Hopeless Wanderer
2 When Your World is Falling Apart...
Notas iniciais
Quando Harley entrou de casa, suado e com os músculos doloridos, o rosto corado lhe destacando as sardas, mal podia imaginar o que estava prestes a sentir.
Entrou sem falar nada, mas seus olhos brilhavam loucamente. As coxas ardiam depois de ficar em cima do cavalo por tanto tempo, e a fadiga era inevitável. Os braços, cansados de segurar as rédeas por horas seguidas, caíam ao seu lado sem força. Não se arrependia nem um pouco.
Fazia pouco mais de duas semanas depois de sua primeira corrida em Estrela, seu esguio mustangue negro. Desde então, Harley descobrira que era um completo viciado em velocidade, sentir o vento batendo no rosto e a adrenalina correndo nas veias. Era uma droga que não tinha a mínima intenção de largar. Sinceramente, não conseguia pensar em nenhuma sensação no mundo que era melhor.
Com isso, é claro que ele passava boa parte de seu dia correndo. Isso significava cuidar de Estrela Negra pelo menos o dobro do que se tinha de cuidar dos outros cavalos, e por vezes chegar em casa com energia suficiente só para comer algo e se jogar na cama, mas ele não se importava muito.
Sua mãe se preocupava ao pouco, ao ver o filho tão cansado e sem energia, e era cada vez mais frequente que reclamasse sobre as horas que passava montado no cavalo. Mas Harley sempre fora um garoto um tanto estranho, apático. Não se interessava nos carrinhos ou blocos de montar de madeira, e o único motivo pelo qual brincava pela fazenda era Peter, que, com um companheiro disponível ali do lado, não aceitaria se divertir sozinho. Tinha particular talento em desenhar, mas só fazia isso quando Pete o chamava para que realizassem a atividade juntos. Era um bom nadador, mas só ia para o lago quando o irmão ou um dos pais fosse.
Sinceramente, era um tanto de um alívio para a mãe que o garoto, tão diferente de seu animado irmão, encontrasse algo que gostava de verdade. Assim, as reclamações eram mais para expor superficialmente o que pensava que qualquer outra coisa.
Tirou o casaco de lã de ovelha, o ideal para as temperaturas moderadas em que estavam, o colocando no cabideiro. Lembrou-se das reclamações da mãe de tirar o chapéu enquanto dentro de casa, mas decidiu fingir que tinha esquecido.
Quase que imediatamente percebeu que algo estava errado, mesmo ainda não sabendo de nada. Tudo estava normal: Uma revista de carpintaria deixada na mesinha da sala por seu pai, escapando à sua mania de organização. O cheiro de madeira e grama que parecia sempre permear a casa. Os livros de receita de sua mãe colocados de forma descuidada na estante, refletindo o amor pela culinária que lhe servia de profissão. Mas algo não estava certo. Observou incisivamente tudo da casa que estava em seu campo de visão, como que se procurando a coisa fora de lugar. Do seu lado, Peter, que tinha agido de forma estranhamente distraída e menos animada por todo o dia, tinha empalecido consideravelmente, olhando um tanto assombrado com algo que nem ele parecia saber o que era.
A resposta veio ao ouvir um soluço abafado vindo da cozinha. Não se sentiu largar a mochila de escola no chão, ou correr em segundos para a lugar. Quando se deu por si, estava observando a mãe, sentada num dos bancos do balcão. Seu cabelo ruivo acobreado caía de forma descuidada, fora do coque apertado em que normalmente permanecia. As feições firmes e belas estavam retorcidas numa expressão de tristeza que nenhuma pessoa jamais deveria usar, e lágrimas abundantes deslizavam de seus olhos cor de chocolate. Com um frio no estômago, se perguntou o que faria uma pessoa tão controlada como sua mãe chorar.
Pete logo estava lá, indo para junto de sua mãe e estendendo seus braços para um abraço. Siobhan agarrou-se nele como uma tábua de salvação, mergulhando a cabeça para chorar em seu peito. Peter, compreensivo mesmo quando não sabia o que estava acontecendo, acolheu a mãe com carinho, murmurando palavras de conforto que Harley não podia ouvir.
Aquilo o assustou mais do que poderia demonstrar. Siobhan era uma mulher firme, controlada. Era amorosa, mas não dada a demostrações de afeto ou de um sentimento qualquer exageradas. Contrapondo-se ao pai brincalhão, caloroso e não chegado a repreensões, ela era severa, a voz da razão na casa dos Daves, aquela que os dizia para colocar o casaco ou comer todos os legumes, e a que não soltava algumas lágrimas nem uma vez, nem mesmo ao ler a passagem mais triste de um de seus livros de romance dramático. Vê-la perder o controle era enervante, na melhor das hipóteses. Aterrorizante, na pior.
Só alguns segundos depois de ver a imagem atordoante, percebeu que não eram os únicos no cômodo. Alguns bancos distantes, estava sentado uma pessoa, se remexendo em seu lugar desconfortavelmente. Era um homem de meia idade, com traços brutos e viris e cabelos de um cinza escuro se misturando à prata. Vestia um uniforme azul-escuro bem passado de policial, seu chapéu característico sendo revirado nas mãos grandes. Olhou-o com raiva e desconfiança, assumindo imediatamente, como todo garoto impaciente de dez anos faria, que aquilo era culpa dele.
