Horror em Serra Branca
3 Capítulo 2 — Antigo Casarão Villalobos
O dia amanheceu cinza. O nevoeiro rastejava sobre a praça de Serra Branca como um lençol úmido, e o relógio da igreja — fiel em sua obstinação — ainda marcava 00h13. A chuva da noite deixara poças escuras ao redor do coreto, refletindo um céu sem sol. Nenhum pássaro cantava.
Gabriel chegou primeiro. Encostou o carro no mesmo ponto da noite anterior, acendeu um cigarro e ficou observando a torre da igreja como quem espera que o tempo volte a andar. Os ponteiros imóveis pareciam zombar dele.
— Você dormiu? — a voz de Augusto quebrou o silêncio. Ele surgiu com a gola da jaqueta levantada e o caderno debaixo do braço. — Porque eu não.
— Não dormi — respondeu Gabriel, sem olhar para ele. — Ficar parado me dá mais tempo pra pensar besteira.
Augusto riu, baixo.
— Isso é novidade? Você sempre foi especialista nisso.
Pouco depois, Hanako apareceu, pontual, vestida de preto da cabeça aos pés. A postura ereta, os olhos atentos, como se cada detalhe ao redor pudesse esconder uma ameaça. Maya veio logo atrás, as olheiras acentuadas, cabelo preso com pressa. Kenny chegou assobiando — mais para afastar o medo do que por costume — e Lívia caminhava ao lado, encolhida no casaco.
— Vocês têm noção de que isso é uma péssima ideia, né? — Hanako falou sem rodeios, cruzando os braços.
— Temos — respondeu Gabriel. — E mesmo assim, vamos.
— Claro — Kenny completou, irônico. — Porque todo bom plano começa com “é uma péssima ideia”.
Maya suspirou, cansada.
— Se o casarão foi isolado, é porque tem alguma coisa lá dentro. Se a polícia descobrir que estamos fuçando, estamos ferrados.
— Se a gente não for hoje, eles vão fechar tudo — disse Gabriel, firme. — E se tem qualquer chance de isso estar ligado à Beatriz, eu não vou esperar.
Hanako desviou os olhos. O nome ainda era uma ferida aberta.
— E quanto ao homem de capuz? — perguntou Augusto. — Aquele que apareceu na lanchonete? Pode ter ligação.
— Pode — Gabriel respondeu. — Ou não. Mas tudo começa no casarão.
Ninguém disse mais nada. O vento soprou entre as árvores da praça, trazendo o cheiro de terra molhada. A cidade parecia observar em silêncio, como se aguardasse o momento em que dariam o primeiro passo em falso.
❖
A estrada de barro que levava ao casarão cortava a mata. O carro avançava devagar, engolido pelo nevoeiro. O rádio permanecia desligado. Dentro do automóvel, o único som era o ruído dos pneus contra a lama úmida e o bater irregular do limpador de para-brisa.
— A família Villalobos era dona de engenho, né? — perguntou Lívia, quebrando o silêncio com uma voz hesitante.
— Sim — respondeu Maya, sem tirar os olhos da estrada. — E não eram exatamente conhecidos pela bondade.
— Escravizaram gente até os últimos anos antes da abolição. Dizem que até depois eles tentaram manter alguns empregados sob condições desumanas de trabalho — completou Augusto, folheando o caderno no colo. — Foram ricos, poderosos e, ao que tudo indica… sádicos.
— Diziam que faziam rituais no porão — Kenny acrescentou, debochado. — Mas, claro, toda cidadezinha tem sua lenda de família amaldiçoada.
— Algumas lendas têm mais verdade do que parecem — disse Hanako, com frieza. O silêncio que se seguiu foi espesso.
O casarão surgiu no meio da neblina como um corpo antigo emergindo da água. Enorme, de paredes descascadas e janelas escuras, tinha a imponência de quem não se importa com o tempo — apenas observa. As colunas da varanda frontal estavam cobertas de musgo e trepadeiras secas. O portão de ferro, pesado, já não ostentava sua magnitude de décadas atrás, mas era imponente, poderoso, quase uma fortaleza.
— A polícia já saiu — murmurou Gabriel. — Ou nunca quis ficar.
Eles desceram do carro. O chão encharcado sugou as solas dos sapatos, e o silêncio da mata ao redor era quase antinatural. Nenhuma cigarra. Nenhum pássaro. Nem vento. Apenas a respiração deles e o ranger lento do portão, como se lhes desse boas-vindas.
Lívia parou um instante e olhou para cima. As janelas estavam escuras, mas havia algo na forma como o casarão as encarava.
— Parece que… — ela hesitou — …que a casa está viva.
Ninguém respondeu. Nenhum deles precisava.
❖
— Cadeado quebrado — observou Maya, agachando-se diante da corrente solta no portão. — Ou a polícia entrou com pressa… ou alguém veio depois.
— Alguém veio depois — Hanako corrigiu. — Olhem.
Na lama, bem junto à cerca, havia pegadas recentes. Algumas humanas. Outras… mais difíceis de classificar.
