Hopeless

14 Capítulo XIII - Confiança Quebrada.


Notas iniciais
Olá, meus amores. Bem, antes de falar sobre o capítulo, algumas coisas: eu estou respondendo os reviews mais recentes de vocês, então se possuem alguma dúvida antiga que eu ainda não vi, por favor, me mandem nesse comentário que logo eu respondo. Alguns de vocês me pediram para criar uma playlist no spotify para a fanfic, eu tomei vergonha na cara e fiz kkkkk ela tá mais atualizada que a do tumblr, então caso queiram dar uma olhada: https://open.spotify.com/user/e5d1o69kj92g0z7j62f59itke/playlist/2Jhe1a7jQCd5l9DQZHDUx8 Por fim, a linda da Rhaenerys (que fez a Lyanna) criou um conto sobre a amizade da Lya com o Charles, para a gente entender melhor esse capítulo. Eu, particularmente, amei e postei já no tumblr (https://hopeless-fanfic.tumblr.com/post/169365314209/notas-da-autora-ol%C3%A1-pessoal-tudo-bem-eu-trouxe) então, se puderem por favor leiam e digam o que acham aqui ♥. Minha nova fanfic também já está disponível, para lê-la só clicar aqui (https://fanfiction.com.br/historia/751976/Pecados_-_Interativa/) e, por favor, mandem fichas! Agora sim, sobre o capítulo (amém): foi o mais triste que eu já escrevi para Hopeless e eu espero que vocês gostem, sério mesmo. Cronologicamente falando, vem a parte da Áquila, aí a da Lyanna e depois da Natalie. Eu mantive, de forma estrutural, o da Natalie no meio por questões de que eu queria deixar o mais triste para o final, mas a escolha de como ler é de vocês ;) Além de tudo, caso queiram entrar melhor no clima, recomendo três músicas da playlist: Para o pov da Áquila - The Scientist, do Coldplay. Para o pov da Natalie - You Don't Know, da Katelyn Tarver. Para o pov da Lyanna - I hate u, i love u, do Gnash. É isso, boa leitura!

"Decepção (s.f.)

nome dado para suspiros pesados demais e uma vontade repentina de voltar no tempo."

— João Doederlein

Áquila Malfoy

Quando se é um bruxo, muitas vezes se perde o controle de seus poderes e isso pode acabar por gerar... problemas. Assim, é sempre necessário que se tenha muita precaução em como agir e um cuidado quando se passa por fortes emoções.

Áquila Malfoy sabia bem disso. Sua primeira manifestação acidental de magia foi quando tinha 8 anos e estava tão irritada com seu irmão que seus dons simplesmente escaparam. Ela não sabia controlar e ficou tão assustada que acabou por causar uma pequena nevasca em cima de Draco.

A segunda vez que aconteceu, tinha 15 anos, um coração quebrado e o sentimento de traição amarga que jamais deixava seus lábios. A magia passou por suas veias e, acidentalmente, quebrou todas as janelas de uma sala abandonada no quinto andar.

Havia entrado transtornada no lugar, perdida, sentindo seu coração em mil pedaços. Sem saber como agir, ela parou no centro da sala, repassando tudo que havia acontecido no dia. Era irreal demais. Mais cedo, sua vida ainda era repleta pelas pessoas que amava. Agora, estava tão quebrada quanto era possível alguém estar, machucada e dolorida pelas mentiras que lhe contavam.

A briga que havia tido com Lyanna ainda lhe rondava a mente, como um fantasma.

Com raiva, ela gritou tão alto quanto seus pulmões permitiam, enquanto seus joelhos sediam, a fazendo cair no chão. Respondendo a si, seus poderes escaparam de maneira absurda, fazendo todos os vidros se partirem em diversas direções, deixando que o ar gelado atingisse sua pele.

Para sua sorte, Lyra Lestrange entrou na sala minutos depois, encontrando a prima desolada no chão. Sem pensar duas vezes, correu em sua direção, a tomando nos braços com cuidado e tentando lhe acalmar.

— Eu estou aqui — disse, afastando seus cabelos e deixando que ela se agarrasse contra seu corpo. — Vai ficar tudo bem, calma.

Ela não conseguia responder, ainda atordoada pelo o que havia ocorrido. Porém, sabia que nada ficaria bem.

Mais cedo, naquele dia, ela jamais esperaria que isso tudo ocorresse. Não quando estava tão confortável em sua sala comunal, banhada pelo calor da lareira, perdida em pensamentos.

Tinha passado à tarde com Selina e Lyanna, as três rindo ao se recordarem como haviam se conhecido.

Talvez a forma como se aproximou da Black tenha sido a mais peculiar. Ambas já haviam se esbarrado pelos corredores vez ou outra e até trocado algumas palavras, principalmente depois que a mesma começou a fazer dupla com Charles, nas aulas de Transfigurações.

Mas duas almas desconfiadas demoraram para se aproximarem de vez. Isso mudou somente quando, em uma noite, a Malfoy havia subido até a torre de astronomia, procurando um local em que pudesse ficar em paz.

Estava triste, com saudades de casa e tinha acabado de ter uma boba discussão com o Fimmel, no salão comunal. Tudo que queria, naquele momento, era poder voltar para a mansão e para seus pais. Assim, ela se sentou perto da grade, observando a noite e sentindo a brisa gelada arrepiar seu corpo.

— Áquila? — perguntou uma voz, vindo de um dos cantos escuros, a direta da Malfoy.

— Lyanna, que susto! — Exclamou, quando reconheceu a morena que caminhava lentamente em sua direção.

— Desculpe — ela riu, sentando-se a sua frente. — O que está fazendo aqui tão tarde?

— Precisava.... — respirou fundo, a verdade é que precisava de muitas coisas naquele momento. — ficar um pouco sozinha.

— Entendo — Lyanna acompanhou seu olhar, também fitando as estrelas. — É a constelação do seu nome, não é?

