Hope
3 Don Juan
Notas iniciais
Cecília entrou em casa um pouco atônita pelo o que havia acabado de acontecer, mas resolveu apenas ignorar o ocorrido. Acendendo as luzes do pequeno apartamento e indo direto para seu quarto, tomou seu banho e colocou um camisão velho que gostava de usar para dormir, escovou seus cabelos ainda molhados, contudo, mesmo estando exausta, pegou sua Bíblia e resolveu ler alguns capítulos, mas antes, orou a Deus pedindo que Ele lhe desce uma solução, pois ela só tinha mais duas semanas até o final do mês quando seria despejada, afinal desde que Juliana trancou a faculdade e voltou para Iguaí, Cecília já havia esgotado todas as suas economias dando conta do aluguel sozinha. Ela não entendia ao certo o motivo que levou a amiga a fazer tal coisa, mas o que ela tinha lhe explicado foi que não sabia se queria mesmo se tornar uma médica e que sua mãe precisava dela no negócio da família. De impeto, Cecília sofreu muito com a ida da amiga, mas decidiu que superaria esse problema e que tudo melhoraria. Após conversar um pouco com Deus e ler a bíblia, ela adormeceu pegando rapidamente num sono profundo.
As 06:30 da manhã seu despertador alarmou, os raios de sol iluminavam o quarto insistindo para que Cecília abrisse os olhos, ela acordou e levantou caminhando para a cozinha, pois como não havia jantado, estava faminta. Fez um sanduíche simples de queijo e suco de laranja, terminando seu café da manhã, tomou banho, escolheu uma calça Jeans e uma blusa com mangas compridas preta e sapatilhas beje. Organizou sua bolsa e saiu rumo à faculdade. Depois de quase 15 minutos após a aula ter começado, Olívia entrou como um furacão, sentou-se ao lado de Cecília que se perguntara como ela conseguia estar tão perfeitamente arrumada naquele horário da manhã.
—Pensei que não iria conseguir chegar, Pedro não pôde me dar carona, e meus pais saíram muito cedo, eu realmente preciso de um carro!- falou rapidamente se organizando na cadeira. E ao ouvir o nome de Pedro, Cecília não pode deixar de lembrar da noite passada.
—Ainda bem que você chegou antes da chamada. Você já tem faltas demais nessa cadeira, Liv! -falou olhando para a amiga.
—Eu sei, eu sei... Hey, mas e ontem? acabei pegando no sono, mas fiquei preocupada, então me diz, o Pedro se comportou? -perguntou com um sorriso no rosto
—Sim, por que não se comportaria? falando assim parece que ele é algum tipo de psicopata tarado e eu uma pobre vitima indefesa. -perguntou confusa.
—Fala sério, Cecília! Mas digamos que ele é um pouco Don Juan, sabe? -falou olhando para frente.
—Ouul certo! Porém não se preocupe com isso... ele não falou e não fez nada demais. -respondeu rapidamente.
As duas ficaram em silencio, uma vez que o professor já estava encarando-as a ponto de lhes chamar a atenção. O dia passou rapidamente e no momento do intervalo entre a penúltima e ultima aula, Cecília e Olívia aproveitaram para comer alguma coisa na cantina da faculdade e mais uma vez Olívia falava sem parar enquanto Cecília permanecia calada.
—Cecí, você não ouviu nada do que eu disse? -perguntou a garota olhando irritada para a amiga, mas logo notou que algo estava deixando a morena a sua frente muito preocupada.
—Desculpe, Liv, é só que... -ela hesitou em terminar a frase, pois não queria expor sua situação para a amiga.
—É só que o quê, Cecília? anda, pode falar! Eu sou sua amiga e estou começando a ficar preocupada, já faz algum tempo que você anda desse jeito. -falou gentilmente segurando a mão da amiga.
—Não, Liv. Não é nada. não precisa se preocupar! -respondeu apenas.
—Como não é nada? Vez ou outra você parece estar em outro mundo, por favor, você está sozinha aqui em São Paulo, precisa conversar com alguém! Anda, pode me falar o que está acontecendo! -disse sincera e decididamente.
Cecília olhou para a amiga e ponderou o que a mesma havia lhe dito, e realmente, era verdade. Ela não tinha ninguém para conversar, a morena precisava, ao menos, desabafar, e por saber que Olívia era uma ótima pessoa, rendeu-se e resolveu compartilhar o seu problema.
—Bom, Liv, você sabe que minha amiga com quem eu dividia o aluguel do apartamento voltou para nossa cidade, não é? -perguntou olhando a loira nos olhos.
—Sim, eu sei. Só não entendi muito bem o porque que a Juliana resolveu ir embora tão cedo... -falou um pouco confusa.
