Hormona

1 1x01: House On Fire - Parte 1


Notas iniciais
Primeira parte do capítulo, escrito por Márcio Vinicius e Gabriel Utinetti. Link para conferirem fotos/intérpretes dos personagens: http://fdchroniclesproject.blogspot.com.br/2018/05/cast-hormona.html Aproveitem!

Hormona

Capítulo 1x01: House On Fire

Parte 1: Memories I

Acabava de passar da meia-noite, e a madrugada de domingo chegava. Um pouco atrasado com o horário, o ônibus andava rapidamente pela cidade de Crows Hills, enquanto Beatrice estava sentada em seu interior. A menina de 17 anos olhava pela janela, enquanto a cidade passava como um borrão diante dos seus olhos. Sua mãe dormia profundamente no assento ao seu lado.

Mexeu na sua pulseira spike, que carregava no pulso, enquanto ouvia The Kids Aren’t Alright, do The Offspring no seu celular. De repente, um caminhão de bombeiro passou ao lado do ônibus, enquanto este fazia um movimento brusco. As sirenes do carro acabaram por acordar a maioria dos passageiros do ônibus, como sua própria mãe.

Ela passou a mão pelos cabelos pretos que possuía enquanto o veículo já se aproximava do seu destino final, a rodoviária da cidade de Crows Hills. Beatrice e sua mãe moravam em outra cidade, bem longe da Califórnia, onde Crows Hills se localizava, mas devido a alguns problemas que o destino trouxe, elas foram obrigadas a se mudar para a nova cidade. Desceram rapidamente do ônibus, apenas para ver a tia de Beatrice, Cecilia Woods, esperando pelas mesmas na plataforma 8.

— Louise, irmã! – Cecilia se aproximou de sua mãe. – Que bom que chegaram em segurança. Como foi a viagem?

— Sem qualquer problema, irmã. Perfeita. – Louise sorriu, depois de abraçar Cecilia. Beatrice preferiu ficar um pouco distante de ambas, enquanto rolava os olhos.

— Venham, venham! Martin nos espera. – Cecilia falou, percebendo a cara de interrogação das duas. – Martin é o meu motorista. Acostumem-se, a vida de vocês acabou de dar um salto.

Cecilia Woods andava à frente, se portando como uma grande dama, enquanto Louise e Beatrice a seguiam, carregando as malas. Sua mãe se mantinha relativamente distante de Beatrice, e ela já sabia que isso aconteceria. Cecilia era a Louise que tinha dado certo. Na época do colégio, as duas tinham os holofotes da escola apontados para si, mas o destino logo tratou de diferenciá-las. Enquanto uma alcançou a glória, a outra só conseguiu escória.

Beatrice e sua mãe nunca tinham se dado exatamente bem, principalmente porque ela sempre foi diferente dos ideais que Louise gostaria de implicar à filha. Para ela, sua filha teria de ser: a grande, a popular, a rainha do baile; embora Beatrice sempre tenha mostrado que não seguiria tal caminho para desgosto da mulher.

Ao chegar no carro, Martin ajudou as duas a colocarem a bagagem no porta-malas do carro, e então partiram.

O veículo corria rapidamente pelo centro da cidade, indo na direção dos subúrbios, quando passou na frente do prédio da Crows Hills High School. Cecilia logo disse:

— Aqui é onde o Parker estuda, Louise. Ele e quase todo o resto da cidade. – Ela riu.

— E como você pediu, irmã, a Beatrice já está matriculada. Assim que me enviou seus dados, vim até aqui.

— Me matriculou no que? – Beatrice tirou os fones de ouvido que carregava.

— Na escola, querida. Você não acha que vou te deixar longe dela, né? – Louise respondeu.

— Não sei, você me surpreende a cada dia.

— Será um bom local, Bea. Poderá recomeçar completamente. – Sua mãe sorriu, embora Beatrice já sabia o que ela queria dizer com isso.

