A rodovia do deserto parecia infinita. O asfalto riscava o horizonte como uma cicatriz negra que se perdia no nada. A noite caía lentamente, tingindo o céu de roxo e laranja, e o vento soprava seco, trazendo o cheiro de areia e de mato queimado. Dentro do Buick Skylark vermelho, Miguel sentia a brisa fria bater no rosto. Os cabelos desgrenhados dançavam com o vento, e na boca o gosto amargo da maconha ainda queimando no cigarro pendurado entre os dedos.

Não estava perdido, ao menos não no sentido geográfico. Mas também não tinha destino. O volante parecia guiar-se sozinho, como se o carro seguisse por vontade própria, e Miguel não via razão para contrariar. Seu corpo vibrava num estado estranho entre exaustão e torpor, como se a estrada tivesse sugado dele todo o tempo e todo o sentido. O sol já desaparecia atrás das montanhas distantes, e a carroceria vermelha refletia os últimos raios como se fosse parte da pintura do céu.

Depois de horas — ou dias, talvez — sem qualquer referência além do asfalto e do deserto, uma luz apareceu na escuridão. Pequena, trêmula, mas inconfundível. Miguel piscou várias vezes, incerto se não era mais uma alucinação da sua mente entorpecida. Seu corpo pesou, a vista turvou, e ele percebeu que precisava parar.

Reduziu a marcha e encostou o carro num espaço de terra batida que parecia servir de estacionamento. À frente, erguia-se uma construção rústica, de paredes de barro queimado e janelas de madeira escura. Não havia letreiro, nenhuma indicação visível. Apenas aquela luz solitária convidando-o a se aproximar.

Miguel saiu do carro e inspirou fundo. O ar parecia mais pesado ali, como se estivesse impregnado de pólen, fumaça e algo doce que ele não sabia nomear.

E então a viu.

Ela estava parada na entrada, iluminada pela chama de uma vela. A pele morena brilhava sob a luz, o corpo curvilíneo se desenhava sob um vestido escuro que se movia como se tivesse vida própria. Os cabelos negros desciam até o meio das costas, volumosos, com reflexos azulados. Os olhos eram felinos, escuros como obsidiana, e o sorriso, estreito, guardava um segredo impossível de decifrar.

Miguel parou, imóvel. Os sinos de alguma missão distante soaram ao longe, graves e lentos. A frase veio à sua mente sem que ele a formulasse:

Aqui pode ser o paraíso… ou o inferno.

Ele balançou a cabeça, tentando afastar a vertigem. Quando voltou a erguer o olhar, ela ainda estava ali. Não se mexera. Não piscara. Apenas esperava.

— Boa noite — arriscou Miguel, a voz rouca. — Aqui é…

A mulher ergueu a vela e acenou com um gesto delicado.

— Venha comigo. — Disse, e sua voz soou como música.

O hall se abriu diante dele com brutalidade. Se o exterior era simples, o interior era exuberante até a obscenidade. O chão de mármore refletia as luzes de um lustre de cristal que parecia ter caído de um palácio europeu. Quadros de molduras douradas ocupavam todas as paredes, retratos de pessoas que Miguel não reconhecia, mas que, de alguma forma, pareciam observá-lo. Pedestais exibiam esculturas em mármore, bronze, madeira entalhada. O contraste era tão violento que Miguel teve a sensação de que o mundo do lado de fora não existia mais.

A mulher avançou até uma bancada de madeira escura que lembrava a recepção de um hotel. Miguel a seguiu, hipnotizado. Ao passar por trás das escadarias gêmeas que levavam ao segundo andar, ouviu vozes. Baixas, distantes, como um sussurro coletivo que reverberava pelo ar.

— Bem-vindo ao Hotel California.

Miguel parou, o corpo arrepiado. Não sabia se ouvira de fato ou se apenas imaginara.

— Este lugar… — tentou dizer, mas a frase morreu.

A mulher inclinou a cabeça e respondeu, com naturalidade:

— Hotel California. Temos muitos quartos disponíveis.

As palavras não saíram apenas da boca dela. Ecoaram pelo teto, pelas paredes, pelo chão. Miguel sentiu que estavam dentro de sua mente, como se ele fosse um instrumento tocado por uma melodia invisível.

Ela deslizou uma chave sobre o balcão. Miguel estendeu a mão, mas ao tocá-la um frio intenso percorreu seus dedos, diferente do calor confortável do ambiente. Recuou por um instante, mas o sorriso dela o forçou a segurar a chave.

Joias brilhavam em seus pulsos e orelhas: ouro, pedras discretas, uma gargantilha Tiffany que parecia latejar como se tivesse vida. O brilho não era apenas bonito; era agressivo, faminto. Miguel desviou os olhos, mas então viu algo ao lado da bolsa dela: outra chave, prateada, com o emblema de um Mercedes-Benz.

Seu coração acelerou. A sensação de estar sendo testado o invadiu.

— Deseja beber algo? — Perguntou ela, a voz aveludada. Miguel hesitou. Um gole talvez aliviasse o peso em sua cabeça.

