Honeymoon Avenue
7 You will never forget me, Alice.
Notas iniciais
"Você nunca vai me esquecer, Alice"
Talvez Miguel tenha razão, talvez eu nunca vou esquecê-lo. Mas algumas pessoas definitivamente não deveriam voltar, para que pelo menos lembranças boas permaneçam. Miguel mudou tanto depois que eu saí de Minas Gerais. Ele era fofo, atencioso. Agora ele está idiota, sem nada. Ou será que eu mudei? Não sei, mas eu não posso viver lembrando de coisas que deveriam ser esquecidas. Hora de seguir em frente, e nada vai me impedir disso.
Eu fui para escola, e a professora anunciou que durante os períodos das provas uma aluno novo estaria na nossa classe. Ele tinha vindo de Minas Gerais. Espera! Não podia ser verdade. Quando Miguel entrou na sala, vestido com o meu uniforme eu apenas engasguei. E eu nunca ia conseguir desengasgar.
Parecia que eu tinha esquecido como se pronuncia uma palavra sequer, minha boa perdeu o movimento. Eu não tinha reação. Ele olhava pra mim com expressão de "Eu te avisei". Ele estava me perseguindo, será que ele simplesmente não podia seguir em frente? Olhei para Ariana e eu não podia acreditar no que eu estava vendo. Tudo o que eu desejava era poder acordar e saber que aquilo era apenas um sonho.
A aula começou e eu tentei ignorar a presença de Miguel. Percebi que ele já havia feito o maior sucesso na minha sala. As meninas foram dar boas vindas para ele e os meninos já estavam o incluindo no time de futebol. Eu e Ariana não éramos muito chegadas com o pessoal da nossa sala. Só uma menina Sarah Brooke, já veio falar com a gente. Mas era só pra pedir cola da prova de matemática.
Para o pessoal da nossa sala, eu e Ariana éramos o "erro de fabricação". Talvez por não possuímos o padrão de beleza: corpo malhado, um quilo de maquiagem no rosto e mil pares de sapatos. Talvez por nos importarmos mais com livros do que com maquiagem afastava os meninos de nós. Eu simplesmente não ligava pros meninos lá da sala. Ariana estava namorando com Guilherme, um dos meninos da nossa sala. Ele era legal, mas só falava comigo pra perguntar o porquê de Ariana não estar atendendo o telefone.
O sinal tocou logo pro intervalo. Eu e Ariana descemos depois de todo mundo pois odiávamos a confusão que era na escada na hora do intervalo. Miguel também estava na sala. Conversei com Ariana como se ele não estivesse ali. Estávamos planejando um encontro para mim, Felipe, ela e Guilherme. Iríamos colocar os papos em dia e aproveitar o momento.
– Não vai dar boas vindas para mim? — Miguel perguntou
– Você é que não consegue me esquecer, por que está me perseguindo? — Eu perguntei
– Alice querida. Eu não desisto até vencer uma guerra. Dou jogadas inteligentes e maduras.
– Me perseguir, estragar o aniversário do meu pai e se infiltrar no meu colégio é maduro?
– Não, é inteligente... — Miguel apenas respondeu com aquele sorriso que eu sempre odiei, mostrava superioridade. — Agora se não se importa, vou descer e ver como o serviço da minha nova escola funciona.
Bufei e desci com Ariana. Pegamos nosso almoço e escolhemos nossa mesa. Fiquei a maior parte do tempo tentando ignorar o fato de Miguel ficar apontando para as meninas do colégio com o grupo ridículo dele. Será que meninos nunca vão crescer? Guilherme também estava na nossa mesa, e eu tive que aguentar o momento-casal dele com a Ariana. Mas não podia reclamar, Ariana tem feito isso por muito tempo pra mim e pro Felipe. Naquelas horas, eu desejava que Felipe estudasse na minha escola.
Toda vez que uma garota chegava perto de Miguel, uma parte de mim ficava com ciúmes. Aquilo era normal? Talvez o fato de eu já ter sido muito apaixonada por ele deve ter afetado meu psicólogo. Tentei ignorar o fato de ele ter beijado uma menina na minha frente, apenas sorri, peguei o celular e mandei uma mensagem pro Felipe dizendo que estava com saudades. Aquilo seria temporário, logo logo aquilo ia acabar, eu tinha certeza.
