Hopeless
1 Rain
Notas iniciais
O som quase ensurdecedor das grossas gotas de chuva chocando-se contra o telhado fazia com que eu não conseguisse ouvir sequer meus próprios pensamentos. Eu já não sabia o que fazer.
Sempre fui de não ligar para a opinião dos outros. Mas eu mudei. Acontece que eu não tenho mais amigos, tenho, na verdade, duas amigas, que estão se afastando de mim, e quando eu acordar amanhã... Puf! elas se foram.
Meu namorado já não fala mais comigo. E agora, eu não sei se ainda gosto dele. Minha vida está virando de ponta a cabeça.
Não saio do meu quarto há 3 dias. Apenas deitada com meu celular do lado. Eu já morri faz tempo. Todos me machucam e não percebem. Alô? Eu tenho sentimentos! Posso ser fria e seca às vezes, mas sou humana também, eu erro, me machuco, tropeço ali e aculá e de vez em quando me encontro com uns roxos no meu corpo mas não deixo de senti dor, tá? Minhas lágrimas caem como gotas de chuva que a muito tempo não se chocam com o chão.
— Melinda? Não vem jantar? — E eu me sentia obrigada a dar de caras com o mundo mais uma vez. Sobre eu não sair do meu quarto há 3 dias não era verdade, eu saio sim, quando minha mãe ta em casa, ela já se preocupa demais com meu avô, não quero preocupá-la por nada comigo — Já tô indo, mãe.
A chuva já estava passando assim como minha vontade de viver. Peguei meu celular e fui vê se tinha alguma mensagem. E como sempre, apenas mensagem da operadora falando sobre caralhos de promoções que eu estava 100% nem aí. Imediatamente, uma mensagem em um grupo com meus amigos virtuais chegou. "Oi, tem alguém aí?", sorri automaticamente ao vê que alguém lembrava daquele chat que há alguns meses atrás eu passava o dia rindo com as palhaçadas que fazia com eles virtualmente. "Oi, quanto tempo, saudades desse chat haha ♥" respondi tentando ser simpática, mas acontece que ninguém mais respondeu. O chat morreu novamente. "Ótimo", pensei.
Minha mãe me convidou pra ir la na casa da minha tia. E como eu não tinha nada para fazer e eu estava muito cansada (de fazer nada, obvio) de ficar em casa fazendo parte dos móveis, eu decidi ir. Foi a primeira vez que saí de casa em duas semanas, coloquei meu casaco, estava realmente bem frio. Um casaco verde musgo, eu adorava aquele casaco. Uma calça jeans preta, e uma blusa manga longa branca com um coração estampado na frente. Desci a calçada, e enquanto esperava minha mãe tirar o carro da garagem, fui obrigada a aguentar duas crianças me chamar de feia, perguntei a mãe quem era os pais delas, e ela disse que era a Bruna. Uma mulher que toda semana arranjava um namorado diferente, já era de se esperar uma ótima educação vindo de uma prostituta.
No meio do caminho para a casa da minha tia, mãe parou na casa de uma antiga amiga para deixar um presente para o bebê dela que nasceu esses dias. Descemos e tocamos a campainha. Quem abriu a porta foi o filho dela que aparentava ter a minha idade. Entramos, e minha mãe foi vê o recém nascido, fui com ela para não ficar brotada no jardim da mulher.
— Nossa, Melinda! Você cresceu tão rápido, nem parece que a um tempo atrás estava tomando banho de mangueira com o James, hahaha — A amiga de mãe, Fernanda, estava realmente tentando me aproximar do filho dela. Respondi com um sorriso sem graça porque realmente não tinha o que dizer.
— Ahhhh, eu lembro desse dia, Fernanda! James e Melinda eram tão próximos e agora nem se falam direito... Querida, vai lá fora falar com o James, preciso conversar com a Fernanda — Eu não queria ir, mas fui obrigada pelo olhar ameaçador de minha mãe.
A casa da mulher era realmente muito grande, parecia até uma mansão. E eu não fui falar com o James, nem lembro de ser amiga dele. Ele parece ser bem "bacana" pra ser amiga de alguém como eu. Andei até chegar em um corredor que tinha vários retratos da família, parei ali e fiquei observando as fotos, eles pareciam ser tão felizes. Passei meus dedos pelas molduras com detalhes tão precisos que eu não consigo imaginar alguém com uma paciência tão grande para criar aquilo, eu não sei se existe fábricas para isso, mas seria extraordinário aquilo ser feito à mão. De qualquer forma, achei a moldura linda.
— Essa foto foi nas férias do ano passado. Fomos para uma ilha no Brasil — Uma voz surgiu da porta atrás de mim me assustando pra cacete. Tremi com o susto, quase derrubei os retratos.
— Ah, Oi. Não sabia que você estava aí. Só tava passando pelo corredor e vi as moldu... digo, as fotos. Bem bonita a ilha.
— Atrapalhei seu momento com a moldura? — Ele riu, o sorriso dele era lindo.
— O quê? — Corei.
— Desculpa, te deixei sem graça — Não! Tudo bem, eu sou bem distraída mesmo — Interrompi ele. Foi a primeira vez que olhei pra ele de verdade desde que cheguei ali. Ele não era mais o menino que brincava com a bobona aqui há três anos atrás. Ele tava lindo! Não deu pra disfarçar meu espanto — Tá tudo bem, Melinda? — AH! Oi? AH! Sim, sim. Eu lembrei que eu preciso ir agora, mãe já deve ter acabado o assunto, então, érrrr... tchau — Espera. Vou acompanhar você, além do mais, preciso pegar umas coisas lá em baixo.
Ele tava com aquele visual de garoto que as garotas sempre ficam com fogo no rabo. Eu não suportava ele quando tinha 12 anos, ele era uma peste, mas eu sempre brincava com ele, mesmo ele sendo insuportável. Parece que agora, com 16 anos, ele tomou rumo na vida e ta mais educado, quer dizer, ele sempre foi educado, agora ele tava tipo um cavaleiro.
Chegamos no jardim, onde mãe e Fernanda estavam conversando. Mãe me viu chegando e abriu um sorriso.
— Fernanda, foi ótimo revê-la, mas agora temos que ir, prometi ir na casa da tia da Melinda, e não quero voltar de lá muito tarde. Outro dia passo aqui para conversarmos melhor, tudo bem?
— Claro, foi bom revê-la também. Melinda está uma moça linda.
Eu apenas sorri, porque eu não sei reagi a esses tipos de elogios falsos.
— James também ta um rapaz lindo! — Minha mãe disse.
Fui logo entrando no carro e fique lá, desci os vidros porque tava muito abafado depois da chuva. Eu tava distraída escutando umas musicas nos fones de ouvido, mesmo assim não pude de notar o James me olhando. Encarei ele de volta como um desafio e ele sorriu. Minha mãe finalmente parou de se despedi e entrou no carro dizendo mais uma vez "foi bom revê-la" e finalmente fomos para a casa da minha tia.
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