— Sim! — respondeu, animada, sorrindo pela primeira vez na noite. — Não sabia que você gostava de astrologia.

— Gosto bastante — a morena retribuiu o sorriso, voltando a olhar para o céu. — Aqui é bom, sabia? Para ficar sozinha e tudo mais. Sempre venho para cá quando preciso.

— Então é por isso que estava se escondendo nas sombras? — Questionou, rindo de leve.

— Precisamente, senhorita Malfoy — respondeu, imitando a voz pomposa de seus professores e fazendo a jovem rir ainda mais.

— Bem, acho que podemos ficar sozinhas juntas. — Concluiu, retomando uma pouco de sua postura séria.

— Também acho — ela fitou os olhos cinzas da garota, notando que a mesma tremia de leve. — Aqui, veste isso.

— Não precisa — Áquila rapidamente recusou o casaco, sentindo-se um pouco burra por ter saído do salão comunal apenas com o uniforme. Lyanna, entretanto, insistiu, até que a jovem estava quente e confortável dentro de sua blusa escura, que ficava um pouco grande para ela.

Naquela noite, passaram horas sem dizer absolutamente nada. E algo no silêncio confortável que as envolvia, fez brotar uma amizade duradoura.

Desde então, sempre acabam chamando uma a outra pelos corredores ou se encontrando pelos jardins. Tinham muitas coisas em comum, além das estrelas, e com o passar dos dias, estavam tão inseparáveis quanto duas pessoas podem ser. É claro que Selina logo se juntou a elas e adorou Lyanna tanto quanto a Malfoy.

Por isso, não foi difícil chegar a brilhante conclusão, enquanto apertava-a forte contra si antes de embarcarem para as férias – se havia uma pessoa naquela escola que tinha conquistado seu coração de maneira sublime e peculiar, era a jovem grifana.

Assim, cercada por pessoas especiais, Áquila sempre tomou muito cuidado em como tratar seus amigos, para jamais perde-los. E sempre esperou o mesmo deles. Ainda sim, a jovem acabou por descobrir que diversas coisas podem acabar com uma amizade – a mentira é uma delas. Mas é a mais dolorosa.

E a Malfoy sempre priorizou a verdade acima de qualquer coisa.

Ela refletia sobre essas coisas, enquanto tomava mais um gole de vinho, que Jonathan havia conseguido com alguns amigos lufanos. Estava sentada no meio de seu grupo, no salão comunal, composto em sua maior parte por garotos, tendo a si e Lyra como exceções. Estavam entretidos jogando um jogo cujo qual, a garota não prestava muita atenção.

— Nott, é sua vez de girar a garrafa — Jason falou, acenando para o garoto, que prontamente respondeu. Áquila conteve um suspiro ao notar que parou bem na direção de seu namorado: Theodore Nott vivia arrumando qualquer desculpa para alfinetar o casal, desde que ela o havia recusado há algum tempo.

— Fimmel, verdade ou desafio? — Jogo estúpido, pensou Áquila. Sabia que era costume dos trouxas, mas seus amigos haviam enfeitiçado a garrafa para que, a qualquer mentira mencionada, um brilho esverdeado fosse emitido.

— Verdade — ele respondeu, encarando o garoto irritado. É claro que nada de bom viria dali.

— Pois bem — Nott lançou um sorriso para Charles, passando o olhar rapidamente por Áquila. — É verdade que você já traiu sua namorada?

Ela conteve uma risada diante do absurdo. É óbvio que ele jamais a trairia. A pergunta era tão boba que nem mesmo Lyra conteve o riso de escárnio. Todos sabiam o quão próximos eram e a confiança inabalável que regia o relacionamento.

— Não — respondeu, talvez de maneira um pouco nervosa. Ainda sim, o sorriso presunçoso logo veio ao rosto da jovem. E tão rápido quanto ele veio, também morreu, ao ter seu rosto banhado pela luz esverdeada.

— O que é isso? — Perguntou, baixo, encarando Charles, sem entender. Supostamente, isso só deveria acontecer quando uma mentira era contada.

— Fimmel, beijo também é traição — Jason brincou, rindo.

Mas ela não ria, nem um pouco. Muito pelo contrário, seus olhos cinzas pareciam que iriam desfigurar o rosto do namorado, que evitava encara-la de volta.

— Charles — chamou, a voz mais irritada e a mão se apertando na perna dele. — O que é isso? — repetiu.

— Espera, você não sabe? — O Black tornou a falar, o riso agora se desfazendo, junto com todos os outros colegas que observavam-na, curiosos. — Eu achei que...

Sua voz morreu, enquanto Draco acenava com a varinha, fazendo a garrafa se apagar. Em seu rosto, estava tão surpreso quanto ela.

— Áquila — ele e Lyra se aproximaram um pouco, parecendo tão perdidos quanto ela. — Ei, isso pode estar errado, não é?

— É — Lyra concordou, passando os braços ao redor dos ombros da prima, que mal piscava. — Provavelmente algum defeito. Fimmel, é defeito, certo?

Mas a jovem não os ouvia. O silêncio dele dizia muito, era quase como se a resposta escapasse entre seus lábios, mesmo que nenhum som fosse emitido.

— Charles, por favor — chamou mais uma vez, sentindo que suas mãos começavam a tremer. — Isso não.... me fala que isso é mentira, por favor.

— Áquila, eu posso explicar — respondeu, finalmente se virando e a encarando. Havia uma sombra em seu olhar, uma mistura de culpa e desespero que ela reconhecia bem.

E que odiava ver, em sua direção. Lágrimas brotaram em seus olhos, mas a jovem não as deixaria cair. Não ali, daquela forma. Sua mente implorava pela verdade, por uma explicação, algo que justificasse. Seu coração, entretanto, estava como ela – tão surpreso que mal sabia reagir. Tão pouco, bater.

— Você não fez isso — negou com a cabeça, sentindo que sua respiração fugia, aos poucos, do ritmo normal. Se fechasse os olhos, por um segundo que fosse, poderia ouvir algo dentro de si se quebrar. — Não, não...

