Horror Federal

1 Capítulo 1 - A figura sombria


Era a primeira vez que Luiz Martins colocava os pés na universidade para ter aula. Passou lentamente pelos ferros que servem para impedir a passagem de motocicletas junto a vários outros alunos e caminhou por um dos vários estacionamentos da universidade rumo ao Centro de Artes e Comunicação, conhecido como CAC.

A universidade era dividida em vários centros e os alunos eram todos encaixados dentro de estereótipos de acordo com os centros aos quais pertenciam. Até mesmo os calouros já entram cientes de tudo isso. Luiz já sabia que, por estudar no CAC, seria automaticamente taxado como alguém criativo, liberal e ativista.

Luiz chegou à entrada do CAC, um prédio de Arquitetura Brutalista que parecia muito pequeno por fora. Na frente, havia vários estudantes que se destacavam por seus cabelos coloridos ou pelo bom gosto na escolha das peças de roupa. O estereótipo de que os estudantes do CAC eram muito descolados parecia se confirmar a cada segundo.

Luiz olhou ao redor, antes de passar pelas portas de vidro fumê. Viu as barracas de lanches e guloseimas na rua de ladrilhos em frente ao centro e atrás delas um outro centro, o Centro de Filosofia e Ciências Humanas, o CFCH, simplesmente o prédio mais alto da universidade. Mas era um prédio que chamava a atenção de Luiz antes mesmo que começassem suas aulas.

Quando era mais novo, Luiz havia feito uma prova no prédio do CFCH. Se tratava de um vestibular para cursar o ensino fundamental e o ensino médio no Colégio de Aplicação, situado também na universidade. Foi uma prova conturbada. Luiz se lembra de alguma rebelião feita pelos pais das crianças que estavam no prédio. Havia alguma regra que não permitia que nenhuma das crianças saísse. Luiz não entende bem os acontecimentos daquele dia até o presente momento, mas lembra-se de uma cena que ficou em sua cabeça de maneira nítida. Uma cena que envolvia certa figura como uma sombra alta e com chifres circulares.

Todos de sua sala haviam terminado a prova, mas ninguém podia sair. Lá fora, o barulho de gritos de protesto era bem audível. O fiscal da sala havia se ausentado e as crianças decidiram aproveitar a brecha para agirem como quisessem. Algumas decidiram jogar futebol com uma garrafa de refrigerante dentro da sala, outras saíram para o corredor e Luiz foi uma delas. O garoto queria entender o que estava acontecendo lá embaixo, na entrada do prédio. A situação parecia caótica tanto fora quanto dentro do local. Ele havia corrido até uma parte da parede que tinha vidros enormes e visto seu irmão com sua namorada do lado de fora. Ambos acenaram e fizeram um sinal para que Luiz esperasse no prédio. Aquilo o tranquilizou. O garoto decidiu voltar à sala onde estava, mas antes precisava ir a uma escadaria do prédio. Não porque queria, mas porque estava sendo convidado. Chegando ao local escuro, ele se deparou com a sombra alta, cuja silhueta indicava grandes chifres circulares e uma mão com unhas afiadas e cujo dedo indicador apontava para cima. Luiz sentiu vontade de gritar, mas a vontade se esvaiu quando a figura o tocou rapidamente. Ele agora entendia que a sombra queria que ele subisse as escadas, mas não obedeceu. Voltou silencioso para a sala onde fez a prova.

As memórias são confusas na cabeça de Luiz, mas sempre surgem em sua mente quando ele olha para o prédio. Ele sente uma mistura de vontade de entender o que houve naquele dia e vontade de deixar pra lá por já entender subconscientemente o acontecido.

O jovem para de olhar para o prédio e passa pelas portas de vidro escuro, entrando no CAC. O centro parecia muito maior por dentro. Era iluminado e escuro ao mesmo tempo, parecia uma espécie de gruta geométrica. Ele perguntou a um homem em um balcão no saguão principal onde ficava o auditório de Design, local onde aconteceria sua primeira atividade acadêmica. Após a explicação, caminhou até o local, tendo a sensação de que estava caminhando em um labirinto.

