Era verão no Canadá quando eles voltaram de uma longa turnê. Tinham passado um ano inteiro longe do país e tudo o que eles queriam agora era chegar em casa e rever os familiares e os amigos, para matar as saudades e pôr a conversa em dia. Verão era época de festas em Montreal e todos estavam loucos para se divertir nesses meses em que ficariam de férias. Chuck era o mais animado dos cinco:

–É isso aí, rapaz! Agora é só curtição. Vamos sair hoje à noite para ver as gatinhas?

–Vai com calma, Chuck. A gente acabou de chegar e você já quer pegar umas gatinhas? — replicou Pierre para o amigo.

–Qual é, Pierre? Estamos de férias, cara! Temos mais é que aproveitar, não é mesmo, gente? – perguntou ele, animado, para os outros.

Os outros três concordaram e eles ficaram um tempo rindo de Pierre. Ele sempre fora o mais responsável dos cinco e eles não perdiam uma oportunidade para caçoar de sua caretice. Ás vezes Pierre se sentia sozinho. Seus amigos simplesmente não entendiam o que se passava com ele.

Quando ainda era criança, Pierre perdera os pais em um acidente de carro e, desde então, era sua irmã mais velha quem cuidava dele e da casa. Mas durante a sua adolescência, a irmã foi trabalhar na Europa e deixou Pierre sozinho na casa onde, antes, morava uma família feliz. Esses acontecimentos fizeram com que Pierre amadurecesse antes do tempo e se tornasse um cara mais responsável. Mas apesar da vida conturbada, ele se sentia feliz ao lado dos amigos e, quando estava cantando, era como se o mundo parasse e só existisse ele e a música. O Simple Plan, sua banda, era a sua alma e a sua vida.

Depois de algum tempo, os amigos de Pierre finalmente se cansaram de se divertir às suas custas e voltaram a falar das férias e das festas que eles pretendiam ir. David tinha tido uma ideia:

–Estava pensando em uma coisa diferente para fazermos.

–Lá vem o David com as suas ideias de jerico. — caçoou Jeff.

–Não é ideia de jerico! Eu só estava pensando que seria bom reencontrar o pessoal do colégio. Faz tanto tempo que não os vemos... Sei lá, seria bem legal encontrar a turma toda de novo.

–É... Até que dessa vez você usou os miolos. — ponderou Jeff.

–É, seria uma boa rever a gata da Eillen! — disse Chuck, com um sorriso malicioso nos lábios.

–Isso se ela não tiver virado uma baranga, gorda e cheia de celulite. — disse Seb, se divertindo.

–Ah, não mesmo! Fiquei sabendo que agora ela é uma modelo internacional. Está mais gata do que nunca! Isso sem falar nas amigas dela. Vocês se lembram, não é? Aquelas que andavam sempre com ela?

–Como não íamos lembrar? Elas faziam o maior sucesso no colégio. Mas vamos ter que organizar isso direito. Convidaremos todo o mundo, certo? — quis saber Jeff.

–Mas... Todo mundo você quer dizer até a Peggy? — David parecia surpreso.

–Claro que não! Quem quer a Peggy em uma festa? — adiantou-se Chuck.

–Mas Chuck, ela também fazia parte da nossa sala — argumentou Pierre.

–E daí?

–E daí que se vamos mesmo fazer uma festa para reunir o pessoal do colégio, eu não acho justo que a Peggy não seja convidada.

–Ah, nem vem Pierre! Você sabe muito bem como ela era, e depois, ninguém vai notar a ausência dela. Todo mundo a odiava.

–O Chuck tem razão, ela era muito estranha – apoiou-o David.

–Não David, era a gente que fazia com que ela se sentisse estranha.

– Pierre, eu não estou te entendendo — disse Chuck — vai ficar defendendo a Peggy agora? Ela nem conversava com ninguém da sala.

–Você já pensou que talvez fosse porque pegássemos pesado demais com ela?

–Eu sei lá, como vou saber o que se passava na cabeça daquela maluca? Escuta o que estou dizendo, Pierre, ela vai estragar tudo.