—Essa é uma outra história, mas então, meu problema no momento é um pouco complicado, pois como ela foi embora eu não tenho mais como manter o apartamento sozinha, e estudando aqui não tenho tempo para trabalhar. Acho que o que me resta é voltar pra casa. -explicou com olhos marejados, tentando ao máximo disfarçar sua fraqueza.
—Eu entendo, mas devo lhe informar que isso não é complicado, e que tenho uma solução para tudo isso. -falou olhando diretamente nos olhos da amiga.
—Não, Liv, por favor, eu não quero o seu dinheiro. Nem pense numa coisa dessas. -falou rapidamente.
—E quem é que está falando de dinheiro aqui, Cecília? Eu quero lhe fazer um convite. -disse educadamente.
—Convite? Que convite, Liv? -perguntou extremamente curiosa.
—Bom, minha casa é simplesmente enorme e até hoje eu ainda não entendo o porque que meus pais resolveram compra-la... Mas, o que quero mesmo é que você venha morar lá em casa. -falou com um sorriso nos lábios, esperando uma resposta positiva da amiga.
—Morar na sua casa? Pirou, Liv? Eu não posso simplesmente ir morar na sua casa, eu nem conheço seus pais... -falou gesticulando com as mãos rapidamente.
—Eu sei, mas isso é o de menos, pode ter certeza que eles não irão nem, ao menos, notar que você está lá, e poxa seria tão bom ter uma pessoa da minha idade comigo o tempo todo, seria como ter a irmã que nunca tive. -seus olhos brilhavam ao tentar convencer a amiga.
—Puxa, Liv! Eu não sei nem como agradecer, mas eu não quero incomodar vocês... — respirou fundo.
—Incomodar? agora sou eu que pergunto se você pirou... É claro que você não vai incomodar, e se é pra você ficar mais tranquila, vou falar com meus pais antes. -Olívia exalava animação ao conversar com Cecília.
—Bom, se é assim tudo bem, conversa com eles e daí a gente vê como fica... -falou apenas.
—Tudo bem, aiin vai ser lindo ter você lá em casa! — a loira era só sorrisos.
—Muito obrigada, Liv, eu não sei nem como agradecer. -disse abraçando sinceramente a sua amiga que já estava eufórica.
As duas terminaram suas refeições e foram para a sala de aula, não demorou muito e já estavam indo pra casa. Pedro não tinha ido buscar Olívia, então ela pegou um táxi fazendo Cecília acompanha-la. O táxi deixou Cecília em casa, e logo após, levou Olívia para sua casa em Pinheiros/SP. Cecília entrou em seu apartamento e foi direto para o banho, enquanto a água caia em sua cabeça ela começou a refletir sobre tudo o que Olívia tinha lhe falado, e ponderou que seria uma decisão muito séria, mas que era sua única solução além de voltar pra casa. Terminou seu banho colocando o mesmo camisão do dia anterior, secou seus cabelos e após estudar alguns assuntos que estavam acumulados resolveu conversar um pouco com Deus, decidindo que se fosse de ser seria, visto que já havia entregado tudo nas mãos de seu Pai.
Cecília sentou em sua cama e olhou para frente avistando seu velho violão, ela não pensou duas vezes e pegou seu querido amigo, dedilhou algumas notas e logo a música Day is dimming da Broke fraser inundava todo o quarto. A voz de Cecília era doce e aveludada, ela amava a ideia de ser uma grande médica, entretanto cantar era seu hobby há muito tempo. Após cantar mais duas músicas ela guardou o violão e foi dormir.
A jovem estudante acordou no mesmo horário de sempre, tomou seu café da manhã e se arrumou, vestindo um vestido florido com uma jaqueta Jeans por cima e sapatilhas. Olhou-se no espelho e decidiu que iria se arrumar um pouco mais naquela sexta-feira, então colocou um pouco de sombra clarinha com um delineado marcante, blush e rimel, optou por um batom num tom de rosa nude e arrumou o cabelo numa bela trança lateral. Quando terminou, encarou seu reflexo no espelho e sorriu gostando do que presenciara. Chegou na faculdade em cima da hora e viu quando uma BMW4 estacionou e uma loira saiu às pressas. Olívia correu na direção da amiga e abraçando-a disse:
—Bom dia, amiga! É o seguinte, conversei com meus pais e eles disseram que não teria problema algum, você poderá ficar lá em casa quanto tempo quiser, então pode arrumar suas coisas, que amanhã mesmo iremos te buscar lá no apartamento para te levar pra minha casa. -disse animadamente.
—Nossa! Já amanhã? Eu não sei se vai dar para arrumar tudo a tempo Liv, eu chego em casa por volta das 19:00 a não ser que vocês... espera, vocês? -peguntou confusa.
—Claro. Eu e o Pedro. Conversei com ele também e ele ficou super animado com a novidade e disse que faria questão de te ajudar com a mudança. -o sorriso de Olívia denotava um ar de malicia, como se desconfiasse de que o irmão estava interessado na amiga.
