A casa ainda estava bagunçada. Peggy já tinha guardado grande parte das suas coisas, mas ainda não tivera tempo de colocar tudo no lugar. Pierre fez questão de ajuda-la, mas acabou atrapalhando mais do que ajudando. De certa forma, podia-se dizer que a mudança estava completa, apesar de Peggy ter deixado muitas peças de roupas na casa de seus pais. Sua mãe tentou argumentar de todas as formas possíveis, mas mesmo assim tinha sido muito difícil convencer seu pai. Até mesmo quando deixou a casa, Peggy achou que ele foi um tanto frio com ela. Decerto ainda estava magoado com a filha. Mas, apesar das dificuldades, os dois se sentiam felizes como nunca. Iam começar uma nova vida juntos, cheia de amor e carinho. Nada poderia dar errado. Nada poderia destruir a linda relação que eles tinham construído juntos.

-Você não quer deixar isso pra depois? – disse Pierre, puxando Peggy para si.

-Pierre! Eu tenho que terminar de guardar isso primeiro, olha só a bagunça que está aqui – disse, lhe mostrando o estado em que tinha deixado o quarto.

-Ah... deixa pra lá!

Pierre a abraçou, lhe beijando seu pescoço. Peggy sentiu seu corpo enternecer ao seu toque. Ainda tentou resistir, dizendo:

-Pierre! – mas ele ergueu sua cabeça, lhe beijando intensamente seus lábios macios.

Então Peggy se deixou envolver pelos braços do amado. Ela lhe acariciava os cabelos, enquanto ele comprimia seu corpo contra o dela. Do outro lado do recinto, porém, uma campainha escandalosa se fez ouvir. Pierre a soltou por um momento, se virando para a origem do barulho.

-Esquece o telefone – disse, voltando a beija-la.

Mas como o telefone insistia em tocar, Peggy o afastou delicadamente com as mãos.

-Espera, Pierre! É melhor você atender, pode ser importante – ela argumentou.

Pierre soltou um suspiro e exclamou, mau-humorado, enquanto caminhava até o aparelho:

-Está bem, telefone! Você ganhou – ele tirou o fone do gancho, enquanto Peggy ria.

-Alô?... Jeff? Mas o quê...? – ele olhou para um relógio pendurado na parede oposta – não, é claro que eu não esqueci... ok, eu já estou indo – e desligou.

-O que o Jeff queria? – perguntou Peggy.

Pierre a olhou por um instante, antes de dizer:

-Acontece que a banda tinha marcado de ir ensaiar hoje e eu me esqueci completamente!

-O quê?

-Me desculpe! Eu não queria te deixar assim...

-Tudo bem!

-Tudo bem mesmo? Você não vai ficar chateada comigo? – ele se aproximou novamente dela, lhe afagando a face.

-Não! É claro que eu queria que você ficasse aqui comigo, afinal hoje é nosso primeiro dia juntos... mas eu entendo!

-Sério?

-Sério... vou aproveitar para acabar de arrumar essa bagunça aqui – ela disse, virando-se para pegar uma calça em cima da cama e dobrando-a.

-Eu volto logo, está bem? – ele falou, segurando-a pela mão e fazendo com que ela se voltasse para ele.

Ela assentiu, sorrindo. Pierre aproximou seus lábios de sua testa, lhe beijando carinhosamente, antes de sair. Sozinha, Peggy se deixou cair na poltrona peluda e fofa atrás de si, e suspirou. Não esperava por aquilo. Mas ele disse que voltava logo, e isso lhe confortava de certa maneira.

#######

Os instrumentos já estavam tocando quando ele finalmente chegou. Aparentemente, os outros haviam se cansado de espera-lo e começaram a ensaiar sem ele. Assim que o avistou, Chuck bateu sua baqueta com mais força, anunciando sua chegada. Os outros também pararam, lhe olhando de cara feia.

-Você está meia hora atrasado – acusou Jeff – o que aconteceu, Pierre?

-Me desculpe, eu acabei me esquecendo do ensaio...

-Ah, você acabou se esquecendo do ensaio! Ótimo, e a gente é que se vire, não é? – alterou-se Jeff.

-Olha, Jeff, vocês nunca precisaram de mim para começar o ensaio, precisaram? Não sei porque está reclamando agora!

-Acontece que você costumava ser mais responsável antigamente!

-Eu já pedi desculpas! O que mais você quer que eu faça? – irritou-se Pierre, elevando a voz.