Gabriel empurrou o portão, e o rangido ecoou pela mata como um aviso tardio. A sensação de atravessar aquele limite foi quase física: como se o ar ficasse mais pesado e frio do lado de dentro.
— Sério, gente — Kenny resmungou. — Isso é cena de filme de terror. O que vem depois… o violino dissonante?
— Cala a boca — Augusto respondeu, seco.
O casarão estava à frente deles, enorme, imutável. Hanako foi a primeira a subir os três degraus da varanda. O piso de madeira gemeu sob seus pés como se reconhecesse o peso de quem retorna.
Gabriel olhou para trás. O portão, antes entreaberto, agora estava completamente fechado.
Ele não ouviu ninguém tocá-lo.
O saguão de entrada cheirava a madeira úmida e ferro enferrujado. Cortinas rasgadas balançavam levemente, embora o vento estivesse ausente. Retratos antigos cobriam as paredes — rostos pálidos de homens e mulheres de olhar severo, vestidos de negro, eternizados em poses solenes.
Um relógio de pêndulo dominava o salão principal. Parado. Os ponteiros marcavam 00h13.
— Não é possível — Lívia sussurrou. — Como pode estar parado na mesma hora?
— Não pergunta — Kenny respondeu, em tom de meia piada, meia superstição. — É assim que morrem os personagens burros. São sempre os primeiros.
Maya acendeu a lanterna do celular e iluminou o piso. Pegadas secas atravessavam o saguão e desapareciam no corredor lateral. O vidro quebrado de uma janela próxima refletia a luz como um olho cego.
Gabriel sentiu o ar vibrar. Não havia som algum, mas a casa… ouvia.
— A gente devia olhar os cômodos principais primeiro — sugeriu Augusto, já com a câmera pendurada no pescoço. — Cozinha, biblioteca, escritório, sala de estar, e, claro, os quartos no andar de cima.
— Então nos dividimos? — Lívia perguntou, a voz falhando. — Naquele desenho do cachorro falante e seus amigos eles sempre se dão mal quando estão divididos.
— É, não devíamos — Hanako respondeu antes que alguém concordasse. — Mas vamos acabar fazendo mesmo assim.
Gabriel olhou para o relógio parado no saguão, para os retratos dos Villalobos, para o portão fechado lá fora. Respirou fundo.
— Meia hora. Se algo der errado, nos encontramos aqui. Ninguém faz gracinha sozinho. Entendido?
Um a um, eles assentiram.
Eles se dispersaram lentamente pelo casarão, como se atravessar aquele salão fosse também cruzar um limiar invisível. O som dos passos sobre o assoalho ecoava com atraso, como se a madeira demorasse a aceitar que alguém voltara a pisar ali. O ar estava frio e parado, mas havia uma vibração leve, quase imperceptível, como o zumbido de algo que respira dentro das paredes.
Augusto ergueu a câmera e tirou uma foto do relógio parado. O clique disparou pelo salão como um tiro seco, e até ele pareceu se arrepender do som.
— Isso foi idiota — murmurou Kenny, mais para si do que para o amigo.
— Foi instintivo — Augusto respondeu, forçando um sorriso. — Jornalistas têm os piores instintos.
Lívia observava os retratos pendurados na parede. A moldura de um deles — uma mulher pálida, com colar de pérolas e olhar oblíquo — estava inclinada, como se alguém a tivesse tocado há pouco. Ela estendeu a mão, mas parou no meio do gesto. Por algum motivo que não sabia explicar, sentiu que a mulher a observava de volta.
— Melhor não — disse Hanako, do corredor. — Nada aqui deve ser tocado sem pensar duas vezes.
Eles se dividiram naturalmente, como quem já viveu aquela coreografia antes.
Gabriel e Hanako seguiram pelo corredor à direita, em direção à escada que descia ao porão.
Maya e Augusto subiram os degraus estreitos e rangentes, rumo aos quartos do andar de cima.
Kenny e Lívia seguiram para a cozinha — a mesma cozinha que, anos atrás, eles tinham espiado através de uma janela quebrada durante uma noite de desafio adolescente.
— Trinta minutos — repetiu Gabriel, do meio do salão. — E ninguém se afasta da dupla.
O casarão respondeu com silêncio. Um silêncio pesado, que se instalou entre eles como uma terceira presença.
Tique.
A cozinha ficava nos fundos da casa, separada por uma porta de madeira empenada e úmida. Quando Kenny empurrou a maçaneta, ela cedeu com um gemido áspero. O cheiro que escapou de lá dentro era agridoce: ferrugem, gordura velha e alguma coisa úmida demais para ser apenas mofo.
— Nossa — Lívia cobriu o nariz com a manga do casaco. — Isso fede a coisa morta.
— Bem-vinda à culinária Villalobos — Kenny disse, forçando leveza. Mas havia suor escorrendo na nuca dele.
A cozinha era ampla e antiga. Panelas pendiam enferrujadas do teto, e o fogão de ferro parecia fossilizado no chão. Um armário escancarado deixava à mostra pratos rachados, e uma mesa central exibia marcas fundas — entalhes, cortes… ou arranhões.
