How Soon Is Now?
1 Capítulo Único
Notas iniciais
James sempre se considerou alguém cético, a dúvida sempre fora algo presente em sua vida desde os primórdios de sua infância, quando sua mãe lhe contou sobre o deus justo e onipotente que regia a vida das pessoas e ele se negou a acreditar em tamanha sandice.
Mas agora ele estava prestes a tomar uma das decisões mais importantes de sua vida baseando-se no conselho daquela cigana, de lábios roxos e olhos que pareciam os de um felino a espreita, do circo que ele visitou com seus amigos no seu último verão antes da faculdade. Ele nunca esqueceu aquele momento em que os olhos dela encontraram os dele em meio a seus amigos, a estranha sensação que aquilo havia lhe causado e principalmente o que ela havia dito a ele com um sorriso que lhe fazia parecer o Gato de Cheshire.
“Você não encontrará quem procura aqui nesse lugar.”
Todos os seus amigos riram dos dizeres da cigana. Apenas Lílian, a garota a quem ele namorava na época, teve coragem de dizer que James já havia encontrado seu amor, obviamente ela. A mulher apenas a ignorou.
Por anos ele tentou se convencer de que era com Lílian que ele deveria construir sua vida, ele não a amava mas sua presença quase opressora lhe fazia esquecer das palavras da mulher dos lábios roxos. Quando Lílian o abandonou, foi impossível não pensar nas palavras da cigana. Ele ainda achava tudo aquilo uma baboseira, mas em seu íntimo ele sabia que estava a procura de alguém, por mais que ele não tivesse nem uma pista sobre essa pessoa, nem mesmo uma idealização, afinal ele era bom com números, não com sonhos.
Na época em que James aceitou a propostas para ir lecionar matemática em uma escola britânica, todos a sua volta o criticaram por abandonar tudo aquilo que ele tinha para ir se aventurar em um país estranho. James só pensou na ironia da situação, era irônico mudar radicalmente de vida devido à palavras que lhe foram ditas por uma cigana, em uma época em que ele não sabia quase nada da vida. Ele nunca teve a coragem de contar para sua mãe ou para seus amigos o verdadeiro motivo por trás de sua mudança, seria um choque para eles. James preferia deixar que todos pensassem que suas razões estavam ligadas ao abandono de Lílian.
Não foi no primeiro dia, nem no primeiro mês, um ano se passou e ele ainda não havia começado a pensar nas formas para encontrar a pessoa a quem a cigana se referia. Às vezes James pensava que talvez ele ainda não estivesse no lugar certo, mas ele gostava da solidão proporcionada por Londres. O homem já não suportava mais pessoas como Lillian, pessoas que se acreditam donas das outras, mas que depois as descartam como roupas velhas que já não lhes servem mais.
Caminhar pela cidade sem rumo havia se tornado um hábito, levar um guarda-chuva consigo ainda não e em meio a uma tempestade, ele se viu obrigado a procurar abrigo dentro de uma uma pequena loja. James havia passado milhares de vezes pela região, mas nunca prestou atenção ao lugar, as coisas vendidas ali não eram de seu interesse, na verdade ele jamais entraria ali em condições diferentes. As poucas prateleiras que a loja possuía estavam cheias de pedras coloridas, pequenas peças de metal, plantas e livros velhos; era um ótimo clichê dessas lojas com artigos para “bruxaria”, empoeirada e sombria.
James já estava prestes a sair quando a luz de um raio iluminou o ambiente, alguém se assustou com o barulho consequente e ele se virou em direção a pessoa.
“Oh, desculpe-me. Você parecia tão concentrado e eu não queria atrapalhar, mas eu tenho um pouco de medo de trovões.” Uma moça atrás de um balcão disse.
“Eu...eu gosto deles na verdade.” Ele respondeu um pouco constrangido.
“Então você tá procurando algo relacionado à, deixe-me pensar...Zeus, o deus do trovão grego; ou talvez Taranis, o deus do trovão cultuado na Gália...Não, você jeito de quem procura por Thor.” Ela disse mais pra si mesma e então saiu de trás do balcão para procurar algo.
“Eu já estava de saída.” James disse um pouco sem graça. “Eu não...eu não acredito em nenhum desses deuses. Na verdade, eu só entrei aqui por causa da tempestade.”
