Hora de Recomeçar
14 Triste Despedida
Notas iniciais
Triste Despedida
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Aquele telefonema realmente lhe deixou preocupado. Por mais que questionasse o zelador, ele lhe trazia um motivo a mais a cada palavra. Mu gritava desesperadamente, coisas se quebravam e ele não atendia à porta, que estava trancada.
Pediu à sua recepcionista que desmarcasse os primeiros pacientes e foi direto à sua antiga residência, subindo rapidamente pelo elevador do edifício e batendo à porta... Já se havia descartado a possibilidade de assalto, sequestro, pois nada constava na averiguação das câmeras de segurança.
Ele não atendia, não respondia... Segundo o porteiro os objetos pararam de quebrar, pois não havia mais ruídos...
— Mu, é o Shaka, abre por favor! – Sua respiração era falha pela tensão... Não adiantava, ele não respondia. Fez o que não queria, pegou sua cópia da chave e abriu a porta... Definitivamente não queria invadir-lhe a intimidade desse jeito, mas não havia escolha, a preocupação lhe falara mais alto.
Ao olhar para dentro, chocou-se com a cena... Vários copos e pratos quebrados, também alguns bibelôs... Mu sentado no chão, próximo ao sofá abraçado às próprias pernas, chorando desesperadamente... Não se preocupou em fechar a porta, apenas entrou e jogou-se no chão à seu lado, tomando a cabeça baixa pelo queixo, visualizando um mar verde e cristalino de dor.
— O que aconteceu Mu? – Sentiu-o atirar-se em seus braços, voltando aos gritos e choro compulsivo.
— O tio, o tio morreu Sha... Ele morreu... – Era quase inacreditável que ele estivesse ali, mas foi um grande alívio vê-lo por perto...
— Mu, eu sinto tanto... – Seu coração estremeceu com a notícia. Um nó se formou em sua garganta e seu corpo todo tremeu. Sua vontade era de sentir, e entregar-se ao próprio sentimento, mas não podia... Seu dever era cuidar dele... – Eu realmente sinto, Shion era uma pessoa maravilhosa. – Falou mais para si mesmo que para o outro e deixou-o o chorar o quanto quis, acarinhando seus cabelos, acolhendo-o.
— O Dohko, ele tá sozinho no hospital... E tem tanta coisa pra fazer... Sha, eu não sei nem por onde começar... – Depois de todo afeto que recebera, conseguiu se acalmar um pouco e começar a pensar.
— Mas o que foi, o que causou isso? – Estava curioso, a cidade andava tão violenta e as pessoas tão descompensadas.
— Embolia pulmonar... Ele andava com falta de ar, taquicardia, muita tosse. Os exames preliminares não deram nada, estava na fase de diagnóstico mais complexo. Morte súbita! – Era inacreditável, na verdade recusava-se em acreditar que ele realmente se fora. – O Dohko, ele deve estar muito mal...
— Não se preocupe, eu vou resolver Mu, eu ajeito tudo! – O choque era grande, mas precisava agir.
Levou o ex- companheiro até o hospital, onde encontraram Dohko, que apesar de tudo, parecia manter o controle. Era muito duro vê-los ali com toda aquela dor, todo aquele vazio. A verdade é que Shion sempre fora alguém que ocupara um grande espaço...
Shaka tomou a frente e fez todos os trâmites necessários para os ritos funerários, avisou todas as pessoas próximas, enfim, tudo de maneira impecável, tentando minimizar o desgaste do viúvo e do sobrinho, permitindo que eles vivessem as emoções daquele momento difícil sem mais pressões. Era a forma que tinha para dizer que se importava e que estava ali por eles.
Lembrou-se da última conversa que tivera com ele, de tudo o que ele falou, do que lhe pediu... Não imaginou que sentiria tanto assim. A verdade é que nunca foram muito próximos, além daquilo que o convencional exigia. Mas foram tantos anos e... Não sabia explicar, mas também não era hora de lidar com os próprios sentimentos, então os abafou como sempre o fez durante toda a vida.
