Notas iniciais
Agora o babado começa! Muito drama e choradeira! Dêem uma chance e continuem! Pretende manter o ritmo de postagem a cada 15 dias até o fim! Conto com vcs ! Tia Shaka Psico Ama Vcs!

Separação

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Shaka era um psicólogo padrão, sem muito sucesso na verdade. Atendia em um pequeno consultório no centro da cidade e à noite dava aulas em uma Universidade. Sempre fora muito estudioso e com algum sacrifício terminou seu mestrado em Psicologia Hospitalar, mas nunca chegou a atuar nessa área específica sendo essa uma de suas grandes frustrações. A dificuldade em admitir a derrota e a inaplicabilidade de seus sonhos e ideias talvez fosse o ponto que mais o havia moldado na vida adulta. E de alguma forma ela apenas corroborava o protótipo psíquico que lhe havia sido construído em idade menor.

Seu caráter sempre sério e ético trazia consigo alguma dose de prepotência e intolerância, que escondiam as feridas não cicatrizadas. A idade não se mostrava em seu rosto, mas trazia muitos reflexos em sua alma que parecia corroída por um tempo que ainda não existira.

Mu era sociólogo idealista, e seu talento nunca fora realmente forte o suficiente para que pudesse estabelecer-se como profissional pesquisador. Acabou por ser professor de escola pública em dois períodos. Cobria seu sustento e necessidades simples. Havia desistido de estudar além da graduação, isso lhe trouxera algumas frustrações. Sua personalidade era contraditoriamente delicada e intensa, cheia de sonhos, fantasias e decepções, porém lidava com essa última de forma muito mais natural e leve que o companheiro. De alguma forma deixava simplesmente que a vida o levasse em suas vicissitudes e desafios, porém em seu íntimo sentira que perdera muito tempo com a inércia e ilusão. Talvez agora fosse tarde demais... Ou talvez nada mais fosse necessário ou fizesse sentido.

Em realidade nada pareciam ter em comum, além de um relacionamento de cerca de 15 anos que havia sobrevivido às adversidades financeiras, sociais, intelectuais e emocionais. De alguma maneira consideravam-se bem sucedidos como casal, pois entendiam a resistência da relação por cumplicidade e compromisso sempre tão bem preservados.

Mas o tempo fez seu trabalho e quase imperceptivelmente tudo que os unia parecia esvair-se, sem ser notado. Assim como tudo nesse plano material, também passaram pelo desgaste natural e corrosão das bases. Por tempos os desentendimentos foram brutos e cruéis e de alguma forma davam impulso e vitalidade para o desejo. Agora reinava uma calmaria vazia, uma paz desconfortável, uma falta do que nem sabiam mais o que...

Todos os dias Mu dava suas aulas nos períodos matutinos e vespertinos, que eram ignoradas e satirizadas por 95% dos alunos, que entendiam a sociologia, filosofia e afins como idiotices inúteis, aliado a um salário destinado ao profissional da educação que só o governo brasileiro poderia oferecer. Costumeiramente chegava cedo em casa e se dedicava com mais assiduidade às tarefas do lar, pois seu companheiro dava aulas no período noturno.

Aquela sexta-feira não era exceção, seguia seu curso como todos os outros rotineiros dias.

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—Olá Mu. – Deu-lhe um breve selinho, automático, como há muito. – Como foi seu dia? – deixou sua bolsa na mesma cadeira de sempre se dirigindo à cozinha, em busca de algo para comer. Seus movimentos e ações eram diariamente tão repetitivos e mecânicos, que quase pareciam coreografados.

— Oi Sha, foi o mesmo de sempre, as mesmas aulas, o mesmo desinteresse dos alunos. E você, como foi? – O mesmo, o mesmo, o mesmo, era a isso que seus dias e noites se resumiam. Continuou sentado no sofá, dedicando-se a mais um das centenas de artigos que tinha escrito ao longo dos anos, mas nunca tivera coragem de publicá-los. Fazia apenas por distração, uma forma de se reconectar a seus sonhos e ideais, fugindo do que havia se tornado sua realidade.

— Olha, estou com um paciente um pouco complicado, muito confuso e agressivo. – Sentou-se no sofá com um prato de comida, fazendo companhia ao outro.

— Você realmente acha que terapia resolve alguma coisa? Auto centrismo realmente não é a solução para as pessoas. – Seu tom era um tanto ofensivo, o que irritou o outro. Houve um momento em que deixara de acreditar em muitas coisas, até mesmo na capacidade humana de reconstruir-se.

Fazia algum tempo que não discutiam, que não se estranhavam, mas pairava no ar algo diferente naquela noite, uma nuvem de desconforto e ansiedade, que não conseguiam identificar bem o que era, mas estava ali gritando silenciosamente por uma chance de se expandir.

