o novo cartão de acesso guardado no bolso, Santana caminhou em direção aos elevadores para subir os dez andares que a separavam de Brittany. No caminho, ela passou em frente às portas que davam para o bar do hotel. O cheiro característico do lugar – uma mistura de álcool, amendoim e desespero – atingiu as narinas da morena em cheio. Era um cheiro familiar, como de uma casa em que se morou durante a infância. Santana chegou a cogitar a possibilidade de entrar ali e pedir uma bebida. Uma só. A mais forte. A de sempre. Mas abandonou logo a ideia. Ela precisava estar sóbria para não fazer nada de que pudesse se arrepender. Mesmo que esse arrependimento fosse o que ela mais quisesse no momento.

***

- Santana, posso fazer uma pergunta?

Depois de um jantar silencioso no próprio quarto, Brittany e Santana assistiam televisão. Ou melhor, é o que elas tentavam fazer para ocupar suas cabeças com outras coisas que não fossem a mulher sentada a menos de cinco metros de distância.

Desde que voltara para o quarto, a médica tinha feito um esforço monstruoso para se manter ocupada e não notar que Brittany vestia apenas um short de malha e uma camiseta preta. Ou que seus pés estavam descalços e que seus passos eram tão leves que ela mal podia ouvi-los. Ou como ela fazia pequenos barulhos no fundo da garganta enquanto comia, como se aquele prato fosse o melhor que já tivesse provado. Ou como as pequenas risadas que ela dava ao assistir ao filme que passava eram o som mais bonito que a morena já ouvira. Não, Santana não podia notar nenhuma dessas coisas. Não era certo e ela não devia. Por isso, ela se mantinha sentada na poltrona – talvez a mais desconfortável já fabricada –, pernas cruzadas, coluna reta, rosto apropriadamente voltado para a televisão ligada. Santana estava em estado de permanente vigilância. Ela tinha medo que um único segundo de descuido pudesse significar uma besteira maior do que estava preparada para enfrentar.

Acontece que quando alguém se coloca num estado de auto-vigilância tão forte, dificilmente ela percebe o que está acontecendo fora da sua redoma. E o que Santana não percebia é que Brittany estava tão incomodada com a situação quando ela. A dançarina tinha milhões de perguntas dançando em sua língua, querendo ganhar voz, e a cada minuto ela olhava de esguelha para a latina que parecia se manter concentrada no filme, procurando uma abertura, uma maneira de dar voz a todos os questionamentos que tinham nascido quando elas chegaram ao hotel.

Da primeira vez que Brittany olhou para Santana – apenas com o canto dos olhos, para que a outra não percebesse a intromissão –, ela achou que aquela era uma posição estranha para se assistir a um filme. Mas, também, ela mal conhecia a médica e deixou para lá. Na segunda, a latina tinha o lábio inferior entre os dentes e parecia concentrada no que quer que os personagens estivessem falando na tela. Era o mesmo tipo de foco que Brittany via nos olhos castanhos durante todas as vezes em que elas conversaram. Naqueles breves momentos, a latina fazia com que a dançarina acreditasse que não havia mais ninguém no mundo além dela.

Em todas as treze vezes seguintes em que Brittany se arriscou a olhar para Santana, a morena continuava na mesma posição. Não fosse um gesto repetitivo com os dedos da mão esquerda – certamente um tique nervoso, pensou Brittany –, a dançarina teria achado que a outra tinha dormido durante o filme. Mas, ao mesmo tempo, cada vez que ela movia a mão esquerda de um jeito específico, a aliança dourada refletia a luz do quarto e a dançarina se lembrava de todas as coisas que ela queria saber sobre aquela mulher.

Quando finalmente os créditos começaram a aparecer na tela e Santana ainda não tinha se movido, Brittany achou que não podia adiar mais. Pelo que ela tinha conseguido perceber, a situação parecia tão estranha para Santana quando para ela.

- Santana, posso fazer uma pergunta?

A voz de Brittany, tão perto, assustou um pouco a médica. Santana estava perdida em seus pensamentos e sentiu que deu um pulo na poltrona quando a dançarina a chamou. Olhando para a loura, ela encontrou novamente os olhos azuis que traziam tanta calma e que, ao mesmo tempo, lhe tiravam o que restava do seu juízo. Concentrando toda sua energia, ela colocou um sorriso débil no rosto antes de responder.

- Claro, Brittany. O que você quer saber?

- Por que você mora em um hotel?

Tudo bem. De todas as perguntas que Brittany poderia fazer, até que aquela não era das piores. Santana pensou por um tempo, considerando até que ponto da verdade ela estava disposta a revelar. Decidiu por ser direta, poucos detalhes seria melhor.

