A noite continua fria e um sobretudo preto me cobre quase que completamente.
Eu seria facilmente descartado da lista de pessoas interessantes de alguém pela minha aparência tão simplória.
Sempre me incomodou o modo de como as ruas são iluminadas, a distância entre os postes é muito grande e o espaço entre eles acaba ficando escuro de qualquer maneira, as pessoas podem ser facilmente atacadas sem nem mesmo ter tempo de se defender e, é justamente por esses espaços escuros que eu ando agora. Depois da decisão que tomei de procurar por respostas nesse lugar, sai do suposto conforto da minha casa e agora caminho nessas ruas suspeitas em direção a um lugar que pode revelar o meu passado e mudar o meu futuro. Assim eu chego no endereço desejado, e o lugar em especial me surpreendeu, em cima da porta de entrada havia um letreiro de "cyber café" escrito em luzinhas azuis e vermelhas, e me pergunto se esse era mesmo o lugar certo, porém o nome da rua e o número apenas confirmam que era ali mesmo o que procurava. Eu abri a porta e novamente uma surpresa, apenas degraus que levam para baixo da terra ocupam um espaço um tanto quanto estreito. Descendo lentamente posso escutar uma música bem leve e agradável e no final da escada um espaço mal iluminado se revela, paredes de pedra, algumas mesas e um jun-box completam a decoração juntamente com um balcão repleto por taças e garrafas das mais variadas bebidas. A decepção já tinha se tornado um habito nessa minha busca por respostas mas dessa vez eu realmente estava desapontado, talvez tudo tenha sido apenas uma brincadeira de mal gosto, e uma das perguntas foi respondida, eu perdi o meu tempo. Ou será que não? ficar sozinho naquela casa estava quase me enlouquecendo então sair um pouco não poderia fazer mal de qualquer forma. Fui me aproximando e me sentei em um dos bancos altos que ficavam perto do balcão . Pedi uma bebida qualquer, e logo depois o senhor olhou para mim deixando transparecer pelos seus finos lábios um risinho de deboche.

– Quantos anos você tem filho?
– O bastante para pagar a minha própria bebida.

E ainda com o mesmo sorriso ele me serviu. Depois de algum tempo entre bebidas e observações do lugar constatei que não havia nada de mais lá, além de que aquele era o primeiro "cyber café subterrâneo" que eu já tinha entrado, sendo assim o calor das cobertas me esperava, mas não antes de uma ida ao banheiro. Deixei o dinheiro em cima do balcão sem esperar pelo troco e segui na direção ao banheiro. Acabei em um corredor com algumas plantas ornamentais e três portas fechadas, mesmo que nenhuma delas parecesse realmente um banheiro, entrei na que tinha a placa "masculino". Em poucos minutos sai, mas antes de chegar ao final do corredor uma das portas me chamou atenção. Diferente das do banheiro, não tinha placa na terceira porta mas sim sobre ela. Nessa placa, que mais parecia uma placa de carro, estava escrito " Hospital das almas". Eis o lugar que eu procurava. Tenho que admitir que era realmente estranho o endereço estar errado, mas era mais estranho ainda que um lugar de nome tão... criativo fosse nos fundos de um cyber café subterrâneo.
Lentamente girei a maçaneta, e por trás da porta revelou-se uma pequena sala, com algumas cadeiras arrumadas em círculo,iluminadas apenas por uma lâmpada que pendia sob o teto. Poucas pessoas aguardavam pacientemente sentadas e a maioria delas nem reparou que eu havia entrado. Escolhi o lugar mais agradável aos meus olhos, e de lá fiquei observando os outros que estavam na sala, cada um se distraindo com o que podiam, deixando o lugar com uma estranha atmosfera.
Do meu lado direito uma menina que devia ter os seus dezesseis anos brincava com uma mecha de seu cabelo e devo dizer que além de mim, ela era a única que tinha uma aparência relativamente normal, de todos daquela sala. Alguns minutos depois uma jovem senhora de estado deplorável se sentou do meu lado esquerdo. Seu cabelo estava desarrumado, sua maquiagem estava completamente borrada, profundas olheiras rodeavam os seus olhos e parecia que tinha passado a noite anterior na rua.
