Decidi compor neste ambiente melancólico e macabro, parte de minhas memórias. Estas que ao passar do tempo estão sendo dissolvidas pelo esquecimento e pela loucura que adquiri. Faço isto para evitar que aconteça comigo o que tão comumente vejo acontecer aos pobres desgraçados que como eu, têm suas almas destruídas e despedaçadas pela escuridão da morte. Não quero esquecer o que sou, o que passei e o desejo de uma doce vingança que ainda resiste em minha alma dilacerada.

As coisas não estavam como gostaríamos. Tínhamos tido problemas com a polícia, entretanto isso não era uma coisa incomum. O que nos preocupava era o fato de termos sido descobertos. Paixão, drogas, aventuras no mundo do crime, vivemos um amor fora da lei. Foi para isso que eu a levei, para um caminho que não tem mais volta, e nunca irei me perdoar por isso.

Da primeira vez que nos vimos não nos gostamos muito. Consistíamos em opostos perfeitos. Lin’z a boa menina, eu o adolescente problemático. Mas a atração que existia entre nós foi mais forte. Quando ela saiu de casa parecia que tudo tinha sido premeditado para eu estar lá, a esperando, para corrompê-la, desvirtuá-la e mostrá-la o verdadeiro mundo que nos cerca.

Ela mudou, mas não deixei de amá-la por isso, na verdade passei a fazê-lo ainda mais intensamente do que antes. Tinha uma gangue, era formada por alguns amigos, eu e meu irmão. Fiz grandes amizades como as que tive com Ray e Frank. Quando Lin’z entrou no grupo, eu mesmo tratei de ensiná-la e instruí-la na arte do roubo e da picaretagem. Começamos a fazer assaltos juntos, até nos apelidaram de “Demolition Lovers” e de acordo com o Mikey o apelido caiu muitíssimo bem, “Amantes Demolidores”, fazíamos jus ao título.

O amor que ela sentia por mim mais do que paixão ou somente amor, tornou-se uma obsessão, eu era o badboy dela. Todos os meus desejos e ambições Lin’z já os tinha decorado em sua alma, e eu sabia que não importasse o que acontecesse ela estaria ao meu lado, sem fazer julgamentos ou perguntas, simplesmente cederia e obedeceria às minhas vontades, aspirações e aos meus prazeres. Alegre, divertida, talentosa e sensível, é assim que gosto de lembrar de minha doce e adorável amada.

Las Vegas, 17 de junho de 2012, 3h00m. Lin’z e eu num motel, não naqueles finos e caros, mas em um bem fulero, escuro e nojento, em que os ratos praticamente dormiam na cama com a gente. Lembro de ver dinheiro sujo com o meu sangue espalhado pelo quarto que mais parecia um cubículo. Eu estava deitado encima da cama com um ferimento à bala no abdômen, e ela andando de um lado pro outro tentando pensar numa saída, numa solução para aquele incidente. A tensão em seu rosto, sua testa franzida denunciavam o medo, a inquietação e o nervosismo que a assolavam naquele momento.

Tínhamos acabado de roubar um banco a três quadras dali. No entanto no meio fuga sofremos uma perseguição da polícia e na troca de tiros fui atingido. Devo dizer que o plano era perfeito. Entraríamos e sairíamos do banco praticamente sem nem mesmo sermos notados, mas infelizmente fomos traídos, por alguém que acreditei ser meu amigo, que nem mesmo merece ter seu nome citado nestas memórias que aqui jazem. O fato é que por causa disso os federais nos encontraram e mais cedo ou mais tarde iriam nos encontrar novamente.

Lindsay me olhou de uma forma afetuosa, veio até mim, suas mãos tocaram meu rosto, beijou meus lábios secos e disse que me amava. As mesmas que tocaram meu rosto foram até meu peito e ao passo que desabotoava minha camisa seus lábios desciam vagarosamente, beijando minha pele levemente até chegar ao ferimento, ao mesmo tempo em que meu respirar se tornava ofegante, eu me deliciava com a dor do mesmo e o prazer que os beijos me proporcionavam.