Sentindo-se fraca, ela deixou que a taça caísse de suas mãos e se partisse no chão. O vinho respingou pelos seus sapatos, mas não se importou. Focou o olhar no líquido escuro, tentando evitar todos os amigos que a encaravam, alguns preocupados outros somente esperando pela explosão que, eventualmente, viria.

— Meu amor, eu juro que faz muito tempo — ele estendeu a mão, tentando toca-la, mas em um pulo a mesma se afastou, se enterrando mais nos braços de Lyra. — Áquila, foi um erro.

Havia medo em sua voz, fazendo a soar mais grave e rouca que o comum. E ela queria gritar ou até mesmo estupora-lo, mas seu corpo estava paralisado demais para ter outra reação, que não fosse levantar, sentindo as pernas fracas demais para lhe sustentarem.

— Lá fora — disse, virando as costas. Ela não queria plateia para testemunhar isso.

— Áq — Jonathan chamou, quando ela passou rapidamente por si. Sabiamente, o ignorou. Não podia parar, não podia falar com outras pessoas pois, caso o fizesse, deixaria que seus joelhos cedessem a dor que começava a lhe incomodar.

De repente, sentiu um desejo horrível de vomitar. Até onde ele havia ido? Quem era? Por quê? As perguntas rodavam sua mente quando chegou até a porta do salão, abrindo-a com tanta raiva que assustou alguns primeiristas que passavam.

— Áquila — Charles a chamava, atrás de si. Ainda sim, a jovem não parou de andar, passando pelos corredores gelados até uma sala vazia onde, finalmente, pode voltar a respirar, mesmo que de maneira rápida e sofrida. — Por favor, se acalma...

— Como pode fazer isso? — Perguntou, virando-se para ele, sentindo sua pele queimar. Doía tanto que queria gritar. — Como?!

— Eu estava bêbado — começou a se explicar, sabendo que de nada adiantaria adiar aquilo. Era inevitável. Droga, deveria ter pensado melhor antes de jogar aquela coisa idiota. — Juro que foi um erro... uma besteira, só um beijo, nada demais.

Usou todo seu controle para realmente não puxar a varinha. Bebida nenhuma no mundo justificava aquilo.

— Quem? — ignorou suas tentativas de explicação, de nada importava o estado em que estava. O silêncio que se seguiu apenas lhe deixou com mais raiva do que já sentia. — QUEM FOI, CHARLES?!

— Amor, por favor... — Antes que terminasse a frase, um estalo ao lado de sua cabeça o fez pular para o lado. Áquila segurava com força a varinha entre as mãos, olhando para ele com tanto ódio que poderia incendiá-lo.

— Se você não me contar, a próxima coisa em que irei mirar, vai ser sua cabeça — ameaçou e, mesmo que tremesse, ele sabia que jamais erraria. Engolindo em seco, abaixou o olhar, envergonhado.

— Lyanna...

— O que? — sua voz saiu falha, quase como um sussurro incrédulo. E ele preferia todo o ódio que a jovem sentia, ao vê-la abaixar a varinha, chocada demais para proferir alguma palavra. — Isso não é verdade...

— Nós dois estávamos muito mal, foi só um beijo — ele se aproximou aos poucos. Para sua surpresa, Áquila não recuou, seus olhos cinzas o fitando desesperados, em busca de uma mentira, de qualquer coisa que mudasse suas palavras. — Eu sinto muito, a culpa foi minha. Totalmente minha. E entendo a raiva e a mágoa que você está sentindo, mas não significou nada, nem para mim, nem para ela.

— Não... — ela abaixou a cabeça, finalmente deixando que as primeiras lágrimas caíssem. — De todas as pessoas, ela não.

— Me desculpa — pediu, esticando a mão aos poucos para tentar tocar seu braço, porém a mesma apenas recuou.

— Não me toque — disse, se encolhendo. — Não me toque nunca mais.

— Áquila, não — se ela sentia-se queimando, naquele instante Charles pensou que havia sido atirado diante de uma fogueira, onde todo seu corpo jazia em chamas. Não podia, não conseguia conceber a ideia, de perder a única pessoa cujo qual já amou e se importou. — Por favor, você sabe o quanto eu te amo, foi só uma besteira… Não faz isso.

— Você fez isso! — Rebateu, erguendo o rosto e, junto com ele, a mão para acertar um tapa no peito dele que o fez recuar. Ainda sim, não reclamou, nem tentou impedi-la, conforme, a cada palavra, mais tapas vinham. — Você me traiu, você beijou minha melhor amiga e nem sequer pensou em me contar!

— Eu quis te dizer! — rebateu, sentindo-se ainda pior. — Só tive medo que você... que você fosse embora... a gente tinha acabado de começar a namorar, não queria te perder.

— Olha só, que grande feito da sua parte! — gritou, nervosa, sentindo cada vez mais as lágrimas lhe mancharem o rosto. — Você só adiou o inevitável por causa do seu erro!

— Não, Áquila — ele sentia seus olhos se aguarem também e, sem entender, colocou a mão no rosto, retendo as lágrimas. Nunca antes havia chorado na frente de ninguém, nem mesmo dela. — por favor, eu prometo que nunca mais vai acontecer, foi um erro, por favor.

— Eu amava você! — gritou, apontando o dedo em seu rosto, irritada. —Confiava em você, queria você mais do que qualquer outra pessoa no mundo! Eu planejava uma vida do seu lado, Charles! Casamento, filhos, tudo!

— E nós podemos ter isso, foi só um beijo. Não me deixa... Eu te amo, te amo tanto, não posso ficar sem você. Faço o que você quiser, mas fica. — Vê-lo daquela forma, implorando para que ficasse, fazia parte de si querer recuar e apagar isso da mente. Racionalmente, sentia tanto nojo que poderia arrancar sua pele apenas para esquecer que um dia a pertenceu. — Não foi nada…

— Não diga que não foi nada demais! Ela é minha melhor amiga. Você sabia o que isso ia fazer comigo, você sabia que ia me machucar e ainda sim, fez! — Áquila respirou fundo, virando-se de costas para ele. — Você é igualzinho seu pai!

