Hora de Recomeçar
20 The Unforgiven II
Notas iniciais
The Unforgiven II*
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— Mu, por favor, fique à vontade! – Com um generoso sorriso abriu passagem ao visitante, que parecia hesitar. – Desculpe, eu sei que esse lugar é horrível e degradante, mas...
— Não Sha, não é isso... Onde quer que você esteja será limpo e agradável. – Com o olhar baixo, caminhou como se fosse um menino... Tímido e dócil. – Mas você está bem? Precisando de...
— Está tudo bem Mu, tudo bem. – Sem graça, nada o definiria melhor. – Não quero que se preocupe comigo, está tudo sob controle. – Era mentira, mas jamais daria o braço a torcer...
— Impossível não me preocupar... Não foram dias, nem meses... Foram anos, muitos... Os mais importantes da minha vida. Você sempre será parte de mim... – Levantando um pouco o olhar, aproximou-se olhando-o nos olhos de maneira profunda. Estendeu um embrulho ao loiro de maneira suave.
— Obrigado, eu aguardava muito esse livro! – Olhou ternamente para o pacote, desfazendo o laço suavemente. Era realmente emocionante ver o resultado de todos os anos de pesquisas e dedicação do outro... Sentia certa culpa por realmente não ter acreditado nele, mas essa realização era um pouco dele também. – Eu fico feliz Mu, porque você está feliz...
Ficou observando a cena com certa admiração... O loiro abria o pacote como se houvesse algo muito valioso e ponderou que talvez para ele fosse... Ele sempre fora nobre e talvez todo o carinho que sentia por ele fosse recíproco... Caminhou pelo modesto quarto deixando-o à vontade com o livro e sentou-se na beirada da cama, observando todo o imóvel... Logo percebeu que o anfitrião se aproximava, deixando de dar atenção ao livro, ligeiramente levantou-se.
— Desculpe, eu não queria...
— Por favor, sinta-se em casa... Apesar de ser apenas um quarto velho de pensão...
— Shaka, eu vou ser sincero... Eu olho esse quarto e tenho as melhores recordações da minha vida de volta... De quando nos conhecemos... Nossa primeira vez... – Segurou-lhe a mão trêmula e encostou sua testa na dele... Sentia-o respirar forte, como daquela vez... Eram dois garotos de novo...
Seu coração parecia sair pela boca... A verdade é que não se reconhecia daquela maneira... Há muitos anos não sentia algo tão verdadeiro e extasiante... Podia sentir a respiração quente em sua face... Tomando alguma coragem, puxou-o pela cintura devagar, podendo sentir o calor de seu corpo... Acariciou os longos cabelos amendoados e mergulhou no brilho incomparável daquelas orbes verdes... Permitiu que os lábios se tocassem, provocando arrepios pelos dois corpos...
Suave e quase inocente, o ósculo ganhou espaço entre os lábios... Tocou de leve a face pálida do terapeuta, descendo a mão pelo pescoço, tórax... Logo seus cabelos foram tomados com mais força e os beijos lhe buscando mais sedentos... Atirou-se por completo à seus braços, tocando as costas esbeltas com avidez. O cheiro suave e elegante de Shaka lhe despertava os mais ardente desejo de ser dele novamente... Com cuidado desabotoou a camisa alheia enquanto afastava os lábios dos dele, buscando outros cantos a explorar: queixo, mandíbula, pomo de adão... Logo sentia sua camiseta ser retirada com cuidado... Sim, esse cuidado, respeito, que só ele tinha por seu corpo... Agarrado a ele, deu lentos e ritmados passos para trás, quase como bailando, trazendo-o consigo.
Deitou-o devagar na cama para a qual tinha sido levado a passos leves, podendo sentir a entrega do ariano em cada movimento... Beijos distribuídos por todas as partes, em cada pedaço... Sentia quase flutuar, enchendo-se de diferentes emoções... Cada toque na pele tão alva e macia parecia fazer a sua própria queimar-se... O desnudou por completo, admirando sua beleza da mesma maneira com àquela tarde num quarto de pensão... Mu continuava tão lindo como antes... Os anos apenas lhe trouxeram mais encanto... Sentia os olhos embriagarem-se... E ele como sempre tão liberto, parecia gostar de tal exposição... Acariciou-o como nunca antes, sentindo aquelas doces mãos reciprocarem de maneira tão vívida...
Com cuidado desabotoava a calça e a dispensava junto com a roupa íntima do amante... Ele parecia tão tímido como da primeira vez... Tão perfeito... O rosto vermelho, a respiração ofegante, as ereções roçando provocando delírios de prazer, arrancando gemidos tímidos das gargantas embargadas de emoção... Fechou os olhos apenas aproveitando cada sensação que o loiro lhe proporcionava... Esticou a mão tocando o rosto, buscando reconhecer cada parte dele... Abriu mais as pernas de maneira singular, num verdadeiro convite...