— Por que o senhor fez minha mãe chorar? — Perguntou, lentamente. Sua voz era baixa e, apesar de um tanto infantil, exibia um barítono suave bastante sutil que se acentuaria conforme crescesse. O tom era educado, mas a ameaça e raiva estavam ali, à espreita. E, se essas sutilezas não fossem o bastante, o olhar de fúria fria nos olhos verdes escuros terminaria o trabalho. O homem engoliu em seco, meio que pela notícia que teria que dar, meio que notando que aquele garoto seria perigoso no futuro.
— Sinto informar, garoto… — Ele começou.
— Harley. — Interrompeu, com irritação. Odiava que qualquer pessoa além de seu pai o chamasse de “garoto”.
— Sinto informar, Harley… — Começou ele de novo, só um traço de impaciência em seu rosto. — Mas o seu pai, Aidan Daves, foi encontrado morto num dos bosques perto de Ardgroom. Não conseguimos descobrir a causa da morte, mas ele estava sem os pertences e abandonado em um lugar um tanto escondido, então acreditamos que tenha sido um assassinato depois de um assalto. — Finalmente terminou, se sentindo aliviado ao ter de tirar de cima de si o fardo de falar uma notícia daquelas para uma família.
Harley congelou. O corpo rígido, não se atrevia a piscar nem a mexer nem um músculo. Sua mente era uma confusão de palavras sem sentido, não conseguindo se concentrar em nada em particular. Em algum lugar, podia ouvir algo parecido com seu irmão engasgando-se, mas não notou isso. Imagens voavam no olho de sua mente: Seu pai lhe ensinando como jogar pedras no lago, seu pai lhe mostrando como montar, seu pai levantando um tecido velho para revelar dois chapéus de couro, o rosto adormecido de seu pai, seu pai, feliz e brincalhão, lhe desejando um bom dia na escola hoje de manhã, seu pai, seu pai e seu pai.
Não notou que tinha caído sentado no chão com um baque até sentir um espasmo de dor surda nos músculos doloridos. Entorpecido, levantou a mão para afastar uma mecha ruiva dos olhos, e quando voltou dedos molhados para seu campo de visão nublado, percebeu que estava chorando. Apertou forte o chapéu em sua mão, as lágrimas obscurecendo sua visão do couro macio.
Não sentiu muito bem os braços quentes de Peter lhe rodearem os ombros, querendo dar e receber conforto. Não sentiu, também, seus próprios braços abraçarem o irmão. Sua mente era um vazio de confusão, tristeza e dor, que pensava em mil e uma coisas e nada ao mesmo tempo. Era um observador distante e imparcial e um vivente emocional em primeira mão, um pensador frio e um sentimentalista selvagem. Estava distante do que acontecia e também dolorosamente próximo. Era tudo de ruim e nada em tudo, ao mesmo momento, em cada segundo da existência e no vazio em que até o tempo não existia.
As próximas horas se passaram em um borrão entorpecido de dor, tristeza e perda, com atos mecânicos por cima de sentimentos intensos, e Harley não poderia dizer o que tinha feito nesse meio tempo por nada no mundo. Quando finalmente estava um pouco mais dentro de si, notou estar limpo e com roupas frescas, indo para sua cama. Peter tomava respirações profundas do seu lado ao tentar controlar o choro.
Se deitou, olhando sem realmente ver para o teto de madeira envelhecida. A dor esmagava seu coração de uma forma que ele não sabia ser possível. Agora que parte do entorpecimento passara, ela vinha em força total, como que para compensar as horas em que tinha se mantido em intensidade menor. Ela dava risadas maléficas, zombando de si, falando que mesmo ele, autoproclamado garoto frio e sem muitos sentimentos, estava sob seu poder. Passeava sem pressa por todo a sua mente, fazendo questão de destruir com tristeza e dor inomináveis cada lembrança em que Aidan estava presente. Fazia-o recordar dos olhos verdes escuros rodeados de rugas de riso, dos cabelos negros bagunçados e barba por fazer, do sorriso grande e da risada estrondosa, o torturando com prazer ao lembrá-lo que ele nunca veria qualquer uma dessas coisas outra vez.
O colchão de casal se afundou ao seu lado, sinalizando que Peter havia se deitado. Quase que instintivamente, se virou no momento em que o irmão fazia o mesmo. Observou aquele rosto tão absolutamente igual e diferente do seu, e viu sua dor refletida nos olhos de um tom mais claro de verde do irmão. Abriu os braços num convite mudo e inesperado, para ambos. Pete não perdeu tempo, avançando e abraçando-se ao irmão ao enterrar sua cabeça na clavícula dele, se aninhando de modo a conseguir o máximo de contato possível, como que para que se certificar que seu irmão estava lá, que ele não tinha partido também.
Não demorou muito para que sentisse algo úmido entrar em contato com o tecido de seu pijama fino, pequenos sons tristes de quebrar o coração sendo sufocados, respirações quentes e afiadas sendo cravadas como espadas em seu corpo. Tornou-se consciente das suas próprias lágrimas, que traçavam a linha do nariz reto e molhavam o cabelo bagunçado do irmão. Em um dia normal, teria se envergonhado delas como se fossem a coisa mais indigna do mundo. Agora, com a dor e perda lentamente rasgando seu coração à parte, não se importou nem um pouco. Apertou os braços ao redor de seu irmão um pouco mais, tendo a esperança em seus sonhos mais ilógicos que o gesto levaria embora o sentimento terrível que, ele sabia, em algum lugar de sua mente, que não lhe deixaria mais.
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