Hope

1 Capítulo I: Hope


A brisa vazia de novembro transplantava a sensação mútua de inquietude. As gotículas de chuva perpassavam ligeiramente as lacunas deixadas pela gabardine creme de Hope. Seus longos fios castanhos desprendiam-se aos ventos sulistas, delineando ligeiramente sua cervical alongada. Com olhos extremamente atenciosos, tornava-se perceptível o verde-escuro de sua íris.

A rica silhueta competia de maneira assombrosa com as grossas e volumosas camadas de tecido, tornando discretamente censurada sua sensualidade feminina. No entanto, suas pernas finas e esbranquiçadas sentiam-se livres para estarem à mostra. O desejo de liberdade necessitava ressurgir de tal maneira entre aquelas vestes, que poderia ser tido como um ritual para caminhar ao ar da cidade.

Entre um andar descompassado e os frequentes desvios das pequenas poças de água formadas pela garoa, Hope encontrou-se deparada com um enorme edifício retangular, onde janelas eram distribuídas abundantemente pela fachada, permitindo apenas intervalos de paredes feitas com tijolos rústicos. No andar térreo, haviam pequenos jardins surgidos de um gramado baixo nas laterais de uma escadaria cimentada. Esta, por sua vez, norteava o caminho que deveria ser percorrido até as imponentes portas de vidro maciço da entrada.

No alto do edifício, podia-se ler cuidadosamente as iniciais “W.R.” em um tom dourado disfarçado pelo ligeiro ferrugem que o tempo teria proporcionado em função das más manutenções. No ápice das letras, ainda era perceptível enxergar o desgaste da estrutura de metal que sustentava a nomeação da mais antiga pousada de Reverse Bridge.

Os ventos de novembro fitavam os passos cautelosos de Hope, que agora passara a subir as escadarias antigas de sua moradia local, onde teria habitado inegavelmente de forma diária nos últimos quatro anos. Dimensionar sua escassez de tolerância para as preocupações e tentar alocar os sentimentos dos últimos acontecimentos, eram os núcleos dos problemas que teria de enfrentar no decorrer desta chuvosa terça-feira.

O intervalo de tempo que levou para subir os andares um a um e adentrar no cômodo retangular preenchido com poucos móveis, teria sido precisamente curto. Caminhou ruidosamente até o toca-discos enquanto esboçava um enorme conjunto de tentativas falhas com relação a retirada de seu salto. A música clássica de Chopin englobava todos os cômodos do apartamento aconchegante de Hope.

Caminhar para o banheiro enquanto retirava os últimos vestígios de tecido de seu corpo, afirmou uma imagem fantasiosamente sensual da situação. Sentir a leve brisa de novembro entre suas curvas demarcadas, era como fazer com que a prisão de sua liberdade escapasse entre seus dedos e não desejasse retornar para o confinamento que a rotina lhe causava.

O vapor da água recaía sobre seus ombros, umedecendo seus cabelos e contornando os desvios faciais que abrilhantavam suas expressões de relaxamento. O líquido apresentava-se acima da temperatura regular, percorrendo o estreito caminho entre sua nuca e seios, desaguando no vazio logo após. Nenhum outro prazer tido poderia tê-la relaxado de tal forma.

A fresta da janela entreaberta na lateral superior esquerda do banheiro, fazia com que o vento uivasse periodicamente durante o banho. Hope desligara furtivamente o chuveiro, permitindo o suficiente de água na banheira envelhecida do século passado. A jovem recém-saída da Universidade de Reverse Bridge, filha de pais adotivos e radical ao atirar no escuro para ir morar na cidade, sentia-se entre um vasto misto emocional e tentava encontrar forças para suportar as pressões diárias.

Recostada em um dos vértices da estrutura de acrílico, Hope havia fugido deste mundo momentaneamente para acessar-se no passado. Havia família, diversões e breves relacionamentos. Na atual conjuntura, não existia qualquer propósito em que pudesse alicerçar-se. A temperatura da água caíra, tornando o banho desconfortável.

Algum tempo depois, apanhou a toalha e vestiu-se em um belo roupão cor de vinho. Os seus cabelos repousavam sobre a estrutura flácida e áspera do pano, enquanto suas pernas formavam um ângulo sensual no sofá de veludo. Com o jornal repousado em seu joelho suspenso e carinhosamente sustentado por seu busto, alongava seus olhos com os óculos arredondados tentando ler as últimas notícias do dia.

