Notas iniciais
Oi, flores. Aqui estou eu, postando um novo capítulo. E aqui vamos saber se Mellany finalmente descobriu o segredo de Adriel.

O táxi parou á uma distância segura da igreja da cidade.

Quase revirei os olhos. Era tão óbvio que ele fosse rezar depois de ter quase beijado uma garota quatro anos mais nova. Não imaginei que ele fosse tão ligado á igreja como Caliel era, mas quando vi sua moto estacionada no muro oeste da igreja, quase bufei. Paguei o táxi e saí, tremendo pelo vento que me atingiu.

Parte do meu plano era apenas esperar, mas isso não o tornava menos tedioso. Atravessei a rua e me sentei na árvore em frente á igreja. Estreitei os meus olhos ao perceber uma coisa nova. Tinha um prédio do lado da igreja, era antigo e parecia que iria desmoronar a qualquer segundo, mas – com espanto, notei – Adriel havia entrado ali.

Estalei a língua, avaliando as chances de ser pega caso entrasse ali. Mordi o interior da minha bochecha e dei de ombros. Ele não iria me colocar de castigo por entrar em um prédio, colocaria? Pus a mochila em meu ombro e atravessei a curta distância entre a árvore e o prédio. Momentaneamente, uma sensação de dejá vu me atingiu. Sentia que já havia estado naquele lugar antes.

Parei em frente à entrada do prédio e olhei em volta, estreitando os meus olhos. O vento fez com que o meu cabelo fosse jogado diretamente no meu rosto. Fiz uma careta e o prendi em um coque frouxo e pus um boné que havia roubado de Nicolas, para esconder o meu rosto, sem me importar com minha aparência. Respirei fundo e empurrei a porta enferrujada, entrando e dando de cara com um lance de escadas. Lamentei, me odiando por ter faltando tantas aulas de educação física.

A cada lance de escada, eu parava e respirava fundo, olhando sorrateiramente por baixo da aba do boné. O corredor quase sempre estava vazio. Se não fossem por algumas músicas de igrejas que fluíam pelas escadas, eu pensaria que aquele prédio não era habitado. Na verdade, eu ainda achava que ele era inabitável.

Estava chegando ao último lance de escadas quando uma mão se fechou em torno de meu braço. Quase me desequilibrei, mas segurei no corrimão. Meu peito se esfriou. Será que havia sido pega? Fechei os olhos, virando meu rosto na direção da pessoa que havia me descoberto. Nesse curto segundo, lamentei por não ter inventado uma desculpa convincente.

Mas quando encarei os olhos castanhos de Austin, toda lamentação se tornou raiva. Soltei-me de seu toque e subi dois degraus, tentando me manter o mais distante possível dele. Minha vontade naquele momento era de gritar o que diabos estava fazendo ali, mas sabia que aquilo alertaria a metade do prédio.

“O que diabos você está fazendo aqui?”, sussurrei raivosa.

Austin moveu os dedos por seus cabelos loiros escuro, nervoso e forçou um meio sorriso. Minha vontade foi de praticar o que havia aprendido com o saco de porrada, nele. Só que o barulho do seu corpo desacordado rolando pela escada, certamente iria alertar alguém. Apenas cruzei os braços e esperei que sua resposta fosse tão boa para me convencer.

“Eu moro no final dessa rua. Estava passando e te vi entrando aqui.”

Levantei uma sobrancelha. Por isso que aquele lugar era familiar para mim. Tinha passado por ele quando havia ido para a festa de Austin. Só que o álcool em meu sistema impossibilitou que eu fizesse as associações rapidamente. Aquela festa era lotada de flashes e momentos de insanidades. Lembrar-me dela me fez ficar com raiva de Austin novamente.

“Você está me seguindo?”, questionei.

Senti a ironia daquele momento. Sendo seguida ao seguir alguém. Se eu não tivesse com tanta raiva dele, teria sorriso. Mantive minha expressão em branco e esperei que ele respondesse. Descruzei os braços, ajeitando a alça da minha mochila.

“Acho que seguir é uma palavra muito forte.”, ele comentou dando um meio sorriso.

“Prefere stalker?”, levantei uma sobrancelha.

Ele suspirou e revirou os olhos, parecendo cansado daquele papo. Bem, éramos dois. Enquanto esperava que ele respondesse, voltei a estudá-lo, procurando o que, de fato, tinha me atraído. Talvez fossem seus cabelos loiros cor de palha, desarrumados meticulosamente para ser sexy. Ou os olhos que me lembravam de cachorrinhos. Ou o corpo atlético e sempre bem vestido com roupas de marca.

Mais possivelmente fosse a popularidade que tinha ganhado e as garrafas de vodka.

“Não estou te seguindo, ok?”, ele respondeu irritado. Seu rosto ganhou uma cor rosada e ele fechou a cara. Um alarme soou em minha mente, mas eu o ignorei. “Só queria conversar. Mas você sempre está me evitando. Ou cercada por aqueles amigos idiotas e aquele monitor”, ele fez uma careta, como o desprezasse.