Logo na minha frente um menino que devia ter a minha idade balançava com os pés um skate em baixo da sua cadeira, ele usava uma touca preta e branca e, quando fazia alguns movimentos, suas roupas largas deixavam amostra algumas tatuagens em seu peito. Mais outras cinco pessoas se encontravam ali, mas falarei delas mais tarde, pois suas respectivas aparências só poderão ser devidamente descritas quando estivermos falando exclusivamente sobre elas.
Depois de uns vinte minutos esperando sem saber bem pelo que, um homem entrou bruscamente pela porta e a fechou com um estrondo despertando a atenção de todos daquele estranho grupo.
Calmamente ele veio andando em direção a uma das cadeiras com um sorriso simpático no rosto como se ninguém estivesse olhando para ele em particular, mas quando chegou perto da cadeira do lado da senhora mal acabada, virou-se de repente e foi para o meio do círculo.
Sem ninguém entender muito bem o porquê de seus movimentos, ele foi girando em seu próprio eixo observando atentamente cada uma das pessoas que estavam ali, e sem se importar com alguns olhares de estranheza ele continuou a nos observar até completar uma volta. Desconsiderando suas atitudes, devo dizer que ele também não parecia ser tão estranho. Tinha cabelo preto e encaracolado até os ombros, era bem magro e a blusa social branca junto com uma calça jeans escura esfarrapada faziam contraste com uma bolsa esportiva de uma alça só que ele carregava.
Deixando a minha análise de lado, ele começou a falar e por incrível que pareça tinha uma voz com um tom travesso de criança.
– Então... vieram mais pessoas do que eu esperava hoje não é mesmo?!- Ele disse nos olhando como se devêssemos responder.
– Eu serei bem rápido em explicar o que faremos aqui, e quem não estiver satisfeito eu peço que se retire sem remorso, esta bem? Vamos as informações, hoje nós pretendemos nos encher de escuridão, ou melhor encher o mundo com escuridão, completar os espaços vazios do coração com raiva e desespero. A noite deve ser nossa melhor amiga, para que nos leve aos lugares mais sombrios, nos mostre os mais verdadeiros gritos de dor, o mais prazeroso cheiro de morte. Devemos ter sangue, discórdia, medo, hoje meus caros amigos nós faremos o ritual e invocaremos as piores espécies de coisas para curar nossas almas que ainda estão brancas e puras.
Se a atmosfera do lugar não estava muito boa antes, agora estava bem pior. Ninguém sabia o que falar, não tínhamos uma reação, era obvio que não estávamos esperando por isso, exceto uma menina vestida de preto dos pés a cabeça ornamentada com piercings um pouco a direita do menino do skate, mas isso não importa.
Porém depois de alguns momentos de puro silêncio e expressões perplexas o homem que acabara de dizer as coisas estranhas começou a rir como se realmente estivesse se divertindo com a situação.
– Vocês... (risadas) Vocês... não acreditaram nisso não é mesmo?! Vamos lá gente, foi engraçado, eu nem sei da onde tirei essas coisas então não subestimem a minha capacidade de improviso. — Ele continuava rindo, e todos mantinham-se sem reação.
– Isso foi realmente divertido,mas sabem o que foi mais importante? Sabem o que foi mais importante?- Disse levantando a voz na segunda vez que perguntou.
– Vocês não foram embora. Sim, isso mesmo, vocês não saíram por aquela porta mesmo depois de escutarem essas coisas tão estranhas. E sabem porque ? — Ele chegou bem perto do menino com o skate até ficarem cara a cara.
– Não. — Respondeu timidamente.
– Porque vocês precisam de algo, vocês tem esperanças, e não querem realmente acreditar que depois de ter saído de suas casas e vindo até esse lugar estranho encontrariam nada mais que um drogado falando algumas besteiras revolucionárias não é mesmo? — Me perguntei o que tinha de revolucionário naquilo, enquanto isso ele pegou a cadeira que iria se sentar anteriormente e veio arrastando-a despreocupadamente até o cento do círculo, e depois de sentar-se pelo lado contrário e continuou o seu discurso.
