Os olhos do amigo ficaram róseos novamente. O grito desesperado de Omne despertou novamente a consciência do alquimista por poucos segundos, mas foi tempo suficiente para que ele tomasse os lábios dele para junto dos seus. Foi quando o garoto começou a rebater-se, e saiu dos braços de Omne. Os olhos ficaram vermelhos novamente, e o controle sobre ele parecia ter sido novamente estabelecido. Porém, para a surpresa de Tenebra, o garoto foi mais forte. Tendo novamente domínio sobre si mesmo, o alquimista cai ao chão, enquanto o miasma deletério exala de seu corpo, aglomerando-se atrás dele em forma de uma enorme massa de escuridão condensada, que ficava cada vez maior e mais disforme. Omne corre em direção a Noah e ajuda-o a se levantar do chão, enquanto se afastavam lentamente da concentração de obscuridade a frente deles. O céu estava vermelho, com nuvens negras que circundavam em torno de Tenebra, com relâmpagos e raios.

O medo tomava conta de ambos, mas Noah que, mesmo possuído, estava ciente do que se passava, sentia-se na obrigação de derrotar novamente o homúnculo corrompido, para limpar a honra ao nome de sua família. Omne e Noah entreolharam-se, e entenderam que a hora para conversas deveria ser deixada para depois, caso sobrevivessem. Tinham um assunto mais importante no momento e que precisava ser tratado com urgência.

Tenebra parecia estar ignorando completamente a existência das duas criaturas insignificantes e começou a conjurar o poderoso feitiço de abertura do portal, afinal, não precisava do consentimento de Omne, a mera presença dele já tornava possível a execução do feitiço.

Noah e Omne aproveitaram o tempo para tentar detê-la. O homúnculo avançava e desferia os ataques com o máximo de força que conseguia, com os tipos mais variados de armas de seu arsenal, cujo limite era a sua criatividade para moldagem. O alquimista corria em volta da criatura colossal, enquanto pegava os mais diferentes tipos de frascos inflamáveis dentro de sua bolsa mágica de compartimento infinito, causando diversas explosões. Todo o esforço, porém, parecia não resultar em nada. Qualquer golpe desferido contra aquele amontoado de maldade e escuridão não fazia o menor efeito. O homúnculo tentava mudar as táticas de afrontamento, disparando cristais, e os mais diversos tipos de minerais pontiagudos à distância, também sem efeito. Nem mesmo o compartimento infinito da bolsa de Noah teve armamento suficiente para causar algum estrago, e resolveu, também, mudar seus métodos.

— Bombakadabra! – gritou, espalhando sua areia mágica ao seu redor.

Enormes esferas multicoloridas feitas de energia cintilavam ao rasgar o céu, em alta velocidade, em direção à criatura nefasta. Cortaram como lâminas ao encontrar seu alvo, além de causarem diversas explosões arcanas. Um líquido negro e viscoso era expelido para diversos lugares, porém, instantaneamente, ela se regenerava. O feitiço de portal não iria demorar muito mais tempo para se completar. Noah já sabia o que tinha que ser feito. Não conhecendo o feitiço de selamento, a única saída seria fazer uma troca para que a criatura fosse morta. Sua vida em troca de outra. Era o preço equivalente a ser pago.

Iniciou rapidamente o desenho do círculo de transmutação e fez o feitiço. Um círculo mágico foi invocado logo à sua frente, e ele sabia que ao entrar nele, tudo aquilo estaria acabado, inclusive sua vida.

— Você não pode fazer isso! – disse Omne, agarrando Noah por trás, pelos braços.

— É o único jeito! – o alquimista fez força e se livrou das mãos do homúnculo, correndo em direção ao círculo, quando sentiu sua mão sendo agarrado, e sendo puxado de volta em direção à Omne, que o abraçou e olhou nos olhos.

— Existe outro jeito.

— Esse é o ún... Aah! – o homúnculo empurrou o alquimista, que caiu no chão, e andou em direção ao círculo, olhou para trás e fez um sorriso de “até logo”. – Não!!