Assisti a mais duas aulas e depois fui pra casa junto com Ariana. Ela me deixou na porta do meu condomínio e eu subi. Meu pai já estava em casa, e aquilo me assustava. O cumprimentei e fui direto pro meu quarto. Apenas entrei nas redes sociais e desabafei tudo para Ariana. Ela entendeu e disse que talvez seja temporário mesmo. Talvez o fato que eu já estive gostando mesmo dele afetou um pouco quando ele finalmente voltou. Eu só estava cansada daquilo tudo e queria um descanso. Será que eu não poderia ser um pouco feliz?
Recebi uma mensagem, era de Miguel. Ele nunca se cansava?
"É minha vez de fazer você sofrer."
Adormeci.
[...]
Eu estava saindo do banho, apenas de toalha. E a campainha tocou. Ah, eu não podia acreditar. Eu abri, claro me cobrindo pra perguntar o que a pessoa queria e era Miguel. Ele saiu entrando sem ser chamado. Eu tentei mandar ele embora, mas digamos que não deu muito certo. Ele me empurrou na parede e disse que iria me torturar.
Eu não sabia que reação ter, apenas comecei a bater nele muito, muito mesmo. Ele me empurrava e mandava eu parar. Falava que eu ia pagar por tudo aquilo que eu tinha feito com ele. Mas o que eu realmente tinha feito com ele?
– Por que está fazendo isso comigo? Eu pensei que você sempre me amou, Miguel — Eu chorava.
– Você é minha, e de mais ninguém. — Ele respondeu
Eu não sabia o que fazer, apenas chorava. Ele gritava para mim parar de chorar e eu não conseguia. Eu estava com muito medo, e meu pai não estava em casa. Meu celular estava muito longe para ligar pra alguém. A unica coisa que eu pensei foi sinceramente matar ele. Mas eu jamais faria isso com alguém. Ele me bateu e foi tão forte que eu caí no chão e bati a cabeça. Tudo se apagou e eu não vi mais nada.
Narrando: John
Cheguei em casa depois de um cansativo dia de trabalho, estava estranhando o porquê de Alice não atender nenhuma ligação minha. Abri a porta e me deparei com a casa toda bagunçada. Vi Alice caída no chão e várias coisas quebradas. Verifiquei primeiro se não havia mais ninguém dentro da minha casa. Liguei para a ambulância e eles carregaram Alice o mais rápido possível.
Chegando lá ela foi para a sala de emergência e eu tive que ficar do lado de fora. Meu coração acelerado e minha mente conturbada não sabia o que fazer. Chegou Ariana e Felipe, os dois estavam bem preocupados, mas tudo o que podíamos fazer era esperar a resposta do médico.
Depois de um tempo esperando o médico saiu e me chamou para conversar a sós. Prometi para Ariana e Felipe que eu ia contar pra eles qualquer coisa. O médico disse que a pancada foi muito forte o que a machucou muito. Tinham que dar vários pontos num lugar só. Mas não era simplesmente aquilo. Aquela pancada afetou os músculos dela, que não tinha defesa nenhuma. E de alguma forma, aquilo não ia ter um resultado bom. O médico disse que ia ter alguma alteração nos sentidos dela, ela podia ficar cega ou surda. Ou paraplégica. Eu chorei.
Alice era a coisa mais importante pra mim, era a coisa que eu mais amava. Saí da sala do médico com os olhos cheios d'água e expliquei tudo para os amigos de Alice. Choramos todos juntos, e aguardamos a decisão do médico. Mas ele disse que ia ter que deixar ela internada por alguns dias para ver o que eles iam fazer. Estávamos cansados de comprar remédios, tentar exames novos. Não tinha mais o que fazer... Tudo o que tínhamos que ter era esperança que ela iria finalmente poder viver em paz.
Uma coisa que eu não descansaria até saber era quem tinha feito aquilo com ela. E aquela pessoa iria pagar caríssimo.
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