Horas Passadas
1 Oneshot
É horrível estar querendo dormir às seis horas da manhã e não conseguir por culpa de um galo que canta duas casas ao lado. Sua cabeça começa a funcionar apressadamente. Você pensa em muitas coisas; pensa sobre o que fez ontem, por que esta pensando nisto agora, que horas são, o que era mesmo que iria fazer hoje, como era aquele sonho, e como matar aquele maldito galo. Quem sabe você não expeli-se do seu corpo outro de você, da sua pessoa, que fosse capaz de atravessar paredes, de seguir a sua vontade neste exato momento, em uma forma tão real a ponto de fazer concreto seus planos malignos no mundo. Então esse ‘você’ estaria com uma arma: pode ser uma escopeta ou uma 12, algo que fizesse um grande estrago.
Você vai, levanta, arruma a arma, escuta em que direção está o animal, não liga para horas, nem o que veste — se é que veste -, como está seu cabelo, o que fará se encontrar alguém no meio do caminho. Apenas anda até a parede escutando os berros desesperados, e atravessa não uma, mas duas, três, mais de quatro paredes até chegar ao dito cujo preso em sua cela. Você o olha, mas ele nem da bola para um estranho com cara amarrada de sono, raiva, ódio e insanidade. Não liga para o objeto metálico que segura nas mãos. E você já não agüenta mais uma só palavra desse animal que te ignora independentemente de sua vontade, e continua a fazer o que lhe incomoda. E cansado disto você segura pelo cabo da arma, a mão direita acima da esquerda, e aproxima o cano onde às balas são cuspidas. Será um homicídio que você sentira prazer pelo resto da sua vida; entra na posição de jogador de golfe, prepara a coronha na direção do crânio do indivíduo, seu pé esquerdo está um pouco atrás do direito, juntos demais, colados, e os afasta para ter mais equilíbrio; curva um pouco às costas e prepara-se. Levanta o taco na altura da cabeça, passando por ela quase dando um volta no seu pescoço. Não lhe passa a idéia de contar até três, com as mãos tão firmes a ponto de machucar seus dedos, desfere um curva perfeita, um giro de mais de trezentos graus, com um excelente jogo de cintura, que vai passando por seu corpo, até seu objetivo, e depois do seu objetivo. A pancada foi tão forte que, mesmo se fosse um cavalo não teria a mínima chance de sobreviver. E uma insignificante massa, o miolo, voou a cinco metros de distância; até pensou em gritar ‘booooooola’, mas apenas olhou o que decorria. O bicho deu um grito jocoso quando sua cabeça explodiu. O bico superior voou rachado, a crista ficou pendurada pela pele gordurosa, os olhos foram os primeiros a saltarem para fora, a batida aconteceu bem atrás da nuca, mas nem deu para saber onde foram parar. Quem sabe se encontrasse não acabaria fazendo um colar da vitória por esse momento histórico. Não saiu tanto sangue como você gostaria, mas deu para se satisfazer. Nem deve ter sentido. Nem mesmo deu tempo de passar a limpo a vida daquela coisa... o que não seria nada mais do que ciscadas, bebericadas e gritos.
Com aquele corpo no chão, você se endireita novamente, olha aquelas cores fortes, bate até uma certa nostalgia, mas logo esse sentimento é sufocado pelo sabor da vingança: Chocolate com recheio de caramelo.
E com medo de que o animal ainda esteja vivo você prepara dois projeteis de cor vermelha, carga para animais de grande porte: elefante, rinoceronte. E carrega sua arma com cuidado. Depois de conferi que estava tudo certo, mira no resto da carcaça, prepara-se e dispara. Só precisaria de apenas um, e a munição abriu um buraco no chão sem nem se importar que ali tivesse algum empecilho. O estrago foi, literalmente, explosivo. Mas quem liga para esses detalhes? A missão foi um sucesso!
Depois de alguns passos para trás, você vira-se e percebe o bico rachado cocoricando. Abre seus olhos na cama. Ajeita-se. Fecha-os.
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