Horror Federal

2 Capítulo 2 - A mensagem cruel


Era sexta, último dia de trote. Luiz chegou à Universidade e se dirigiu diretamente à sua sala de aula, fazendo seu ritual diário de procurar Pedro pelo caminho. Em nenhum dia daquela semana Luiz conseguiu encontrá-lo pelo departamento. As mensagens que mandava eram lidas e ignoradas. Às vezes uma resposta monossilábica era enviada.

Durante a aula, Luiz já estava próximo de um grupo de garotas com quem fez amizade durante a semana. Era seu grupo de um trabalho que duraria todo o semestre e entre elas estava Ana Laura. Luiz estava bem ultimamente. Ele nem pensava duas vezes antes de dizer que estava se sentindo feliz. A vida nova de universitário parecia legal. Após o fim da aula, era hora de se reunir para o último dia do trote, que acabaria com uma cervejada.

Depois de uma divertida guerra de bexigas d’água e de algumas tortadas na cara em meio ao pátio do Centro de Artes e Comunicação, ambiente também conhecido como “prainha”, Luiz se limpou e colocou a muda de roupa que havia levado na mochila, indo almoçar no Restaurante Universitário da universidade após isso. No almoço, Luiz se encontrou com dois amigos do ensino médio: Liana e Carlos. A primeira cursava Física e o segundo Ciências Biológicas. Os três estudavam em Centros bem distanciados entre si e o almoço era a melhor oportunidade para se reencontrarem.

O momento foi extremamente bom. Luiz adorou passar um tempo com seus amigos que não via há mais de um mês e adorou a comida, a melhor entre todas que comeu no RU naquela semana. Luiz considerava o ambiente do restaurante muito bonito. Chegou até a comentar com Carlos e Liana sobre como as colunas e as paredes de vidro cercadas por plantas de médio porte e de um verde bastante vivo tornavam o ambiente tão agradável. Porém, outra coisa além da arquitetura do RU chamou sua nesse dia: um cachorro ao seu lado. O animal estava deitado no corredor formado entre os dois feixes de mesa, mas não tirava os olhos de Luiz. O jovem considerou dar a ele alguns cubinhos de seu frango xadrez, mas foi repreendido por Carlos.

— Não pode alimentar os animais! Você não leu as advertências do restaurante? – o amigo o alerta.

— Bem, eu li. Mas que mal faz? – Luiz respondeu antes de desistir da ideia e voltar a comer sua refeição sem se preocupar com o cão.

— Eu não li. – Liana dá a informação como se quisesse apenas interagir, embora parecesse completamente alheia à conversa. Era uma característica que Luiz e Carlos achavam engraçada, por isso riram logo após a garota falar a frase.

Após almoçar e se despedir de seus amigos, Luiz foi descansar um pouco para depois ir à cervejada, que seria em um bar ao lado da universidade, em um ponto próximo ao CAC. Ele sentou-se em um dos bancos de concreto da prainha que ficavam perto de uma pequena lagoa artificial e ficou olhando seu reflexo na água. Observava seus olhos castanhos e vivos atrás dos óculos azuis e abaixo de suas sobrancelhas negras e grossas. Revezava entre olhar para seu rosto, olhar para o reflexo do céu e olhar para os peixes que nadavam ali. Nadavam de um lado para o outro, sem motivo algum. Apenas confinados naquele espaço quadrado sem nenhum conhecimento do que seria um lago. Não tinham uma perspectiva de vida limitada até mesmo para um animal.

Depois de alguns minutos refletindo diante das águas do CAC, Luiz se dirigiu ao local marcado: o Bar do Cavanhaque, conhecido simplesmente como Cava. O ambiente já estava bastante movimentado, mesmo não estando cheio. As pessoas do seu curso estavam perto dos fundos, ao lado de uma mesa de sinuca. Luiz avistou Ana Laura e foi até ela. Já havia um pequeno grupo de estudantes do primeiro período. Eles entregaram um copo a Luiz e o garoto começou a beber e conversar. Pouco tempo depois, um veterano chegou com um marcador preto em mãos e pediu que Luiz virasse a mão que usava para segurar o copo. Luiz estranhou um pouco, mas o fez. O veterano então desenhou uma lhama no dorso da mão direita de Luiz e se afastou.