Não deixou que dopassem o ariano no velório, por mais que fosse difícil, era bom que ele vivesse àquela dor de maneira plena, que estivesse inteiro para todo o processo, que se despedisse com consciência. Isso era importante e auxiliava no processo de enlutamento.
Assim como tantas vezes Shion pedira, foi realizada cremação, mesmo o lugar sendo mais afastado. A cerimônia foi singela, elegante e bonita. Tocaram algumas das músicas preferidas de Shion, emocionando todos os presentes.
— Obrigado Shaka, não sei o que teria sido se não fosse você! – Com o olhar baixo, segurava na mão do mais novo que o abraçou.
— Dohko, não agradeça! Vocês sempre foram uma família pra mim. Odiei ter que fazer isso, afinal queria que ele estivesse aqui, conosco. – Sentiu a reciprocidade do chinês, apertando ainda mais o abraço. – E qualquer coisa que precisar me chame, sem pensar.
— Claro Shaka, você é um ótimo rapaz! – Afastaram-se com a aproximação de Mu, que estava em companhia de Aldebaran, mas que passou quase todo o tempo abraçado à Shaka e voltou a fazê-lo ao encontra-lo.
— Tio Dohko, quer que eu durma com o senhor lá ou quer ir pra minha casa? – Disse de maneira mais tranquila, seu coração começava a se aquietar... Mas à verdade é que não queria estar só, não sabia como lidar com a perda.
— Não filho, eu quero ficar sozinho, ficar lá sozinho... Com os anos a gente passa a encarar as coisas de maneira diferente. – Assim que encerrou as palavras, percebeu que na verdade Mu não queria ficar sozinho, que era o real motivo de seu convite. – Mas se não quiser ficar só, vamos pra casa filho!
— Mu, se quiser eu fico com você esses dias. – Tentou auxiliar Dohko, entendia o sentimento dele, e também não seria nada de mais fazer companhia ao ex. Afinal, havia prometido a Shion que cuidaria dele em qualquer situação...
— Não quero te incomodar Sha. – O olhou surpreendido, mas gostou da proposta, seria bom estar acompanhado, sentia-se frágil, carente.
— De maneira alguma Mu, fico o tempo que precisar...
— Se for complicado Shaka, eu passo uns dias lá, tô de férias. – Falou o moreno solicito, até demais na opinião do psicólogo.
— Não se preocupe Aldebaran, ficará tudo bem! – Definitivamente não gostou da intromissão do moreno, talvez ele e Mu estivessem... Não, não era hora de pensar nisso. Era hora de dedicar-se a ele, ajuda-lo a superar àquela terrível dor. Porque estaria com ciúmes agora? Isso não era da sua conta!
— Fica bem tio! – Abraçou-o fortemente, se despedindo rapidamente, para não chorar de novo. Aqueles dias seriam muito difíceis... Precisaria ser forte... Muito forte!
Shion sempre lhe fora o porto seguro e agora com sua partida, tudo parecia mais inseguro, temeroso. Ainda sentia-se como aquele menino que colocara toda sua confiança e dependência, tanto física quanto emocional, naquele tio que se tornara seu mundo, depois que seus pais se foram. E agora ele também se foi...
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Fechou os olhos e prendeu a respiração antes de entrar no apartamento. Seria difícil ficar lá sem ele, mas era inevitável... Adentou o quarto, e viu a cama ainda desfeita, do jeito que deixaram... Guardando as marcas de amor... Da última vez que se amaram...
Deitou-se sobre os lençóis, agarrando ao travesseiro que ainda exalava o cheiro dos cabelos dele... Deixou uma lágrima rolar. Sentiria falta, muita falta...
Mas não podia ser ingrato com a vida, que lhe deu a companhia de Shion por tantos anos... E com a idade sabia que em algum momento, ficaria sozinho, ou o deixaria sozinho... Mas não imaginou que fosse tão cedo... Tudo bem, era grato com os anos que tinha tido, por tudo o que ele havia lhe dado.
Lembrara das últimas palavras que trocaram... Juras de amor... Não poderia haver despedida melhor...