— Sha... – As palavras simplesmente não encontravam força para sair em meio a tanto desejo a tomar-lhe conta.
— Quero você Mu... – Chegara quase à insanidade ao fazer aquele pedido tão singelo... Posicionou-se em sua entrada enquanto acarinhava-lhe o rosto... Enquanto ganhava espaço dentro dele beijando o rosto ofegante de maneira apaixonada...
Sabia que aquilo lhe causava dor e isso doía em si... Todo afago do mundo era pouco para compensar aquele sofrimento... Porém, em breve via suas feições relaxarem e deleitarem-se em satisfação... Passava os dedos entres os cabelos fitando as esmeraldas de maneira suave, mergulhando em toda sua ventura.
Fazer amor com ele trazia a seu coração uma sensação inexplicável... A verdade era que sentira falta do seu jeito doce e terno de amar... O cheiro, os toques... Estar em seus braços era sublime... Como não tinha dado valor a isso antes? Não conseguia responder... Talvez sim, respondesse com os gemidos e palavras carinhosas, com gesto tão mútuo.
Os corpos frágeis se encontravam em suor, desejo e fricção, trazendo ao ambiente uma verdadeira orquestra de docilidades... Puro e verdadeiro calor humano... Intensa e significativa paixão... A cada momento pediam mais um ao outro e se davam o todo almejado...
Beijos vívidos... Toques ousados... Corpos em frenesi... Em vivência única, tocaram o céu ao mesmo tempo, entrando em completo transe, numa explosão de prazer e satisfação simultâneos...
Foram longos momentos de troca de ternura e sinceridade... Permitiram-se em seguida à breve descanso... Aspirado e merecido...
Despertou, imaginando se tudo fora apenas um sonho... Olhou para o lado e viu o virginiano adormecido e nu... Era real... Seu coração apertou-se... Talvez fosse hora de partir. Levantou-se vagarosamente, para não desperta-lo e vestiu-se em silêncio... Sentou-se novamente na cama para um rápido beijo de despedida quando o celular tocou em seu bolso... Seu coração tremeu... Era Aiolia. Não atendê-lo seria pior, conhecia o gênio difícil do namorado. Levantou-se da cama.
— Oi amor, tudo bem?... Não, eu já tô indo pra casa, depois eu te ligo e a gente combina alguma coisa... Beijo, tchau.
Dormia profundamente, sentindo uma paz que há muito não lhe habitava... Escutou o barulho incômodo de um celular... Mas o que realmente lhe despertou foram aquelas palavras... “Oi amor...” Ficou paralisado. Sentado na cama, não conseguia mover-se. Esperou a ligação acabar.
— Mu, o que está acontecendo? – Pegou suas roupas espalhadas pelo chão, devagar, vestindo-se tranquilamente, esperando uma resposta.
— Estou namorando Shaka, é isso! – A voz de Mu era grave e firme... Assim como em todas as ocasiões sérias em que se demandava bom senso. Sabia que quando ele entrava nesse estado, é porque realmente estava nervoso.
—Deixa eu entender direito... – Logo fora cortado. O outro se mantinha de costas para si enquanto falava.
— Isso mesmo, eu tô namorando Shaka... Lembra-se do irmão do Aiolos?
— Irmão do Aiolos? Mas espera... Aquela criança... – Terminou de vestir-se aproximando-se silenciosamente de seu interlocutor.
— Não é mais uma criança, agora é um homem, afinal passaram-se mais de 10 anos...
— De qualquer maneira é um garoto, um moleque...
— E o que tem isso?
— Baixou muito o nível não? Agora gosta de garotões de pouco conteúdo intelectual... O que ele faz da vida? Imagino que deva ser algum bobalhão estúpido de qualquer área de tecnologia e pouco QI...
— Shaka... – A calma com a qual ele proferia cada palavra era assustadora. – Não fale assim dele, talvez não seja um intelectual como nós, mas... – Sentia que só estava piorando a situação e resolveu parar.
— Um moleque idiota, sem conteúdo... E coitado, um corno não? – Virou-se para ele e segurou forte em seu braço. De repente houve um clarão em sua mente. Momentos antes entorpecido pelo sono não se dava conta da realidade da situação. Mas agora sua ficha tinha caído. – Não, espera... Agora que eu tô... Você namorando esse pobre coitado e vem aqui se deitar na minha cama?