Suas mãos tremiam, enquanto ela arrancava a aliança e girava entre os dedos. Era linda, de diamantes e prata de duendes. Exatamente o que sempre quis. Ele sabia como agrada-la, sempre soube. E naquele instante, ela descobriu que sabia como feri-la também.

As palavras dela foram como o mais doído dos tapas. Queimava dentro de si. E o pior é que ele sabia ser verdade. Sentiu-se envergonhado, enjoado. Com ódio de si mesmo.

— Você mentiu para mim — disse, tentando conter as lágrimas. — Mentiu todas às vezes em que jurou que nunca tinha ficado com outra.

— Não estava sóbrio, jamais faria isso com você se estivesse bem — ele estava desesperado, mas no fundo sabia que havia errado com ela dá pior maneira: Áquila nunca tolerou mentiras. — Nós passamos por tantas coisas, o que aconteceu no último ano...

— NÃO TENTE USAR ISSO A SEU FAVOR! — Ela gritou, ainda mais irritada. Não queria se virar pois sabia que se o fizesse, provavelmente acertaria um feitiço nele. E por mais que o odiasse naquele instante, não queria machuca-lo. — Não ouse, Charles, nem por um segundo, colocar o nosso filho no meio disso!

Dizer aquilo ainda doía. Nosso filho. Era como um lembrete de tudo que poderiam ter e não tiveram. Das perdas que sofreram e das difíceis decisões que precisaram tomar, abrindo mão de coisas tão valiosas quanto aquela.

— Não estou colocando nada no meio Áquila, mas a gente passou por muita coisa para agora acabar — o desespero era a cada segundo mais palpável. Charles queria segura-la em seus braços e jamais deixa-la ir, porém a escolha não era sua.

Em sua mente, um filme passava: todos os momentos bons e ruins, as brincadeiras e brigas. Ela o havia ensinado o que era amar alguém intensamente e nada no mundo machucava mais do que perder isso.

— As escolhas que nós fizemos, as coisas que superamos, nosso relacionamento sempre foi maior que tudo. — Se aproximou um passo, relutante. — Eu te prometi o mundo uma vez, prometi que teríamos todas as cosias que você desejasse, por favor, eu preciso de você.

Áquila respirou fundo, movendo a aliança mais uma vez entre os dedos. As palavras dele eram como um leve balsamo: queria acreditar. Queria se virar e deixar que ele curasse todas as suas feridas como havia feito antigamente.

Tinha uma ligação, sabia disso. Seus pais brincavam que eram prometidos desde o dia em que nasceram e ela, inocente, se agarrou a isso. Agora, todos os laços que os mantinham juntos começavam a se desfazer diante de seus olhos.

— Não quero que nunca mais você chegue perto de mim — disse, virando-se jogando o pequeno objeto em sua direção. — Você quebrou minha confiança, quebrou a forma que eu acreditava que você era.

— Áquila, não... — A Malfoy o calou com um olhar, enquanto passava diante de si, em direção a porta. Porém, quando passou ao seu lado, ele segurou seu braço, de maneira delicada, fazendo-a virar em sua direção. — Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, não me deixa.

Áquila fechou os olhos, respirando fundo. Sentia Charles segurando-a, lhe abraçando naquele pequeno momento de vulnerabilidade. E tudo que queria, era correr.

Correr para longe dele. Dá influência dele. E de todos os sentimentos que lhe acarretava.

— Acabou, Charles — sussurrou, se soltando de seu aperto. Quando tirou suas mãos de si, ela virou o rosto para não vê-lo chorar, tampouco cair de joelhos em sua frente. Não queria que seu amor a traísse, mantendo-a lá.

Quando saiu para o corredor, apenas uma pessoa rondava sua mente. Reunindo-se de toda força que tinha, e não era muita, ela respirou fundo e conteve as lágrimas, começando a andar em direção as escadarias.

Precisava encontrar Lyanna e, acima de tudo, merecia explicações.

♕

Natalie Granger

Sempre foi definido a rivalidade que havia entre as casas de Hogwarts. Quase como se isso determinasse a amizade de seus alunos e as pessoas cujo quais se aproximariam, essas rixas tornaram-se, muitas vezes, descomunais. É claro que haviam suas exceções, mas eram poucas.

Por regra, era comum que os alunos da Grifinória, por exemplo, fizessem mais amizades com os lufanos, enquanto os da Corvinal preferiam os sonserinos. E entre a casa do leão e da cobra reinava o puro ódio e desgosto.

Havia sido somente com muito esforço que alguns jovens conseguiram passar por essas barreiras reforçadas pelos seus pais e por aqueles antes deles. E se existia algo que poderia facilmente se entrepor a esses conceitos era o desejo.

Pelo menos, para Natalie Granger isso era uma boa justificativa, embora em nada pensasse enquanto estava trancada na Sala Precisa com Julianne Lefau – uma linda corvina. Suas mãos subiam pela saia da garota rapidamente, enquanto ambas se beijavam e ela era pressionada contra a parede.

Haviam acabado de ter uma reunião da Armada de Dumbledore e rapidamente descobriu que o lugar era perfeito para outras coisas, além de apenas treinamento. E pelo jeito que a jovem retribuía com intensidade, deveria pensar a mesma coisa.

— Aqui — ela indicou uma mesa ao lado delas, sentando-se nela rapidamente e puxando Natalie para o meio de suas pernas.

Estava quase conseguindo se livrar das roupas que usavam quando a porta foi aberta de maneira ansiosa e sem jeito, fazendo ambas as garotas se afastarem em um pulo.

— Mas o que... — começou, irritada, vendo Neville cambalear sem graça para dentro. — Que droga, Longbotton!