Agora era hora de seguir em frente... Ainda não sabia como, mas era necessário. A missão de Shion talvez tivesse se cumprido, mas a sua não... Sentia que ainda havia algo por fazer...
Não importava o que, ou como, iria em busca do seu destino, ou do fim dele, com o coração aberto. Dentro de si tinha a certeza de que não se sentiria tão solitário quanto pudesse parecer, afinal, ele lhe prometera que estaria sempre ao seu lado, da maneira que fosse. E disso, não tinha dúvidas...
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Passou na pensão para pegar algumas roupas e objetos para os próximos dias e quando voltou, encontrou-o choroso no canto da sala, encolhido no sofá. Isso fez seu coração doer.
— Desculpa Mu, não devia ter te deixado, mas eu precisava pegar algumas roupas e...
— Não se preocupe Sha! Amanhã você vai trabalhar pela manhã, eu vou ficar bem.
— Pedirei pra desmarcar e...
— Não, você vai trabalhar sim, por favor... Vai doer, mas vai passar, só de saber que está aqui nesse primeiro momento já é muito bom. Nem sei como agradecer.
— Pare com isso! Sempre conte comigo Mu, estarei aqui para o que precisar. Tome um banho enquanto eu preparo algo pra comer, você precisa descansar, não dormiu essa última noite. – Seu coração estava partido como há muito não estava. Tudo aquilo parecia muito surreal... Era alguém adaptado ao abandono, mas não sabia lidar com a morte.
— Nem você Sha, aquele velório... Não quero pensar... Vou tomar banho. – Levantou-se do sofá mais resignado e foi ao banho, depois jantaram e o loiro também fez sua higiene pessoal.
Ao sair do banheiro, fora chamado pelo interiorano para o quarto que dividiram por anos... A cama tão bem arrumada como sempre.
— Você fica aqui Sha, eu durmo no outro quarto.
— Não Mu, não vou te tirar da sua cama.
— A cama também é sua...
— Eu fico no outro quarto então... – Não gostava da ideia de alterar a rotina da casa. O sentimento de ser inconveniente e estar sempre incomodando era algo enraizado em sua personalidade.
— Sha, não vou te fazer entrar lá! – De súbito exasperou-se. Não podia expor Shaka àquele mal estar, principalmente pelo mesmo estar ali apenas para lhe ajudar a aliviar a dor e a solidão.
O loiro sabia que aquela discussão seria interminável e apenas traria fantasmas do passado, que lá deviam ficar. Pensou um pouco, precisaria de uma solução prática.
— Ainda tem aquele colchão extra? – Apesar de toda sua rigidez, os anos com Mu lhe ensinaram alguma flexibilidade e também formas alternativas e eficazes de resolver situações.
— Tem sim... Sha. Seria pedir muito pra você dormir aqui no quarto comigo? — Estava impressionado e sabia que teria dificuldade em dormir sozinho, ter pesadelos... As cenas do funeral não lhe saíam da mente. – Eu fico no colchãozinho e...
— E nada, eu fico no colchão, você na cama e não discutiremos mais. – Pronto, estava resolvido, aquele não era dia pra discussões ou bobagens, os corações já estavam muito feridos...
Arrumou o colchão ao lado da cama e deixou tudo organizado na sala para sair ao trabalho pela manhã, sem precisar fazer muito barulho, para não acordá-lo. Viu-o deitar-se na cama, ajoelhou no colchão e deu-lhe um beijo na testa.
— Qualquer coisa me chama, não hesite. Durma bem.
— Sha, fica bem também. Dorme com Deus e novamente... Obrigado!
— Não precisa agradecer, não mesmo.
Finalmente aqueles dias tinham acabado, foram dois dias longos, intermináveis... Os corações um tanto mais vazios, mas a vida tinha dessas coisas, ninguém era eterno... As lembranças e os aprendizados ficavam, e esses sim eram eternizados no coração... Agora era necessário descansar e seguir em frente...