— Vinho tinto — disse. — Algum Garcia Rosé.

A mulher estalou os dedos. Um homem alto, grisalho, surgiu do nada atrás do balcão. O terno impecável contrastava com seus olhos fundos, que pareciam pesar milênios. Ele o fitou com uma expressão ambígua, entre compaixão e zombaria.

— Não servimos esse vinho aqui desde 1969.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Miguel abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Quando piscou, o homem já havia desaparecido.

O sorriso da mulher se alargou.

— Venha. Você precisa descansar.

Ele a seguiu pelas escadas gêmeas. O mármore brilhava como se emanasse luz própria. Cada passo era absorvido, não havia eco, como se o hotel engolisse todos os sons. Miguel ouviu as vozes de novo, mais claras: risadas, frases soltas, fragmentos sem sentido.

— Você ouviu isso? — perguntou, a voz trêmula.

A mulher não respondeu. Apenas sorriu.

Chegaram a uma porta ornamentada. Ela a abriu e revelou um salão interno coberto por uma cúpula de vidro. Ali, dezenas de pessoas dançavam. Os trajes vinham de épocas diferentes: vestidos longos dos anos 20, ternos dos anos 50, jaquetas brilhantes dos anos 80. Os corpos se moviam em perfeita sincronia, mas não havia música.

Miguel estacou. O silêncio era preenchido apenas pelo atrito dos pés no chão. Os rostos eram belos demais, simétricos demais. Alguns sorrisos se abriam largos demais, revelando fileiras intermináveis de dentes. Outros tinham olhos brancos, opacos, como porcelana rachada.

A mulher tocou o braço de Miguel. Sua pele queimava ao contato.

— Apenas hóspedes. Alguns dançam para lembrar. Outros… para esquecer.

O coração de Miguel disparou. As vozes aumentavam, vindas de todas as direções. Todos os dançarinos olhavam para ele agora, sem parar de se mover, como se esperassem.

A mulher o conduziu para longe do salão. Abriram outra porta, e ali estava o quarto. Luxuoso, sufocante: cama king size com lençóis de seda vermelha, espelhos no teto, champanhe rosé em balde de prata.

Miguel entrou trêmulo. Sentou-se na cama, a boca seca. Ela se aproximou, deslizando como fumaça. Tocou seu rosto.

— Relaxe, Miguel. Você merece se entregar.

Os lábios dela tocaram os dele. Por um instante foi doce. Mas logo o gosto mudou: metálico, amargo, como sangue e terra. Miguel recuou, horrorizado.

A pele dela começou a se mover, contorcendo-se. As joias fundiram-se à carne, pulsando como veias de ouro incandescente. Os olhos escureceram até não restar pupila. A boca se abriu em um sorriso impossível, rasgando-lhe o rosto até as orelhas.

Do corpo brotaram tentáculos de sombra, retorcidos, se espalhando pelo teto e paredes. Os espelhos multiplicaram a visão, cercando Miguel por todas as direções.

Ele gritou, mas o som desapareceu, engolido pelo hotel.

— Somos todos prisioneiros aqui… de nossa própria vontade. — Disse a criatura, e sua voz era um coral de mil vozes, masculinas e femininas, antigas e recentes.

Miguel se arrastou até a porta, abriu-a e correu pelo corredor. As sombras o perseguiam, chicoteando as paredes.

Portas se abriam e revelavam novos corredores, iguais e intermináveis. Escadas levavam de volta ao mesmo andar. O hotel era um labirinto vivo.

Por fim, encontrou um salão enorme. Uma mesa se estendia no centro, coberta por carnes sangrentas, frutas podres, taças de vinho negro. Ao redor, dezenas de figuras golpeavam uma criatura de sombras com facas. A cada golpe, a coisa ria, um som que fazia o ar vibrar.

O coração de Miguel quase parou. Aquilo era a besta. A coisa que nunca podia ser morta.

Correu novamente. Corredores, portas, nada o levava à saída. Até que, arfando, encontrou a entrada principal.

O porteiro estava lá, uniforme impecável, parado como se esperasse.

— Por favor! — Gritou Miguel — Preciso sair daqui!

O porteiro sorriu, sereno.

— Relaxe, senhor. Somos programados para receber.

Miguel empurrou a porta, mas ela não cedeu.

— Você pode até fazer check-out quando quiser… — Disse o porteiro, a voz ecoando com outras vozes invisíveis — Mas nunca poderá partir.

O hotel inteiro estremeceu. Portas bateram, janelas se selaram, corredores sumiram.

E então ela apareceu outra vez. Bela, perfeita, como no início. O sorriso estreito, os olhos felinos. Estendeu a mão. Miguel recuou, mas não havia para onde ir. O hotel fechava-se sobre ele, como se fosse um organismo vivo.

A escuridão engoliu tudo.

E Miguel compreendeu, no último instante de lucidez: já não era visitante. Era hóspede. Um hóspede eterno do Hotel California.


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