O jovem perguntou aos colegas o que significava aquilo. Ana Laura explicou que se alguém gritasse a palavra “lhama”, quem estivesse segurando algum copo ou garrafa com a mão na qual houvesse a lhama precisaria beber todo o líquido do recipiente de uma vez. Não demorou e Luiz ouviu alguém gritar a palavra mágica. Ele observou um outro veterano bebendo de vez um copo cheio de cerveja. Minutos depois, distraído com a conversa, Luiz é pego de surpresa com alguém gritando “lhama” e apontando para sua mão direita, onde havia um copo de vinho. Ele seguiu as regras e virou o copo quase cheio. Nunca havia bebido vinho tão ruim.

O tempo passava e gradativamente o bar se tornava mais cheio. O céu já apresentava um crepúsculo sem vida. Luiz estava envolto por fumaça e pessoas agitadas. Havia gente de vários cursos no local, mas os estudantes de Design estavam reunidos em um mesmo local. Luiz conheceu melhor algumas pessoas com quem não havia conversado direito durante a semana. Uma dessas pessoas foi Marcela, que contou como adorava tequila e como um dia dormiu no quarto da empregada porque havia chegado bêbada em casa, deixando seu pai preocupado. Luiz viu em Marcela uma alma extremamente boa. Talvez já estivesse alterado o suficiente a ponto de fazer reflexões tão profundas a respeito da alma de alguém.

Apesar de todos ali, Luiz sentia falta de uma pessoa: Pedro. Sentou-se e pegou o celular. Não conseguia mais distinguir bem as pessoas ao seu redor. Apenas via vultos dançando, se beijando, brincando com leite condensado, bebendo e conversando. Focou na tela do seu celular, se esforçou para colocar o padrão para desbloqueá-lo e entrou no Messenger. Viu que já havia perguntado a Pedro se ele estaria presente na festa. Perguntou novamente. Luiz digitava incrivelmente bem, mesmo bêbado.

Ficou sentado um tempo enquanto olhava para o celular, na esperança de uma resposta. Ela veio. “Estou muito ocupado ultimamente”. O garoto aproveitou que Pedro estava online e começou a se abrir. Não estava mais aguentando aquilo dentro de si. Foi uma conversa complexa que terminou em um “por favor, resolva seus sentimentos sozinho, não me envolva pois não tenho nada a ver com essa sua ilusão”.

Durante a conversa, Luiz nem havia notado o tempo passar. Já era noite. Algumas pessoas da sua turma já haviam ido embora, mas o local continuava extremamente cheio de estudantes. Luiz estava ainda sentado, porém agora estava chorando. Não demorou e Ana Laura estava perto dele, com a mão em seu ombro e perguntando o que havia acontecido. Liana também estava ao seu lado com um colega de turma, que havia estudado com Ana Laura no ensino médio. Luiz explicou que conversou com Pedro, mas apenas Liana sabia parte da história. Ele tranquilizou as amigas dizendo que ia ficar bem.

Elas ficaram por perto, conversando e bebendo. Luiz parou de chorar e começou a observar o local. Tantas coisas se passando pela sua cabeça naquele momento. Ele avistou alguém conhecido, um antigo garoto por quem teve uma queda. Cogitou conversar com ele e tentar algo apenas porque estava triste com as palavras de Pedro. Desistiu. Observou ao redor. Viu tanta gente e se sentiu só. Seguiu em direção à saída do bar com discrição, para que Ana Laura e Liana não o notassem. Passou pelo garoto que havia encarado há pouco tempo e o cumprimentou. Com dificuldade, passou pela multidão e chegou à saída. Foi até a parada de ônibus próxima e ficou lá. Pensou. Refletiu. Atravessou a rua e entrou na universidade. Havia uma festa sendo preparada em frente ao CAC. Calourada de algum curso, mas não sabia de qual. Mas não era pra lá que estava indo. Dirigiu-se ao CFCH.

Entrou no prédio e foi até as escadas de emergência. Ele estava lá. A figura sombria de chifres. Parecia estar esperando por Luiz, pois estava estático sobre os primeiros degraus. Cumprimentou Luiz e começou a subir as escadas, como se soubesse que Luiz sabia que devia segui-lo. Luiz começou a subir atrás da figura. Primeiro andar. Segundo. Terceiro. Quarto. Quinto.

Não conseguiu. Desabou em choro e parou. A figura ficou o observando parada. Luiz começou a correr degraus abaixo, deixando a figura para trás. Chegou ao quarto andar e se deparou com a figura parada, o observando descer. No terceiro andar, a mesma coisa aconteceu. Assim como no segundo, no primeiro e no térreo. Luiz saiu do prédio e foi apressando para a parada, enxugando os olhos as falanges proximais dos dedos indicadores. Pegou seu ônibus em direção à sua casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.