—Ahh, certo. Tudo bem. Mas não quero incomodar. -falou preocupada.
—Eu já disse que não vai, então passaremos lá no seu apartamento por volta das 17:00, okay? -perguntou já caminhando em direção a sala de aula.
—Certo. Muito obrigada mais uma vez, eu ainda não acredito que conseguimos resolver esse problema... -disse abraçando mais uma vez a amiga.
—Mas é claro que resolvemos, e eu mal posso esperar para fazermos nossa primeira noite do pijama. -falou quase saltando de alegria.
O dia na faculdade não demorou a passar, depois de assistirem as aulas de fundamentos de prática médica e sistema cardio-respiratório, Cecília e Olívia estavam exaustas, Pedro já esperava as duas no estacionamento da faculdade como na noite em que Cecília o conhecera. Dessa vez Cecília não se enrolou com o cinto de segurança, mas ainda continuava tensa e por vezes nervosa sentada ao lado de Pedro. Olívia conversava sobre uma viagem que seus pais estavam planejando para o litoral de Santos, pois queriam passar algum tempo com os filhos. Cecília ouvia a amiga atentamente e as vezes sorria com os comentários que Olívia fazia sobre sua mãe, Pedro apenas sorria junto, mas nada falara até que...
—Soube que você relutou em aceitar o convite da minha irmã... -falou sorrindo ainda olhando pra frente.
—Sim, é que não gosto de incomodar ninguém. -falou sinceramente.
—Isso é por que você não conhece meu pai e minha madrasta, pode ter certeza que eles nem irão notar sua presença. -falou com um ar irônico.
Cecília apenas assentiu com um sorriso no canto dos lábios e continuou olhando para frente, Pedro não falara mais nada. Chegaram após uns 20 minutos no bairro de Cecília, Pedro estacionou o carro e ela se despediu de Olívia.
—Então até amanhã, amiga. Nossa mal posso esperar! -falou Olívia animadamente.
—Okay, nossa quase que eu ia esquecendo, será que vocês irão acertar o caminho? -perguntou ainda dentro do carro.
—Não se preocupe, Cecília, eu já tenho o caminho decorado. Estaremos aqui por volta das 17:00 hrs, tudo bem? -o tom na voz de Pedro era extremamente sedutor e Cecília acabara notando as segundas intenções em sua voz.
—Tudo bem, obrigada e boa noite pra vocês! -falou rapidamente, abriu a porta do carro e saiu. Antes de entrar na portaria do prédio virou-se e acenou para a amiga. Logo o carro deu a partida sumindo do campo de visão de Cecília.
Pedro e Olívia chegaram em casa e assim que entraram, encontraram Leila na sala de estar esperando por Pedro.
—Oi, meu amor, nossa como você demorou! Já estava ficando preocupada. -disse Leila manhosa já enroscada no pescoço do moreno.
—Leila, por favor, não exagera e me solta! Preciso tomar um banho. -disse irritado.
—É, querida, desgruda senão desse jeito você vai acabar matando ele, ou enforcado e saturado de tanto controle! -disse Olívia sorrindo amarelo pra loira que agora estava bufando de raiva.
Pedro foi para o seu quarto e Olívia o seguiu, deixando para trás uma Leila totalmente irritada. Pedro foi direto para o banho e Olívia entrou no quarto dele sentando em sua cama, enquanto ele estava no box ela gritou:
—Pedro, precisamos conversar...
—Não pode ser depois, Liv? Agora eu estou um pouco ocupado se você não percebeu... -Pedro falou alto para que Olívia escutasse.
—Não, não pode! -disse Ólivia levantando-se e escorando-se na porta do banheiro.
—Fala, Liv, o que é assim tão importante? -peguntou bufando.
—Bom, eu notei a maneira como você fala com a Cecília e eu não quero saber de gracinha pro lado dela, entendeu? -falou seriamente.
—Bom, eu não sei do que você está falando. -disse desligando o chuveiro e pedindo a toalha a irmã. Olívia jogou a mesma por cima do box e logo após Pedro saiu com ela enrolada na cintura.
—Pedro, é claro que você sabe do que eu estou falando! Olha, a Cecília é especial, ela não é como essas piranhas que você pega por ai, eu não quero que você a machuque, okay? — Olívia olhava diretamente nos olhos do irmão afim de que ele sentisse firmeza em suas palavras.
—Ahh, Liv, eu não quero nada com a Cecília. A senhora esqueceu que eu namoro a Leila? E se ela imaginar uma coisa dessas vai me infernizar até a morte. Mas confesso que sua amiga mexeu um pouco comigo. -disse sinceramente.
—Quem foi que mexeu com você, Pedro? -Leila, perguntou entrando no quarto e indo direto ao banheiro do namorado.
Continua...
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