Hora de Admitir
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Você vai ir embora? De novo? — ela perguntou. Eu realmente não sabia o que dizer, eu não poderia continuar lá, não poderia continuar vivendo após tudo que tinha acontecido. — Nós podemos consertar tudo isso! Fique, por favor!
Ela é muito otimista e esperançosa, ela se engana com uma realidade que nunca vai acontecer, mas, mesmo assim, eu amo ela. Eu não queria deixá-la, eu realmente não queria.
Toda a realidade ao meu redor estava desmoronando. Apesar de vivermos em uma pequena cidade, eu não sabia que as coisas eram tão piores quanto as de uma grande cidade.
Me virei e olhei nos olhos dela, aqueles lindos olhos castanhos que agora estavam marejados. A pouca iluminação da rua a iluminava e era noite de lua cheia, será que em um universo paralelo essa noite seria perfeita?
— Eu preciso ir. Você não entende, Jane — parei de falar ao sentir meus olhos começarem a lacrimejar. Eu não conseguia me despedir dela, não queria dizer aquelas palavras. — Se eu não ir, eles me matarão. E eu sei que eles virão atrás de mim, mas isso manterá você e os outros vivos!
— Então, me leve com você — ela se aproximou de mim e segurou as minha mãos. — Podemos aproveitar esse tempo juntos. Só não me deixe sozinha. Não me deixe sozinha, de novo.
Eu sabia que já havia causado muita dor a ela, eu sabia. Tudo o que já havia acontecido e que eu já havia feito. Ela não vai conseguir lidar com o que vai acontecer depois, ela não vai conseguir lidar com a minha morte.
Por que eu não podia simplesmente fazer as coisas do jeito certo? Por que eu não pude fazer as coisas que eu deveria ter feito? Eu estava condenado a viver com isso, mas não podia deixar ela sofrer.
Começara a ventar. Os longos cabelos castanhos de Jane voavam em seu rosto, ela tentava afastar, mas não dava certo. Eu continuava encarando ela, estávamos chorando, de novo. Já tínhamos feito isso antes, mas, dessa vez, a situação é muito mais grave.
— Eu não posso levá-la. Desculpe — eu soltei suas mãos, não conseguia mais dizer seu nome, doía muito. — Espero que um dia eu consiga lhe ver novamente.
— Eu sei o que você vai falar, por favor, não fale. Por favor! — ela se aproximou e tentou segurar meu rosto, mas eu recuei. Já era a hora de ir.
— Adeus.
Ajustei meu casaco, me virei e comecei a andar até o táxi que estava me esperando. Estava muito frio naquela noite, uma chuva estava se aproximando e eu tinha que sair dali logo, brevemente eu estaria em um hotel qualquer em um país qualquer.
Entrei no táxi e disse para o taxista dirigir ao aeroporto. Ele me perguntou se eu não queria continuar falando com a moça que estava lá fora, ele poderia me esperar mais um pouco. Mas eu disse que eu não queria, já tinha dito tudo que precisava.
Ele começou a dirigir e eu revisava mentalmente tudo que nós havíamos conversado. Todas as frases, todas as palavras, simplesmente, tudo. Eu realmente tinha dito tudo que eu queria dizer?
Não.
Eu sabia muito bem o que eu não tinha dito a ela. Três palavras, apenas três palavras, que, se eu tivesse dito, eu teria sido obrigado a ficar. Eu não queria admitir o que eu sentia por ela. Na verdade, eu não podia admitir o que eu realmente sentia, iria estar colocando a vida dela em risco.
Já havia colocado várias vidas em risco. Eu também acabei tirando a vida de algumas pessoas, apenas por admitir o que eu sentia por elas. Eles vão atrás de todas as pessoas que importam para mim, todas, sem nenhuma exceção.
Ao pensar em tudo aquilo, acabei chorando um pouco mais. Esfreguei meus olhos para tentar disfarçar, mas não era nada fácil.
— Está passando por tempos difíceis, colega? — perguntou o taxista. Ele, provavelmente, me vira chorar.
— Sim, tempos muitos difíceis.
— Quando se está na sua idade, as coisas são difíceis. Elas se tornam muito mais difíceis ao viver nessa cidade.
Todos conheciam a nossa cidade por uns certos motivos, e eu, infelizmente, acabei me envolvendo nessas coisas. Por quê? Nem eu consigo me lembrar dos motivos.
— É, eu sei — disse enquanto olhava para a chuva.
— Então, garoto, está indo para onde?
— Para um lugar bem longe daqui, eu espero.
— E a garota, você vai deixá-la por aqui?
— É necessário.
Mas era mesmo necessário? Se eu voltasse lá, ela ainda me aceitaria? Eu poderia passar o resto da minha vida fugindo com ela, mas não sei se ela conseguiria.
Afastei todos aqueles pensamentos quando eu percebi em que rua estávamos, era a rua mais deserta e comprida da cidade, havia vários terrenos baldios lá. Não havia nenhum poste de luz lá e poucas casas, a maioria delas eram muito antigas.
— Ei, você tem certeza que quer ir por essa rua? — perguntei para o taxista. — Se nos formos por outra rua, chegaremos mais rápido.
— Relaxe, garoto. Eu conheço essa cidade há vários anos, existem vários outros caminhos mais rápidos.
Mesmo ele falando aquelas coisas, não conseguia relaxar. Algo não estava certo, todas as pessoas evitavam aquela rua, por que ele estava lá? De qualquer jeito, eu só queria chegar rapidamente ao aeroporto, tentei relaxar um pouco.
Ele dirigiu mais um pouco até eu perceber que nós estávamos ficando cada vez mais distantes do aeroporto, o taxista entrara em várias ruas estranhas, diferentes e desertas.
— Onde nós estamos indo? Eu lhe disse para ir até o aeroporto!
— Você é muito estúpido, Howard — percebi uma mudança em seu tom de voz e ele parou o carro em estrada de terra. — Você realmente acreditou que iríamos te deixar fugir?
Eu estava com medo, muito medo.
Rapidamente, tentei sair do táxi, mas não havia dado certo, ele trancara todas as portas. Eu pensava em uma maneira de fugir dali, mas nada daria certo. Mesmo que eu conseguisse sair do carro, estava muito longe da cidade ou de qualquer pessoa que eu conhecia.
— Você não tem para onde ir, Howard — ele se virou e olhou para mim. Com um movimento rápido, peguei minha arma e apontei para a sua cabeça. — Isso não me assusta. Além de que eu nunca viria até aqui sem reforços.
Olhei para a janela do carro e vi quatro homens armados se aproximarem do carro, dois estavam vindo pela direita e dois pela esquerda. As janelas se abaixaram e os quatro apontaram armas para a minha cabeça.
— Acabou, Howard, acabou — disse o “motorista”.
— Não, não, por favor! Eu imploro! — gritei, lágrimas desciam pelo meu rosto, era realmente o meu fim. — Eu darei um jeito de consertar tudo, por favor!
— Você tem alguma coisa para dizer? Quais são suas últimas palavras?
Me mantive quieto. Eu realmente não tinha nada para dizer, não para eles. Deixei que eles me matassem, não havia mais nada que eu poderia fazer.
Então, eles dispararam e eu senti a minha morte.
Não pude deixar de pensar em minha família, meus amigos e Jane… Já que eu estava morrendo, só havia mais uma coisa para fazer: admitir meus sentimentos.
E, pela primeira vez, eu conseguia pensar em cada pessoa da minha vida e eu sabia o que eu sentia por todas, eu as amava.
Eu as amava muito.
Notas finais
XOXO
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