– Vocês já devem ter percebido que esse não é exatamente o nosso objetivo aqui, isso foi apenas uma brincadeira, mas agora eu lhes direi a verdade então peço que todos prestem atenção. — Ele falava acompanhado de grandes gestos, tentando ao máximo olhar pra cada um de nós. — Aqui, o hospital das almas, não é nada mais que uma sala com uma péssima iluminação e uma dúzia de cadeiras, na verdade agora é um pouco mais do que isso, porque agora nós também fazemos parte disso, por pais que não queiramos.- Ele parou de falar por uns instantes e respirou fundo como se estivesse tentando escolher as palavras certas para continuar, o que na minha opinião era inútil diante do que ele tinha falado momentos antes, nada seria muito impactante.
– Bem... Eu não sei bem como deverei explicar, mas basicamente aqui nós falaremos sobre nós. Contaremos cada detalhe de nossas vidas, de preferência sem hesitação mas cada um com seus limites, vocês poderão escolher começar da onde quiserem, do útero da sua mãe, do seu primeiro beijo, de um acidente, de um mês atrás, de um segundo atrás, eu só quero que seja descrito em detalhes o que você passou o como se sente sobre isso. E é claro que se quisermos algo descrito tão perfeitamente isso ira demorar, eu diria... umas três noites para cada um, então se tudo der certo nos encontraremos por uns meses, começando de hoje. — A menina do meu lado direito levantou a mão como se estivesse em uma escola pedindo permissão para falar.
– Siiiiim. — O homem disse olhando-a com um sorriso acolhedor.
– Ahm, o meu nome é Jane, e bem... Eu gostaria de perguntar se nos encontraremos todos os dias.
– Ótima pergunta Jane! Eu não faço a menor ideia, mas nós podemos nos encontramos as segunda, como hoje, quintas e domingos. É, eu acabei de decidir, então qualquer coisa é só falar comigo.
– Obrigada.
– E eu esqueci de me apresentar. Eu sou Derik mas vocês podem me chamar do que quiserem. Voltando as explicações... Deve ser difícil falar da sua vida para pessoas estranhas, então eu irei começar, e depois vamos seguindo a ordem das pessoas que se sentirem confortáveis a falar. — Durante todo o tempo ele permaneceu com um sorriso e uma voz que pareciam chamar pra brincar, mas seu tom foi ficando cada vez mais sério a cada palavra.
– Antes de falar sobre mim, gostaria de evitar futuros equívocos em relação ao nosso nome. O hospital das almas não se refere aquelas almas dos filmes de terror, mas aos ideais, aos pensamentos que nos constroem e não uma coisa que possa ser idealizada como um fantasma, se vocês tem algum problema pessoal e levar isso aqui como uma terapia em grupo e ao final se sentir "curado" eu me sentirei orgulhoso, mas não é esse o meu objetivo, na realidade o que eu quero aqui é apenas falar e ser escutado não importa quem esteja escutando, e espero que aos poucos se torne o objetivo de vocês também. Alguma pergunta? — A menina de preto levantou a mão.
– Sim — Respondeu, de volta com o sorriso de criança.
– Então não teremos nenhuma invocação? — Ela perguntou com um olhar desapontado.
– Infelizmente não, mas outro dia a gente marca. — Disse como se realmente fosse fazer aquilo. — Alguém mais? Não? Então vamos começar.
Antes que ele comece a sua história, não posso deixar de notar que ele é alguém que não pode deixar de ser notado. Todos os seus gestos, o modo como fala, até mesmo a combinação de suas roupas, cada elemento seu o descreve como uma pessoa livre da opinião das outras. A cada segundo ele parece estar despreocupado, fazendo o que tem vontade de fazer, na hora que quer fazer.
Mesmo que tenha se apresentando nesse instante, sinto como se já o conhecesse desde muito antes, e, ao mesmo tempo, tenho a certeza que não o conheço o bastante para torna-lo alguém fácil de ser lido, ou como se deixasse transparecer seus pensamentos.
A primeira impressão que tive do Derik: uma pessoa imprevisível.

Como a história é do Derik nada mais justo que deixa-lo conta-la. A penas mais uma observação: ele não sabe muito bem sobre as estações do ano.