- Achei mais prático. Eu passo tão pouco tempo em casa e a minha rotina com o hospital é tão maluca, que eu achei mais fácil morar num lugar em que eu não tenho que me preocupar com um monte de coisas – pontuou a última frase com um movimento de ombros, como se não fosse nem um pouco estranha aquela situação.

- Até pode ser mais prático, mas é tão impessoal.

- Como assim?

- Bom, você não tem nada realmente seu aqui. Você não escolheu a mobília, não tem foto de viagem, nenhuma recordação. E eu aposto que você odeia aquele quadro na parede.

Santana olhou para a imagem que Brittany apontava. Era uma daquelas imagens genéricas que hotéis compravam em quantidade e penduravam nos quartos, tentando trazer um pouco de familiaridade para o ambiente, mas que acabavam tornando o lugar ainda mais deprimente. Santana riu quando se lembrou de que tinha detestado a imagem desde a primeira vez que entrou ali. Alguma coisa na mistura das cores era capaz de provocar ânsia de vômito na médica, em alguns dias. Ela até tinha pensado em pedir par o gerente tirá-lo dali, mas depois, como costumava fazer, ela se acostumou com sua presença e aprendeu a não olhar na direção do quadro quando andava pelo quarto.

- É, eu realmente não gosto desse quadro – falou ainda rindo um pouco – Mas morar aqui até que tem as suas vantagens.

- Por exemplo...

- Eu posso fazer a bagunça que eu quiser que alguém vai arrumar no dia seguinte.

- Santana, você saiu do banho com a sua roupa perfeitamente dobrada. Depois que trouxeram essa cama de armar, você reposicionou os lençóis. Os seus cremes estão organizados por tamanho na pia. Algo me diz que você não tem muito problema em manter as coisas arrumadas por conta própria.

- Tudo bem, eu concordo que eu posso ser um pouco exagerada com a minha organização, mas é bom não ter que me preocupar com isso. Além do mais, nem todo mundo consegue viver num quarto pós-explosão nuclear como você.

- Santana!

A médica apenas levantou uma sobrancelha e Brittany abaixou a cabeça, rindo e concordando ao mesmo tempo.

Mais cedo, quando ainda estavam no apartamento da dançarina, o detetive acompanhou as duas até o quarto de Brittany para se certificar de que o cômodo não tinha sido invadido para que a loura pudesse pegar algumas roupas. No momento em que Santana viu o que tinha ali dentro, ela teve certeza de que quem quer que tivesse invadido o apartamento tinha entrado ali também. Nada parecia no lugar. A cama não havia sido feita e uma pilha de roupas disputava espaço com os travesseiros. No canto, apenas o topo do encosto de uma cadeira era visível por baixo de uma montanha de mochilas, roupas, sapatos e vários outros objetos que a médica nem tentou entender.

O quarto inteiro estava daquele jeito e ela olhou com cautela para Brittany, com medo de que o choque de ter o seu quarto destruído pudesse ser demais para ela. Mas o que Santana viu foi um sorriso enorme e um olhar de alívio. Até que a dançarina apenas olhou para o detetive e falou, “Está exatamente como eu deixei”.

- Você até tem razão, minha casa é um pouquinho bagunçada – Santana olhou novamente para Brittany que riu. – Tudo bem, bastante bagunçada. Mas pelo menos ela tem a minha cara. As pessoas entram lá e sabem que alguém realmente mora lá. Mais ainda, elas sabem que eu moro lá. Isso aqui não é muito diferente daquele quarto de hospital em que você me colocou.

Santana olhou em volta e precisou concordar. Quartos de hotéis e de hospitais até que tinham suas semelhanças e, até aquele momento, era exatamente isso que a atraía naquele quarto específico. Aquela sensação de impessoalidade quando ela entrava, como se ela tivesse a permissão para não ser ninguém, para não ter um passado por um tempo. Mas agora, olhando para aquelas paredes pelo olhar de Brittany, Santana percebia como aquilo era vazio. Como a sua própria vida era vazia.

- Acho que você tem razão. Mas eu ainda não sei por quanto tempo eu vou ficar na cidade, então não quero assumir nenhum compromisso antes de decidir – era a melhor meia-verdade que ela podia encontrar naquele momento.

- Entendi. E isso tem a ver com o seu marido?