Colocou os fones de ouvido novamente, preferindo manter o silêncio. O carro repentinamente diminuiu e parou, com Cecilia soltando um grito. Um policial tinha barrado o carro e agora se aproximava do veículo. Um pouco mais na frente, um caminhão de bombeiros estava parado. Beatrice acompanhou com o olhar o trabalho dos profissionais até perceber que uma casa estava pegando fogo.

Que recepção incrível hein?— Pensou.

XXX

À primeira vista, acasa dos Woods parecia relativamente normal, somente um pouco maior que as casas normais de Crows Hills, mas a principal diferença consistia no quintal da residência. Uma grande piscina se localizava na parte de trás, além de mais alguns cômodos isolados mais ao fundo. Na marcação que separava a casa do rio que cortava a região, existia uma cerca, com uma pequena porta que dava acesso à margem.

Tudo isso podia ser visto a partir da janela do quarto de Beatrice, que acabou ficando de frente para os fundos da casa. Sua mãe acabou no primeiro quarto de hóspedes da casa, no térreo, enquanto ela ficou no piso superior. Era tarde de domingo e o sol brilhava sobre a cidade. Um cenário perfeito para ficar em casa.

— Você não é de falar muito, né? – Uma voz surgiu, vindo do batente da porta, que estava aberto.

— Oi? – Beatrice tirou os fones de ouvido, até perceber quem estava ali. – Ora, ora. Quanto tempo, Parker.

— Não precisa ser sarcástica comigo, Bea. Eu sei que você não queria estar aqui.

— Nossa, você descobriu isso sozinho? Seu QI melhorou desde a última vez que a gente se viu.

Beatrice e Parker tinham vagas semelhanças no rosto, principalmente pela herança de família. Beatrice tinha cabelos longos e escuros, assim como seus olhos negros, enquanto Parker possuía cabelos curtos e castanhos. A principal diferença consistia em como os primos eram: Beatrice era a clássica silenciosa e sarcástica; Parker era o atleta popular, o extrovertido.

— Enquanto você continua sendo a mesma. Mas olha, por que você não sai um pouco?

— Parker, pra onde eu vou sair? – Beatrice riu. – Eu acabei de chegar. E o sol está muito quente, cadê o frio desse lugar?

— Bem-vinda a Califórnia, priminha! – Ele respondeu, enquanto a outra ergueu uma sobrancelha. – Tudo bem, não vou mais te incomodar.

— Então por que ainda está me incomodando? – Beatrice falou, lançando um sorriso a ele. – Vai nadar, vai. Depois você me atura mais.

XXX

Beatrice e Parker estavam sentados à mesa da sala de jantar, comendo uma refeição qualquer. Esse hábito nunca acontecia com os Woods, mas Cecilia achou que seria uma data especial, pela chegada dos novos moradores da casa. Louise também estava presente, conversando com a irmã. A televisão estava sintonizada no noticiário local. Subitamente, uma notícia a respeito de um incêndio que acontecera em uma residência chamou a atenção de Beatrice.

Foi aquele incêndio que a gente viu... Ontem à noite.

Cecilia gritou horrorizada, enquanto Parker continuava a olhar para a televisão, com súbito interesse.

— Filho? – Cecilia levou a mão ao peito. – Você ficou sabendo disso? A casa da sua professora...

— Pegou fogo. Fiquei sabendo.

— Meu Deus, a questão não é essa! Estão falando que foi criminoso.

— Quem botaria fogo na casa da Sra. Libby? Tirando a cidade inteira, é claro...

— Parker, não fale isso! A Sra. Libby é uma mulher honrosa.

— Eu vou vomitar com tanta falsidade. – Beatrice disse baixo, recebendo um leve tapa de Parker, que disse com o canto da boca para a mesma ficar quieta.

— Bem, acho que vou subir.

— Parker, você nem tocou na comida...

— Tô sem fome, como mais tarde. – Ele falou, levando o prato até a geladeira. Sua mãe até tentou argumentar, mas logo se calou. Antes de subir, passou por Beatrice e disse no seu ouvido:

— Amanhã te conto tudo. Vai ser um longo dia.

