Horizonte

2 Primeira Impressão


Uma semana antes de começar as aulas, ou melhor, o tormento. Preparei-me mentalmente e fisicamente para o reencontro, fazendo poses no espelho e preparando frases meio óbvias, como: ”Oi! Que saudade!” ou “como foram suas férias?”, “você viajou?”, perguntas bobas, e desnecessárias, mas se você não faz... “nossa que ignorância!”, “nem falou comigo!”.

Então estava tudo pronto! Não, não estava. Apesar de ter feito todo o preparo, faltava uma coisa... peso!

Toda volta à escola temos uma revisão, ou melhor, dizendo “medição”, coisa boba, mas que vira o maior transtorno, “nossa! A Vanessa está com 43 quilos!”, “o Fabrício está 65!”, e as comparações continuam.

Vou malhar! Resolvi em 20 minutos quando, onde e como vou manter. Sem dinheiro, fica meio difícil, vou ter que perder peso em uma semana na “raça”!

Perto da minha casa existe uma ciclovia dentro de uma praça, pouco menos de uma quadra, mas é muito pequena, então pensei... Uns cinco minutos depois eu decidi, o Horto florestal.

Conhecia bem o local, desde pequena já freqüentava a reserva, alimentando os patos, gansos, peixes, pombas, entre muitos outros animais.

Uma pena que agora proibiram alimentá-los, muitas mortes ocorreram, e o lugar ficou superprotegido.

Passados seis dias de muito esforço, amanhã começariam as aulas.

Fui até a farmácia me pesar, subi na balança, e comecei a ver os números, 1; 2; 17; 23; 34; 45... 50,4. Argh que raiva! Fiquei um pouco decepcionada e comecei a me xingar em voz alta.

Saindo da farmácia, percebi que o farmacêutico me olha com uma expressão estranha, não sabia distinguir se era de dó, curiosidade ou preocupação, antes que ele me receitasse um remédio qualquer, dei um sorriso vergonhosamente sem humor.

No caminho de casa... Ou melhor, no caminho, percebi que estava fraca, morrendo de fome, a adrenalina me custou caro, o desespero tomou conta de meu corpo, percebi que não sabia onde estava, fiquei o caminho todo me repreendendo e não prestei atenção que rumo tomara, “burra”, sai sem dinheiro nenhum na carteira.

Revirei minha bolsa na procura de algo para comer, por sorte, achei uma barra de cereais light que comprei para o regime. Engolindo em três bocadas logo retomei a consciência.

Continuei andando sem rumo para ver se encontrava algum orelhão. Ao horizonte, entre lojas de peças automotivas e informáticas achei um mercadinho, em que havia apenas um caixa eletrônico, nele uma mulher de baixa estatura, com rosto juvenil, cabelos longos e cacheados cor castanho avermelhado, procurando algum cliente.

– Por favor, poderia me ajudar?

– O que deseja? – Respondeu ela, em um doce e melódico tom, mesmo com a voz aparentando antiga, soou lindamente.

– Preciso de uma informação...

– Você me parece um pouco perdida.

Informando-a de onde morava, ela arregalou os olhos.

– Nossa! Você está bem longe de casa! Como veio parar aqui?

Corei e respondi a ela indiretamente totalmente envergonhada.

– Acho que não prestei atenção no caminho... Confundi as ruas.

– Hmm... Acho que posso te ajudar – com uma pausa rápida, ela puxou o ar para seus pulmões, e chamou alguém em um grito não tão alto como eu esperava ser – Angellus!

De repente surge um garoto aparentando 18 anos, com a pele morena levemente avermelhada, cabelos castanho escuro, e olhos pretos como jabuticaba.

– Oi! – disse o rapaz — O que aconteceu agora Maria?!

– Essa menina está perdida... Leve ela para este endereço, e depois aproveite e entregue as compras dessa lista, com segurança! – disse entregando um papel branco todo amassado.

Angellus passou por mim, e me conduziu a uma comb branca em péssimo estado.

– Bem vinda ao expresso ferro-velho! – olhou pra mim e deu uma gargalhada, retribui um sorriso – Prazer, Angellus.

– Melissa – apertei sua mão – Mel.

– Mel – ele repetiu.

Em um movimento atrapalhado, Angellus abriu a porta para eu entrar. Colocando a chave na ignição, ouve um estrondo, parecia que o motor estava prestes a explodir.

No caminho, o silêncio tomou conta do ambiente, interrompi.

– Por que Maria, disse pra você me levar com S-E-G-U-R-A-N-Ç-A?

– Ela acha que dirijo muito rápido – ele olhou pra mim como se eu confirmasse isso, balancei a cabeça assentindo que não – sabe como é? Coisa de velho.

– Quantos anos ela tem? – perguntei.

– Ela nunca quer falar disso, mas... Acho que por volta de 40.

– Ah... – pensei em outro assunto – Onde exatamente eu estava?

– Não muito longe do horto florestal, mas pelo visto nada perto de sua casa – arrepiei-me, uma sensação de desespero me tomou – parece que um anjo estava te guardando – Franzi o cenho e ele continuou – Pra passar pela rua da frente e não acontecer nada... Você tem muita sorte.

Fiz o sinal de uma cruz no meu peito, ele sorriu.

– Suas aulas começam amanhã? – Perguntou-me.

– Sim, e as suas?

– Também, que ano você está?

– 3º colegial, e você?

– 3º também – Pronto, só faltava ele estar na mesma escola! – Colégio Elias Fonte – Arregalei os olhos, tudo bem, mesmo período? – De manhã.

Fiquei pasma, ele soltou uma gargalhada, acho que entendeu minha expressão.

– Mas eu nunca te vi lá antes – eu disse um pouco surpresa.

– Eu mudei esse ano pra cá, e é o colégio mais perto e de melhor qualidade.

– Hm... Entendo.

– Alguma dica? – Perguntou-me com um ar de preocupação.

– É melhor não caçoar de ninguém quando subir na balança, amanhã vai começar a “medição” – dei um risinho sem graça – os últimos meninos que fizeram isso... Deu até dó da enfermeira.

– Só? – outra risada.

– Seja você mesmo, se for muito embaraçoso, fique quieto no canto – mais uma risada – não que isso seja preciso.

– hm... – acho que ele sorriu só para não me deixar sem graça, claro, um cara como ele não seria difícil se enturmar – espero que você tenha razão!

Corei olhando para meus pés, espiando por cima dos ombros percebi que ele tinha notado meu constrangimento.

Chegando perto de casa comecei a reconhecer a paisagem, um Buffet ali, uma casa de esquina, e pronto, minha íngreme rua.

– Chegamos – disse ele – então... Até amanhã!

– Até.

Fechei a porta do carro com muito esforço e entrei em casa.

Começou:

– Mel onde você estava? – mãe preocupada – Você não atendeu seu celular por quê?! – Abri minha bolsa e chequei, sem bateria – Quem estava lá fora? – Perguntas.

– Calma mãe! Explicarei tudo depois, agora, preciso comer.

E assim foi a noite inteira, quando meu pai chegou do trabalho, a história se repetiu.