Hotel California
2 Capítulo 2 - Invocando um demônio
Notas iniciais
Dean terminou de comer a torta de maçã e resmungou:
– Eu não acredito que a Mia me enganou. E usando um golpe tão baixo...
– Ela me enganou também, Dean. E até o Cas. — lembrou Sam enquanto pesquisava algo no notebook — Mas ela não fez por mal. Ela está confusa. Pelo menos ela não mentiu sobre estar caçando...
– É? Por quê? O que você encontrou? — quis saber o mais velho.
– Ela usou o cartão de crédito em dez hotéis diferentes nas ultimas três semanas. E os locais conferem com os casos que ela estava investigando. Minnesota, Illinois... — relatou Sam.
– Como isso aconteceu mesmo? Mia, a caçadora destemida? — refletiu Dean.
– Às vezes, eu penso o que teria acontecido se naquela noite no cemitério nós simplesmente tivéssemos deixado ela ir embora. — confessou Sam — A vida dela podia ter sido outra...
– Aquilo foi minha culpa. — disse Castiel aparecendo na sala — Eu a trouxe para esta vida. Eu apareci no quarto dela antes de mais nada... É minha culpa, não de vocês. Mais uma razão para eu voltar para o Céu...
– Pelo visto você não a encontrou. — deduziu Dean tentando retomar o assunto.
– Não. E ela também não voltou para o hotel. — disse o anjo — O problema é que eu não consigo encontrá-la por causa daqueles malditos símbolos... Onde eu estava com a cabeça quando fiz aquilo com ela?
– Eu acho que você só estava tentando protegê-la. — sugeriu Sam.
– É... Eu fiz um ótimo trabalho... — culpou-se ele.
– Não se preocupe, Angel. Nós vamos encontrar a sua Buffy. — tranquilizou Dean.
– Dean está certo. — acrescentou Sam — Quando ela usar o cartão de crédito novamente, nós vamos saber onde ela está.
Castiel assentiu e sentou com eles. Dean pensou em alguma coisa e então sugeriu:
– Sammy, você consegue ver pra quem ela ligou nos últimos dias? Talvez ela não esteja sozinha nisso. Talvez alguém esteja a ajudando nesta missão suicida.
– Eu posso tentar. — se dispôs Sam acessando o site da empresa de telefonia móvel.
Dean observou o olhar distante de Castiel e empurrou uma cerveja para ele. O anjo observou a garrafa por alguns instantes e só depois a pegou e tomou um gole.
– Invocar o demônio que ela mesma mandou para o andar de baixo no verão passado. — continuou Dean — O que a Mia tem na cabeça?
– Perguntas. — deduziu Sam — E ela acha que Crowley pode respondê-las. Faz sentido.
– Mesmo que o Crowley possa responder, eu duvido que ele vá. — opinou Dean
– E com certeza ele está louco pra se vingar da Mia. Ela vai ter sorte se conseguir sobreviver desta vez... Se conseguir pelo menos dizer um Olá pra ele... — acrescentou o mais novo.
Castiel levantou um tanto irritado e disse antes de desaparecer:
– É melhor eu esperar no hotel.
– O que deu nele? — indagou o Winchester mais velho.
– Dean... — repreendeu Sam e ao ver um número conhecido na fatura do celular de Mia continuou — Eu não acredito...
– O quê? O que você encontrou aí? — interessou-se Dean se aproximando.
Sam pegou o celular e procurou um número na agenda. Em seguida comparou com o número que aparecia nas ligações feitas por Mia.
– Missouri? — surpreendeu-se Dean — Eu nem sabia que as duas se conheciam...
– Provavelmente, a Mia leu sobre ela no diário do nosso pai. — deduziu Sam.
– E por que Mia ligaria para Missouri? — estranhou o outro.
– Só tem uma forma de descobrir. — insinuou Sam.
Algum tempo depois, Sam e Dean batiam na porta da casa de Missouri. Dean fechou os olhos e chamou:
– Cas? Nós temos uma pista aqui...
– Onde? — perguntou o anjo aparecendo ao mesmo tempo em que Missouri abriu a porta.
– Sam e Dean Winchester. E um Anjo do Senhor. Quando foi que eu fiquei tão importante? — indagou a vidente sorrindo.
– Onde a Mia está? — quis saber Castiel dando um passo à frente.
– Calma, Cas. — pediu Dean colocando a mão no seu ombro.
– Eu posso garantir que ela não está aqui. — afirmou Missouri.
– Mas ela falou com você, não falou? — quis confirmar Sam.
– Sim, ela me procurou há alguns dias. — revelou ela.
– Por quê? — indagou Sam.
Missouri olhou para eles e se afastou um pouco da porta os convidando:
– É melhor vocês entrarem.