XXX

Beatrice terminou de colocar os cadernos em sua mochila, antes de sair para a escola. Uma buzina vinda do lado de fora anunciava que a menina estava atrasada, e desceu correndo as escadas até sair pela porta da frente. A menina fechou a porta e viu o chaveiro sobre o capacho. Trancou-a e se virou na direção do carro. Parker buzinou mais uma vez, fazendo Beatrice revirar os olhos.

— Bom dia, flor do dia. – O garoto respondeu, logo depois de dar partida no automóvel.

— Bom dia pra você. – Ela respondeu, virando para a janela.

— Quer colocar alguma música?

— Você tem The Offspring? Ramones? Sex Pistols?

— Tenho a rádio local, serve? – Ele disse, ligando-a.

— Justin Bieber? É sério? – Ela respondeu ao perceber a música que estava tocando.

— É a rádio que tá dizendo, não eu. – Ele disse, erguendo os ombros.

Beatrice suspirou mais uma vez e começou a mexer no colar que possuía. Considerado um artefato demoníaco por várias pessoas, Beatrice simplesmente não ligava para isso, embora para leigos o colar com um pentagrama poderia indicar algo que ela não era. Era somente a sua maneira de vestir. Além disso, vestia uma camiseta preta e calças jeans, seu clássico look.

Depois de alguns minutos em silêncio, ela perguntou:

— Ei, Parker... O que você tinha pra me falar ontem? – Assim que o carro parou em sinal, o garoto pegou uma garrafa de água e bebeu um gole, logo depois ofereceu à prima.

— Quer um pouco? – No momento que a garota aceitou, Parker começou a falar.

— No dia que você chegou, Bea... – Hesitou. – Cara, a escola inteira vai estar falando disso, você vai saber.

— Saber o quê? – A menina então deu um gole na água e logo tirou a garrafa da boca, ao sentir o líquido descendo queimando pela garganta. – Parker, isso não é água.

— Pensei que você tinha diferenciado. É limonada alcóolica.

— Meu Deus, Parker... Você é mais louco que eu pensava. – Beatrice começou a rir.

.

— Como você acha que eu aguento a escola? Falando nisso, acabamos de chegar. – Logo depois de estacionar, ele tentou lembrar de algo. – Minha mãe pediu pra falar algo pra ti, mas não lembro o que...

— Aulas...?

— Isso, isso mesmo, você tem que ir falar com o diretor pra ver o seu calendário de aulas. Vai que a gente tenha sorte e caímos juntos.

— Acredite, estou torcendo pra isso não acontecer. – Ela disse, saindo do carro.

XXX

Bea entrou na sala indicada antes do sinal tocar. Alguns alunos já estavam no local e conversavam. Uma menina de cabelos castanhos, sentada na cadeira da frente, mexia nos cadernos. Quando observou Beatrice passando à sua frente, a cumprimentou.

— Você é nova, não é? Nunca vi você por aqui.

— Bem, eu cheguei anteontem na cidade. – Beatrice falou.

— Prazer, sou a Clair. Espero que... Goste da sala.

Beatrice escolheu um local mais ao fundo da sala, esbarrando sem querer em outro garoto no meio do caminho.

— Ai, me... Me desculpa. – Ele disse. – Eu não quis esbarrar em você.

Beatrice abriu um sorriso, e logo respondeu:

— Fica tranquilo, não foi nada. – Então Beatrice viu outra moça chegando à sala e se aproximando do garoto. Ela estava com uma maquiagem preta pesada e uma mochila um pouco surrada, além de vestes negras. Ela olhou com curiosidade para Beatrice, e depois falou:

— Aluna nova?

— Beatrice. – Ela sorriu. Meg também abriu um sorriso fraco, enquanto apresentava a si mesma, Meg, e também Elliot, o nome do garoto no qual esbarrou.

Depois disso, Beatrice tomou um lugar duas cadeiras atrás de Meg. Começou a mexer nas suas coisas até ouvir alguém chamando-a.

