Hopeless
10 Dor
Notas iniciais
Depois de arrumar todo o apartamento, colocar as garrafas de cerveja bem ao alcance das mãos de Frederick e ligar a TV no desenho animado preferido do pai, Annabeth finalmente se sentou no chão e se permitiu pensar sobre tudo que acontecera.
— Uma granada? O que quer dizer com isso?
— Annie… — Thalia saiu do lado de Percy e postou-se entre os dois, como se quisesse proteger o garoto. O que era compreensível.
— Não Thalia! Eu quero saber! — exclamei
— Ela precisa saber —rebateu Percy.
— Não agora! Não assim!
— Quer esperar que aconteça outro “acidente”?
Annabeth conseguiu vislumbrar os olhos verde mar cansados e tristes por trás do ombro de Thalia.
— Se chama Miocardiopatia dilatada. — começou Percy — tem uma explicação longa e entediante, mas o que precisa saber agora é que é uma doença cardíaca grave e, no meu caso, foi fator hereditário. Por parte de pai.
De súbito a loira entendeu. Thalia não estava tentando proteger Percy, mas sim a própria Annabeth.A garota não entendera muito bem o que acontecera no seu quarto, mas não passou pela sua cabeça que a parada cardíaca de Percy fosse resultado de alguma doença.
— Então você morreu — sussurrou Annabeth.
Percy entortou a cabeça, pensativo:
— Bem, não exatamente. Rachel não soube medir meu pulso adequadamente, aquilo foi só uma insuficiência respiratória.
Annabeth se lembrou daquele dia na ponte e depois na praia. Percy parecia demasiado cansado depois de correr tantas vezes, mas ela não deu atenção ao fato, afinal, ela também estava cansada.
— Qual é o tratamento?
— Chega! — Thalia segurou o braço de Annabeth e puxou-a para fora do quarto.
E a ultima coisa que a loira vislumbrou daquele lugar foi uma lagrima solitária escorrendo pela bochecha de Percy.
Uma granada se caracteriza pelo fato de, ao explodir, milhares de estilhaços são lançados, atingindo as pessoas mais próximas. Era sobre isso que Percy falava. Ele era uma granada, uma bomba relógio, que ao explodir, machucaria fatalmente as pessoas mais próximas.
O moreno era como a primeira peça de um dominó, que ao cair, derrubaria todas as outras.
Mas ele não precisava cair, certo? Existiam tratamentos, não existiam? Deviam existir. Mas então por que Thalia a tirara do quarto antes que Percy respondesse?
O barulho da porta da frente se abrindo e se fechando logo em seguida tirou Annabeth de seus devaneios. Ela se levantou e olhou em volta, esperando que estivesse tudo certo.
Frederick Chase estava de volta. Parado na sala de estar encarando a filha hostilmente.
— E-eu gravei seu desenho animado preferido e-e comprei as melhores cervejas.
Funcionou. A atenção do homem foi voltada para a TV e as cervejas, ele se sentou no sofá e deu um gole em sua cerveja, em seguida olhou para a loira com os olhos semicerrados. Como se estivesse farejando.
— Cuido de você depois — retrucou e voltou o olhar para o desenho.
Annabeth suspirou de alivio e se recolheu em seu quarto. Então, numa súbita decisão, ligou o computador e pesquisou no Google: Miocardiopatia dilatada.
A explicação era realmente extensa, então Annabeth foi diretamente para o quesito Tratamento. E leu:
Na maioria dos casos, o único tratamento viável é o transplante do órgão.
A loira precisou de alguns minutos para absorver aquilo, sentiu os olhos arderem, transplantes de coração não estava exatamente no topo da lista de Transplantes Mais Realizados.
As lagrimas vieram lentamente, doloridas, como se queimassem a pele por onde escorria. Seu corpo todo tremia e sua cabeça latejava. Annabeth se levantou abruptamente, apoiando a cabeça nas mãos enquanto continuava a tremer e chorar. Aquilo não podia estar acontecendo. Não podia!
Não tem saída!
Parecia haver um buraco na boca de seu estômago, doía horrivelmente, Annabeth ergueu a blusa, mas só encontrou os hematomas de sempre. Annabeth caiu no chão do banheiro, se encolheu e segurou a barriga com força. Doía muito, mas que qualquer soco ou chute do pai. Doía como se ela tivesse bebido acido. E o nó na garganta se tornou insuportável.
Tudo parecia girar, sua cabeça estava pesada. Tudo estava pesado demais, ela tinha que expulsar aquela dor toda. Tinha que expulsar!
Tentando controlar os tremores de seu corpo, Annabeth se apoiou no sanitário, os braços fraquejando, se debruçou sobre ele e vomitou. Ela não sabia se era para tirar toda a dor e o peso de dentro dela, ou era apenas o choque. O fato é que dessa vez ela nem precisou provocar o vomito. Ele veio naturalmente, fluindo de dentro dela, expulsando a agonia.
Sem ao menos dar descarga, ela deixou o corpo cair novamente e se abraçou, enquanto soluçava. Tudo que ela queria era falar com ele, contar a ele o que estava acontecendo e pedir um conselho para lidar com aquilo. Tudo que Annabeth queria era seus braços ao redor do corpo dela novamente, a amparando.
Por que todos que ela amava eram tirados dela tão cruelmente?
Dor.
Raiva.
Agonia.
Lágrimas.
Desesperança.
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