— Resolve mais que essas porcarias que você escreve e não tem coragem de publicar, porque sabe que ninguém vai ler. – Seu orgulho tinha sido ferido. De alguma maneira aquilo lhe incomodara mais que o normal. Afinal, a dor da descrença e do desmerecimento era algo que conhecia muito bem, e receber isso de quem esperava o contrário era muito doloroso.

A melhor defesa não era o ataque? Algo em seu coração o fez reagir de maneira bruta, estúpida. Algo que parecia tão simples, instantaneamente se tornara insuportável.

— O que, me diz? Você sente prazer em me humilhar, me diminuir, né? – largou o computador, cruzou os braços e o encarou. Milhares de mágoas, ressentimentos e más lembranças lhe vinham à alma neste momento.

A nuvem de insatisfação e incertezas que pairavam sobre suas cabeças finalmente começava a desmoronar numa ácida chuva de catarse e devastação, molhando a cada um e fazendo-os trazer à tona tudo que estava adormecido no fundo de suas vidas vazias.

— Eu? Foi você que começou, na verdade você sempre começa! – deixou o prato na mesinha de centro, havia perdido a fome. – Aliás, acabou o diálogo nessa casa faz tempo! Na verdade, tudo nessa casa acabou faz tempo! Não recebo nada além de um trato indiferente e sem respeito.

— Eu te trato indiferente? Você nem chega perto de mim há quanto tempo? Shaka, será que não tá apaixonadinho por algum desses pacientes aí? Já que a terapia não funciona, quem sabe sexo não resolva? – Quando percebeu já havia passado dos limites, mas não se arrependia disso, sentia algo desprender-se de si e de alguma forma trazer-lhe algum alívio.

— Pelo menos eu tenho uma profissão decente, que paga as contas, que paga teus luxos! – Levantou-se farto com aquilo tudo, estava cansado de brigar.

— Isso fala, pode falar, que você me acha um fracassado, um inútil! – Também se levantara apressadamente.

— Quer saber, é isso mesmo! Você nunca fez nada da sua vida, é um fracassado! – Pegou sua bolsa e foi em direção à porta, estava cansado daquilo tudo. Nada mais fazia sentido ali naquela casa, naquela vida – Cansei de brigar! – Saiu e bateu a porta, mas não deu nenhum passo, sentou-se ali mesmo. Sua cabeça doía... Seu estômago revirava e tremia compulsivamente. Era como se seu organismo inteiro reagisse buscando a homeostase que há tanto sua vida deixara de ter.

Pensava em tudo o que estava acontecendo em sua vida, repassara os últimos 15 anos em sua cabeça, tentando achar respostas...

Durante toda a madrugada, pateticamente sentado à porta de sua casa do lado de fora, chegou a uma conclusão que não era agradável, não era desejável. Mas pensava não poder mais fugir dela, ou as consequências poderiam ser piores...

Seu racional mesmo nessa hora lhe dominava, mesmo enquanto todo seu organismo colapsava. Seria difícil, mas algo o impulsionava aquilo, não sabia bem dizer o quê. Deixara as intuições de lado e passara a afirmar-se racionalmente em suas conclusões, como sempre.

Entrou em casa, encontrando-o sentado no sofá, fitando o vazio. Também passara a noite em claro, perdido nos devaneios de sua mente agitada.

— Mu, precisamos conversar!

— Onde você estava? – Indagou sem dignar-se a olha-lo.

— Aqui mesmo, sentado atrás dessa porta. – O olhou com pesar. – Olha, precisamos conversar seriamente, pensei muito bem e...

— Fala logo Shaka! – Impaciência sempre fora seu sobrenome, e a certeza do que viria a fez mais forte e concreta.

— Acabou Mu, não dá mais. Precisamos nos separar... – Aquelas palavras o machucavam por dentro de uma maneira que não saberia explicar nem com décadas de terapia, porém não via outra solução. Não houve resposta do outro, que continuava estático. – Sabe, estamos distante um do outro há muito tempo. Somos praticamente dois estranhos dividindo uma vida que já não existe mais. Não há carinho, não há interesse. Não há mais nada Mu... E vejo essa como a única saída de não terminarmos em ódio, em ressentimento... Eu ainda te admiro e te respeito, e quero que continue assim.

Ah a racionalidade do psicólogo era algo que o fazia traduzir qualquer situação a uma linguagem clara e objetiva, fazia parecer tão simples e fácil, mesmo que essa tradução nada fosse fiel ao que realmente acontecia.

— Tem certeza que é isso que quer? – Seu coração estava apertado. Não que discordasse das palavras do outro, mas talvez essa não fosse a melhor solução... Porém seu orgulho não o deixaria intervir. Se ele queria que acabasse assim, que fosse.

— Sim, eu tenho! – Um nó se fez em sua garganta e engoliu seco o peso de todos esses anos. – Pensei que talvez fosse melhor você ficar com o apartamento, bem, pelo menos por enquanto, até decidirmos exatamente como ficará a divisão e...