Eles entraram e Missouri fechou a porta. Enquanto isso perto dali, Mia parava o Mustang em frente a uma igreja em ruínas. Saiu do carro e abriu o porta-malas. Pegou uma bolsa com o que precisava e caminhou em direção à igreja. Entrou.
Missouri serviu café para todos e Castiel ficou observando a sua xícara. Dean percebeu que ele estava lembrando de Mia, mais precisamente do vício da garota por cafeína.
– John ficaria orgulhoso de vocês. — disse a vidente para Sam e Dean.
– Obrigado... — respondeu Dean com um olhar nostálgico.
Sam apenas assentiu. Não tinha certeza se o seu pai se orgulharia das escolhas erradas que ele fez no passado. Mas fechar o Inferno seria a sua forma de se redimir de tudo aquilo.
– Você disse que Mia te procurou. O que ela queria exatamente? — recomeçou Dean — E não me diga que era pra prever o futuro porque aquela ali só não adivinha os números da loteria... Espera um pouco, será que ela não conseguiria...
– Dean. — cortou Sam.
Missouri sorriu e sentou com eles antes de responder:
– Bem, ela bateu na minha porta há alguns dias dizendo que tinha tido algumas visões. Premonições, na verdade. Ela pediu a minha ajuda. Estava tão assustada... Me disse que as visões e os pesadelos estavam ficando piores e que ela nem estava mais conseguindo dormir. Depois que se acalmou um pouco, ela me contou a sua história. Me contou sobre os seus pais... Sobre Crowley. E sobre os caçadores e o anjo que conheceu há alguns meses. E...
– E? — repetiu Dean.
– Bem, ela me disse que sentia que alguma coisa estava errada com ela. E me perguntou o que era. — continuou a vidente.
– E o que você respondeu? — interessou-se Sam.
– A verdade. — disse ela.
Enquanto isso Mia desenhava uma armadilha do diabo no chão da igreja com um spray e acendia algumas velas em volta.
– Mia é uma garota especial, mas ainda é uma garota. — afirmou Castiel — Eu conheço a sua alma. Já a senti... Ela é humana.
– E foi exatamente isso que eu respondi para ela. — garantiu Missouri — Que ela é uma garota como qualquer outra. Mas que também é especial, como poucas são.
– Eu acho que esta resposta não deixou ela muito satisfeita. — deduziu Dean.
– Provavelmente não, já que vocês estão aqui. — concordou Missouri — Mia tem um dom e vocês sabem disso. Mas ela veio até mim pensando que eu pudesse responder por que ela tem este dom, por que é especial e eu não pude explicar... Eu só posso dizer que ela tem algo que eu já vi antes, em outra pessoa, mas eu não sei o que é exatamente.
– E então o que você fez? — indagou Castiel — Sugeriu que ela fosse até o Crowley?
– Não. — negou Missouri — Eu apenas disse que eu não era capaz de responder as suas perguntas. Agora se ela resolveu ir até outra fonte, ela está fazendo isso por conta própria.
– O problema é que a outra fonte é um demônio. — lembrou Dean — E da última vez que os dois se encontraram, a Mia morreu.
– E voltou. — acrescentou Missouri.
– Mas nós não podemos correr aquele risco novamente. — disse Castiel preocupado.
A vidente sorriu e continuou:
– Mia estava certa sobre vocês. Sobre vocês se preocuparem demais com ela.
– Você acha que nós não deveríamos nos preocupar com ela? — estranhou Sam.
– O que eu acho é que aquela garota é mais forte do que vocês três podem imaginar. Vocês deveriam confiar mais nela. Ela é forte. Acredite. Eu senti. — aconselhou Missouri.
Enquanto isso, na igreja em ruínas, Mia fez um corte na mão direita. Em seguida derramou um pouco do seu sangue no centro da armadilha dizendo algumas palavras em latim. Então, abriu o livro e leu o resto do ritual.
– Venha me pegar, filho da mãe. — desafiou ela quando terminou de ler.
Fechou o livro e as velas se apagaram ao mesmo tempo, para se acenderem novamente em seguida. O fogo ficou mais alto do que o anterior. Porém, mais nada aconteceu depois disso. Para surpresa de Mia, Crowley não apareceu no centro da armadilha como era esperado.
Então ela abriu o livro novamente e conferiu cada palavra. Não tinha dito nada errado. Olhou em volta. E voltou a se perguntar se tinha feito tudo certo. Com certeza algo não estava porque o ritual de invocação não tinha funcionado.
Sentiu-se frustrada e resolveu tentar novamente. Mas de novo, o ritual parecia não ter funcionado. E mais uma vez tentou. E continuou tentando o resto do dia. Mas nada aconteceu. Crowley não parecia e ela ficava cada vez mais longe das respostas que queria.
