Somewhere in the end of all this hate
There's a light ahead that shines into this grave
That's in the end of all this pain

Os olhos castanhos admiravam a imensidão com um quê de tristeza, um tom solitário. As lembranças doíam em seu peito, retorciam seu coração espremendo dele tudo o que pudesse existir de bom. Queria ter tido coragem de engolir aquela poção e acabar com o tormento que vinha sendo sua vida sem sua família, sem seu pequeno Henry e sua teimosa Emma.

Haviam voltado para a Floresta encantada e assim que conseguira fugir e se isolar do bando de camponeses felizes e descontentes — sim, eles eram felizes mesmo com o maldito descontentamento referente à mudança de reino, de papéis, a saudade que tinham da terra e dos Estados Unidos -, mas para Regina era desesperador conviver com aquela esperança insistente sabia que não voltariam para Storybrooke e mesmo se voltassem não havia nada ali que lhe importasse mais.

In the night ahead, there's a light upon this house on a hill
Living, living still, their intention is to kill and they will, they will
But the children are doing fine, I think about them all the time
Until they drink the wine and they will, they will, they will

Mal notara as horas se passando, a forma como o sol tornava o horizonte alaranjado e desvanecia aos poucos, cedendo à escuridão, cedendo ao brilho que emprestava à lua diariamente.

Algumas poucas estrelas despontavam tímidas no breu, diminuindo a sensação de vazio que a noite lhe trazia. A noite a lembrava de si mesma e os astros de seus amores, amores que se faziam presente, guiando seus passos no escuro mesmo que não estivessem ali, mesmo que fizessem parte de outro mundo, outro universo, um universo onde ela simplesmente deixara de existir ao recriar memórias de uma vida em suas mentes antes da despedida final.

Sua mente recriava o sorriso dos dois, recriava o último abraço e a força que ele lhe dera, a sensação de compleitude que jamais sentiria novamente.

E então lhe ocorrera a ideia de que corriam perigo. Não só ela corria perigo, mas todos ali corriam perigo, pessoas que importavam mais do que si para Emma e Henry, Snow e Charming, por exemplo, pessoas que Regina havia jurado proteger e simplesmente largara de mão ao ceder à escuridão de seu próprio coração partido.

Somewhere in the end we're all insane
To think that light ahead will save us from this grave
That's in the end of all this pain

Seus dedos se apertaram e pode sentir o toque macio e morno da mão da mulher amada. Espremeu os olhos com toda a força que possuía para evitar que aquela lágrima escorresse, para evitar que aquele sonho desaparecesse.

Sua pele arrepiara-se por completo, era uma sensação de presença muito forte, tão forte que fora impossível impedir o coração de acelerar todo bobo, como quando via ou sentia Emma por perto. Inspirou demoradamente e pudera sentir o cheiro de Anis com aquela nota suave de baunilha que lhe remetia à loura de olhos claros todas as vezes que o sentia.

O cheiro enfraquecera a cada fungada profunda, distanciando-se da realidade assim como o toque afrouxava até que os dedos deslizavam por sua mão, deixando a sensação morna e acalentadora causada pela imaginação do toque mais desejado no momento.

–Não...

Seu corpo estava frio, seu coração estava fraco, parecia escangalhado ou esmigalhado por um par de mãos tão fortes que precisara se encolher no canto do quarto e abraçar as próprias pernas na tentativa e aliviar o desconforto desesperador que se instaurara dentro de si.

In the night ahead, there's a light upon this house on a hill
Living, living still, their intention is to kill and they will, they will
But the children are doing fine, I think about them all the time
Until they drink the wine and they will, they will, they will

As lágrimas deslizavam como se fossem feitas de chumbo, parecendo tilintar ao tocar o chão, o que só demonstrava o quão louca estava ficando.

–Estamos te esperando, mãe!