-Calma, Jeff! O Pierre já está aqui, não está? Vamos ensaiar então – interviu David, acalmando os ânimos.

Jeff, ainda de cara amarrada, voltou a pegar sua guitarra. Os outros o imitaram e eles recomeçaram o ensaio. Porém, ele não foi dos melhores. Por duas vezes, Pierre errou a letra da música, tendo que recomeçar tudo de novo. Seb também não estava conseguindo se concentrar, desafinando várias vezes. Depois de pouco mais de uma hora em tentativas frustradas, Jeff se retirou, irritado com todos.

-Um pouco de educação não faz mal pra ninguém, sabia, Sr Stinco? – alfinetou Chuck, mas o guitarrista já tinha ido embora.

-Mas o que deu nele? – quis saber David.

-Eu não sei! Acho melhor eu ir atrás dele para ver o que está acontecendo – disse Sebastien, indo na mesma direção tomada pelo amigo.

-O que aconteceu é que o Jeff é um chato de galocha! – falou Chuck – será que ele não entende que não se pode ser perfeito sempre? – perguntou, virando-se para Pierre e David.

David guardava seu baixo, enquanto Pierre se preparava para ir embora.

-Aonde você vai, Pierre? – quis saber Chuck.

-Pra casa... Peggy está me esperando!

David e Chuck se entreolharam em silêncio. David ficou com medo da reação do amigo, mas tudo o que Chuck fez foi dizer:

-Você não pode ir embora assim, Pierre! Eu e David compramos umas cervejas para tomar depois do ensaio!

-Nós compramos? – perguntou David, confuso.

-É claro que nós compramos, você já se esqueceu? – e voltando-se para Pierre – fica aí com a gente!

-Não sei se é uma boa idéia, Chuck...

-É claro que é uma boa idéia! Afinal, depois do fiasco hoje, a gente precisa relaxar um pouco, você não acha?

-Olha, Chuck, eu queria mesmo ficar, mas é que eu prometi pra Peggy...

-Peggy é compreensiva, ela vai entender – disse Chuck, tentando convence-lo de qualquer forma.

-Eu espero que seja mesmo – ponderou Pierre, falando mais para si mesmo do que para Chuck – está bem, eu fico! Mas é só um pouquinho!

-Você não vai se arrepender – falou Chuck, exibindo um enorme sorriso.

#######

O sol já lançava seus últimos raios, se despedindo de mais um longo dia, enquanto a lua se preparava para assumir o seu lugar em uma noite estrelada e fria. Lá dentro, David, Pierre e Chuck continuavam a conversar, apesar da cerveja já ter se acabado há muito tempo. Por vezes Pierre anunciava que ia embora, mas sempre era impedido por Chuck. Dessa vez, porém, estava decidido a sair dali, mesmo com todos os argumentos de Chuck.

-Olha, eu preciso mesmo ir! Está ficando tarde – disse, apontando para a noite lá fora, enquanto se levantava.

-Caramba, já está de noite! Eu nem vi o tempo passar – falou Chuck.

David o olhou, desconfiado, mas Pierre não percebeu nada.

-Bom... eu já vou indo então...

Pierre já tinha dado alguns passos, quando ouviu, novamente, a voz de Chuck atrás de si:

-Sabe, eu te admiro muito, Pierre! Mesmo depois da Peggy te fazer sofrer, você a perdoou e ainda lhe levou para morar na sua casa! Você deve confiar muito nela...

Pierre virou-se, encarando Chuck.

-É, eu confio! – mas a sua voz não saiu tão firme quanto ele pretendia.

Por mais que a amasse, Pierre não conseguia entender os motivos que levaram Peggy a fazer o que havia feito com ele no passado. Ele tinha prometido a si mesmo que esqueceria aquele assunto que tanto o machucava, mas a imagem daquele baile e de Peggy simplesmente não saía de sua cabeça.

-Eu... preciso ir... tchau – foi tudo o que ele conseguiu dizer antes de sair do estúdio.

Assim que Pierre sumiu de sua vista, Chuck riu, como quem vibra por uma vitória, fazendo com que um arrepio sinistro percorresse todo o corpo de David.

-Você fez isso de propósito, não foi?

-E o que foi que eu fiz?

-Ora, você sabe muito bem... você falou aquelas coisas da Peggy...

-Eu não disse nenhuma mentira, disse?

-Como você tem coragem de falar sobre isso para ele? Você sabe que relembrar essas coisas só faz com que ele sofra ainda mais do que já sofreu.

