How To Make A Friend
1 Capítulo 1
O sol estava no ápice e já se passava um pouco da hora do almoço. Sentia-se no ar o cheiro de tortas recém-saídas do forno, postas à janela para esfriar. As mães colocavam a mesa enquanto seus maridos, famintos, mal podiam esperar para comer repetidas vezes, até mesmo queimando suas línguas tamanha fome sentiam. Os jovens saíam apressados da escola, ansiosos para chegarem a suas casas, fazerem suas tarefas e tirarem o resto do fim da semana de descanso e brincando nas ruas ou nos campos nos arredores da cidade.
Enquanto caminhava, meio afadigado como de costume, enquanto todos os outros garotos da escola pareciam não notar a sua existência, esbarrando em sua pessoa a todo o momento, os vendedores e comerciantes pareciam fechar a cara ao vê-lo passando. As mães com suas crianças no colo tapavam-lhe os olhos e as pessoas em suas casas fechavam as janelas. Parecia ser um tratamento um tanto quanto hiperbólico para um jovem com pouco mais de dezesseis anos, mas era assim pelo menos nos últimos sete anos. Desde o acidente do “fogo negro” que arrasou grande parte da cidade e resultou na morte de seus pais, os famosos Zeppenfeld, as pessoas olhavam para Noah com desdém. Talvez receosas de que a prole dos dois falecidos alquimistas pudesse provocar outro incêndio de potencial igual ou pior ou talvez apenas por antipatia ao garoto tímido e que mal esboçava um sorriso, mas o fato é que ele tinha aprendido a ignorar isso tudo. E assim o fazia desde que seus pais morreram. Chegando a sua casa, em uma alta colina, um pouco afastada do resto da cidade, o jovem alquimista podia desfrutar de momentos de tranquilidade e relaxar, esquecendo-se do estresse e dos olhares feios em cima dele, enquanto fazia coisas de seu agrado. Ao fundo de sua casa, regava e cuidava das plantas e alimentos geneticamente modificados, em sua grande estufa, antigamente pertencente a seus pais, que realizavam algumas experiências. Na parede de seu quarto, os mais diferentes exemplares de insetos exóticos taxidermizados, com breves descrições e informações a respeito dos mesmos. Não havia muito que fazer. Ora regava com apreço suas fabulosas plantas carnívoras, ora desenvolvia alguma substância química sintética para ajudar no desenvolvimento delas, ou apenas misturava aleatoriamente em alguns tubos de ensaio diferentes líquidos para ver o resultado daquilo tudo. Algumas vezes, com a ajuda de suas videiras que pareciam ter consciência, Noah subia em seu telhado e ficava horas mapeando os planetas e as constelações. Também gostava de colocar o pequeno cristal preso a um cordão que usava como colar – presente deixado por seus pais, que diziam que o fragmento era ingrediente de alguma coisa de extrema importância, que nunca lhe contaram o que era – em alguma fonte de luz, para admirar seu brilho. Mas o que fazia mais do que tudo relacionado à química, biologia ou astronomia era sonhar acordado. Era muito desatento, talvez pelo fato de que ficava imaginando infinitas maneiras de como gostaria que fosse sua vida. Não era muito fácil viver sem a presença de seus pais, rodeado de plantas e livros dos mais diversos assuntos. Encontrava aconchego em tudo o que fazia por se tratarem de lembranças visuais do que observava seus pais fazendo em seu dia-a-dia, era algo magnífico e de encher os olhos, porém sentia muita falta de ter alguém com quem pudesse conversar. Mas, do que adiantaria alguém para conversar se ele não tinha nada sobre o que conversar? Mais do que alguém que servisse de ouvinte, Noah precisava de alguém que fizesse coisas com ele, que mostrasse a ele as possibilidades que a vida tinha a oferecer, alguém para levantá-lo quando caísse, alguém que... O amasse. Mas assim que era afogado por seus sentimentos e desejo de alguém ao seu lado, Noah tratava logo de tomar um pouco de sua poção do sono, desenvolvida por ele mesmo, e dormia em qualquer lugar que estivesse. Se fosse para ficar sonhando, que pelo menos fosse enquanto dormia. Do que adiantam os sonhos se ele não havia como arranjar um jeito de torná-los realidade? Pelo menos assim, ele estava ajudando seu corpo a se recuperar e não fazia algo completamente inútil. Não gostava nada desse método de “abafar” seus sentimentos, mas era um modo eficaz para evitar o sofrimento.
Notas finais
Espero que gostem.
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