A primeira página teria sido restringida aos esquemas de corrupção política, enquanto a segunda anunciava estranhos incidentes com golfinhos no litoral norte. Terceira, quarta, quinta página. Não parecia haver anormalidade alguma. Arremessou as folhas cinzentas do jornal na mesa de centro atrás de si, suspirando impacientemente.

O som cauteloso de Chopin a habitava. Lá fora, haviam pássaros ruidosos e uma garoa fina que cortava o céu nublado de Reverse Bridge. No meio interno, milhares de sonhos inacabados, desejos proibidos, sentimentos ruins, alegrias escassas e boa música. Concluiu estar cansada demais para pensar na péssima situação em que se encontrava, adormecendo.

Entreabrir os olhos na manhã seguinte parecia ter sido a maior prova semanal. A chuva havia amenizado seu ritmo, substituindo-se por raios solares que surgiam do horizonte em direção às estruturas rústicas no outro lado da rua. Apesar das imponentes construções, algum feixe de luz teria sido vitorioso o bastante para adentrar pela janela.

Atordoada, fez menção de levantar, mas afundou em seu cansaço momentâneo que a vencia avassaladoramente nesta quarta-feira. Suspirou ruidosamente, bocejando enquanto remexia seus pés na tentativa de alcançar o chão. Olhou para si e riu-se. Nem ao menos teria tido senso comum o bastante para remover o roupão de seu corpo e trocá-lo por algo mais apropriado para dormir.

Caminhou até o banheiro, traçando uma linha estranhamente reta de maneira dificultosa e lenta. Mover-se era como carregar toneladas em suas costas. Esfregou os olhos, bocejou e apalpou a parede do pequeno cômodo de azulejos esverdeados, tentando encontrar o interruptor. Levantou o olhar ao perceber que a iluminação havia sido estabelecida. Gritou.

O sangue escorria pelo vidro espelhado, ritmado em respingos como um conta-gotas. Hope, ainda boquiaberta, tentava dimensionar as múltiplas sensações causadas pelo que via. Traçadas de forma turva, lia-se na estrutura envidraçada os dizeres: “Olá, Hope. Eu voltarei “. Tateou a parede atrás de si, buscando auxílio. Recostou-se, deslizando silenciosamente. Suspirou.

Fechar os olhos por instantes, representava a complexa sensação de que aquela situação deveria ser apenas mais um de seus sonhos realistas. Torná-los abertos, significava a aceitação de seu pesadelo interior. Respirar, possibilitava a existência de seus sentimentos. Viver, naquele exato instante, tornava-se algo do qual gostaria de livrar-se.

Reverse Bridge, era uma pequena cidade localizada no sul da Europa. A aparência local simulava uma Londres diminuída de maneira extrema, assemelhando-se ao projeto de uma maquete que teria tomado forma real. Com uma pequena população, não haviam áreas vastas sem que houvessem ao menos um número regular de cidadãos conhecidos. Baixos índices de criminalidade e turismo decaído, tornavam-na uma localidade extremamente segura para moradia.

No entanto, Hope gostaria de refugiar-se na morte para deixar de fugir da vida. O peso de todas aquelas situações deteriorava-a pouco a pouco. O vento assoviava pela janela. O medo gritava por um espaço. Argumentar algo, seria negar justiça à situação. Suspirou algumas vezes mais antes de tomar coragem o suficiente para observar os dizeres escritos no espelho. Levantou-se.

As próximas horas que se seguiram no apartamento, foram reservadas para a limpeza do espelho e lavagem dos azulejos esbranquiçados do chão. Por mais que não quisesse, Hope tentava relacionar o acontecido a algum suspeito de maneira incisiva, mas nada justificaria tal feito. De fato, atribuir o título de assassino a alguém parecia ser um fardo muito pesado para promover-se antes de uma análise meticulosa.

Quando as últimas gotas de sangue se misturaram a água do balde ao seu lado, notou o extremo cansaço que havia adquirido após tanto trabalho. Apesar da característica vívida do sangue, determinados locais tinham-no secado através das correntes de vento, tornando extremamente árdua e dificultosa a sua remoção.

Passara tantas horas dentro daquele ambiente mortal, que nem ao menos notou o cair da tarde no horizonte. Os raios solares passaram a dar lugar para gotículas finas de chuva, caracterizando mais um novembro em Reverse Bridge. Hope, ao encarar a janela superior, gritou. Gritou fortemente, tentando expandir toda a dor e frustração contidas em si. As lágrimas percorriam todo o seu rosto e a tentadora sensação de morte fitou seus pulsos.