A geladeira no canto da parede, dessas de porta arredondada e pintura esmaltada, não fazia barulho algum, não estava ligada a nada. Mesmo assim, quando Lívia passou perto, sentiu um frio inesperado na pele.
Taque.
No andar de cima, Maya e Augusto avançavam por um corredor estreito. Cada passo fazia o chão ranger com um som agudo, como ossos velhos sendo dobrados. Quadros tortos e portas semiabertas davam ao lugar a sensação de ter sido abandonado às pressas — ou deixado assim de propósito.
— Você lembra de como a Ana odiava vir aqui? — perguntou Maya, quase num sussurro.
— Lembro — Augusto respondeu. — Ela dizia que a casa falava quando ninguém estava olhando.
Ele tentou rir da lembrança, mas a risada saiu curta e seca. Passaram pela antiga sala de música: um piano desafinado com a tampa quebrada, e sobre as teclas, uma fina camada de poeira interrompida por marcas de dedos recentes.
Augusto abaixou-se, iluminando a superfície com a lanterna do celular.
— Isso não é coisa de fantasma — ele disse, a voz levemente trêmula. — Alguém esteve aqui.
Maya não respondeu. Estava parada diante da parede do fundo, onde um retrato de Ana Villalobos — aos dezoito anos — permanecia pendurado. O rosto jovem e delicado sorria com educação, mas os olhos… os olhos eram os mesmos que ela lembrava da escola.
Tique.
No porão, a escuridão tinha densidade. A cada degrau que desciam, Gabriel sentia o ar esfriar. O corrimão, coberto de ferrugem, deixava vestígios vermelhos em suas luvas. Hanako desceu logo atrás, atenta aos ruídos da casa — cada estalo era suspeito, cada respiração parecia mais alta do que deveria ser.
O porão era amplo, de teto baixo, com paredes de pedra. Barris de vinho cobertos de poeira ocupavam um canto. Gabriel iluminou o chão com a lanterna e viu marcas escorridas de um líquido escuro atravessando o cimento. Tocou com os dedos e sentiu a textura pegajosa.
— Vinho — murmurou. — Mas está fresco.
— Alguém esteve aqui — Hanako respondeu. Não era mais um palpite, era certeza.
Os dois se entreolharam. Na superfície do barril mais próximo, havia uma marca de mão. Úmida. Recente.
Taque.
No salão, o relógio de pêndulo continuava parado. O casarão inteiro parecia prendê-los no mesmo segundo repetido — 00h13. Lívia, inquieta, olhou por sobre o ombro e sentiu algo mexer no corredor, indo em direção à biblioteca. Kenny não percebeu. Ele já estava debruçado sobre a geladeira, tentando abrir a porta emperrada.
— Você tem certeza que quer… — ela começou.
— Se eu não abrir, vou ficar pensando no que tem aqui dentro pelo resto da vida — Kenny respondeu.
A trava de metal rangeu quando ele a puxou. Um estalo seco ecoou pela cozinha — e a porta se abriu com lentidão, como se resistisse a revelar seu segredo.
De dentro, escapou um sopro gelado. Lívia estremeceu. Kenny engoliu em seco. E, por um instante, nenhum som veio de fora.
Tique.
No andar de cima, Maya sentiu um arrepio percorrer a nuca. Na mesma hora, Augusto largou o celular, que caiu no chão com um estalo — o silêncio da casa amplificou o som como um trovão distante. Os olhos de Ana no retrato pareciam, agora, ligeiramente virados. Maya evitou olhar, mas ao encarar o corredor, teve a impressão de ver uma silhueta vestindo branco — a mesma que a perseguia nos pesadelos.
Taque.
No porão, Gabriel fechou os olhos por um segundo. O cheiro de vinho fresco era forte demais. Tão forte, que ele jurou ter escutado a voz dela chamando-o pelo nome.
— Beatriz? — Ele respondeu, sem perceber o quão delirante pareceu. — É você, meu amor?
Hanako ergueu a cabeça, alerta.
Acima deles, o relógio começou a vibrar, mesmo sem se mover.
E a casa, silenciosa até então, soltou um estalo profundo — como se tivesse puxado ar para os pulmões.
Tique.
— Kenny? — a voz de Lívia saiu fraca.
— Eu sei… — ele respondeu. — Eu também ouvi.
A porta da geladeira estava completamente aberta agora. A escuridão lá dentro parecia mais densa que a própria cozinha.
Lívia deu um passo para trás.
— Não tem nada… — Kenny começou a dizer enquanto retirava o isqueiro vermelho do bolso, pronto para fazer a chama iluminar o interior da velha geladeira.
E então o relógio do saguão tocou uma única badalada surda.
Não era meio-dia. Não era meia-noite. Era 00h13.
Taque.
Na varanda, o portão se moveu sozinho — e trancou com um som metálico, firme, quase satisfeito.
O casarão Villalobos acabara de fechar a boca.
E eles estavam lá dentro.
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