Hope
4 Capítulo III
Notas iniciais
Acordei toda molhada de suor, durante a noite tive um pesadelo, o mesmo pesadelo de sempre.
***
Eu estava de pé em um campo, a grama alta e verde pinicava as minhas pernas descobertas, ao longe eu a via, minha mãe, estendendo uma toalha de piquenique na grama mais baixa, Ralph corria de um lado para outro e mamãe sorria feliz. De repente Ele aparecia, abraçava mamãe como se fossem felizes juntos. Então eu corria, corria e corria. E quanto mais corria mais distante eles pareciam ficar. Quando finalmente cheguei perto deles, eles pareciam não me enxergar. Nenhum dos três sentiam a minha falta, nem se quer notando a minha existência.
Gritei pela mamãe e nenhum som saiu pela minha garganta, então senti mãos grossas e pesadas apertando-a e quando olhei para cima Ele estava na minha frente, me olhando como se eu fosse um verme. Quanto mais ele apertava, mais minha visão ia escurecendo, até que se apagou de vez.
***
Ouvi batidas na porta, e logo em seguida a porta se abriu.
– Hope, querida, o café est... O que houve? – era mamãe.
Ela caminhou apressadamente até a minha cama e se sentou na beirada. Passou as mãos pelo meu rosto encharcado e me puxou para perto, envolvendo-me em um abraço.
– O que houve querida? – perguntou novamente, acariciando meus cabelos.
– Tive um pesadelo, só isso.
Até então não tinha notado que eu havia chorado durante o pesadelo, nem mesmo notei que estava chorando naquele momento.
– Hope... — suspirou – Pesadelos são coisas que nossa cabeça cria pra nos assustar, não pode nos machucar de verdade.
Concordei com a cabeça, mesmo sabendo que aquilo era mentira. Ela tomou meu rosto em meio a suas mãos e sorriu.
– Tome um banho e desça, o café já está pronto.
Sorri em retribuição e a vi ir embora.
Liguei o chuveiro, o vapor que saia da água me aconchegava. Tirei minha roupa e entrei. Molhei meu curto cabelo que mal cobria a nuca e deixei a água escorrer pelo meu corpo. Levei as mãos ao rosto e chorei, não sabia ao certo o porquê chorava, mas meu peito ardia a cada lágrima que derramava.
Devo ter demorado cerca de dez minutos no banho, o banheiro estava coberto por um vapor quente, que me dava vontade de nunca sair de lá. Ouvi a porta do quarto se abrir e em seguida alguém bater na porta.
– Hope, você está bem?
A voz delicada e ao mesmo tempo astuta de Raph não me deixava confundi-lo.
– Sim, estou. — respondi
– Mamãe pediu para que eu viesse ver se ainda está viva...
A voz dele saiu mais adocicada ao falar isso, e eu sabia que o que disse era mentira. Pela primeira vez, vi Raph se preocupando comigo.
– Diga a mamãe que estou bem Raph.
– Direi.
Ouvi seus passos se afastarem da porta do banheiro. Ouvi-o bater a porta do quarto ao sair. Mas não o ouvi descendo as escadas de volta a cozinha, mas sim ouvi seus voltando para o quarto, mansamente. Sorri, nunca estive mais feliz em ter um irmão como Raph em toda a minha vida.
Desci as escadas e fui direto para a cozinha, mamãe estava lavando a louça. Quando me viu, sorriu e assentiu em direção ao meu café que já estava preparado sobre a mesa.
– Elena! – Ele gritou da sala.
– Sim. – respondeu mamãe, sem tirar os olhos da pia.
– Me trás uma cerveja! – ordenou, bruscamente, Ele.
– Não posso, estou lavando a louça.
– Onde está a Hope/cretina da sua filha?
Nesse instante, olhei para a mamãe e ela compreendeu meu olhar.
– Foi dar uma volta. – respondeu
Sorri para ela e saí em silêncio pela porta dos fundos.
☓
[Pelos olhos da mãe]
Vi Hope correr em direção à Velha Casa, ela adorava aquele lugar. Sorri por ela, até que Ele entrou furioso na cozinha.
– Onde ela foi?! Não devia sair de casa, não tem o que fazer lá fora! – disse Ele olhando pela janela. – Estou cercado de imprestáveis!
Fechei a torneira e peguei uma cerveja pra Ele na geladeira.
– Devia ter feito isso antes de eu me levantar! – gritou Ele
Senti sua mão pesada cair sobre o meu rosto. Senti o local ficando vermelho, quente e dolorido. Meus olhos se enceram de lágrimas, e meu coração de ódio. Ele voltou para a poltrona preta de couro de se debruçou na mesma.
Olhei para a janela, Hope já estava fora de alcance, fiquei feliz por isso.
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