Hope

1 Capítulo 1


Notas iniciais
~ Desviando das pedras, tochas e maldições ~

Sim, também estou me perguntando como tenho a cara de pau de postar algo sendo que não atualizo nada há quase um ano, mas vai entender né? Bipolaridade ataca

Uma coisinha que eu fiz e que pra mim, foi especial. Espero que gostem. Um obrigado especial pra Raquel, que além de a deixar louca, arrumou a capa pra mim :)

Eu não sabia lidar. Mesmo eu sabendo da sua existência, e não sendo remota a chance de acontecer, eu não sabia lidar. Dizem que chega num ponto que seu corpo não registra mais a dor. Ela se torna tão terrível, tão excruciante que ele simplesmente desliga. Como uma máquina; ela sobrecarrega e não funciona mais corretamente.

Eu estava sobrecarregada. Depois do que aconteceu minha vida começou a passar num borrão de imagens e sons. Eu estava vivendo — se é que pode-se chamar de viver — mas não ligava pra nada. Bem, eu ainda não ligo.

Passou-se sete anos e eu ainda não ligo.

As lembranças estão vívidas na minha mente, os momentos bons e ruins que eu sei que jamais esquecerei. Todas ás vezes que me fez rir enquanto eu chorava, e até mesmo me deixando triste quando eu estava feliz. Qualquer resquício na minha vida da sua presença vai ser um pedaço de mim que nunca será arrancado.

Fomos criados juntos, praticamente vizinhos de porta. Todos sabiam que onde um estivesse, o outro estaria. Diziam que sabiam que ficaríamos juntos desde que a amizade nascera, não que algum dia tivéssemos pensado nessa possibilidade. Qual é, eramos melhores amigos, sem chance de acontecer.

E aqueles dois amigos, inseparáveis, seguiram rumos opostos. Depois do segundo grau, escolhemos faculdades diferentes, cursos diferentes. Nesse meio tempo viramos pessoas diferentes. Aquela amizade totalmente fraternal que tínhamos não existia mais. Nós crescemos.

Mas se engana quem acha que nos separamos. Ah, não. Até hoje ainda estamos juntos. Ele permanece comigo não importa o lugar. Eu sei que apesar de tudo, ainda tenho grande parte dele dentro de mim.

Dois anos. Setecentos e trinta foi a quantidade de dias que levou para nos darmos conta que o amor que sentimos um pelo outro já não bastava como irmãos. O que sentíamos era mais, muito mais. Aquele tipo de sentimento que não cabe dentro de você, sai por qualquer poro do seu corpo e dança um tango no meio da rua como quem diz "ei, estou aqui, me note!"

E eu notei, eu percebi ele alí. Chegando como quem não quer nada, você nem dá bola porque acha que é um simples sentimento. Mas não é. É quase como uma doença, um carcinoma. Começa pequeno e vai se enraizando. Quando você percebe, não tem mais cirurgia que resolva esse "problema". Se estou vendo muito Grey's Anatomy? Manter a mente ocupada vem sendo a tarefa mais árdua no momento.

Namoramos por três anos, e depois de um de noivado, nos casamos. Nada luxuoso e chamativo. Foi caloroso, foi calmo, e cercado das pessoas que amamos. Foi um casamento totalmente a gente.

Nossa lua de mel foi... indescritível. Se antes eu já achava que tínhamos uma ligação, eu não imaginava o que estava por vir. Em todos os aspectos nunca imaginei que me sentiria tão ligada com somente uma pessoa. Tão maravilhoso, tão perfeito, mesmo que imperfeitamente. Tão meu.

Quatro anos se passaram e eu me descobri grávida. Foi uma surpresa maravilhosa, e eu mal via a hora de que ele soubesse. Soubesse que o nosso amor foi tão grande e verdadeiro que não coube somente em duas pessoas, teve que se materializar num lindo bebê rosadinho e bochechudo, que eu tinha certeza por ele que seria.