Voltando a focar no que tinha vindo fazer, voltei a subir os lances de escadas. Imaginei que ele iria entender o recado. Mas segundos depois escutei seus passos me seguindo. Quem quer que morasse nesse último andar teria que ter muito fôlego para subir. Ou ter asas. Ajeitei meu boné, agradecida por Austin ter calado a maldita boca.

“Você está dormindo com aquele cara?”

Cedo demais para agradecer.

“Terá que ser mais específico, Austin.”, resmunguei.

Ele bufou.

“Seu monitor. André.”

“Adriel.”, corrigi, revirando os olhos. “Não interessa com quem eu transo. Mas te garanto que se eu estiver fazendo isso com ele, é por livre e espontânea vontade.”

Isso o fez ficar em silêncio. Mas agora que tinha começado o assunto, eu que não iria terminar. Tirei o boné e ajeitei meu cabelo com os dedos. Parei para guardá-lo na mochila e me virei para encarar Austin.

“Você está dormindo com Melissa e não está me ouvindo reclamar, está?”, questionei. Ele negou. “Então pare de chamar meus amigos e meu monitor de idiotas, senão enfiou o meu pé em um lugar bastante desconfortável.”, seus olhos se arregalaram e ele pôs a mão na bunda, instintivamente. Assenti. “Aí mesmo, garotão.”

Pensei que ele iria mudar de assunto ou encerrá-lo ali mesmo, mas era esperar demais de Austin. Não estava deixando transparecer, mas o medo me corroia como mais perigoso dos venenos. Austin era instável com seus surtos de raiva, mas pelo menos ele estava sóbrio. Ele me segurou novamente, me impedindo de me mover. Olhei para a sua mão com desprezo, mas ele não ligou.

“Mellany, eu te segui por um motivo.”

Debochei.

“Mentira?”, dei um leve tapa na testa, como se tivesse acabado de lembrar de algo. “Geralmente quando uma pessoa segue a outra tem algum motivo. Stalker.”, alonguei a palavra e me soltei. “Diga, Parker. E bom trabalho tentando me convencer.”

Ele segurou no corrimão e desviou os olhos dos meus por um segundo. Se eu não conhecesse, pensaria que ele estava com vergonha de alguma coisa. Mas ele estava apenas procurando boas palavras para mudar a opinião de uma pessoa tão cabeça dura como eu. Pus as mãos na cintura e bati o pé, demonstrando minha inquietude e impaciência.

Austin jogou as mãos para o lado no melhor estilo dane-se e veio na minha direção, pondo um braço ao redor da minha cintura e puxando-me contra o seu corpo. Eu arfei, por seu movimento súbito. Minhas mãos foram instintivamente para o seu peito, impedindo que ele se aproximasse mais. Se bem que aquilo não faria grande diferença naquele instante. Sentia-me repulsiva e um flash de memória me atingiu como um tiro. Ele tinha feito exatamente isso naquela noite, segundos antes de rasgar a minha roupa.

“Eu quero voltar, Mellany.”, ele me puxava com mais força, ignorando meus claros sinais de repulsa. Bati em seu peito e movi minha cabeça para trás. “Não consigo te olhar na escola e saber que você não é mais minha.”

Minha respiração estava ofegando, e minhas mãos tremiam. O medo me fez muda. Austin entendeu isso como um sinal positivo para continuar e sorriu. Tentei me afastar, mas seu aperto era firme demais. Fecheis os olhos apertados, apenas querendo que ele terminasse rápido.

De repente, ele não estava mais me envolvendo e uma nova mão me puxou degraus a cima. Tropecei – tanto por conta da surpresa, quanto por estar de olhos fechados – e caí sentada aos pés do meu salvador. Abri os olhos dando de cara com Adriel. Mas seus olhos verdes estavam focados em Austin.

“Crista.”, meu ex-namorado ralhou. Apontou acusadoramente para meu monitor. “Você e sua irmã tem a péssima mania de aparecer nas horas que não são chamados.”, ele desviou os olhos para mim, sérios. Vi aquele brilho perigoso e engoli a seco. “Pense no que eu disse, Mellany.”

Observei-o se afastando e pus a mão em meu peito, sentindo meu coração batendo com tanta força que chegava a doer. Uma mão surgiu em meu campo de visão e hesitei antes de aceitar. Parecia que o feitiço tinha se virado para o feiticeiro. Pressionei os lábios em uma linha reta e peguei na mão de Adriel. Novamente fui atingida por um misto de sensações que me fizeram arfar. O observei engolindo a seco e rapidamente tirando sua mão na minha.

“O que você está fazendo aqui?”, ele perguntou, cruzando os braços.

Imitei-o, me sentindo bem por estar dois degraus acima, possibilitando que estivéssemos da mesma altura. Vi a sombra de um sorriso em seus lábios, mas ele rapidamente voltou a assumir á postura firme e séria. Novamente, me vi cercada e sem desculpas. Mordi o canto dos meus lábios e o vi acompanhando cada movimento. Passou a língua nos lábios e foi a minha vez de ficar tensa.

Com a mente totalmente em branco, não vi outra opção além de dizer a verdade. Novamente, o medo me tomou. E se Adriel fosse realmente um sádico sexual ou algo semelhante? Se você consegue enfrentar um, enfrenta outro, certo? Respirei fundo, mantendo a pose de indiferente e dei de ombros.