— Querida? – Beatrice ergueu os olhos a tempo de ver uma provável patricinha a chamando. – Oi, você deve ser nova.

— Cheguei anteontem. – Ela respondeu.

— Ah sim, compreendo. Então, a questão é que... A gente já tem lugar marcado nessa aula. E aí é meu lugar. – Candace completou. – Aqui do lado tá livre.

Beatrice se mudou para a carteira ao seu lado direito, enquanto uma menina de cabelo azul chegava e ocupava o lugar do outro lado. Se virou na direção dela e a olhou. Logo depois, disse pra si mesma:

— Parece que finalmente teremos alguém legal nessa sala além da Meg.

Vindo da porta, um outro garoto chegava. Candace olhou para ele, suspirando, enquanto Logan a avistava. Ele se sentou próximo na frente da mesma e logo depois se virou, começando a conversar com ela.

— Sabe, você não vem tendo tanta sorte. – Parker disse, surpreendendo a menina que não tinha percebido sua entrada. – Sentou bem na minha frente.

— Se eu quisesse, já tinha me mudado. – Ela se virou, quando viu mais um jovem chegando, mexendo no cabelo.

O sinal tocou.

— Esse é o Cameron. O santinho da turma, mas todo mundo sabe que é santinho-do-pau-oco. E essa é a Gloss.

A tal Gloss chegou com pose soberana na sala. Era claro para Beatrice que ela era a abelha-rainha de Crows Hills High School. Sentou-se próxima de Candace, que provavelmente deveria ser a Gloss #3 ou qualquer outro número.

— Linda, né?

— Será que ela vai escrever meu nome no Livro do Arraso? – Ela chochichou, no mesmo momento que Parker gargalhou.

— Ah, essa é a Tiffany. Ela que dá aula de Literatura. – Parker disse para a prima, que concordou com a cabeça, no instante em que a professora adentrava no recinto.

Antes que a mulher pudesse falar qualquer coisa, a porta abriu com um baque. Um jovem entrava na sala, meio afobado, mas que exibia um sorriso debochado na boca.

— Bom dia, professora Tiffany! – Ele disse, lançando uma piscada para ela e depois se sentando ao fundo, atrás de Dani, a garota de cabelos azuis.

— Louis Chermont. Ele é assim mesmo, relaxa. – Parker disse para Beatrice, que concordou com a cabeça de novo. Ela realmente via uma classe de High School como nos filmes ali. Todos pareciam ter seus estereótipos definidos.

Tiffany já iria começar a aula quando o assunto da casa incendiada finalmente veio à tona. Mas vinha através de uma voz nada agradável, que ressurgia nos altos-falantes de todas as salas. Era a voz do diretor da escola... Dizendo que ia convocar alguns alunos para a sala da direção.

— Eu te falei que esse ia ser o assunto do dia.

XXX

O cheiro áspero da fumaça incomodava o olfato da menina, fazendo-a correr por um corredor extenso e descer a escadaria em tropeços. Sienna parou em frente à torradeira a tempo de ver dois borrões pretos saltarem pelas frestas.

— Que merda! — Exclamou, jogando os pães queimados na lixeira.

— Não sabe fazer uma torrada? — Cameron entrou na cozinha, rindo da expressão da prima, que fazia uma cara de poucos amigos. Ele jogou a mochila pesada sobre o balcão de mármore enquanto se sentava numa banqueta.

— Qual foi? Levanta, precisamos gravar, cabeção. – Sienna desistiu das torradas e surrupiou um biscoito de um pote de cerâmica, jogando outro para Cameron, o qual quicou três vezes na mão do rapaz antes de e cair no chão.

— Não consegue pegar um biscoito? – Provocou a menor num tom teatral de surpresa, rindo enquanto subia as escadas.

Cameron rolou os olhos e agarrou a mochila, galgando pelos degraus cuidadosamente até o quarto de Sienna.

— Decorou a letra, Si?