— Ah não — ele exclamou, envergonhado ao notar a cena que havia quase flagrado, ficando rapidamente vermelho. Virou-se, dando um pouco de privacidade para as duas se ajeitarem. — Desculpa, desculpa mesmo, é que o Harry me mandou aqui e eu... eu.... eu vou indo já.

— Não — Julianne interrompeu, pulando da mesa para o chão. — Pode ficar, eu realmente precisava voltar para o meu salão logo.

Claramente era uma desculpa, mas não seria bom para ninguém se acabasse escapando o que faziam ali ou outra pessoa acabasse as vendo.

— Posso te acompanhar até lá — Natalie ofereceu, com um sorriso malicioso brincando nos lábios, fazendo a garota rir. Entretanto a jovem balançou a cabeça, negando.

— Nós podemos continuar isso em uma outra hora — disse, piscando de leve para ela, antes de abaixar o tom de voz para quase um sussurro. — Em algum momento com mais, muito mais, tempo.

Com um sorriso divertido, ela saiu, deixando ambos os grifanos dentro. Natalie suspirou vendo-a fechar a porta, jogando-se contra as almofadas que deixavam o canto da sala extremamente confortável.

— E aí, o que veio fazer aqui? — perguntou para o garoto, que começava a se recuperar.

— Colar isso na parede — mostrou a ela uma pequena fotografia, muito parecida com a que Sirius havia dado a Harry nas férias. Era a Ordem da Fênix original. — Minha avó me mandou, disse que era como uma memória da força deles.

— Esses são seus pais mais jovens? — Apontou para um casal abraçado, a moça era um pouco parecida com a que havia visto no hospital, enquanto visitava o senhor Weasley e Neville acabava contando a história deles.

— Sim — respondeu, sorrindo um pouco, até feliz por ter alguém para mostra-los. Embora nunca tivessem sido próximos, Natalie sempre foi gentil com o garoto.

— Eles foram muito corajosos — elogiou, sentindo uma pontada ao notar que era tão fácil sentir orgulho pelos pais alheios, enquanto os seus eram tão... incompreensíveis.

Nas últimas férias, havia acabado contando para eles da sua sexualidade. E se eles já preferiam Hermione por sua inteligência e calmaria, então agora mesmo que eram devotos dela, pois ter a filha lésbica era quase um pecado. Eles podiam ser tão coerentes quanto se tratava de magia, mas em outras questões eram tão difíceis.

— Obrigada — ele ergueu o rosto, sentindo-se um tanto feliz. — Eu espero que a Ordem pegue ela, sabe? Faça-a pagar pelo que fez contra eles.

Não perguntou para saber exatamente de quem estava falando. Toda a Hogwarts sabia agora: Bellatrix Lestrange era um assunto quase que interminável. Desde que haviam descoberto de sua fuga, os alunos se dividiam em olhar com ódio e temor para Lyra e alguns até mesmo foram contidos para não baterem em Draco, que parecia muito orgulhoso da tia que tinha.

Ela sabia pouco sobre a comensal, mas já era o suficiente para odiá-la — em meio a tantos crimes, havia levado os pais de Neville a loucura e assassinado a mãe de Rosamée. Era, do meio de Voldemort, a pior.

— Eles vão — afirmou com convicção. — Todo mundo sabe que a vadia provavelmente está se escondendo com os Malfoy, é questão de tempo até... sei lá, o Moody a pegar.

— É, acho que sim — concordou, com um sorriso.

— Bem, eu já vou — disse levantando-se lentamente, o sono começando a surtir efeito em si. — A foto vai ficar bonita ali, naquele canto.

Indicou uma parte bem visível da parede a qualquer um que entrasse, perto de onde Hermione havia colocado o panfleto com o nome e integrantes da A.D.

— Obrigada, Natalie — ele se encaminhou rapidamente, ainda analisando a fotografia nas mãos, onde todos se moviam e acenavam.

Satisfeita, a jovem o deixou sozinho com seus pensamentos, encarando o ar gelado que as noites de Hogwarts ofereciam. Se apertou contra sua capa, começando a perambular pelos corredores. Sua barriga roncou de leve, reclamando pelo jantar em que ela mal havia tocado. Refletindo se deveria ir para o Salão ou para as cozinhas, preferiu seguir o caminho da segunda.

Os elfos eram bem convidativos àquela hora da noite.

Ela descia as escadas apressada, usando os caminhos que Fred e Jorge haviam lhe ensinado, para que não esbarrasse em nenhum fantasma ou, pior, no inspetor, que a levaria até Umbridge.

Vadia cor-de-rosa, reclamou, lembrando-se de como quase havia pulado nela, quando a mesma por pouco não declinou os pedidos da Grifinória de continuar com o time.

Natalie virava distraída um corredor quando, por acidente, acabou dando de cara com uma pessoa que vinha na direção oposta. O encontro foi forte, pelo visto a outra pessoa tinha pressa.

— Você não vê por onde anda, não?! — Reclamou, segurando-se na parede para não cair e erguendo o rosto irritada. Quando ergueu o rosto, não se surpreendeu com quem era. Ambas tinham essa terrível mania de ficar se esbarrando pelos lugares. — Ah, Malfoy, tem que ser...

— Me deixa em paz — ela respondeu, deixando que os cabelos caíssem pelo rosto em uma tentativa de esconde-lo. Porém, era tarde, Natalie já havia notado as lágrimas que caíam sem parar e a tristeza marcante em sua voz.

— Ei, calma, desculpa — começou a gesticular, nervosa. Até onde sabia, a loira não chorava. Deveria ser algo impossível para a família dela, aliás, as lágrimas supostamente estavam congeladas dentro da frieza que possuíam.

Porém, ali estava a garota, na sua frente, derramando-se em um vendaval. Para seu azar, meninas chorando era o ponto fraco da Granger.

— O que aconteceu com você? — Perguntou, um tanto nervosa.