Ela pegou da bolsa uma pinça para retirar o projétil do meu corpo abatido e rasgou um pedaço de pano do lençol velho e encardido que estava sobre a cama para estancar o sangue. Quando finalmente retira a bala e enfia o pano em meu machucado, o faz sem piedade, então grito e gemo de dor.

Ouve-se um som forte, há tiroteio lá fora. Lin’z assustada e com os olhos cheios de lágrimas, retira rapidamente suas mãos ensanguentadas de mim, e apesar de não termos ideia do que estava acontecendo, ela procura sua pistola, uma automática, Mauser 712, na qual tinham um curioso charme em comum, algo que não consigo explicar.

- Gerard, Lin’z! – Era a voz do Mikey. Lin’z abre a porta, ele entra e tranca a porta automaticamente, porém ao me ver naquele estado fica pasmo.

- O que você está fazendo aqui? – Pergunto com o falar cansado.

- Temos que sair daqui agora! Ray e Frank estão nos esperando lá fora, travando um tiroteio com os oficiais! – Falou exaltado sem tirar os olhos de mim.

- Lin’z você ajuda o Gerard e eu vou à frente, ok? – explicou.

- Sim. – Respondeu, acenando com a cabeça.

Ela me puxou da cama com sua pistola na mão, enquanto Mikey olhava atentamente pela fresta da porta. Quando estávamos prontos, ele tira duas armas dos bolsos e as mira para frente, tentamos correr, mas eu não conseguia. Chegamos perto do carro, e o som dos policiais atirando contra os meus amigos quase estoura o meu tímpano. Antes de chegarmos até o veículo Lin’z é atingida de raspão. Entramos e Ray acelera o máximo que pode e saímos com o carro todo furado com tiros de metralhadora.

São 10h31m da manhã, e atravessando a fronteira com Los Angeles, não tinha conseguido descansar pensando na noite passada. Michael estava no banco do passageiro, eu no banco de trás do lado esquerdo e Lin’z no meio, entre mim e o Frank. Todos estavam dormindo, menos o Ray que tinha passado a noite toda dirigindo. Abro a janela, só o que vejo é uma paisagem árida um céu azul e um sol escaldante que queimava minha face pálida e gélida. Raymond ligou o rádio, estava tocando "Aces high" do Iron Maiden.

- Acordem bando de preguiçosos! – Falou enquanto aumentava o volume. Tinha um leve toque de malícia em sua voz.

De repente a música é interrompida e começa um noticiário, era sobre Lindsay, eu e a nossa grande fuga do motel. Todos ficam apreensivos com a notícia. Sinto Lin’z tocar minha mão, enquanto entra pela janela uma brisa quente que beija seu rosto delicadamente, como eu tinha vontade de fazer naquele momento. Mas é ela que o faz em mim. Sussurro em seu ouvido que a amo, ela sorri. Frank parecia mais preocupado do que os outros, ele era do tipo que não gostava muito de ficar pegando no pé, talvez por isso não tenha dito nada. Perguntei o que estava acontecendo, mas desconversa.

Depois de algumas horas na estrada estávamos esgotados e com fome, mas avistamos ao longe um posto de gasolina que se encontrava fechado. Paramos, arrombamos e entramos. Estava cansando deitei em qualquer lugar e dormi. Quando acordei Mikey tinha encontrado umas latinhas de feijão, Lin’z encontrou algumas cervejas que estavam quentes, e Frank encontrou uma caixa de primeiros socorros e foi cuidar dos meus ferimentos enquanto Ray mexia no carro.

Anoiteceu rápido, não tinha luz, improvisamos uma fogueira, e todos nós conversamos durante toda a noite, bebendo cerveja quente e comendo aquele feijão de gosto horrível, riamos ao lembrar de nossas maiores aventuras juntos e dizíamos que algum dia iríamos nos recordar daquilo como uma boa lembrança apesar de tudo. Somente Ray não bebeu, disse que era preciso alguém sóbrio para garantir a segurança, e isso não era nenhuma surpresa, ele sempre foi o mais ajuizado da turma.