Vários suspiros foram seguidos de fungadas e respirações profundas, o que acabou por aumentar consideravelmente o fluxo de lágrimas. Tateou erroneamente a procura de objetos metálicos e pontiagudos, não encontrando absolutamente nada. Correu até o último cômodo ao final do corredor que teria a levado ao banheiro, observando a cozinha. Havia escuridão e um vasto leque de opções em termos de utensílios mortais.

Ao lado de fora, a chuva aumentava gradualmente, tornando-se em tempestade. Alguns trovões foram permitidos ser ouvidos ao fundo, mas Hope era o seu próprio instinto de morte. Correu até as gavetas do imponente armário de madeira, segurando uma de suas facas metálicas. Suspirou. Não havia outro caminho para seguir. Lentamente, casou o ápice do objeto pontiagudo a seu pulso, sentindo o imenso desejo de libertar-se.

O sangue escorria por toda a extensão de seu braço. Silenciosamente, gemia de dor. Sua conjuntura de sentidos foi tonteada, evidenciando a proximidade entre vida e morte. O suave cheiro de ferro percorreu linhas abdominais após Hope repousar seus pulsos sobre os seios. Alguns sons ocorriam em outros cômodos, a atribuindo imenso senso de pavor. Perguntava-se quais eram suas origens, não obtendo quaisquer respostas de seu subconsciente.

Um feixe de luz estendia-se das altas janelas do edifício oposto, adentrando pelos vidros de sua cozinha. Tateou por auxílio mais uma vez naquele dia. Buscou por forças. Havia agido de forma compulsiva, mas nada poderia ser feito. Perdida em si, demorou a reparar na sombra que se encontrava recostada no batente da porta do cômodo. Desmoronou.

Um fino sorriso traçou as linhas de lábios cor escarlate obscurecidos pela contraposição da luz no corredor, enquanto respirações podiam ser ouvidas no silêncio gritante da noite que uivava nos ventos da chuva. Hope tentou direcionar o olhar ao local da porta, mas não havia força o suficiente para tal. Arrastou-se pelo chão, buscando esquivar-se da silhueta que a morte mantinha. Fracassou em todas as tentativas, até render-se.

Reverse Bridge, afinal, não parecia ter sido a melhor escolha de sua vida. Refugiar-se em uma cidade grande, parecia ser-lhe um peso insuportável. Distante de toda sua família e laços em tons superficiais, Hope questionava-se sobre a provável falta que não faria. Perdida em seus próprios pensamentos, assustou-se ao ouvir os ruídos dos passos que caminhavam em sua direção.

Nós somos um imenso poço de emoções, pensava. Por mais que sejamos supérfluos em diversos casos e superficiais em muitos outros, temos a mania de atribuir grande importância ao acaso e deixar de viver ao máximo nossas vidas. Infelizmente, Hope sentia-se pela metade. Não por possuir a ausência de um grande amor ou a falta de partilhar da diretoria executiva de uma multinacional, mas pelo fato de ter encarado múltiplas situações com apenas o mínimo de desejo.

Passos vagarosos estendiam-se pelo corredor. O toque das gotículas de chuva nas paredes e janelas do edifício, passou a habitar o segundo plano de toda a cena. A respiração da jovem garota de cabelos castanhos, pele alva e olhos verde-escuro, aumentava perpendicularmente à proximidade de seu provável assassino. A tontura causada pela perda de sangue em seu pulso, não cooperava com a ideia de tentar uma breve fuga. Não haveria fuga. A morte batia-lhe na porta da alma.

Quando os passos estacionaram a breve silhueta imponente e masculina alguns metros frente ao batente, Hope não fez muito mais do que teria conseguido antes. Arrastou-se com extrema dificuldade até as baixas portas do armário abaixo da pia, recostando-se na firme estrutura de madeira. Seu olhar escalou vagarosamente os pés, pernas, quadril, abdômen e clavícula do homem. Os músculos atléticos do mesmo causavam-na pavor.