— Nada! — ela imediatamente disse, passando as mãos nervosa pelo rosto. — Não aconteceu absolutamente nada, eu só preciso ir.

— Você não vai a lugar alguém desse jeito — quando tocou o braço dela para impedir, notou que a mesma tremia e estava gelada, mas não de frio. Algo em sua aparência mais pálida que o comum realmente lhe preocupou. — Foi o Fimmel? Ele fez algo para você?

— Não é da sua conta — rebateu, fazendo a morena revirar os olhos. Por que tinha de ser tão teimosa e insuportável?

— Tudo bem, quer sair por aí chorando, o problema é seu — a soltou, dando de ombros. — Eu só estava tentando ajudar porque, pela primeira vez, você pareceu alguém... humano, sabe? Me enganei, pelo visto.

Isso apenas arrancou mais um soluço da loira, que não se moveu, apoiando uma mão na parede para manter o corpo firme. Ela respirou fundo, enquanto a Granger lhe virava as costas, pronta para continuar seu caminho.

— Me desculpe... — se não estivessem em um silêncio absoluto, o pedido jamais seria ouvido. E se não fosse uma noite cheia de surpresas estranhas, ela jamais teria acredita que Áquila Malfoy lhe pedia desculpas por grosserias.

— Como é? — Virou-se, confusa. — Pode repetir, por favor.

— Me desculpe — disse, claramente contrariada. Ergueu o rosto, um pouco vermelho pelo choro. — Eu só... não aguento mais, sabe?

— Sei... — respondeu, se aproximando com cautela. — Sei bem como é. Às vezes a gente só quer que as coisas parem por um momento.

A loira concordou com um aceno, se encostando mais na parede, as lágrimas não davam sinal de que iriam parar tão cedo.

— Tudo bem desmoronar de vez em quando, Malfoy — aconselhou, se encostando ao lado dela. — Ninguém tem que ser perfeito o tempo todo.

— Você não entende — balançou a cabeça, visivelmente transtornada. Bem, se estava desabafando com Natalie era porque, realmente, as coisas não estavam nada bem. — Não é como se eu tivesse escolhas, Granger. Nunca tive...

Natalie achou difícil de acreditar. Ela era a garota que tinha tudo, afinal.

— Às vezes eu sinto que estou parada e todos ao meu redor encenam algum tipo de teatro — explicou, respirando fundo para tentar manter a voz calma. — E eu continuo sem me mover, como uma plateia de uma pessoa só. É assim que é desaparecer?

— Não... — sorriu de leve, conhecendo bem a sensação. — É assim que é viver.

Ambas suspiraram juntas, ainda encostadas na parede. Sua noite havia dado tantas voltas que começava a acreditar que a qualquer minuto acordaria em sua cama. Ainda assim, o gelo da parede em suas costas era bem real, assim como a respiração entrecortada de Áquila e o perfume amadeirado que chegava a si.

— Você quer eu chame alguém para ficar com você? — Ofereceu. — Acho que Lyanna está no Salão...

— Não! — Rapidamente negou. — Lyanna não está lá e é a última pessoa que quero ver.

— Tudo bem — anotou, mentalmente, para perguntar a Black depois o que havia acontecido entre elas. — Se tiver outra pessoa, eu...

— Lyra — ela lhe interrompeu novamente, erguendo o rosto de leve. — Acho que ela está na biblioteca, por favor, pede para ela me encontrar no quinto andar? Por favor.

Outra coisa: a Malfoy nunca pedia. Aquela era uma noite cheia de primeiras vezes.

Concordando de leve, ela estendeu o braço para ajudá-la a subir as escadas. Quando a luz fraca de uma vela na parede lhe iluminou, ela notou que a mesma parecia ao mesmo tempo bela e deprimida, como uma pintura feita em tons escuros.

Natalie balançou a cabeça, desfazendo o pensamento.

— Boa noite — disse, quando se separaram para que a mesma fosse até a biblioteca, chamar a Lestrange.

— Obrigada, Granger — ela sussurrou, antes de virar o corredor.

A jovem sorriu, vendo a ir... talvez não fosse tão mal quanto aparentava. De qualquer maneira, teria que inventar uma bela desculpa para Hermione, quando chegasse no salão comunal.

♕

Lyanna Black

Às vezes, você simplesmente sabe quando as coisas irão desmoronar diante de si. Seja um presságio, uma situação, aquele aperto incomodo no peito que nos faz revirar na cama durante o sono. Você simplesmente sabe.

Talvez por isso Lyanna Black estivesse tão quieta naquela noite, sentada no canto de seu Salão Comunal, tentando ler um livro de feitiços para fazer seus deveres de casa. Porém, a concentração lhe fugia em camadas, deixando para trás somente uma angustia inexplicável.

Sua cabeça queria convence-la de que aquilo tinha nome, sobrenome e até um parentesco próximo: era Bellatrix Lestrange. A doida que havia assassinado sua mãe e agora estava livre.

Ela e Sirius trocaram longas cartas desde que souberam, ambos tentando se aproximar novamente e mostrar um pouco de conforto um pelo outro, principalmente com os pesadelos se tornando piores e mais frequentes.

Algumas vezes, durante o café da manhã, também flagrava June lhe olhando e às vezes a mesma até sorria.

O que restava de sua família estava, aos poucos, se juntando e Lyanna não queria perder mais ninguém.

Suas mãos tamborilavam pela capa do livro, quando foi despertada por um incômodo em seu tornozelo. Lyanna ergueu uma sobrancelha, abaixando-se discretamente para abaixar um pouco a meia que usava e notou que era a tornozeleira que havia ganhado de Áquila. Ela brilhava e começava a gelar sua pele.

Confusa, a jovem ergueu o rosto para uma movimentação na porta que levava ao quadro da Mulher Gorda, onde um aluno do segundo ano entrava apressado, procurando por alguém. Seus olhos se fixaram nela, fazendo-a endireitar o corpo.

O garoto correu em sua direção, quase derrapando ao parar abruptamente em frente a poltrona que estava.

