Hora de Recomeçar
15 À Flor da Pele
Notas iniciais
À Flor da Pele
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Os dias estavam caminhando de maneira tranquila. Pouco a pouco o ariano conseguia lidar melhor com a dor, mas tinha certeza de que isso era mais efetivo com a presença e a atenção que o ex-companheiro dispensava a si. Solidão nunca fora seu forte.
Decidiu mexer em algumas coisas antigas, dar uma arrumada nas velharias. Era sempre bom, ajudava a renovar o ambiente, movimentava as energias estagnadas, pelo menos era isso que sempre ouvira.
Depois de reorganizar a sala e outros cômodos, foi até o quarto mexer nas coisas velhas. Rir com algumas lembranças, emocionar-se com outras. Porém no fundo de uma cômoda achou algo que lhe chamou atenção. Uma caixinha de madeira. Pegou-a e abrindo viu o rosário de 108 contas, a única coisa que Shaka tinha de seu pai biológico.
Sabia que o loiro evitava estar em contato com o objeto, mas também não conseguia se desfazer dele, por isso estava bem guardado. Separou-o de canto e terminou seus afazeres.
Tarde da noite, com a chegada do loiro, após as rotinas de alimentação e higiene, aproximou-se dele de maneira discreta sentando-se à seu lado com a caixinha nas mãos.
— Sha, eu achei isso enquanto dava uma reorganizada na casa. – Estendeu-lhe o objeto que logo fora aceito e aberto.
— O rosário de 108 contas... – Pegou o objeto um tanto vacilante, fitando-o com certo pesar.
— Eu só não o mandei com as outras coisas porque não sabia que ele estava aqui. Se você não quiser leva-lo, eu o guardo. – Apresentou-se solicito. Sabia o quanto esse tipo de lembrança familiar mexia com o loiro.
— Obrigado por encontra-lo Mu. Eu vou leva-lo. Quero ficar com ele. – Logo o guardou novamente e o colocou na pasta de trabalho. Depois o acomodaria na mala. Não sabia porque, mas sentiu um arrepio subir pela espinha e uma paz estranha lhe invadir o espírito. Porém não deu atenção, deveria ser coisa da sua cabeça, afinal aqueles eram dias de muitas emoções.
E apesar de trazer muitos conflitos e incertezas, aquele objeto carregava uma significativa parte de si, que sem ele estaria completamente perdida. Jamais conseguiria se desfazer ...
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Mais um fim de sexta-feira, mais um desafio... Só que dessa vez sentia-se mais preparado para enfrenta-lo. Passou dias refletindo e chegou à conclusão que se quisesse avançar com Ikki teria de ser mais provocativo.
Após as saudações iniciais, viu que o moreno parecia mais tranquilo, menos irritadiço que de costume e decidiu começar a sessão de maneira mais ousada.
— Bem Ikki, estive pensando muito no final de nossa última sessão... As coisas que você disse... E gostaria de entender melhor porque eu sou um dos motivos da sua volta. – Seu olhar era mais firme e o rosto parecia mais corado e saudável que nas últimas semanas.
— É, vejo que veio preparado hoje Shaka, não está tão incômodo e suscetível à situação como ficou àquele dia. – Muitos diziam que a melhor defesa é sempre o ataque... Ikki costumava levar esse ditado à sério.
— Sim, você tem razão. De alguma maneira me mostrei desconfortável, talvez até mesmo suscetível como você disse. Afinal, eu também sou humano e passível de me afetar pelas interações com os pacientes... E justamente por ter sido algo tão impactante, gostaria de entender melhor. – Sentia-se seguro como não acontecia há muito tempo.
—Bem, bela forma de se esquivar... Tenho que reconhecer que você realmente é muito bom! Mas não acho realmente que estaria preparado para a resposta. – Mais que um tom de desafio, Shaka propunha um jogo...
— E porque não estaria?
— Se a sua reação foi tão alterada com apenas àquela frase, imagino que não vá conseguir lidar com o restante.
— Deixa eu ver se consigo entender, você tem visão contraditória de mim... Afinal às vezes eu sou muito bom, outras vezes não seria capaz de aguentar o que você me reserva... – Apesar de tranquilo, o moreno parecia resistente demais, certo demais do que queria.
— Vou ser bem sincero, não vai chegar a lugar nenhum comigo com esse seu joguinho.
— Eu não estou jogando Ikki, estou buscando fazer meu trabalho.
— E o qual é a meta desse seu trabalho tão minucioso comigo? – Estava decidido a não revelar nada, pelo menos não nesse momento.
— Qual você acha que é a meta Ikki? – As coisas pareciam cada vez mais difíceis e o processo terapêutico parecia dar um passo à frente e dois pra trás.
— Realmente não sei.
— Ikki, você se submete a um processo que não sabe qual o real objetivo? Isso não me parece condizente com suas atitudes.
— O fiz pelo meu irmão... A pedido dele... Uma última tentativa de conseguir me adaptar. – Suspirou profundamente ao falar do irmão... A imagem simples e doce de Shun lhe veio à mente... Quase sorriu.
