Notas iniciais
CHEGAAAYY Meus amores, antes de mais nada, muito obrigada por todos os comentários. Vou me explica pq demorei tanto: quis deixar claro no papel algumas coisas antes de continuar, meio que definir os personagens e o rumo da historia pra que lá na frente eu não me perca. Agora que já estou mais "encaminhada" vou postar com frequencia. Continuem comentando!

Todo instante, todo segundo, o reino e a vila de Marchella eram ameaçadas. Todos os dias, os moradores temiam que algo de ruim pudesse ultrapassar as grandes muralhas. Eram tempos difíceis por trás delas. Havia guerras por todos os reinos.

Sorte de eles terem os cavaleiros.

Homens corajosos, destemidos e disciplinados. Os homens de fé e confiança do grande e poderoso Rei Lionel. Sacrificavam suas vidas e suas histórias para manter o povo a salvo dos outros e por vezes, deles mesmos.

Ás onze horas da noite, todos os trabalhadores da vila já dormiam. Pelas ruas ficavam apenas os bêbados, prostitutas, assaltantes, pessoas de má índole. Para quem quisesse confusão e talvez um pouco de diversão, o bar do Bordon era um excelente ponto. Afastado do mercado e da feira, atraia todo tipo de pessoa.

Era uma noite fria de sexta feira. O vento cortante e incessante iria render bons litros de vinho quente ao velho e rabugento senhor Timóteo naquele dia. A noite estava bastante animada por ali. Ao fundo ouvia-se o som quase fúnebre de um pianista qualquer, mas não era como se alguém ali prestasse atenção. Todos estavam muito mais interessados em beber, jogar e flertar para conseguir um bom sexo aquela noite.

Todos muitos concentrados em suas próprias vidas. Até ele entrar.

Assim que entrou, não demorou a perceber que a atenção ali era toda dele agora. E como odiava ter todos os olhares sobre si, decidiu assumir sua pior carranca e seguir com passos firmes até o balcão. O senhor Timóteo já o estava esperando.

– No cômodo dos fundos – sussurrou o velho, tentando ver algo além do seu capuz – deseja alguma coisa?

– Me traga sua melhor cerveja – respondeu com a voz firme e autoritária.

Evitou olhar para os lados, pois não queria ver todos ali o encarando. O silencio que permaneceu enquanto ele caminhava para os fundos era quase uma dor física de tão agonizante. Mas assim que adentrou o cômodo e bateu a porta, as vozes voltaram a soar animadas como se ele nem tivesse passado por ali.

Um velho senhor barbudo e encurvado já o esperava em uma pequena mesa, bebendo algo um pouco mais forte do que cerveja. Pedro o encarou curioso e depois de avaliar a segurança do local, sentou-se em sua frente, cauteloso. Esperou que uma das atendentes de Timóteo o servisse antes de respirar fundo e começar a obter suas respostas.

– Deve saber que não tenho tempo, então lhe peço que seja breve – começou Pedro, mantendo os olhos fixos no homem.

O senhor apenas riu e bebeu mais um gole de sua bebida.

– Se veio zombar, estou indo embora.

Antes que Pedro pudesse se levantar, o homem finalmente o encarou. Seus olhos eram extremamente azuis e também cansados.

– Recebi seu recado... disse que gostaria de se encontrar em particular comigo – continuou Pedro – saiba que não costumo me encontrar com estranhos. Muito menos em locais mal frequentados como esse.

– Não se preocupe com o lugar – a voz do velho era firme para sua avançada idade – estamos seguros. Ninguém nos escutará e acredito que ninguém sairá pelos cantos da vila dizendo que o viu por aqui. Boatos correm e alguns dizem que todos por aqui te temem.

Essa era com certeza, uma verdade. Pedro não negaria isso e portanto apenas sorriu com desdém. Não havia alguém ali que não tivesse estremecido com sua simples presença.

– Eles temem a mim assim como temem a qualquer cavaleiro – respondeu ele – mas creio que não me chamou aqui apenas para me dizer isso.

O velho terminou a bebida com apenas mais um gole. Juntou as mãos no peito e seus olhos vasculhavam cada detalhe das feições de Pedro. Ele parecia estar se divertindo com alguma coisa, pois um sorriso aberto e sincero se apoderou dos lábios finos. Curvou-se na mesa e sussurrou:

– Eu sei o que você faz por aí enquanto todos dormem.