— Você é Lyanna, certo? — perguntou, parecendo nervoso e envergonhado.

— Sim... — concordou, relutante. O que diabos estava acontecendo?

— Tem uma garota te procurando — disse, apontando para a saída. — Uma loira, da Sonserina, mandou eu vir diretamente até você. Parece urgente.

Lyanna estranhou quase que imediatamente. Normalmente amedrontar os mais novos para que mandassem recados era coisa de Draco, não da irmã dele. Ainda assim, se fosse o caso, deveria ter um motivo – e um bem sério.

Por tanto, ela se levantou rapidamente, deixando o livro em cima de uma mesa e passando por seus colegas e amigos em direção a saída. Sua cabeça estava confusa de tantas possibilidades. Teria ela brigado com Charles ou algo do gênero? Sabia que dificilmente a mesma viria até o salão da grifinória por algo bobo.

Suas dúvidas somente tornaram-se mais extensa quando passou pelo buraco do quadro da Mulher Gorda e se viu diante do corredor. Áquila estava apoiada na parede, perto das escadas. Seus cabelos claros bagunçados e aparência de quem havia passado por uma tempestade ou algo parecido. Nada em si continha a calma e elegância de sempre.

— Áq? — Chamou, se aproximando com cautela. Definitivamente, ela havia estado em alguma briga, pode concluir pelos olhos vermelhos de um choro recente. — O que aconteceu? Você está bem?

Alguns alunos que passavam olhavam curiosos para ambas. Era claro que algo estava errado. Podia ouvir cochichos e precisou reter a vontade de lançar alguns feitiços ou, até mesmo, puxar Áquila para seus braços e esconde-la dos olhares curiosos.

— Precisamos conversar, Lyanna — seu tom de voz nunca havia sido tão duro em sua direção. Quase dolorido. Por um segundo, pensou que ela talvez soubesse de tudo, mas era impossível... Charles e ela tinham chegado à conclusão que era melhor esconder, afinal. Ainda sim, seu olhar ferido a deixava nervosa. — Agora.

Mil coisas passaram pela sua cabeça: o casal havia tido alguma briga feia, alguém fez algum mal a ela, sua doença havia tido alguma piora. Nenhuma delas, porém, parecia se encaixar.

— Tudo bem — concordou rapidamente, a seguindo pelos corredores e escadarias até alguns andares inferiores.

O passo dela era receoso, porém rápido. Algumas vezes teve medo que fosse fraquejar e cair diante de si, contudo isso não ocorreu. O medo e a preocupação começavam a encher suas veias de ansiedade – se alguém havia lhe feito mal, ela mesma daria um jeito na pessoa e não seria nada misericordiosa.

Durante todo o trajeto, a Malfoy manteve-se em silêncio, ignorando todas as tentativas da mesma de tentar se comunicar. Ela olhava para frente, como se Lyanna não estivesse ali. O único indicio de que sabia que ainda lhe seguia era que, vez ou outra, suas mãos se esbarravam e a mesma quase a segurava, sempre recuando após poucos segundos.

— Você está me preocupando — disse, fazendo mais uma curva em um dos corredores. — Sério, Áquila, o que aconteceu?

— Aqui — indicou, entrando por uma porta lateral, cujo qual a Black reconheceu imediatamente: era uma pequena sala que Selina havia mostrado a elas, muito tempo atrás.

— Agora você quer me explicar por que está dessa forma? — Reclamou, fechando a porta trás de si quando passou. A loira manteve-se alguns segundos em silêncio, respirando fundo antes de dizer algo. Suas mãos estavam fechadas em punhos e ela parecia fazer um grande esforço para pronunciar as próximas palavras.

— Você e Charles se beijaram. — Não era uma pergunta, tampouco uma acusação. A afirmação lhe saiu tão vagamente que, por um instante, a Black ficou perplexa, olhando para suas costas. Era como se comentasse sobre o tempo ou a nova moda que havia sido lançada – nada importante demais para uma crise.

Contudo, seus ombros caídos e a cabeça baixa a entregavam: estava desmoronando, tentando se agarrar ao pouco de calmaria ao seu redor.

— Como você soube? — Idiota, se xingou mentalmente. É claro que de tantas mil coisas a dizer, escolheu a pior.

— E isso importa? — rebateu, finalmente virando-se. As lágrimas voltaram a brilhar em seus olhos, transformando-os em um profundo furacão que, eventualmente, iria lhe atingir. — Por quê, Lyanna?! Por que você nunca me disse?!

Ela queria correr para frente, segurar seus ombros e colocar dentro de si o sentimento que preenchia seu coração: a certeza absoluta de que não havia significado nada, para nenhum dos dois. Porém, conhecia a jovem melhor – nem mesmo todas as tentativas do mundo a fariam acreditar nisso.

E de todos os erros que poderia cometer, sabia que esse era o mais grave.

— Tive medo — confessou, abaixando a cabeça também. A vergonha tomava conta de si aos poucos, preenchendo-a de um sentimento horrível de culpa. — Eu não queria, Áquila. Juro que não. Foi em uma festa, os dois estavam mal, quando dei por mim ele estava em cima já e eu juro que tentei parar...

— Então você não queria? — A pergunta dela a atingiu forte, como um soco no estômago. Não queria dizer a verdade, mas sabia que mais mentiras apenas piorariam a situação. Ainda sim, como poderia destruir todos os ideais que ela tinha sobre o amor? Era egoísta, errado. Porém, pior ainda seria esconder isso.

— Não, não queria — respirou fundo, lembrando-se da noite em que havia perdido seu melhor amigo. Ele lhe encheu de desculpas nos dias seguintes, mas elas jamais a fariam esquecer que havia sido forçada a trair uma das pessoas que mais amava no mundo.

— Então mais ainda que você deveria ter me dito — disse, deixando que seu corpo caísse contra a parede. — Eu jamais deixaria você namorar alguém que me forçasse a algo, nunca te colocaria a esse risco, Lyanna!