— Não quero nada seu, você o pagou praticamente sozinho. – Uma simples e intensa raiva começava a invadir-lhe o peito, não acreditava que o loiro pudesse ser tão frio e racional enquanto punha fim a um relacionamento de tantos anos. Continha as lágrimas, jamais as exporia a ele em um momento como esse.

Sua cabeça girava e girava, aquilo não parecia estar realmente acontecendo. Sentia-se fora do ar, como se a qualquer momento acordasse de um pesadelo desconexo e voltasse à sua vida como sempre fora. Covarde, mas estável.

— Não é isso Mu, construímos juntos. Por agora, para você é mais viável e compatível com sua renda. Eu consigo me virar melhor, porém gostaria de seguir utilizando o carro, que facilita meu trânsito pela cidade, que é maior. – Sua mente divagava procurando soluções lógicas, evitando se concentrar naquela realidade, que seria extremamente dolorosa quando realmente percebida.

— Faça como quiser Shaka!

— Ok, vou pegar minhas coisas, pelo menos uma parte. – Não havia como negar que aquela indiferença lhe doera. Imaginara Mu chorando, pedindo para que ele ficasse, que tentassem de novo. Na verdade, algo no fundo do seu coração pedia por isso, para que talvez, mas só talvez pudesse voltar atrás de sua decisão... Não aconteceu.

Foi até o quarto, onde fez uma grande mala com roupas, livros e objetos de uso pessoal. Na verdade, o básico para sobreviver por alguns primeiros dias. Voltou até a sala, onde o ariano ainda se encontrava na mesma posição, catatônico.

— Adeus Mu! – Decepcionou-se novamente por não ouvir nada além do ensurdecedor silencio daquela sala, que parecia maior que nunca. Vagarosamente saiu, e fechou delicadamente a porta atrás de si.

Ao ouvir o barulho da porta bater, deixou todos seus sentimentos extravasarem e chorou tal qual criança, quando se descobre desamparada no mundo. Era assim que Mu se sentia, desamparado, sozinho. Teve o ímpeto de ir atrás, impedi-lo de ir, mas sabia que o único que conseguiria , seria se humilhar mais e nada obter. Por mais que doesse, talvez, mas só talvez Shaka tivesse razão. Acabou. E nada mais.

Passou a tarde de sábado, sentado na mesma posição, tentando encontrar alguma justificativa razoável para reverter aquela situação, mas simplesmente não conseguiu. Preferiu imaginar que tudo não passara de um mal entendido, que tudo iria se resolver e voltaria a ser como antes... Afinal, não se sentia realmente preparado a encarar a realidade. Não naquele momento, então preferia escapar de tudo aquilo, nem que fosse temporariamente.

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Perto de seu consultório havia muitas pensões baratas e em uma que lhe pareceu mais asseada, acomodou-se. De alguma forma aquilo lhe trazia muitas lembranças de tempos idos. Sentia que ao invés de progredir, sua vida agora regredia. Sentou-se na beirada da cama simples, de colchão velho e suspirou profundamente. Não acreditava que voltaria a morar num lugar com aquele. Mas o que podia fazer por enquanto era resignar-se.

Não conseguiria ficar parado o dia inteiro, pensando no que havia feito. Era ciente de que enlouqueceria. Tudo ainda parecia surreal, de alguma forma sua mente ainda não digeria o que havia feito e lhe daria seu próprio tempo. Pegou um casaco gris e saiu a caminhar.

Era certo que sentia grande fascínio pela cidade de São Paulo. Sua terra, seu berço, sua vida. Não sabia identificar se era sua grandeza, praticidade, agilidade ou diversidade que mais o encantava, mas tinha para si que em nenhum outro lugar teria mais oportunidades de ser, como tinha ali. Sentia que tinha tudo, sentia-se em casa.

As ruas do Centro velho eram mais tranquilas e silenciosas nos finais de semana. Observou os desbotados prédios, como se fossem grandes palácios... Os papéis de mais variadas propagandas dançando pelo chão sujo como se fossem folhas caídas das grandes árvores de concreto, que ao invés de frutos dava a luz, que faziam das noites paulistanas mais nostálgicas e especiais. Caminhava por sua linda floresta cinza e melancólica como se fosse o único que tivesse em sua vida. Pelo menos era o único que sentia possuir agora.

Sentou-se nas escadarias da Sé, junto com os mendigos e turistas, tentando sentir-se mais vivo que nunca, convencer-se de que tomara a decisão certa... Aquilo lhe trouxera algum conforto, mas não a paz que almejava. Sentia-se vazio, como se nada mais houvesse dentro de si.

Não havia vento, mas tremeu-se por inteiro. Fechou os olhos e pôde ouvir dentro de sua cabeça, o seu ser todo estilhaçar como vidro translúcido se chocando contra o chão. Sim, podia ouvir dentro de si o barulho dos cacos a se espalhar pelo chão cinzento...

Notas finais
Amores, espero que gostem e comentem! Bjs doces da Tia Shaka Psico!