Nem o inverno mais intenso de Marchella teria congelado as veias de Pedro como aquelas palavras. As mãos agarraram com firmeza a alça da caneca de cerveja numa tentativa de canalizar sua frustração.

– Sei que irá negar. Mas não perca seu tempo.

– Quem diabos é você, afinal?

O velho sorriu mais uma vez antes de levar o dedo indicador direito até a cabeça e bater com a ponta em sua têmpora, num gesto bastante comum e identificável por ali.

– É vidente? – questionou Pedro ao reconhecer o gesto.

– Bom garoto – respondeu ele – vim lhe avisar de algo que previ. Você corre perigo.

Pedro afrouxou a alça da caneca e se permitiu gargalhar.

– Desculpe decepcioná-lo, meu caro vidente, porém como cavaleiro oficial corro perigo durante todos os segundos de minha miserável vida...

– Já ouviu falar de César Vandergelt?

Pedro calou-se. O velho teria toda sua atenção agora. César Vandergelt era um Lorde extremamente rico e poderoso na região. Era dono de diversos bens, de fortuna gigantesca e também era um dos conselheiros e amigos mais próximos do Rei Lionel. E também era um de seus piores inimigos.

– Quem em Marchella não conhece Lorde César? É poderosíssimo....

– Cuidado com ele – sussurrou o velho.

– Tenho cuidado redobrado com qualquer pessoa que tenha uma índole e princípios como os de Lorde César. Sempre tomei cuidado com ele.

– Mas agora, meu caro cavaleiro, será diferente.

Pedro estreitou os olhos e se aproximou devagar, apoiando os cotovelos na mesa enquanto tentava decifrar a atitude serena do vidente.

– E por que seria?

– Alguém entrará no seu caminho e irá te prejudicar.

– Me diga o nome e mato o infeliz antes que possa pedir sua própria bebida.

O velho sorriu debochado e balançou a cabeça em negação.

– Você nunca terá coragem de fazer isso com ela.

– Estamos falando de uma mulher? Excelente. Tenho outros meios de conseguir fazer um moça ser submissa a mim. Ela não me dará trabalho.

Pedro riu e encenou um brinde com o velho. Terminou sua bebida e bateu na caneca na mesa com força.

– Não acredito em videntes. Perdi a conta de quantas vezes me disseram que eu não voltaria de guerras, me alertaram para não confiar em certas pessoas. Já tentaram me convencer até a trocar a cor dos nossos uniformes, pois acreditavam que isso estava nos trazendo má sorte. No final eu sempre volto. Eu sempre confio nas pessoas certas. Vinho e dourado sempre foram ótimas cores.

O velho voltou a rir mostrando os dentes amarelados.

– Muito bem – continuou Pedro, visivelmente cansado ao esfregar os olhos com impaciência – me diga o nome dela. Assim posso vigiá-la de perto.

– Saberá sozinho.

Pedro começou a perder o pouco de paciência que a natureza havia lhe dado. Comprimiu os lábios e tentou se controlar antes que enforcasse o velho e quebrasse aqueles dentes podres.

– Não irá me ajudar? – perguntou ele, debochado.

– Videntes não ajudam. Apenas alertam. Tenho certeza que mesmo que desconfie das minhas palavras, passará a tomar cuidado.

E antes que Pedro pudesse responder algo, o velho se levantou. Acenou com a cabeça em um sinal de respeito ao cavaleiro e retirou-se. Pedro ficou mais alguns instantes ali, tentando entender e decifrar as palavras do velho. Por fim, caminhou até ao balcão do local, jogou algumas moedas para Timóteo e recusou os carinhos de uma prostituta qualquer. Não teria cabeça para aquilo esta noite.

Seu corpo estava tão tenso e confuso que o frio do lado de fora não o atingiu mais. Ao se aproximar de seu cavalo, preso próximo a entrada do bar, reparou que um pequeno pedaço de pergaminho estava preso em sua cela. Apressou-se em pegá-lo e abri-lo com os dedos trêmulos.

Último aviso, cavaleiro: cuidado com os olhos dela.

Notas finais
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