A partir daí, muitas coisas se passavam pela cabeça de Luiz. Não parecer estranho; ser amigável; agir naturalmente; encontra Ana Laura, garota que conhecera no ensino médio; pegar todas as informações importantes sobre o curso; e procura por Pedro. Ele tentava manter o foco em realizar todas aquelas tarefas e não percebia que essa preocupação em segui-las ocasionavam justamente um descumprimento delas.

Ele olhava para todos os lados à procura de Pedro e de Ana Laura. Precisava encontrar a antiga amiga para não sentir-se só e precisava encontrar o garoto para ter uma conversa que julgava urgente. Pedro se tratava de um veterano de seu curso que Luiz conheceu no dia de sua matrícula. Algumas coisas aconteceram entre eles e Luiz precisava de uma conversa para se livrar de algo ruim dentro de si. Algo que o estava matando.

Ele chegou ao auditório de design sem ter encontrado nenhum dos dois. Ficou lá sentado esperando que a atividade começasse. Minutos depois, Ana Laura entra na sala e senta-se ao lado de Luiz.

— Oi! Tudo bem? – ela pergunta após dar ao garoto um abraço tímido.

— Sim. Só um pouco nervoso. – Luiz responde em um tom fúnebre, mas com um sorriso no rosto – Acho que não vou fazer amigos aqui.

— Também tenho essa sensação. Mas a gente consegue. – a garota o conforta.

— Sim. Isso é normal sempre que chegamos a algum lugar novo. – Luiz tenta convencer a si mesmo.

Pouco tempo depois, a coordenadora do curso aparece para explicar tudo a respeito da graduação. A conversa entre ela e os alunos dura cerca de uma hora e meia.

Acabada a atividade com a coordenadora, todos os calouros são guiados por um grupo de veteranos para a entrada do centro. Durante o caminho, todos discutem sobre como o curso é diferente por ser composto apenas por cadeiras eletivas após o primeiro período. Alguns alunos falam preocupados sobre o temível ranking necessário para conseguir ingressar nas disciplinas. A conversa faz a viagem até a entrada do prédio ser bem rápida, apesar de feita a passos lentos.

O curso de Design é um dos poucos da universidade que realiza uma atividade chamada trote. Cada curso que o realiza o faz de uma forma diferente, mas o de Design parece ser o que leva a atividade mais a sério. O trote de Design dura duas semanas, onde a primeira é de desafios realizados pelas redes sociais na semana anterior às aulas e a segunda é durante os primeiros cinco dias de aula. Luiz não havia realizado nenhum dos desafios virtuais, mas queria participar dos presenciais durante a primeira semana de aula.

Alguns calouros que não quiseram participar da atividade foram embora e outros ficaram para o trote, inclusive Luiz. Os veteranos pediram para que eles se juntassem, ficando o mais próximo possível um dos outros. A situação era divertida. Alguns riam, outros faziam caretas e já fechavam os olhos, sabendo que iam receber um banho de tinta. Luiz observava tudo com um sorriso no rosto. Via os calouros perto de si, alguns veteranos com baldes de tinta um pouco distantes, outras pessoas observando a cena mais longe, a rua em frente ao CAC, pessoas caminhando, as barracas de lanches e o prédio do CFCH. Tudo pareceu distante a partir daí. As vozes estavam baixinhas e as pessoas caminhavam em câmera lenta. Apenas uma coisa estava em foco: a figura sombria de chifres parada na lateral do prédio mais alto da universidade. Estava lá, mesmo sem olhos, olhando para Luiz. Estática. Luiz ficou hipnotizado pela imagem até fechar os olhos para se proteger do líquido colorido vindo em sua direção.