Se Santana estivesse fazendo qualquer tipo de movimento, ela com certeza teria errado o próximo passo. Aquela era a última pergunta que ela esperava ouvir de Brittany e ela tinha certeza de que sua cara devia denunciar o susto. A médica se virou para a dançarina com um pouco mais de velocidade do que gostaria e sua voz era um pouco falha quando perguntou:

- Marido?

- Eu reparei na sua aliança. Ela costuma significar casamento, não?

Brittany tinha novamente aquele brilho curioso nos olhos, mas dessa vez Santana não conseguia identificar o que mais havia naquele olhar. Desviando os próprios olhos das poças azuis, a médica esticou um pouco o braço esquerdo, encarando a aliança enquanto a rodava no dedo com o polegar.

Depois de tanto tempo, ela às vezes se esquecia de que ainda usava aquela estúpida lembrança de um passado imperfeito. É como se aquele anel já fizesse parte dela, parte da armadura que ela usava todos os dias. Santana não sabia por que não tinha se livrado daquilo e saber que Brittany tinha reparado fazia com que a jóia pesasse toneladas.

- Costuma. Costuma significar casamento sim – ainda encarava o próprio dedo quando conseguiu responder.

- Ai, Santana, desculpa. Eu não quis me intrometer. Acho que eu passei do limite, né? Você está sendo tão legal comigo e eu aqui te enchendo de perguntas. Desculpa mesmo, eu não quis ser indiscreta. Você não tem que responder nada. Na verdade...

- Brittany? Brittany? Tá tudo bem. Eu falei que você podia perguntar.

- Eu sei, mas é que não é da minha conta – a culpa que Brittany sentia manchava suas palavras.

- Não tem problema – ela respirou fundo antes de continuar a falar. – Eu fui. Eu fui casada. Por três anos, mas eu não sou mais. Ele morreu há um ano.

Santana deixou que as palavras pesassem no ar por um tempo. Ela e Brittany se encaravam sem saber o que dizer depois daquela revelação. Aquela não era a resposta que a dançarina estava esperando e a médica nunca tinha imaginado revelar tanto de si para uma pessoa que mal conhecia. Mas depois de levar a loura para dentro do mais próximo que ela tinha de casa, Santana começava a achar que tinha poucas coisas que ela não contaria para Brittany.

Ela rodou a aliança no dedo mais uma vez antes de se levantar e caminhar até o banheiro. Aquela conversa havia roubado qualquer noção de sono que Santana pudesse ter naquele momento, mas ela precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa que a tirasse da frente de Brittany. Porque ela ainda não estava preparada para a vontade quase incontrolável que nascia no seu peito de deitar a cabeça no colo da loura e de contar para ela tudo o que tinha acontecido, cada detalhe doloroso, cada passo errado. Tudo o que ela queria era sentir os dedos longos passeando entre seus cabelos, mas aquela vontade a assustava e ela precisava de distância.

- Eu sinto muito, Santana – a loura tinha a voz baixa, um pedido de desculpas velado.

- Não precisa, mas eu não quero mais falar sobre isso.

***

Dentro da escuridão que imperava no quarto, nenhuma das duas mulheres conseguia dormir. Brittany ainda conseguia ver o rosto de Santana, encarando a aliança no dedo e se perdendo em alguma lembrança dolorosa demais. A dançarina nunca tinha sido casada, mas ela já tinha terminado relacionamentos e sabia que aquilo doía. Mas o que ela vira nos olhos castanhos era mais do que a tristeza de perder alguma pessoa amada. Tinha algo mais ali do que a médica estava disposta a compartilhar.

Na cama de casal, Santana se revirava entre os lençóis. A pergunta de Brittany a tinha feito se lembrar de vários fantasmas que ela julgava exorcizados. Depois de um ano usando aquela aliança sem necessidade, o significado daquele gesto a tinha atingido em cheio no peito. Mas, mais do que isso, a conversa com Brittany a estava fazendo reavaliar todas as decisões recentes que ela tinha tomado. Santana não sabia muito bem por que, mas a visão que a loura parecia ter da vida estava influenciando a maneira como a médica olhava para a sua. E ela não estava gostando do que via.

A sua volta para aquela cidade, sua decisão de morar num hotel, sua maneira de lidar com os problemas, sua resolução de se manter afastada de qualquer um que pudesse machucá-la. Tudo o que ela tinha feito e pensado nos últimos anos foi passado em revista e, pouco antes do sol aparecer no horizonte, Santana tomou uma decisão. Tinha uma coisa que ela tinha ido fazer naquela cidade, uma coisa a trouxe de volta até ali e já era tempo de parar de adiar.

Amanhã.

Amanhã ela iria, finalmente, na casa dos pais.