-Por mais que isso doa, Pierre precisa de alguém para lhe lembrar que Peggy não é tão confiável assim. E você devia se concentrar mais na sua tarefa ao invés de ficar pensando besteiras! – censurou-o Chuck.

David olhou para baixo. Toda vez que se lembrava do que tinha que fazer, se sentia um monstro.

-David? Você não está pensando em desistir, não é?

-Eu já disse que eu não vou desistir, não disse? Mesmo porque eu não tenho outra saída... – lamentou-se David.

-Não é possível que seja tão difícil assim conquista-la!

-Não é tão simples... Bel é tão meiga, tão pura... como você acha que eu me sinto fazendo isso com ela?

Chuck o analisou por um momento. De súbito, uma nuvem de incerteza passou pela sua cabeça. Depois, balançando negativamente a cabeça, disse:

-Você não está gostando dessa garota, está?

-Não!... é claro que não...

-Tem certeza?

-Tenho!

-É bom mesmo que não esteja! Ela e Peggy são iguais, você não ia querer se envolver com uma garota dessas, ia?

-Eu já disse que não...

-Sei...

-Olha, Pierre tem razão, está ficando tarde! É melhor irmos embora também – disse David, tentando se desvencilhar das perguntas incômodas de Chuck.

-Está bem, vamos! Mas eu quero que você se apresse com isso! Você está demorando demais para conseguir alguma coisa com ela!

-Eu vou tentar...

-Você não vai tentar, David, você vai conseguir, entendeu? – pressionou Chuck.

-Entendi – balbuciou David.

Mas Chuck não estava cem por cento convencido de que David estivesse falando a verdade. Ele andava estranho ultimamente, parecia estar com a cabeça muito distante. Chuck temia que Bel pudesse ter alguma coisa a ver com aquele comportamento. Precisava fazer com que David terminasse logo com aquilo, antes que ele se envolvesse demais e acabasse estragando os seus planos.

#######

Já passava das sete quando ele finalmente passou pela porta da frente da casa. Há muito que Peggy terminara de colocar todas as suas coisas no lugar e esperava, com um desânimo cada vez maior, pela chegada de Pierre.

-Você demorou – acusou Peggy, assim que o viu entrando.

-Me desculpe! O ensaio acabou demorando mais do que eu previa!

-Você passou cerca de cinco horas fora de casa! Engraçado, não sabia que os ensaios demoravam tanto assim!

-Na verdade eles não demoram... é que... bem, o Chuck e o David compraram umas cervejas e eles me fizeram ficar lá com eles até agora...

-Ah, claro, tinha que ter o Chuck no meio – ironizou Peggy, fixando seus olhos na beirada do tapete perto da escada. Aquela conversa estava deixando-a com um desconforto cada vez maior.

-Olha, me perdoa, eu sei que não podia ter te deixado aqui sozinha desse jeito, que fui um estúpido, mas eu juro que isso não vai mais acontecer – pediu Pierre, se aproximando dela e segurando suas mãos entre as dele.

Tudo o que ele não queria era ter magoado a pessoa que se tornara a mais importante para a sua vida. Queria que ela entendesse, que não ficasse chateada com ele logo no primeiro dia que ela passava em sua casa.

Peggy voltou seus olhos para os dele. Pierre percebeu que ela andara chorando. Se sentiu ainda pior por não estar com ela o dia todo. Mas algo dentro dele não estava certo. Não conseguia entender como pode ser capaz de fazer uma coisa daquelas.

-Promete que nunca vai me deixar? – ela disse, a voz custando a sair.

-Mas é claro! Eu nunca vou te deixar, Peggy! Nunca – falou, enfatizando o nunca.

Ele a envolveu em seus braços em um abraço forte e apertado. Peggy se sentia segura assim. Era como se nada mais existisse além dos dois. Porém, quando Pierre procurou seus lábios, lhe beijando, pode perceber que algo estava errado.

-Você está estranho! Aconteceu alguma coisa...

-Não, não aconteceu nada... porque está dizendo isso?

-Você voltou diferente, sei lá...

-É impressão sua – ele disse, voltando a beija-la.

Mas em seu interior, ele sabia que ela estava certa. Pierre não sabia o porque, mas ele não conseguia apagar o passado de sua mente. Naquela noite, porém, estava decidido a esquecer tudo, a deixar tudo o que tinha acontecido para trás. Devia isso a Peggy por ter sido tão idiota com ela. No dia seguinte, tudo estaria bem novamente.