— Vejo que seu irmão tem uma grande influência sobre você! – O loiro percebeu a mudança de entonação da voz e de postura do outro apenas em falar no irmão... Isso dizia muita coisa.
— Não só ele Shaka, não só ele... Mas você deve ter percebido isso né? Enfim, hoje já falamos o suficiente, deixemos o restante pra depois... – Levantou-se a ao passar próximo ao terapeuta, que pôs-se se pé, disse rente ao ouvido. – Apesar que acho que você conhece muito bem a resposta que está procurando, só não quer admitir que sabe...
O terapeuta sentiu um tremor percorrer todo o corpo, mas manteve a postura até o outro deixar o local. Sabia o quanto ele era manipulador, mas não se deixaria vencer.
A cada dia aquela teia parecia mais embaraçada, quase impossível de ser desfeita... Mas não desistiria... Em seu coração, Shaka sentia que realmente necessitava fazer algo... Não podia perde-lo... Por algum motivo que não entendia bem, pelo mesmo motivo que seu corpo tremera involuntário sem explicação palusível, não podia perde-lo...
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Passou a tarde inteira escrevendo... Aquele convite fora realmente tentador. Se esforçaria para realizar aquele sonho... Devia isso a Shion.
Despertando de seus devaneios, atendeu ao telefone. Era Aldebaran... Ele ligava todos os dias após o falecimento de seu tio. Sempre querendo saber como estava, se precisava de algo. Frases prontas, rotineiras, repetitivas... Já havia percebido o flerte e estava se divertindo com isso. Era bom para seu ego.
Distraído como estava, quando deu por si a porta já estava sendo fechada, Shaka havia chegado da Universidade.
— Depois a gente se fala melhor, obrigado de novo. Beijos.
— Quem era Mu? — Perguntou como se realmente não soubesse a resposta. – Bem, desculpe não é da minha conta e você não...
— Era o Alde, como sempre! Querendo saber como eu estava. – Abriu um leve sorriso com o desconcerto do loiro. Por mais que os anos passassem, ele não conseguia superar seu modo “gentleman” de ser, mesmo com quem mais tinha intimidade.
— Sha, não se preocupe. Não perguntou nada demais e não tenho nada pra esconder de você. Vou pegar algo para você comer!
— Mu, não precisa... – Antes que pudesse dizer algo, o ariano já havia se levantado e se dirigido à cozinha, retornando com um lanche suave, afinal era quase meia-noite. – Muito obrigado, mas não precisava se incomodar...
— Não é incômodo Shaka, você é meu convidado! – Um sorriso sincero se desenhou em seus lábios e pensou o quanto eles pareciam conviver mais harmoniosamente estando separados.
— Mu, eu queria falar com você sobre isso mesmo... – Suspirou, buscando as palavras mais adequadas para dizer... Aquilo era tão difícil. Porém foi interrompido antes de continuar.
— Tudo bem Shaka, imagino que já esteja querendo voltar pra sua casa, ter sua privacidade. Eu entendo. Estou bem, tranquilo. Penso que talvez seja a hora de ficar mais comigo mesmo. Agradeço muito o que fez por mim, foi realmente muito importante nesse momento.
— Tem certeza que vai ficar bem? Se quiser eu posso ficar mais e... – Sentia-se completamente embaraçado naquela situação.
— Está tudo bem, pode ir sem preocupação. E eu prometo que se não me sentir bem, eu te ligo ok? – Aproximou-se um pouco, sentando à seu lado no sofá. – Mas eu queria dividir algo com você antes que se vá.
— Claro Mu, pode falar! – Descartou o prato quase vazio na mesinha de centro e voltou toda sua atenção ao anfitrião.
— Hoje me ligaram de uma editora... Eles querem que eu escreva um livro com foco na temática exposta nos artigos publicados... – Seu olhar era tímido, tal qual de uma criança que tem nas mãos algo que muito quer, mas não sabe se pode ficar.
— Isso é ótimo Mu! Vai ser maravilhoso! Já pensou como vai conduzir?
— Sim... Na verdade eu tenho o material quase pronto. Venho especulando faz tempo... Mas não sei se é a hora certa. – Seu olhar revelava seu pedido de ajuda.
— Mu, não tenha dúvida! É a hora certa! Acredito que vai ser ótimo pra você! Você é talentoso... Eu creio que vai ser um grande sucesso. – Pegou uma de suas mãos entre as suas e a beijou com suavidade, num gesto de extrema ternura e respeito. – Você vai brilhar Mu!
— Obrigado mesmo Sha! Ninguém melhor para me aconselhar nesse sentido que você! – Um brilho intenso se formou em seu olhar, que agora era resoluto. – Vou ir em frente! Esse era o sonho do tio... Na última vez que nos vimos, ele disse que queria que isso acontecesse. – Uma discreta lágrima escorreu por sua face.
— Não poderia ser homenagem melhor, vá em frente. – Limpou a lágrima delicadamente, acariciando o rosto, apertando a bochecha, arrancando um sorriso em meio à tristeza.