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— Shaka, eu sinto muito. Imagino que não deve estar sendo fácil pra você. Principalmente tendo que organizar tudo sozinho. – A notícia do falecimento de Shion o tomara de surpresa, era realmente lamentável.
— Era alguém que verdadeiramente admirava, apesar das nossas diferenças. Fará falta. Sabe, pouco antes de viajar com o Mu, conversamos e foi bem amigável. Ele me pediu pra que sempre cuidasse dele, que nunca o abandonasse.
— Você gostaria de falar mais disso? Foi um momento difícil, onde você não pôde expressar o que sentia ou mesmo chorar. – Percebia que ele realmente estava afetado com aquela perda, Shaka parecia frágil. Porém, o viu rir discretamente da última palavra que pronunciara.
Estranhou aquela reação, mas momentaneamente refletiu... Chorar! Porque usara aquela palavra? Nunca havia visto Shaka chorar, nem ao menos seus olhos lacrimejaram. Aquela expressão não parecia existir na vida do outro de uma forma tão radical que lhe provocava riso, escárnio.
— Não, estou bem. Acho que nem que quisesse, não conseguiria chorar... Não sei mais o que é isso. Bem Kamus, isso não é terapia, é supervisão, vim falar de Ikki. – Não gostava de desviar o foco, não queria nada mais além do acordo estabelecido.
— Tudo bem. Tem alguma novidade? Como estão as sessões? – Sim, ele era difícil, e agora mais que nunca.
— Bem, ele decidiu me contar sobre os sumiços. Diz que o faz porque não gosta de conviver com as pessoas. Vai para lugares na natureza, viver de forma primitiva.
— Síndrome de Tarzan? Ele parece ter algum grau de sociopatia. – Não aguentou e riu discretamente.
— Não é tão simples. Ele disse que planeja um dia ir e não voltar. Também disse uma coisa muito estranha... – Não sabia se deveria dizer ou não, aquilo era muito complexo.
— Diga Shaka, não me esconda nada. Por favor.
— Bem, ele disse que confiava em mim e que apenas voltou do último sumiço por minha causa.
— Shaka, já falamos disso, ele transferiu um sentimento perigoso pra você, você entrou na série amorosa dele. Inclusive se parece fisicamente com a noiva falecida dele.
— Mas Kamus, talvez estejamos equivocados e seja só um vínculo forte...
— Shaka, por algum motivo você não quer aceitar isso... O que tá acontecendo? – Sim, precisava saber, o loiro agia de forma quase protetora com o paciente. Isso não era esperado, muito menos vindo dele.
— Eu penso que algo ruim possa acontecer com ele nessas aventuras... Não sei bem...
— Você tem medo de que ele não volte Shaka?
— Talvez... Talvez eu não queira que ele se vá... Olha Kamus, sinceramente hoje não estou bem para falar disso, deixemos pra próxima semana, ok? Minha cabeça tá a mil. Inclusive acho melhor ir.
— Tem certeza que prefere ir? Acho que estamos descobrindo algumas informações importantes e...
— Sim, prefiro. – Não queria ser bombardeado por informações e inquirições, apenas queria ficar um pouco sozinho.
Saindo de lá, acendeu um cigarro e percebeu que sua mão estava trêmula. Estava estressado, cansado. Pensou em passar num barzinho pra relaxar, mas sabia que Mu reclamaria, nunca gostou de seu contato com o álcool... Não queria mais um sermão ou perturbação, afinal era pra evitar conflitos e afins que tinha se separado, não?
De alguma forma também sentiu-se um pouco mais órfão, afinal os anos de convivência e atenção foram longos e férteis, e por mais que o jeito de Shion fosse um tanto duro às vezes, sentia que ele lhe dedicava um carinho e atenção especiais, mesmo que não reciprocasse. Ele havia buscado lhe dar algo que nunca tivera de sua própria família e bem, percebeu que isso o afetava, mesmo agora tomando ciência de que não soubera receber. Mas não era hora disso, precisava desanuviar a mente pois seu objetivo era cuidar do ex, então o faria da melhor e mais efetiva forma possível... Seus problemas resolveria depois... Ou não.
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