No dia seguinte foram deixar a mim e a Lin’z em um pequeno vilarejo a oeste dali. Deram-nos uma boa quantidade de dinheiro e se despediram. Aquele lugar me fazia lembrar uma cidade fantasma de um daqueles filmes de faroeste, estávamos definitivamente no meio do nada. Ela alugou um quarto da única hospedaria que ali existia por três dias e ainda pagou em notas de cem novinhas, acho até que o senhorio desconfiou. Um local fétido e sujo, mas já estava acostumado com aquela qualidade de recinto.

Para passar o tempo pensei na nova vida que teria com ela. Casa, filhos e um bom emprego para sair dessa vida, fazer Lin’z feliz e morrer bem velhinho ao seu lado. No último dia, me deixou lá e foi comprar algumas coisas que precisávamos para a viagem que aconteceria.

- Você demorou. – Murmurei.

- Estava procurando um carro. – Respondeu com um tom tão baixo quanto o meu.

- Foi tão difícil encontrar assim? – Retruquei meio desconfiado.

- Tive que convencer um homem a vender o carro dele tá legal! Não tinha nenhum à venda por aqui e você também não precisa ficar desconfiado, eu não vou te deixar. – Contou de tal forma que percebi a frustração em sua voz.

- Desculpe ter duvidado. – Sussurrei indo ao seu encontro, tentando minimizar o estrago feito, entretanto ela se desviou de mim e foi tomar um banho.

Lin’z saiu do banheiro meio pálida, com passos vagarosos e uma expressão de espanto. Tinha o olhar fixo em um teste de gravidez que estava em suas mãos, imaginei o que pudesse ser, no entanto queria ouvir de seus lábios.

- Estou grávida! – Senti o temor em sua fala, que normalmente era segura e mansa.

- Grávida! Oh meu Deus isso é tão, tão...

- O quê? – perguntou com medo.

- Incrível! – Respondi entusiasmado. Contrariando o que ela provavelmente pensava. A abracei e toquei sua barriga imaginar o feto se formando em seu ventre, o fruto do nosso amor.

- Que bom que você acha isso! – Diz aliviada.

- Quero te fazer um pedido. – digo com expectativa, segurando suas mãos. — Quer se casar comigo? – Pergunto com a voz trêmula olhando em seus olhos.

- É claro que aceito seu bobo. – Respondeu alegremente com um beijo em meus lábios.

- Mas tem que ser agora.

- Agora? – Entoação de surpresa.

- Sim, quero que sejamos uma família de verdade!

- Tudo bem vou me arrumar, mas você é louco sabia! – com um sorriso nos lábios.

A levei a uma capelinha pequena, tinha um estilo gótico quase medieval e lindos vitrais pena estarem quebrados, mas o altar sinceramente me dava um pouquinho de medo. Era sem nenhuma dúvida sombrio, com um crucifixo gigante grudado na parede, via a expressão dolorosa no rosto de Jesus, seus olhos pareciam me perseguir.

Tivemos que convencer um casal de idosos que estavam no momento para serem nossos padrinhos, difícil, mas conseguimos. Ainda mais trabalhoso foi convencer o padre. Lin’z estava com um vestido longo e preto, eu com uma calça jeans, tênis e uma camisa social meio surrada. Enquanto a luz do pôr do sol passava pelos vitrais iluminava o interior da igreja, imaginei se naqueles bancos vazios pudessem estar nossos familiares, não estariam mesmo que quisessem. Meus pais e os dela tinham morrido, o único parente que eu tinha era o Mikey, mas considerava o Ray e o Frank como meus irmãos. Já ela não tinha mais ninguém somente eu.

Quando terminou a cerimônia, pegamos o carro, nossas tralhas e fomos para a estrada, não sabíamos direito para onde íamos e verdade seja dita, nem nos importávamos com isso. Ouvimos rádio, conversamos e nos distraímos com a aparente quietude em que nossas vidas tinham mergulhado. De repente, no meio da escuridão da noite, vejo faróis acesos do que parece ser uma viatura de polícia, que aparenta vir atrás de nós.