— Sim, não é difícil, “all the crazy shit I did tonight, those would be the best memories”... — Cantarolou.

— Ok. – Cameron começou a tirar vários equipamentos de dentro da sua mochila, montando todos em alguns minutos.

Sienna sentou-se na beirada de sua cama extensa, enquanto o outro fazia o mesmo, o violão já entre os braços esqueléticos.

— Não esquece a festa de hoje à noite. Precisamos gravar para o canal. – Disse ele.

XXX

— Daniele Sioux, Louis Chermont, Parker Woods, Logan Langdon, Cameron Mason e, – todos ouviram um pigarro vindo dos alto-falantes – Gloriana Blum; compareçam à sala do diretor Graner imediatamente.

Cameron levantou-se da cadeira, a expressão abatida e os cabelos castanhos absurdamente bagunçados. Os seis adolescentes — com a mesma expressão cansada, a não ser por Gloss — trocaram olhares e saíram da sala sob a observação de todos os outros, e Cam percebeu Candace o fuzilando com seus olhos azuis.

Eles seguiram pelo corredor extremamente limpo e vazio, o único barulho sendo os saltos dos sapatos de Gloss batendo contra o piso; e cada cloc parecia uma alfinetada na cabeça dos outros.

— Precisamos ser inteligentes quanto a isso – Começou a morena. Ela se apressou na frente de todos, sem parar de andar, para ser mais notada; ou apenas por capricho. – Quando perguntarem, não estávamos na festa de ontem, então inventem qualquer história convincente e, por favor, me digam que apagaram as fotos do Facebook e tweets

Todos concordaram, e Gloriana ignorou o “claro, majestade” que Dani havia dito.

Cameron e os outros cinco chegaram à sala, e através do vidro embaçado onde lia-se Diretor Graner em letras douradas, haviam duas silhuetas robustas. O jovem não conseguiu distinguir quem eram ou o que diziam aos outros, mas os sussurros pareciam os mesmos sempre que alguém entrava.

Gloss entrou primeiro e saiu com uma expressão rígida, e não foi embora antes de lançar um olhar autoritário a todos e desfilar sobre seus saltos. Dani saiu com a mesma expressão exausta de sempre.

— Diz oi pra Si por mim. – Sussurrou para Cameron com uma tentativa de sorriso antes de se afastar.

Louis e Parker saíram, ambos com expressões sarcásticas, daquelas que as pessoas usam quando dizem “vocês não têm provas”. Logan foi chamado em seguida e saiu dois minutos depois. Pelos murmúrios, ficou claro que suas respostas foram monossilábicas e diretas.

— Sente-se, senhor Mason – disse o diretor quando Cameron passou pela porta. Dois policiais estavam eretos num canto do cômodo, os braços ocupados com pranchetas e fichas estudantis.

— Senhor Cameron, onde estava ontem à noite? – O adolescente repetiu a pergunta em sua mente, já esperando por ela.

— Com a minha prima, Sienna.

— E o que estavam fazendo?

— Ficamos em casa vendo um filme.

O policial da esquerda anotou algo.

— E permaneceram na residência?

— Sim.

— O senhor tinha conhecimento da festa na casa da Sra. Libby?

Cameron engoliu em seco, olhando para os policiais.

— Sim.

— E não compareceu, certo?

— Correto.

— Então porque a Srta. Daniele alegou que estava com sua prima na noite de ontem?

Cameron tentou não arregalar os olhos azuis, sentindo suas mãos geladas enquanto seu coração aumentava o ritmo em duas vezes. Por baixo da camiseta larga com um grande número 13 estampado, sua jugular saltava de forma anormal.

— Elas saíram juntas antes da Sienna ir pra casa.

O policial — Curtis era o sobrenome que aparecia bordado na camisa — piscou lentamente e soltou um frio “compreendo”, anotando uma observação consideravelmente extensa na folha.

— Tudo bem, Sr. Cameron. Pode se retirar – Avisou o diretor Graner, apontando a porta de carvalho.