A voz lhe arrancou soluços, parecia tão real, tão próxima e ainda assim, sua mente sabia que era só um truque, talvez um truque daquela bruxa esverdeada para lhe tirar do campo e batalha.

Um rugido escapou pelos lábios bem delineados da morena e uma bola de energia roxa atingiu a parede, sobre o espelho, fazendo-o explodir em centenas de pedaços em tamanhos distintos e afiados causando um som esganiçado das centelhas caindo ao chão.

O som não fora alto, talvez mal pudesse ser notado, mas para Regina parecia que seu cérebro havia explodido dentro de si como uma bomba nuclear. Seus ouvidos zuniam insistentemente e seu corpo se recolheu ainda mais, as lágrimas já haviam manchado o belo rosto com a tinta preta que delineava seus olhos, deixando sua aparência deplorável, talvez, finalmente, seu rosto fosse honesto quanto ao caos que existia dentro de si.

I am not afraid, I won't burn out in this place
My intention is to fade and I will, I will

A dormência dos sentidos era a única coisa que desejava, ansiava. Demorou uma eternidade até tomar coragem para levantar de seu buraco no vácuo de seu próprio universo, andando como um zumbi fajuto em busca da poção do sono eterno.

Dormir. Dormir era a resposta. Querendo ou não o Robin, dormir era o que precisava. Tendo ou não motivos para querer vingança, seu coração apenas ansiava pelo amor da família que jamais voltaria a ver, que jamais voltaria a ter.

Os dedos trêmulos tocaram o conta gotas e o sorriso partido tomara conta dos lábios até que eles se abriram para receber as gotas do veneno.

O conta gotas fora a primeira coisa à cair no chão, e o som ensurdecedor que ele causou fez com que Regina levasse urgentemente as mãos aos ouvidos, tentando abafar sem sucesso, já que ao fazê-lo o som das batidas de seu coração pareciam envoltos em uma concha com amplificador, voltando mais alto e lento conforme a garganta adormecia, o ar começava a faltar.

Os olhos se fecharam alguns segundos após o corpo cair ao chão pesado como uma bigorna, uma única lágrima escorreu pela bela face.

E ali ela ficou, inerte, adormecida, sem esperanças.

Era seu fim.

In this on house on a hill
The dead are living still, their intention is to kill and they will, they will
Keep your children safe inside, out of pocket, out of mind
Until they drink the wine and they will, they will, they will

–Regina?

A voz era suave, o toque em seu braço era suave. Os olhos se abriram, arregalados, assustados e a sensação de desespero esteve presente em si por um único segundo — o tempo necessário para focalizar a bela loira de olhos claros com um sorriso encantador ao seu lado na cama.

–Pesadelos de novo?

Não respondeu, não conseguira responder. Apenas embrenhou os dedos nos cabelos macios e abraçou o corpo esguio contra o seu.

As batidas fortes de seu coração estavam ali, podia sentí-las assim como a pulsação de Emma ao abraça-la. Pareciam combinar, pareciam contadas, como se batessem no mesmo ritmo.

E o sorriso não fora evitado. Nem o beijo manhoso que procedeu o roçar dos lábios aos lábios amados. Os dedos desceram pela pele de sua nuca de forma suave, provocando arrepios à loira.

–Eu não vou à lugar nenhum.

–Agora eu sei, Emma. Eu... Eu fico voltando ao passado, à sensação desesperadora de perder o Henry, de perder você... Me sufoca... Eu te amo.

–Eu também te amo, Regina. E eu não vou deixá-la novamente. Você é o nosso lar, nós não somos nada sem você.

Os olhos escuros brilhavam na tentativa falha de segurar as lágrimas que já lhe tomavam o rosto pálido e os dedos compridos da mulher mais nova limpou-as, uma a uma.

–E eu não existo sem vocês. Nem nos meus sonhos.

Notas finais
Eu sei que estou devendo um monte de histórias, só... Estou passando por uma seca criativa ridícula. Mas eu não me esqueci de vocês, eu juro ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!