–Eu... Não sei Chuck, não gosto disso...

–Olha, não vamos começar a brigar por causa de uma bobagem dessas, vamos?

–Não, claro que não... Está bem, não chamamos a Peggy então — finalizou Pierre, contrariado.

Pierre lembrava-se muito bem de Peggy. Ela era bolsista no colégio onde eles estudavam e nunca falava com ninguém. Na época, Pierre não entendia o porquê disso, mas analisando melhor os tempos de escola, acabou percebendo que os colegas eram duros demais com ela. Viviam fazendo fofocas maldosas a seu respeito e quando ela chegava, sempre tinha alguém que lhe dizia alguma ofensa. Mas ela, em contrapartida, nunca respondia às provocações. Pierre tinha certeza de que ela só aturava aquilo tudo porque queria se formar e dar uma vida melhor para a família. E ele a admirava muito por isso. Talvez até mais do que devia. Queria encontrar-se com ela novamente para saber se tinha conseguido realizar o seu sonho. Talvez o tempo a tivesse transformado em uma pessoa diferente. Mas ele não tinha mais como saber.

***

Meia hora depois de os cinco rapazes saírem do aeroporto, um avião vindo direto dos Estados Unidos pousou na pista de desembarque e dele saíram duas amigas. Enquanto andavam com as malas, a mais nova delas dizia, em tom preocupado:

–Você tem mesmo certeza de que eu não vou atrapalhar?

–Bel, quantas vezes vou ter que dizer que você é mais do que bem-vinda na minha casa? – tranquilizou-a a mais velha.

–Só mais uma vez – tornou Bel, rindo.

–Você pode ficar o tempo que você quiser. E depois, é sempre bom ter alguém para dividir as contas.

–Eu nem sei como te agradecer por tudo o que tem feito por mim!

–É só você estudar muito e se formar. Essa é a melhor forma de me agradecer.

–Você tem sido tão generosa comigo, mas... Sei lá, é difícil começar uma vida nova em um país desconhecido, com pessoas desconhecidas.

–Eu sei que vai ser difícil no começo, mas você vai se acostumar com o tempo, o Canadá nem é tão diferente assim dos Estados Unidos.

–Mas e quanto aos seus pais? Será que eles vão gostar de mim?

–E tem como alguém não gostar de você?

–Hum, tem muita gente que não gosta de mim... Lá em Nova York diziam que eu era uma caipira.

–Isso é porque eles tinham inveja de você. Além do mais, será bom ter você lá em casa agora... Sabe, desde que meu irmão morreu meus pais ficaram muito solitários, e tendo você por perto os ajudará a suprir sua falta.

–Poxa, deve ser muito difícil para eles.

–Você nem imagina o quanto...

–Essa conversa já está ficando triste demais. Que tal um pouco de música?

–Desde que não seja do Simple Plan...

–O que você tem contra as músicas do Simple Plan?

–Contra as músicas nada. Mas tenho os meus motivos para não gostar dos integrantes da banda.

–Quais motivos?

–Essa é uma longa história. Na época do colégio, eles eram da minha sala e...

–Nossa! Você estudou com o Simple Plan?

–É, estudei... Mas não foi uma experiência muito agradável.

–Por que não?

–Porque eles não passavam de uns idiotas arrogantes. Achavam-se os donos do mundo e não podiam ver alguém que não fosse do "nível" deles, que logo davam um jeito de esse alguém se sentir um lixo humano.

–Nossa, eu não consigo acreditar que eles fossem realmente assim.

–Pois pode de acreditar, eu sei muito bem do que estou falando.

–Mas... Todos eles eram assim?

–Bem... Tinha o Pierre, mas... Esquece!

Peggy e Bel saíram do aeroporto e pegaram um táxi para a casa dos pais de Peggy. No caminho, foram fazendo planos para a nova vida no Canadá. Tudo o que elas não podiam imaginar era a surpresa que a vida estava preparando para ambas...