— Não sei do que está reclamando Shaka, afinal o enganado não foi você, é só ver como um empate... Um dia eu te traí, agora eu o recompenso fazendo o mesmo com o outro... – Soltou-se dele na mesma força com a qual fora pêgo e levantou-se terminando de se arrumar. Seu olhar variava do cínico para indiferente. – Não vejo motivo pra tanto drama! – Sentia-se mal, sem resposta, mas seu orgulho jamais lhe deixaria fraquejar.
— O que você disse? Mu eu... Jamais pensaria dessa forma... Nada justifica uma atitude dessas... Isso é vil demais! Eu não vejo justiça nenhuma nisso! Você não tem caráter... Nunca teve... Não tem remorso... Nunca se arrependeu não é mesmo? Aquela cena me pedindo perdão era tudo mentira!
— Não é bem assim...
— Como não? Quantas vezes você jogou na minha cara que me traiu porque eu não era bom o suficiente? Com quantos mais você deve ter transado em todos esses anos, seu porco! – Sua voz começava a se alterar, assim como sua expressão. – E veja só que irônico, agora você vem parar na minha cama! Coitado desse rapaz, eu sei bem o que ele sofre, seu cretino! Você não tem caráter, você não tem respeito por nada nem por ninguém!
— Ah, esse seu fanatismo por fidelidade, por caráter sempre me irritou! Eu sou humano Shaka, sou de carne e osso, tenho desejos, tenho falhas, mas não sou hipócrita! Eu assumo minhas falhas e minhas vontades! Senti falta de você, por acaso é algum pecado transar com um ex? Eu vou voltar pra casa, me encontrar com ele e não vou sentir nada, porque eu fui fiel a mim e a minhas vontades! – Aquelas mentiras tinham como finalidade atingir o outro, mas era seu coração que sangrava com cada palavra. Enquanto as proferia, refletia sobre onde tinha chegado... A vida lhe estava tão difícil assim para se deixar levar por sentimentos e ações tão baixas?
— Peraí... Já entendi Mu. – Ao ouvir as palavras torpes e vulgares do outro, seu ouvido clínico junto com sua experiência de vida e conhecimento da personalidade do outro deram uma luz. Sua voz agora era tranquila e cheia de razão. – Você está infeliz. É isso! Você não gosta dele e não está te fazendo feliz! Por isso você está aqui! Por isso você se deitou na minha cama! – Disse as últimas palavras com ênfase, levantando-se e apontando para o móvel.
— Que absurdo Shaka! – Aquelas palavras lhe acertaram em cheio! Era perturbador ver como o psicólogo ainda conseguia lhe ler as emoções sem barreira qualquer. Sentiu-se inseguro e perdeu completamente sua arrogância de outrora, o que não passou desapercebido pelo outro.
— Mu, eu te conheço muito bem! Você não consegue lidar com frustração. Também não consegue lidar com a solidão. Pensei que você tinha amadurecido um pouco, mas vejo que não. – Ia de encontro a ele, que ao mesmo ritmo, assustado andava para trás.
Sem aperceber-se, encontrou-se com uma parede feito um animal acuado, enquanto o os olhos azuis, mais opacos que nunca lhe julgavam impiedosamente. Teve vontade de chorar, mas engoliu em seco as lágrimas e o desespero.
— Shaka, olha...
—Shhhh. Você não fala Mu, agora você me escuta. – Tinha total domínio da situação e consciência disso.
Mas nem mesmo assim tinha desejo de humilha-lo ou feri-lo. Passou a vida toda sendo colocado em situação de menosprezo que seu coração se recusava a tratar quem quer que fosse dessa maneira. Porém precisava falar-lhe a verdade e mostrar o quanto aquilo tudo era terrível.
— Mu, Mu! Você sabe muito bem que não sabe lidar com a solidão. Você não consegue ficar sozinho e se envolveu com esse rapaz por carência. Só que você não está feliz com essa relação, ela não te preenche. – Com o braço esticado apoiado na parede, prendendo o outro contra si, mas sem tocá-lo, falava de maneira firme, porém suave, encarando-o no fundo dos olhos. – Toda vez que você não está bem Mu, você procura outra maneira suprir sua carência. Mu, você fez isso todos os anos que esteve comigo. A cada fase difícil, você ficava impossível, arrogante e ameaçava buscar sua satisfação fora de casa. Se a cama não tá pegando fogo, você fica fora de controle. E a sua cama atual não tá pegando fogo Mu!
— Pára com isso Shaka! – A voz entrecortada saía junto com as lágrimas que não podia mais conter diante de toda aquela verdade que lhe era arremessada sem pudor.