A moça riu.
“Por que você quer ir se ainda está chovendo ?” Ela perguntou enquanto colocava uma um pingente de pedra azul marinha em um cordão de couro. “Muita gente se sente embaraçada na primeira vista à minha loja, é difícil admitir que se acredita em deuses e rituais esquecidos por nossa era.”
“Viver no ceticismo é que é realmente difícil, a nossa sociedade está cheia de ídolos, respostas mirabolantes são inventadas para fatos da natureza, tudo isso para que o ser humano se sinta especial. A dúvida é dolorosa.” Ele respondeu empolgado, sem perceber que agora ela estava a menos de um passo de distância dele.
James soube que ela era mulher mais bonita que ele já havia visto.
“Como é seu nome, senhor ceticismo ?” Ela se ergueu nas pontas dos pés para colocar o cordão no pescoço dele.
“James, James Bell.”
“Prazer, James Bell. Eu sou Loren Moon.” Ela estendeu a mão para um aperto. “Vamos fazer um acordo, eu te conto um segredinho meu e você me conta um seu.”
“Eu só te conheço a dez minutos.” James disse como se ela fosse louca.
“Não é como se eu estivesse te pedindo pra me contar qual é a sua senha do banco. O que eu quero dizer é que eu vou te contar um segredo meu relacionado a crença e você um sobre o ceticismo.” Loren explicou. “Eu começo, quem sabe você entenda o que eu quero dizer. Eu não acreditava em nada disso há alguns anos, eu era uma pessoa como você, eu estudava física em Bristol, até conhecer a antiga dona dessa loja, Francis era o seu nome. Ela mudou totalmente a forma como eu enxergo o mundo.”
“Essa possibilidade nunca passaria pela minha cabeça.” Loren riu.
“Parece que parou de chover, é melhor você aproveitar a oportunidade para chegar em casa seco.” James sabia que não conseguiria contar a Loren sobre a Cigana e ficou grato pelo que ela fez. Só ao chegar em casa, ele percebeu que não havia pago pelo colocar, agora ele teria que voltar àquela loja tão peculiar e estava feliz por isso.
James não sabia quanto tempo esperar até a próxima visita, ele conseguiu se segurar por uma semana, porque não queria parecer afobado, ou qualquer coisa que Loren poderia pensar dele.
“Eu sabia que você voltaria.” A moça disse assim que ele entrou na loja.
“Mas…”
“Você esqueceu de pagar pelo colar.” Loren respondeu apontando para o pescoço dele. “Mas antes que você diga alguma coisa, ele é um presente, eu só não avisei antes porque queria que voltasse.”
“Muito espertinha você, mas eu ainda acho que devo te pagar.”
“Eu estou morrendo de fome, você pode me pagar um almoço e me deixar ver quão bonito você é por trás dessa máscara de ceticismo.”
“Acho justo, mas você vai perceber que eu não uso nenhuma máscara. Eu sou essa criatura na sua frente.”
“Vamo nessa então, Gollum.”
James a levou em um pequeno bistrô italiano que ficava perto de seu apartamento e lá Loren lhe contou sobre como foi difícil abandonar a vida que ela estava construindo para ir atrás do que acreditava. Ela lhe contou que todos a sua volta lhe viraram as costas quando ela decidiu abandonar tudo.
“Depois disso, a Francis passou a ser minha família, eu ainda sinto muita falta dela.”
A forma sincera como Loren lhe contou sua história deu coragem a James para se abrir a respeito de como se sentia sobre as pessoas, pela primeira vez ele conseguiu ter uma conversa sincera com alguém a respeito de como se sentia sobre seu relacionamento mal sucedido com Lilian. E de repente contar a Loren sobre a Cigana e o que ela tinha dito a ele parecia a coisa certa a se fazer, foi como tirar um peso de suas costas.
oOo
Na terceira vez em que eles se encontram, James abriu a porta antes de Loren apertar a campainha.
“Você acha que ainda é muito cedo ?” Ela perguntou.
“Não, nem um pouco.” James respondeu e os dois se beijaram ali, na soleira da porta, ela do lado de fora e ele no de dentro.
Mais tarde, quando seus corpos estavam entrelaçados como se fossem um só, ele não teve mais dúvida de que era ela a pessoa por quem ele sempre procurou.
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