— Áquila, ele não é assim! — rebateu, mesmo sabendo que talvez fosse melhor abaixar a cabeça e aceitar toda a bronca do mundo. Porém, agora que a verdade escapava, era difícil conte-la. — Foi um momento, apenas. Nós duas sabemos que Charles jamais te machucaria, que ele não é esse tipo de pessoa.

— Não sei nada mais — respondeu, balançando a cabeça. — E eu merecia a verdade, de vocês dois. Escondi todos os seus segredos esses anos, deixei você chorar escondida comigo, te mantive de pé quando tudo estava horrível e sempre, sempre, fui verdadeira contigo... é demais esperar o mesmo?!

Lyanna deu alguns passos para frente. Ela parecia tão próxima, mas tão longe ao mesmo tempo e isso lhe quebrava não somente o coração, mas a alma também.

— Eu sei que errei — sussurrou, nervosa. — Deveria ter contado quando aconteceu, só... achei que você não acreditaria em mim.

— E isso me ofende ainda mais, porque eu nunca duvidei de nenhuma palavra sua — ela ergueu o rosto, furiosa. — E agora eu não consigo acreditar em nada do que diz!

— Sinto muito, Áquila — queria abraça-la, queria fazer qualquer coisa que a mantivesse ali, próxima. Porém a loira se desencostou da parede, andando nervosa pela sala. — Sinto muito mesmo, nunca foi minha intenção...

— O que? Nunca foi sua intenção me enganar? Mentir para mim por mais de um ano?! — Rebateu, parando a alguns passos dela. — Me poupe, Lyanna, você teve inúmeras oportunidades de me contar! E FOI VOCÊ QUEM ESCOLHEU MENTIR!

— Eu posso te explicar... — A morena gesticulou, nervosa ao ver que a situação fugia de seu controle. Tentou se aproximar da amiga, que deu alguns passos para trás. Em seus olhos, ela podia ver tantas coisas: dor, mágoa e raiva. Nada de bom viria disso. — Por favor, me deixa...

— Não! — Ela gritou, fazendo com que em seguida as primeiras lágrimas das inúmeras que tentava inutilmente segurar, escapassem. Lyanna estava tão cansada de lamentar pelos seus próprios erros, mas quando a viu chorando daquela forma, não pode conter-se também. — Eu não quero ouvir nada, amigos não mentem, Lyanna!

Vê-la chorar daquela maneira enchia seu coração de ódio. E pior, era raiva de si mesma, por saber que era causadora de tudo aquilo.

Seu rosto estava começando a se inundar de dor, também. Sentia que cada tentativa de justificativa era pior, como se tentasse segurar água em suas mãos – ela simplesmente continuava lhe escapando, a cada segundo mais distante.

— Não foi assim, não foi nada demais, é sério... — Por favor, ela queria implorar, a emoção já tomando conta de sua fala e fazendo seu tom de voz sair doloroso. Por favor, não me deixa.

— Confiei em você, Lyanna — disse, soando com tanta tristeza que quebrou a Black ainda mais. — Confiei em você mais do que qualquer outra pessoa, deixei você se aproximar, deixei... você era como minha irmã!

— Me desculpa... — Não faz isso, por favor, por favor.

— Não — respirou fundo e, naquele instante, Lyanna desejou que ela lhe desse um tapa, lançasse um feitiço, quebrasse algo em si. Qualquer coisa era melhor do que perde-la. Toda explosão do mundo doeria menos que uma vida sem ela. — Você é covarde. Eu detesto dizer isso, mas é. E não quero nem você, nem ele perto de mim novamente.

Vindo de qualquer outra pessoa, o insulto apenas lhe daria ódio e faria com que se revoltasse. Quando vinha dela, a machucava mais do que qualquer ferimento poderia.

— Áquila... — segurou as lágrimas por um segundo, olhando-a profundamente nos olhos. Ver ela se afastar para a porta, fez todo o desespero dentro de si atingir a superfície. Sua parte estúpida e orgulhosa, tentava reter as palavras certas a dizer, mas era apenas isso que lhe restava: — eu te amo. Eu te amo muito, por favor, não...

— Você não machuca a pessoa que ama — respondeu simplesmente, colocando a mão na maçaneta.

Lyanna fechou os olhos com força para não ver: talvez se a imagem dela saindo não se gravasse em sua mente, pudesse fingir que tudo era um pesadelo e sua partida não era real. Não aguentava perder mais uma pessoa. Era mais fácil agir assim, negar a verdade irrefutável cujo qual seus olhos impediam-na de aceitar.

Pode ouvir que alguém esperava do outro lado da porta e uma voz conhecida lhe chegou aos ouvidos.

— Minha tornozeleira começou a gelar e saí procurar vocês, não estava difícil ouvir as vozes gritando — Selina explicou baixo, mas era o suficiente para a Black ouvir. — O que aconteceu aqui?

Faça-a ficar, queria pedir. Por favor, Sel, faça ela ficar.

— Fique aqui — Áquila disse, em uma voz entrecortada de quem não se importava mais em disfarçar as lágrimas. — Ela vai precisar de você agora, mais do que nunca.

E essas foram suas últimas palavras antes de fechar a porta, deixando uma Selina abismada para trás e uma Lyanna quebrada. E então, o mundo inteiro parecia uma bolha onde toda sua dor se concentrava.

Ela não reclamou quando a Campanella se aproximou e a abraçou, apenas enterrou o rosto nela, deixando que as lágrimas escapassem em um vendaval. Os braços da lufana foram as últimas coisas de que teve noção, antes de desmoronar.

Em dois malões diferentes, guardadas com carinho e cuidado, as duas gargantilhas enfeitiçadas de Lyanna e Áquila emitiram um brilho esverdeado antes de, lentamente, uma rachadura começar a surgiu, no meio delas.

Notas finais
Esse capítulo foi cheio de referências a músicas e séries, conseguiram identificar algumas? O que acharam?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.