Hoppípolla
1 Hoppípolla
Notas iniciais
Mike não queria ir. Muita gente, muito barulho. Com certeza não era o tipo de lugar para uma mente quieta e tranquila como a dele — ou, pelo menos, assim ele acreditava. Mas os amigos insistiram tanto. E, no fim das contas, estava ficando cada vez mais difícil reunir todos do grupo. Ele não estava disposto a ser o estraga-prazeres. Então, lá estava ele.
No palco, o vocalista dava o melhor de si, enquanto solos de guitarra levavam a multidão à loucura. Ao lado de Mike, Lucas e Dustin pulavam e gritavam enquanto Will e Max dançavam e cantavam as letras de cor, quase religiosamente. Como se estivessem se divertindo como nunca. Como se aquele fosse o melhor dia da vida deles. Mike balançava a cabeça, tentando acompanhá-los. Tentando não se sentir tão deslocado. Ele imaginava que esse era o jeito normal de se divertir. Além do mais, por mais que detestasse admitir, até que estava se divertindo.
— Incrível, não é?! —, ouviu Will gritar ao seu lado. O motivo de eles estarem ali, para começo de conversa. O namorado de Will fazia parte da banda e havia conseguido ingressos para o festival para todos eles.
Mike não teria achado tão ruim se o festival fosse em qualquer outro lugar — mas tinha que ser justamente na Islândia? De todos os lugares? Ele mal podia acreditar que estava ali novamente. Mike já havia feito sua pequena incursão no país alguns anos antes. Foi com o coração cheio de esperança e com a certeza de que encontraria Eleven. Ninguém sabia que esse era o verdadeiro motivo que o havia levado até lá — para os outros não passava de algum detox mental, ou algum tipo de experimento literário que ele estava tentando fazer.
Ele ficou um ano.
Voltou com um livro publicado, mas nada de El. E ele tinha tanta certeza! Quando voltou para casa de cara amarrada, ninguém conseguiu entender. Mike também não fez questão de explicar.
— Ah, sim! Claro! Incrível! — ele gritou de volta. — Pessoal, vou pegar algo para beber. Volto quando der. — Mike ouviu um “Quê?” de Dustin, mas já estava se distanciando da multidão. Por mais que amasse passar tempo com os amigos e vê-los se divertindo, ele já se sentia esgotado — pela música, pelas memórias ou talvez por uma mistura dos dois; ele não saberia dizer.
Aconteceu enquanto ele bebia algo sozinho no bar.
Ele se virou, como se sentisse a presença dela. E, dessa vez, lá estava ela.
Tão linda, tão adulta.
Tão diferente da adolescente que ele vira desaparecer diante de si anos antes.
Era como uma visão. O cabelo longo, descolorido, diferente de todos os penteados que ele já a vira usar. Mike sabia que podia parecer loucura, mas ele podia jurar que mesmo antes de ver o rosto, já sabia que era ela. Como se algo a atraísse, ela se virou em direção ao bar. E então o viu também.
Alegria.
Desejo.
Saudade.
Tudo aquilo que não conseguiam dizer, dito e compartilhado naquele olhar.
— El? —, Mike sussurrou, já sentindo o rosto esquentar e as lágrimas encherem seus olhos.
Será que tudo aquilo era real? Ele estava mesmo vendo ela? Tinha medo de piscar e vê-la desaparecer. Parecia ter congelado. Toda noção de tempo e espaço perdida no instante em que pôs os olhos nela. Poderia ter levado um segundo ou uma hora para começar a se mover novamente. Mas lá estava ele, enfim, andando em direção a ela. Ele queria chegar mais perto. Queria tocá-la. Ele tinha que tocá-la. Precisava garantir que aquilo não era só mais uma alucinação, um efeito colateral da bebida. Precisava ter certeza de que ela não iria se desfazer na sua frente quando a tocasse.
Mike tinha medo de que ela fugisse ou tentasse evitá-lo. Ele sentia que havia acabado de descobrir algo que não devia e agora queria entrar na vida dela sem ser convidado. Como se estivesse invadindo a vida que ela tanto lutou para construir. Mas ela não fugiu — na verdade, ela caminhava em direção a ele também.
O momento que ele tanto desejou, temeu e sonhou por tanto tempo. Finalmente estava acontecendo. Ele mal podia acreditar.
— Mike… — ela o chamou. O doce som da voz dela. Era como se fosse música para os ouvidos de Mike depois de todos aqueles anos. Era algo que ele sempre temeu — esquecer esses pequenos detalhes sobre ela. A sensação de tê-la em seus braços, as testas encostadas. O jeito como ela costumava acariciar o cabelo dele quando se abraçavam. E agora isso. O som da voz dela, os lábios formando o nome dele. Soava exatamente como ele se lembrava: doce, amável. Ainda combinando perfeitamente com ela, como quando se conheceram. Mike podia sentir o coração bater forte no peito, mais vivo do que se sentira em anos.
O efeito El.
A música agora não passava de um ruído branco. Era como se o mundo tivesse parado por um momento, o universo conspirando a favor deles. Toda a busca que ele fez, todas as noites mal dormidas, as lágrimas derramadas de saudade, todas as cartas e todos os livros que ele escreveu especialmente para ela… Era como se tudo na vida dele convergisse para aquele único momento.
Agora tudo que Mike via era ela.
Eleven.
El.
Sua super-heroína.
Parada à sua frente, com lágrimas nos olhos, assim como ele. Ela fechou os olhos quando ele acariciou o rosto dela.
— É você. — ele começou. — É você mesmo!
— E é você também! — ela assentiu se aproximando, as testas coladas, as mãos acariciando o cabelo dele. Mike se sentia nas nuvens. Se existisse Céu ou um Paraíso, só poderia ser aquilo. A maravilhosa sensação de estar com ela. Eles se afastaram por um momento, mas ainda agarrados um ao outro, e Mike podia ver nos olhos dela que o amor que sentiam ainda estava ali. Junto com perguntas sem respostas.
Afinal, havia tantas coisas que ele queria dizer a ela. Sobre a vida dele, sobre seus sentimentos. A necessidade gutural de reafirmar que ainda a amava, que ainda sentia falta dela. Mas, Mike não conseguia encontrar as palavras. Elas lhe fugiam à mente — nenhuma parecendo ser suficientemente boa para expressar a El tudo aquilo que desejava. E ainda tinha tanto sobre ela que ele não sabia. E ele queria saber. Mike queria saber tudo. Precisava saber tudo — sobre a vida dela na Islândia, sobre todos aqueles anos separados… O que ela fazia ali? Ela estava sozinha? Será que ela procurava por ele no void? Ela sabia que ele esteve lá por um ano inteiro procurando por ela?
Mas, ao invés de perguntas, Mike selou seus lábios com um beijo.
Lento. Delicado. Caloroso.
Um beijo cheio de amor e saudade e da certeza de que ele nunca a deixaria, nunca a perderia de novo.
Ele sentiu a alegria invadindo sua alma. Ela sentiu também.
A mais completa satisfação de estarem juntos novamente. E, por ora, aquilo era tudo o que eles precisavam.
Fale com o autor