O jovem levantou-se e saiu, não antes de enroscar o pé na cadeira e tropeçar para fora da sala, encontrando um Logan parado logo adiante.

— Opa! – Disse o mais velho, estendendo os braços numa tentativa de segurar o rapaz.

Cam se equilibrou rapidamente, encarando Logan numa expressão escarlate, antes de fechar a porta.

— Tá tudo bem. – Anunciou. – Por que ainda tá aqui?

— Preciso falar com você.

— Ok.

Logan fechou os dedos no braço fino do menor e o conduziu sutilmente para longe da porta do diretor, até ambos acabarem dentro de uma saleta que fedia a mofo. Cam olhou ao redor, observando sob uma luz fraca alguns armários velhos, pastas de arquivos enfiadas grosseiramente dentro de gavetas e até um canto superior que apresentava uma grande concentração de teias de aranha.

— Sobre ontem… – Logan disse, a voz grave escapando pelos lábios cheios enquanto os olhos heterocromáticos encaravam o simples azul elétrico das íris do menor. – As coisas aconteceram e eu não quis te assustar.

— Tá tudo bem, cara. – O menor esboçou um sorriso tímido, recordando.

O episódio ainda era nítido na memória de Cameron.

XXX

Sienna ria num canto, bêbada, analisando as madeixas azuis de Dani enquanto seus cabelos curtos e repicados caíam sobre os ombros pequenos.

— Cara, mas é muito maneiro! – Ela exclamava, esfregando o cabelo da nova amiga entre os dedos miúdos, tentando focar os borrões azuis de sua visão turva. – Dani, mano, cê tem que conhecer minha cachorra.

Cameron ria da cena, fingindo bebericar a vodca com refrigerante de seu copo vermelho, enquanto Dani passava as fotos de Hermione — a cachorra — no celular de Sienna, produzindo várias caretas para a “fofura” que ela alegava.

— Não vai virar isso aí? – O adolescente girou nos calcanhares ao escutar a voz e encontrou um olho azul e outro castanho na altura dos seus. Logan estava parado, o plástico vermelho do copo entre seus lábios, enquanto ele bebia um grande gole do líquido quente.

— Claro. – Cameron respondeu, percebendo o tom de desafio que o outro imprimia em seu timbre. Mesmo desgostando, ele virou o líquido em sua boca, sentindo a garganta queimar com o álcool e seu estômago pesar.

Logan esboçou um sorriso.

— Já provou tequila? – Perguntou.

Cameron negou e foi conduzido até uma mesa onde jaziam vários copos de plástico, cada um com um líquido cor de mel, um pratinho com sal e outro com vários limões cortados. Ele viu o maior sujar o polegar de sal e, sem falar nada, limpar o dedo em seu pescoço. Mason riu, sentindo Logan espremer uma fatia de limão sobre sua pele em seguida.

O adolescente estremeceu, percebendo que o outro encaixara a boca em sua pele, chupando a mistura e subindo a boca até seu queixo. Quando caiu em si, ambos estavam num beijo caloroso. Cameron levou a mão até a nuca do maior, — que laçou a cintura do outro com um braço -, enquanto Sienna encarava tudo do outro lado da sala de estar.

— Porra! Sem chance! – Ela berrou, rindo suficientemente alto, apontando a câmera portátil para o beijo. Seu primo riu com a reação e, num abrir de olhos rápido, viu que a pequena segurava a câmera em sua direção. Cameron mordeu o lábio inferior de Logan e se afastou.

— A gente tem plateia... – Anunciou o menor.

Logan olhou sobre os ombros e encontrou uma Sienna eufórica, erguendo as mãos abertas e gritando “dez”, como se fosse uma nota para o beijo.

— Vem cá… – Sussurrou ele, arrastando Cameron escadarias acima, enquanto a prima dele cutucava Dani com o cotovelo e apontava para ambos.

Porta trancada. Beijos. Camisetas arrancadas e cheiro de fumaça.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Não esqueçam de comentar, as reviews são muito importantes para continuidade do projeto.