— Mu, você é mimado. Sempre foi! Shion sempre te deu tudo o que quis e eu também! É minha culpa também. Você não pára até conseguir o que quer. – Já desgastado com todas aquelas emoções que lhe corroíam o peito, desviou o olhar para o chão, suspirando exausto antes de continuar. – O que você não aprende é que cada atitude dessa machuca alguém. Você me machucou no passado e me machuca hoje. Eu não acho graça em ver alguém sendo enganado, não vejo beleza em uma “pseudo vingança”. Eu fico triste por esse rapaz e por ser o pivô dessa traição. Eu fico triste Mu, por ver você me usando desse jeito. Você desrespeita tudo o que vivemos, você me desrespeita. — Era incrível como aquela paz que outrora sentia, havia se transformado em um desgosto profundo, uma dor que parecia não caber mais em seu peito.
— Já chega de drama Shaka, que exagero! – Seu tom era quase infantil, remexia-se como uma criança desgostosa. Estava impaciente e ver o olhar baixo e expressão dolorida do outro lhe deixava mais tenso.
— Me usou e continua fazendo o mesmo! Você não tem sentimentos Mu, e não respeita o dos outros. Você garante o seu, mas não se importa com a dor que causa nos outros. Você é irresponsável Mu! Não se responsabiliza pela dor que causa nos outros... – Afastou-se dele, passando instintivamente a mão pelo lado esquerdo do peito, que chegava a doer fisicamente.
— Olha Shaka, tudo isso foi um erro! – Ainda recostado na parede, mas já sem a pressão do outro sobre si, passava as mãos pelo cabelo nervosamente.
— Então é isso Mu, foi tudo um erro! Foram 15 anos de erro! – Sua voz agora soava alta e irritadiça. – Fora 15 anos de merda de um erro. Onde não sobrou nada, nem o mínimo respeito por mim e pelos meus sentimentos Mu! É isso mesmo? – Ouvir que fora um erro, que deitar em sua cama fora um erro atingiu o mais profundo de seu ser. Sentia-se um lixo, algo sem nenhum valor. Estava à beira do descontrole. — Você merecia levar um tapa nessa sua cara cínica!
— Então bate Shaka, pode bater! – Ofereceu o rosto dando leves tapinhas em si mesmo, aproximando-se novamente dele. Impaciente como era, já não suportava mais as acusações e estava no limite com aquela situação. – Afinal eu sei que você sempre quis fazer isso, mas nunca teve coragem, nunca foi homem o suficiente... – Antes que pudesse terminar, sentiu em seu rosto um golpe forte e violento, que o fez perder o equilíbrio. Não acreditava que ele realmente teria coragem, mas ele teve...
— Seu puto, seu maldito! Sai da minha casa, sai da minha vida pra sempre! Eu não quero te ver nunca mais! – Foi até a porta, abrindo-a. Aquilo não podia ser real... Havia perdido completamente o controle sobre si e agido por impulso... Não era agressivo e não aceitava te-lo feito.
Quase não acreditava no que tinha acontecido, Shaka havia realmente lhe agredido. Entrou em choque, não conseguira revidar, nem dizer nada... Apenas lançou-lhe um olhar de completo desprezo e mágoa. Tremendo, com uma das mãos tocando a face golpeada e avermelhada, pegou sua pasta e saiu sem nada dizer, apenas ouvindo a porta ser violentamente batida trás si. A verdade é que sentia o coração pesado por ter magoado Shaka, mas também não poderia perdoar aquela agressão. Aquele realmente era o ponto final entre eles... Deixou mais algumas lágrimas escaparem, mas logo deu conta delas... Sua vida já via se reestruturado longe de Shaka, talvez não fosse tão difícil assim deixa-lo de vez...
Escorou na porta, com a respiração descontrolada. Não, não podia ter feito aquilo, ter agredido Mu. Era totalmente contra seus princípios... Mas sua ira fora tanta que não pôde se controlar. Tremia compulsivamente e sentia um terrível calor, sendo obrigado a abrir os botões da camisa. Sentou-se na poltrona, vendo no braço da mesma o livro... Nem chegara a abri-lo. Arremessou-o contra a parede... Fora ultrajado, humilhado, usado mais uma vez... Sentia-se péssimo, o coração em frangalhos... Não, não queria vê-lo nunca mais, ele não era digno de si, não era...
Num rompante arrancou os lençóis da cama e jogou-os fora. Abriu todas as janelas para tirar o cheiro de sexo impregnado no ar... O esqueceria, o arrancaria de sua vida. Não podia conceber o amor a uma pessoa que não respeitava seus sentimentos.
Não importava o quanto doesse, ainda lhe restava algum resquício de amor próprio e não aceitaria ser pisado daquela maneira novamente... Não conseguiu chorar... Mas o coração sangrava copiosamente...
*referência à músida mesmo nome da banda Metallica.
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