Notas iniciais
N/A: Sim, esse nome foi escolhido de propósito.

Ú N I C O

Da última vez que nos encontramos lembro-me de ter contado sobre o episódio da menina magrela que roubava livros na Alemanha.

Talvez você não tenha gostado da história dela, talvez não goste da que vou contar agora. Mas de um jeito ou de outro minhas histórias sempre chegam até você, ainda que você não tenha se dado conta disso.

Está estampado nos jornais, na boca dos apresentadores, está em todo lugar; você sempre sabe quando levo alguém comigo. Agora, porém, quero contar sobre a vez em que levei comigo alguém que você não conhece, de quem jamais ouviu falar alguma coisa; agora vou contar sobre como levei Esperança embora.

Acredito que essa história não tenha chegado aos ouvidos de ninguém porque – e isso é só a minha singela opinião – vocês humanos tem estado atentos demais a outras coisas; Esperança já havia se perdido há muito tempo, e acredito que ninguém tenha notado até agora.

Então lá vai; comecemos a história.

Só mais um aviso: para que entenda como tudo aconteceu é preciso que se desarme; mais um punhado de opiniões mal formadas é tudo o que não precisamos agora.

...

Isso aconteceu há alguns anos. Acredito que você nem existisse ainda. Definitivamente não foi algo agradável de se fazer, mas meu chefe jamais deixou que eu me metesse nos negócios. “Faça seu trabalho” – disse ele. Só obedeci.

Esperança vivia num lugar distante de todo o resto. Estava sempre sozinha, mas de algum jeito nunca se sentia só. Tinha apenas algumas folhas de papel e um pedaço de lápis usado para se distrair. Era nessas folhas que escrevia tudo o que esperava do futuro; menos confusão, um pouquinho de harmonia e menos desavenças entre as pessoas.

Todos os dias Esperança anotava mais alguma coisa em seus papéis; nada demais, só aquilo de que precisava de verdade. Com o passar do tempo, entretanto, Esperança começou a se cansar de escrever. Ela queria sair mundo afora para ver se havia mais alguém no mundo esperando pelas mesmas coisas que ela. E então pôs-se a viajar.

De longe, eu observava seus passos. Não, não estava seguindo seus passos, é que, vez por outra, cruzava com ela enquanto ia buscar alguém. Das primeiras vezes a via contente, mas depois notei que trazia consigo um olhar cansado e triste. Foi quando meu chefe me pediu para estar pronta.

Você deve estar achando meu patrão um desalmado sem coração. Bem, ele não. É bem verdade que quase nunca entendo o que ele faz, mas de algum modo está sempre certo. Na época eu não entendia, mas hoje entendo que ele só queria preservar a alma pura de Esperança.

...

Não demorou muito para que Esperança se cansasse de andar. Já havia caminhado o mundo todo – estava fazendo o caminho de volta –, e tudo o que viu só serviu para desiludi-la ainda mais. Quando chegou em casa também não quis mais escrever; pegou suas folhas e seu lápis e guardou numa gaveta. Ajeitou a casa e foi se deitar; estava tão cansada de tudo aquilo...! E então tive de ir buscá-la. Não fez nenhum sinal de objeção; Esperança veio de bom grado junto a mim. Antes de deixá-la onde deixo todos eles, só me fez um único pedido – só me pediu para guardar suas anotações até que encontrasse alguém que as merecesse.

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Você chegou ao fim do livro. Parabéns!