“Eu te segui.”, levantei uma sobrancelha, desafiando-o a dizer algo. Ele permaneceu em silêncio, sabendo que tinha mais nessa história. “Ok. Eu escutei um barulho ontem e pensei que você estava me observando no meio da noite. Quando corri no quintal, vi uma moto idêntica á sua.”, senti meu rosto corando. Falando em voz alta notei que estava semelhante á uma garotinha paranoica. “Esqueça isso. É loucura, certo?”

Adriel apenas balançou a cabeça e suspirou, mas em seus olhos tinha algum brilha estranho. Ele realmente estava escondendo alguma coisa. Olhei para cima e lamentei. Tão perto. Chutei o corrimão e o escutei rangendo. Dei um salto de onde estava e arregalei os olhos. Aquele prédio era mesmo inabitável.

“Vamos embora.”, Adriel disse em voz baixa. Encarei-o, mas ele já estava descendo as escadas. Tive que praticamente correr para acompanhá-lo. “Foi um grande risco ter me seguido até aqui á essa hora.”, ele me repreendeu. Aproveitei que ele estava de costas e fiquei imitando e fazendo caretas. Ele riu. “Mellany, pare de fazer caretas.”

Fiquei pasma.

“Cacete, o seu olho de trás também enxergar?”, perguntei.

Ele rosnou não gostando da piada.

“Seu vocabulário me deixa com vontade de me jogar do último andar.”, estávamos no primeiro andar. Ele parou para me esperar, sempre com o meio sorriso sacana. “Acho que vou ter que te dar umas aulas de como usar essa boca.”, riu e pôs a mão nas minhas costas, me guiando até onde estava a sua moto. “Amanhã vamos estudar português.”

Rolei os olhos, emburrada.

“Tem alguma coisa que você não saiba?”, peguei o capacete e pus em minha cabeça.

Adriel ajeitou-o e abaixou a viseira, mantendo o rosto da mesma altura que o meu.

“Ainda não sei te fazer calar a boca.”, ele subiu e me estendeu a mão. Ignorei a ajuda e subi, pondo os meus braços ao redor daquele corpo pecaminoso. “Oh, te fiz calar a boca a agora?”, perguntou divertido.

“Acelera, Loiro.”

Ele riu.

“Estava bom demais.”

Ele ligou a moto e acelerou.

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“Seu irmão e Caliel ainda não ligaram.”, Adriel constatou assim que estacionou a moto em frente á minha casa. Desci, lamentando internamente que o caminho tivesse sido tão curto. “O que você disse para eles?”, pôs as mãos no bolso, recostando na moto e me olhando desconfiado.

“Você sempre pensa o pior das pessoas, Adriel?”, disse, frustrada.

Isso o fez perder o estúpido sorriso.

“Na maioria das vezes.”, encolheu os ombros. “O que eu posso fazer se eles só me mostram o pior lado?”, o sorriso voltou, mas percebi que era forçado. “Você, por exemplo.”

Um meio sorriso surgiu em meus lábios.

“O que tem eu?”

Adriel se desencostou da moto, o bom humor de volta.

“Você é a garota mais irritante, boca suja, delinquente, desajustada, rebelde e mau caráter que eu já conheci em toda a minha vida.”

Levantei uma sobrancelha.

“Então porque não vai embora e me deixa em paz de uma vez?”

Ele se aproximou o suficiente para que seu rosto ficasse da altura do meu.

“É o meu trabalho protegê-la. Mesmo que seja de si mesma.”

Funguei, sem palavras por um segundo. O sorriso de Adriel se ampliou vendo que tinha me deixado sem palavras. Ele passou o dedo por meu rosto e acompanhou seu movimento, intrigado. Fechei os olhos, aproveitando. Seu toque era tão suave e macio. Como se ele pensasse que eu quebraria a qualquer segundo.

“Ao mesmo tempo em que tem todos esses defeitos, é a garota mais espirituosa, amiga, engraçada, bonita e inteligente que conheço.”, ele sussurrou. Consegui sentir sua respiração contra o meu rosto e estremeci. “Você deveria destacar as características certas.”

Se afastou, fazendo-me abrir os olhos. Estava pegando o capacete e pondo-o. Subiu na moto e a ligou. Sua viseira ainda estava levantada, então pude ser acertada pela intensidade de seu olhar. Engoli a seco. Passei as mãos pelas calças, sentindo as palmas suadas pelo nervoso.

“Volto amanhã”, a Harley roncou. Seu olhar se suavizou um pouco, quase suplicante. “Não apronte mais por hoje, Mellany, por favor.”, estreitou os olhos. Eu assenti. “E tranque as janelas.”, ordenou.

Assim, se afastou rua a fora. Fiquei atônita com as suas palavras. Como ele sabia que eu mantinha as janelas abertas? Relembrando da nossa conversa, percebi que ele nunca negou que havia estado na minha janela.

Notas finais
Mellany finalmente está juntando os pontos. Ela está na pista certa. Quando falta?