— Sabe, ás vezes eu ainda me sinto em dívida com ele...
— Deixe de bobagem, de onde ele estiver estará olhando por você. Feliz, satisfeito, orgulhoso. – Nunca fora um homem religioso, na verdade nunca acreditara em Deus. Não podia conceber um ser que deixava as pessoas sofrerem sem motivo. Mas precisava afagar o coração de Mu, e para isso não havia limite de palavras.
— Ah Sha, você sempre sabe dizer a palavra certa na hora certa...
— Mu, essa é a minha profissão! – Não era dado a brincadeiras, mas às vezes não conseguia resistir. – Me chame para o lançamento, ok? – Aquele olhar... Mesmo choroso... Há quanto tempo não o via tão encantador? Já não se lembrava mais...
— Claro Sha! Obrigado mesmo pelo apoio.
— Sempre te apoiarei Mu! Bem, agora vou começar a arrumar minhas coisas, amanhã cedo vou embora. Se importa se eu ficar aqui ainda essa noite? – Levantou-se, carregando o prato e o levando para a cozinha.
— Que é isso Shaka? Que bobagem! Pode ficar o quanto quiser! Vai ser um prazer te hospedar mais uma noite. – O loiro possuía um senso de conveniência invejável e inigualável.
Aproveitou que era sexta-feira e não costumava dormir cedo para organizar suas coisas. Juntou todos seus pertences acomodando-os de maneira metódica, deixando para fora da mala apenas a roupa que usaria no outro dia de manhã. Era bom voltar à sua privacidade... De alguma maneira se sentia um estranho naquela casa... Que fora sua por tantos anos...
Mu já havia se deitado, então entrou no quarto buscando não fazer barulho...
— Sha, eu tô acordado, fica à vontade.
— Desculpe-me.
— Meus Deus, a vida toda ouvi você pedir desculpas por tudo! – Acendeu o abajour e soltou uma leve gargalhada. – Pare com isso! Vem cá, quero falar algo com você! – Viu o loiro se aproximar sem graça e sentar na beirada do colchão. Sentou-se na cama, ficando de frente para ele e segurou seu rosto com as duas mãos de forma meiga.
— Acho que nunca vou mudar Mu! – Sorriu de leve, ainda constrangido com a situação.
— Obrigado por tudo que tem feito por mim, não somente nos últimos dias, mas em todos esses anos. Você é um cara incrível Shaka!
— Eu que agradeço tudo o que você fez por mim, de verdade! Não sei o que teria sido de mim sem você... – Num gesto quase impensado, tomou-lhe também o rosto entre as mãos, fazendo com que as testas se encontrassem.
Os olhares, tão profundos dizendo tantas coisas um ao outro... Não precisavam de palavras... As almas diziam tudo. Sem aperceberem-se os lábios se tocaram e foram guiados a um doce e terno beijo... Beijo de saudade... Beijo de vontade...
As mãos involuntárias agarraram o pijama do visitante o trazendo para junto de seu corpo, abraçando-o... Sendo correspondido. Havia desejo contido... Desejo desde o dia em que Shaka voltou àquela casa... Desde o dia em que se separaram...
Escorregou suavemente sobre a cama, trazendo o loiro para cima de si... Os beijos... Carícias... Olhares cúmplices... Peças de roupa descartadas pouco a pouco... O choque do contato das peles era intenso...
Os cabelos amendoados eram afagados com veemência enquanto sentia unhas que marcavam as costas com força... Os rostos avermelhados... Os corpos suados em constate fricção... Os gemidos e gritos de torpor ecoando pelo quarto pouco iluminado.
Corpos unidos... Almas em uníssono... Como há muito já não sabiam... Como há muito não sentiam... Queriam...
Não havia palavras... Não cabiam, não eram bem vindas... Nada tinham a dizer...
Prazer... Delírio... Exaustão... Alívio... Leveza...
Adormeceram abraçados sem palavra proferir...
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Aproveitou que o irmão não estava em casa e arrumou a mochila com o necessário para alguns dias de sobrevivência. Precisava sair de novo... Estava cansado de tudo. Como sempre.
Sentou-se no sofá refletindo sobre o desapontamento que Shun teria ao descobrir que havia sumido de novo. Não gostava de magoá-lo, evitava ao máximo.
Lembrou-se dela... Passaria antes em seu túmulo, pra conversar... Como lhe era difícil encarar a realidade da perda de alguém que se ama. Estava a ponto de enlouquecer... Talvez fosse só esperar o dia em que a insanidade viria.
Não queria mais pensar. Pegou a mochila e foi até a porta. Colocou a mão na maçaneta, mas algo lhe parou. Algo dentro de si não queria deixa-lo ir... Uma emoção diferente, um sentimento novo... Confuso...
O que estava acontecendo? Novamente se escravizava por afeição? Deixava-a tomar conta de suas ações de novo? Não queria mais isso... Mas parecia incontrolável...
Ele... A visão dele em sua mente não o deixava partir.
Sentia-se ameaçado por esse sentimento.
Shaka.
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