No mesmo dia em que descobri ele teve que ir numa viagem. Sendo fuzileiro naval você não escolhe em que hora trabalha, é o trabalho que dita as regras do seu funcionamento. E ele foi, coisa rápida, no dia seguinte voltaria e eu o esperaria, para contar aquilo que eu tinha certeza que ele amaria. O que seria mais um dia?

Estava na casa da minha mãe quando soube que o navio que ele estava naufragou. Não sabiam o culpado, como aconteceu e tão pouco como derrubou um navio daquele porte. A única certeza é a de que houveram muito poucos sobreviventes. Explosões por todos os lados, e foi um milagre que alguém tenha sobrevivido.

Para mim não foi um milagre. Foi totalmente o contrário. Meu marido morreu nesse intitulado milagre. Esse naufrágio deixou uma trilha incurável de destruição e sofrimento que eu não soube lidar. Que eu ainda não sei lidar. Mesmo que os dias passem eu não consigo entender como que isso foi acontecer.

Logo que soube a notícia sofri um aborto espontâneo. Não deu tempo de salvá-lo, não deu tempo de sequer sentir como seria ele crescer dentro de mim. O maior pedaço vivo dele que eu tinha dentro de mim foi arrancado junto com aquele acidente.

Dizer que meu coração se quebrou é eufemismo. Foi dilacerado, destruído. Não havia remédio capaz de consertar o estrago que tinha sido feito. A única cura que poderia existir eu não sei onde encontrar, pode estar vagando no mar ou algum animal marinho se apossou.

Eu segui em frente, literalmente eu só sigo. Tudo ficou mecanizado, eu faço as coisas sem realmente fazê-las. Os dias se passam e eu não vejo um motivo para voltar a sorrir para o mundo, quando ele tirou o melhor dos meus motivos.

Me tirou a oportunidade de viver uma vida feliz e alegre, ao lado da pessoa que eu mais amava no mundo. Me tirou a oportunidade de contar que teríamos um filho, e que provavelmente passaríamos semanas discutindo para ver quem daria o nome a criança. Me tirou o suspiro de vida que a minha alma tinha. Me culpo por não ter condado a ele quando pude, quando tive chance.

A dor não sinto mais, estou entorpecida. Não choro mais, as lágrimas cansaram de se reproduzir por horas e horas sem uma pausa. Eu sinto tanto a falta dele. Cada célula clama por ele. Por um toque, por um beijo, por somente mais um dia. Se eu tivesse mais um dia com ele tudo seria diferente.

Eu poderia me despedir dele, o abraçar como se o mundo dependesse disso. O que de fato era verdade, meu mundo cabia exatamente nos meus braços, enquanto eu o mantia junto a mim. Eu poderia ter contado a ele que carregava uma parte sua dentro de mim. Deus, como me arrependo!

Eu poderia ter falado muito mais 'eu te amo'. Mesmo que eu passasse horas a fio, sem uma parada para respirar, não seria o suficiente para dizer o quanto eu amo aquele homem. O homem que fazia eu me sentir única, especial. Que me fazia ver o céu e o inferno em um único dia. O homem que dizia ser meu ao meu ouvido toda noite antes de dormir. O homem, que mesmo quando o odiava, o amava por nunca conseguir me fazer parar de ama-lo tanto.

Se eu tivesse mais um dia. Eu sei que não conseguiria o trazer de voltar, mas eu conseguiria aplacar essa saudade e engustia que sinto no meu peito toda vez que ando pela minha casa? Toda vez que vejo uma foto nossa? Talvez.

O que me resta agora, de todo esse pesadelo em que eu me encontro, é seguir em frente. Tentando não imaginar como seria se tudo fosse diferente. Se ele não tivesse partido, se eu ainda tivesse o nosso bebê. Se eu tivesse mais um dia.

Um único dia.

Notas finais
Qualquer comentário, até pra dizer que sou uma pessoa sem coração - o que alguém bem sincero já me disse hoje - ta valendo, será bem vindo! Até a próxima :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!