Tinha começado a anoitecer quando ela finalmente desistiu e reuniu as suas coisas para voltar ao hotel, sentindo-se ainda mais decepcionada.
Precisava conversar com Crowley, embora soubesse que ia ser difícil com ele querendo se vingar dela. Precisava entender o pacto que os seus pais fizeram no passado para conseguir ter uma filha. Alguma coisa naquele pacto podia explicar o que estava acontecendo com ela. E Mia queria mais do que tudo saber o que era. Precisava saber a verdade. E só Crowley podia dizer qual era.
Algum tempo depois, em frente ao hotel, mas ainda no carro, Mia abriu o livro novamente e conferiu mais uma vez o ritual.
– Eu não entendo... Deveria ter funcionado. — murmurou ela.
Fechou o livro e o deixou no banco ao lado. Desceu do carro sem ver que Crowley estava no banco de trás, invisível aos seus olhos. Ele ficou a observando caminhar até o hotel e sussurrou:
– Na verdade, funcionou, sweetie.
Mia parou ao ver a luz acesa no quarto e pegou a arma que carregava na cintura. Caminhou devagar e empurrou a porta apontando a arma para dentro do lugar.
– Este quarto não tem poltrona. — observou Castiel sentado na cama.
– Cas?! Você quase me matou de susto... — admitiu ela guardando a arma e fechando a porta.
– Por quê? Estava esperando outra pessoa? Talvez... Um demônio? — insinuou ele.
Mia respirou fundo e se encostou na porta antes de dizer:
– Não seja ridículo, eu posso explicar.
– Missouri já explicou tudo. — disse Dean saindo da pequena copa.
Mia olhou para o outro lado do quarto e viu Sam perto da janela.
– O que diabos vocês estão fazendo aqui? — estranhou ela.
– Ah! Nós sentimos saudade e resolvemos retribuir a sua visita de hoje. Espero que você não se importe. E desculpe, mas não tivemos tempo de comprar nenhum presente... — respondeu Dean ironicamente.
– É, e eu encontrei mais alguns livros sobre deuses pagãos. — acrescentou Sam — Interessada?
Mia suspirou percebendo o que estava acontecendo e olhou todos eles antes de continuar:
– Eu não queria mentir.
– Mas mentiu. — disseram os três ao mesmo tempo.
– Por que vocês não me dão outra escolha! — justificou ela se afastando da porta — Vocês me tratam como se eu ainda fosse aquela garotinha indefesa no cemitério, mas acreditem, eu mudei. Eu cresci. Parem de me tratar como se eu fosse uma criança...
– Então pare de agir como uma. — pediu Dean um tanto ríspido — Procurar Crowley? Sério? Onde você estava com a cabeça? Aliás, eu estou surpreso por você ainda estar viva...
– Eu precisava de respostas, Dean. Eu ainda preciso. — argumentou ela.
– Crowley não é a resposta, Mia. Ele é a sua provável morte. — disse Dean — Se você precisa de ajuda, se você precisa de respostas, se você precisa de qualquer coisa, você procura a gente. Seus amigos, seu anjo lindo e hot, nós, sua família e não um demônio. Regra número 2 do negócio da família. Você deveria saber disso.
– Eu sei disso... — respondeu ela dando-se por vencida — Ok. Vocês venceram. Mais uma vez, aliás. Eu não devia ter ido atrás dele. Foi estúpido. Me desculpem...
– A propósito, que tipo de ritual você fez para invocá-lo? — indagou Sam.
– Não importa. Não funcionou. — respondeu ela sentando ao lado de Castiel e olhando para o chão — Vai ver que eu sou mesmo um fracasso como caçadora...
Houve um longo momento de silêncio, até que Sam disse:
– Você é uma ótima caçadora, Mia. E uma garota muito especial.
– É, e um pouco estúpida também... — provocou Dean mais calmo.
– Cala a boca. — pediu ela sorrindo — Ok, eu sei que o que eu fiz foi arriscado, mas eu acho que vocês deviam me dar algum crédito.
– Tudo bem. Eu concordo. — assentiu Dean — Desde que você não convide mais o Rei do Inferno para tomar um café.
– Eu prometo. — garantiu ela.
– E esqueça, pelo menos por enquanto, este lance de descobrir o que tem de errado com você, mesmo porque não tem nada de errado com você. — pediu Dean.
– Eu vou tentar... — respondeu ela.
– Mia. — pressionou ele.
– Ok, eu prometo, Dean. — afirmou a garota.
– Quando tudo isto acabar, Mia, nós vamos te ajudar a descobrir tudo o que você quer saber sobre o que quer que seja. — prometeu Sam — Mas por enquanto, tenta ficar longe de confusão, ok? Tipo, não fazer nada estúpido, não invocar demônios e principalmente não morrer.
– Ok, eu não sei se consigo ficar longe de confusão, mas eu vou tentar. -respondeu ela.
