Hope... Less
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Se Sakura é a flor da cerejeira, Sayaka deveria ser seu broto.
Um grande desperdício que a flor mais bonita possível, que um dia desejara brilhar com toda a força, pudesse ser ofuscada pelas outras com outros valores até que se perdesse entre elas.
Nascidas da mesma árvore?
Kyouko suspirou. Olhava para Sayaka e via um passado distante. O desejo feito por outra pessoa. E o desespero que isso traz para si mesma. O desperdício de magia e de vida. A desilusão. E o fim do desejo de ser uma flor para brilhar diferenciadamente – que a levava a ser mais uma misturada ao meio.
Se passado e futuro se encontrassem, o que poderia acontecer?
Uma desgraça. E era isso o que ocorria entre as alunas do colégio Mitakihara. Entre Madoka e Homura, e mais do que elas, entre Sayaka e Kyouko.
– Você sabe que não vale de nada ajudar outras pessoas, certo? Você deveria repensar o modo como tem vivido; você não acaba trazendo nada de bom para si mesma – dizia, carregando consigo uma maçã cujas mordidas já começavam a deteriorá-la.
– Não. Não me importa quantas vezes você tente me convencer. Eu vou provar. Vou provar que você está errada. – respondia Sayaka
Oh sim. Como ela queria estar.
A ruiva gritava e brandia a lança; arma perfeita para ela, tão prática, tão imutável e insensível. Mas, naquele momento, ela não atacava; permanecia só defendendo, enquanto o som horrível de um violino quebrado e destruído por falta de uso repetia-se em seus ouvidos, as mesmas notas malditas. Partituras de músicas trágicas e quase demoníacas enfeitavam o cenário; e o pior de tudo, o som daqueles gritos, e a Grief Seed que não saía de seu campo de visão, não importava para onde ela olhasse.
– Sayaka! – ela gritava para a bruxa. Incrível a ironia do que acontecia; passado e futuro, quando juntos, trocavam de lugar. Da mesma forma que uma deusa surge para proteger aquela que antes a protegia do poder, agora aquela que havia prometido jamais usar seu poder para ajudar outra pessoa não media mais esforços para salvar a pessoa que jurava pela justiça, e agora tentava matar a melhor amiga.
Risadas malditas, música maldita. O som daquela voz que não pertencia à sua amiga a irritava de forma que jamais poderia ser descrita.
– Sayaka! Você prometeu que seria uma aliada da justiça, não foi? Quando é que você se perdeu? Quando é que você quis se tornar isso, Sayaka?
Quando é que você quis se tornar isso?
Maldição, aquilo não era hora pra nostalgia ou arrependimento. Pouco importava se ela antes havia feito a mesma coisa; sua vida não importava, se pudesse salvar a da outra e corrigir seu próprio erro. Era só Sayaka que importava. Como se, consertando a vida dela e a protegendo, estivesse salvando a si própria.
Mas não estava?
Kyouko só sabia que, se saísse viva daquela luta, iria imediatamente para a casa daquele violinistazinho estúpido e arrancaria seus braços e pernas, como um dia havia prometido que faria. Os quebraria por inteiro, assim como ele quebrara a alma da sua amiga, e, agora, a dela. E, para completar, a continuidade daquele mundo, que agora se mesclava em uma barreira mágica de sons insuportáveis e impossíveis de se entender, na música mais assustadora jamais ouvida.
– Droga, Sayaka...
O vermelho do sangue que já secava sobre suas roupas não era mais distinguido entre seu cabelo, ou seus olhos puros de ódio. Ela jurou amaldiçoar a todos; assim, seguindo a lógica das Mahou Shoujos, seria trazida a ela esperança, não?
Onde estava a esperança de sua melhor amiga?
Residindo no desespero? Era essa realmente a única saída?
Ela finalmente entendeu.
Sayaka perdeu a chance de qualquer esperança. Pediu o pior dos milagres; e com ele se amaldiçoou. O destino mais comum e menos aceitável. Mas se Kyouko fizera o mesmo, por que não era ela a bruxa que consumia a si própria?
Merda... Então era assim...
A azulada trouxera tanta esperança para ela quanto um milagre. Ou, quem sabe, uma mentira. Mas o que ela sabia era que o seu tempo de se tornar uma bruxa já deveria ter vindo, no momento em que seu pai a renegara e queimara tudo. A única coisa que a salvou naquele momento foi...
O medo de ser ela a culpada. E o desejo de recomeçar, mesmo que não concedido por um incubador. O seu retorno à vida foi um milagre. Mas um incompleto; ela retornara como uma morta-viva, sem seus ideais, sem sua alegria. Então, ela voltou a ser quem era. Achou alguém com quem se importar. Achou alguém que valesse a pena.
Com certeza tudo o que ela passou desde que não virara uma bruxa fora um milagre. Inclusive Sayaka.
E agora, ela tinha que pagar o desesperador preço.
Tudo bem. Não viraria uma bruxa. E no fim, teria finalmente o direito de ouvir algum “obrigada”.
A barreira vermelha que se formava atrás da cerejeira desaparecia e fraquejava, mas mesmo assim Homura ou Madoka não se moviam. A primeira observava com os olhos de um azul frio que, com certeza, não chegavam nem perto de combinar com o vermelho de Kyouko; já a segunda, sem mais o que fazer, apenas calou-se, sabendo que a decisão sobrava para a ruiva.
A decisão era um clip do cabelo. E o mesmo que se espalhava ao redor do corpo da outra, cobrindo o sangue que manchava suas roupas e partindo do arrumado de antes.
O desespero tomava sua forma quando aquela Soul Gem foi lançada com a mesma precisão da lança com que ela se acostumara na direção do que um dia fora sua amiga.
Soul Gem e Grief Seed.
A destruição perfeita de dois opostos.
E às outras restou apenas ver o violino se desfazer e ser esquecido, as notas desaparecerem e se reagruparem no chão; talvez formando uma melodia muito mais alegre do que a morte que observavam. Afinal, chegara ao fim; e a morte trouxe ás duas a benção que desejavam.
Agora, passado e presente se encontravam novamente. Vivendo.
Fale com o autor