Sobrevivia entre o escorrer infindável de seu sangue e o desejo de fuga. Transmutar o medo para outras lembranças passadas, de nada servia-lhe agora. Lentamente, avançou o olhar um pouco mais acima dos ossos que formavam a clavícula, notando a face poligonal do homem. Longos cabelos loiros formavam uma trança principal que descia por sua nuca, enquanto milhares de outros incontáveis fios lisos pareciam servir de base por debaixo da mesma. Olhos azuis a fitavam. O meio sorriso a encarava. Hope concluiu: a morte era estranhamente bela quando vista tão de perto.

Após tanta perda sanguínea e sensação de pavor, restou-lhe apenas definhar. Desabou no vazio e tentou levar consigo todo o mínimo conjunto de felicidade que ainda lhe restava. Esboçar um sorriso enquanto observava a pele alva da morte, serviria de aceitação para o precipício onde teria de ser arremessada logo mais. Sentiu os ruídos de passos em sua direção, ainda de olhos fechados, temeu partir para outro lugar do qual não fosse possível retorno.

Hope tinha tido uma infância dificultosa. Nunca havia conhecido seus pais biológicos, nem ao menos seus nomes, características ou gostos. Decerto, jamais lhe foi possível amar a presença invisível dos mesmos. Julgava que esta fosse uma troca justa em função do desconhecer. O destino teria recompensado parte dessa falta com os seus pais adotivos.

A história de Tina e Bryan Evans mantinha uma série de lacunas que não haviam sido preenchidas com o tempo. Hope, não sabia como havia sido adotada ou quais as prováveis ligações deles com seus pais biológicos, mas tinha adquirido uma ótima família. Durante toda a sua vida, nada teria feito falta, exceto o preenchimento do vazio mantido dentro de si secretamente. O vazio da real versão verdadeira sobre seu vago passado.

Durante o colégio, não havia reunido grande popularidade. Muitas excursões, viagens e reuniões de classe foram deixadas de lado. Suas notas eram denotadas por diversas variações entre aumentos e diminuições. Sentia-se solitária, mas gostava de frequentar os cantos das salas de aula, habitar os fundos e passar desapercebida por onde quer que fosse. Não fazer parte dos principais grupos escolares que detinham maior destaque, tinha suas vantagens.

No entanto, nada mais importava. O caminhar estava extremamente próximo agora e essas lembranças morreriam junto com sua dona por direito. Calculou brevemente os seus sonhos não realizados, acumulando-os aos milhares. Tentou medir sua dor e realocá-la de maneira distante, mas fracassou evidentemente nesta tarefa.

Os passos pararam. Ao lado de fora, as folhas debatiam-se nos jardins circunvizinhos à medida que a brisa noturna caminhava pelas ruas. Sentir a imponente figura angelicalmente assassina postada com os pés ligeiramente recostados em seu abdômen, era como trocar calor com a morte nos mínimos segundos antes de esta levar-lhe.

Em um tom suave e, simultaneamente ameaçador, o homem de aparência jovial, olhos azuis e longos cabelos loiros emergidos em uma trança central, disse:

“- É um grande prazer revê-la, Hope. Esperava que ao menos o suicídio seria feito da forma correta por você, mas vejo que não. Tente novamente. Pois, não há como fugir. Você sabe, não importa para o quão longe a ovelha corra e esperta seja, seu dono poderá dar-lhe o mínimo de liberdade para causar-lhe um pouco de felicidade antes de matá-la por completo.”

Os passos voltaram a estabelecer uma caminhada regressiva em relação à porta. Hope estava completamente estática. O suor estendia-se avassaladoramente por todas as partes de seu corpo, mas o sangramento em seu pulso teria regredido em volume nos últimos instantes, após a pressão feita sobre seu busto. Sentia-se exposta e frágil como nunca havia ocorrido antes.

Dentre muitas palavras das quais poderia ter dito, Hope optou pelo silêncio de um falso adeus entre si e seu assassino. A jovem recém-saída da Universidade de Reverse Bridge, filha de pais adotivos e dona de si, encontrava-se à mercê dos desejos mortais de um total estranho. Não parecia ser o tipo de sensação que costuma causar paz de espírito, mas não morrer naquele exato instante a fez acreditar que havia algo ainda a ser descoberto.

Respirar cautelosamente, evidenciava o pavor de ter ouvido a porta de saída ser batida levemente antes dela conseguir recobrar a compreensão do que acabara de acontecer. No entanto, este encontro inesperado com seu fim, acabou por causar a provável continuação de seu ciclo de dor e impaciência rotineiras. Para o assassino, havia um jogo. E para Hope, restava jogá-lo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.