Houve mais um momento de silêncio, até que Sam começou quis saber:
– Então, o que você vai fazer agora?
– Eu não sei. Ficar mais alguns dias na cidade, até ter outro pesadelo ou uma visão e seguir uma nova pista. — respondeu ela.
Sam e Dean começaram a se afastar e Mia levantou para abraçá-los.
– Desculpem mais uma vez. Por ter mentido e por todo o resto... — pediu ela.
– Está tudo bem. — tranquilizou Dean.
– Se cuida. — aconselhou Sam.
Quando os Winchester saíram do quarto, Mia temeu o silêncio de Castiel até aquele momento.
– Por favor, diga alguma coisa.
– Como o quê? — perguntou ele.
Mia sentou ao lado dele antes de responder:
– Qualquer coisa. Tipo, é a sua vez de brigar comigo, anjo. De dizer como eu fui estúpida em procurar o Crowley e que eu não devia ter feito isso. E que eu podia ter morrido e que aquele demônio ainda quer me matar...
– Se você já sabe de tudo isso, por que eu deveria repetir? — perguntou Castiel.
– Eu não estou entendendo... Você não ficou bravo? Preocupado?
– Sim, eu fiquei. — confessou ele segurando sua mão — Mas eu estou mais feliz por você ter voltado, sã e salva, do que bravo ou preocupado com o que poderia ter acontecido e não aconteceu. Então, ao invés de brigar, eu pensei que poderíamos aproveitar melhor o nosso tempo.
– Sério? Porque eu gosto desta ideia... — respondeu Mia intrigada com a reação do anjo.
Castiel a beijou suavemente e tentou repreendê-la:
– Você podia ter morrido.
– Mas eu não morri... — disse ela devolvendo o beijo.
– Nunca mais faça isso. — pediu ele.
– Cala a boca... — ordenou ela se aproximando ainda mais do seu corpo — Aproveitar o tempo, lembra?
Castiel obedeceu. Não conseguia pensar direito com Mia ali tão perto dele. O beijando. Sentindo o calor do seu corpo. Então ele passou as mãos pela sua cintura e esbarrou em algo estranho. Afastou-se um pouco e Mia pegou a arma que escondia ali. A colocou no chão e aproveitou para tirar a jaqueta. Aproximou-se novamente de Castiel, mas ele sentiu algo embaixo da blusa dela. Mia o observou tirar a estaca que ela havia escondido ali. Era para matar deuses pagãos caso esbarrasse em algum.
Ela sorriu e o beijou antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa. Castiel tirou a blusa de Mia e colocou as mãos em seus quadris. Então, suas mãos encontram algo gelado e ele puxou o estranho objeto. Mia sorriu constrangida enquanto Castiel observava a faca de prata. Jogou o objeto no chão. Em seguida, ele passou as mãos pela sua barriga notando que havia vários hematomas ali. Castiel a olhou confuso e preocupado.
– Você precisava ver o metamorfo. Ele ficou bem pior. — tentou justificar ela.
Castiel balançou a cabeça em desaprovação e em seguida tocou a testa de Mia curando todos os seus ferimentos. Ela fechou os olhos ao sentir um arrepio e uma sensação de calor percorrer o seu corpo ao mesmo tempo. Sorriu e o olhou com malícia antes de confessar:
– Eu adoro quando você faz isso...
– E eu queria não precisar fazer isso.
Beijaram-se novamente e Castiel a deitou na cama. Afastou-se um pouco e começou a tirar as botas que ela usava. Mia mordeu os lábios ao lembrar que tinha guardado algumas coisas ali. Levantou um pouco a cabeça e sorriu enquanto Castiel descobria mais algumas uma arma carregada com balas da sal e mais uma faca de prata.
– Você não mentiu quando disse que tinha mudado. — lembrou ele enquanto observava aquele arsenal pelo chão — Mais alguma coisa? — quis saber voltando a olhá-la.
Mia sorriu, tirou um delicado terço de dentro do decote do sutiã e explicou:
– Nunca se sabe quando se vai precisar de água benta...
Castiel se aproximou e deitou sobre ela. Passou as mãos pelos seus cabelos e confessou com um leve sorriso:
– Eu sinto saudade da época do spray de pimenta.
Castiel ia beijá-la quando Mia lembrou de algo.
– Ah! Certo! O spray! Eu tinha esquecido... — disse enquanto tirava o spray do bolso calça — Era isso que estava me machucando... Pronto! Isso é tudo! Eu juro!
Castiel ainda pensava no arsenal de Mia quando ela o beijou novamente. E como sempre, ele esqueceu de tudo... Por mais que quisesse contar os seus planos para ela, não tinha ideia de como faria isso. Decidiu que contaria na manhã seguinte...
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