Não sabia o porquê daquilo, de longe até que parecíamos um par de recém casados normal. Paramos no acostamento e saímos do veículo, mas o que me surpreendeu foi o fato de Lin’z ao ver o policial começou a rir, e foi até ele e o abraçou. Não entendi, então fui atrás deles e percebi que o tal oficial era o Ray. Estava com a testa sangrando e depois de me abraçar tirou a farda e ao jogar dentro da viatura vi o corpo do policial morto dobrado no banco traseiro.

- O que aconteceu Ray? – Pergunta Lin’z assustada.

- Espera um pouco Lin’z! – tento acalmá-la.

- Por favor, vamos embora, depois eu explico.
Seguimos a viagem, pedi a Lin’z que não ficasse nervosa que faria mal ao bebê.

- Que bebê? – Questiona Ray.

- Descobri hoje que estou grávida.

- E ainda nos casamos. – Completei.

Ray ficou sem graça nos deu os parabéns e disse que em breve daria o presente de casamento. Coincidência ou não encontramos de novo o mesmo posto de gasolina. Ao entrarmos lá dentro, ainda havia vestígios de nossa estadia há três dias atrás. Depois de nos acomodarmos Ray começou a falar.

- Mikey e Frank morreram. – De cabeça baixa com voz firme. Notícia essa que veio fria e seca, como quando tiramos uma atadura de uma só vez, uma dor instantânea inesperada e desesperadora.

- Como? – Pergunto ofegante.

- Roubamos um banco e na saída fomos rendidos pelos policiais, mesmo assim tentamos fugir, morreram no tiroteio. – Ao dizer isso se levantou exaltado. – Só eu sobrevivi, e para isso tive que matar aquele homem e pegar a viatura. – Voltou a se sentar, estava visivelmente alterado.

Lin’z não conseguiu conter suas lágrimas e saiu para chorar. Cada um ficou em seu canto desde então, não nos falamos muito e quando por acaso trocávamos olhares fazíamos questão de fingir não estar acontecendo nada. Anoitece, ninguém consegue descansar e ficamos nos encarando até surgir algum assunto que nos fizesse esquecer de tudo. Até que viesse o sono.

Ao nascer do sol acordamos ouvindo os gritos dos policiais nos rendendo e as sirenes. Demoramos a ter uma exata noção do que estava acontecendo. Mas quando caiu a fixa o desespero tomou conta.

- Vão à frente que eu dou cobertura. – Disse Ray meio relutante.
Concordamos, Lin’z e eu pegamos o carro, no entanto quando fiz a curva vi pelo espelho retrovisor Ray que com o mesmo sorriso que tinha ao atirar contra os policiais, o teve ao receber um tiro de espingarda no peito se ajoelhando perante a morte.

Não olhamos mais para ele, e eu tive que continuar, pisei fundo no acelerador, mas a perseguição era uma realidade. Estávamos cercados. Não havia saída, nem mesmo uma escolha. O carro em que nós estávamos capotou no meio da rodovia, sobrevivemos, usamos os destroços como escudo, entanto sofremos com uma chuva de projéteis que vinham ao nosso encontro. Fui atingido, mas dessa vez o tiro foi certeiro, no peito. Não havia escapatória.

- Lin’z vai! – gritei com o resto de minhas forças.

- Não, eu não irei sem você. – Chorando de forma histérica e compulsiva.

- Você vai sim. – A repreendendo. – Tem que ir, ou será que se esqueceu do nosso filho? – A olhei fixamente até que comecei a sentir um gosto de fel na boca, talvez fosse o gosto da morte. Entre beijos disse que me amava, pegou sua arma e foi embora. Enquanto corria olhava pra trás, sofrendo ao ver a vida deixando o meu corpo abatido.

Acordei aqui. Deitado num chão coberto de pedras, e ao me levantar percebi que estava decalco, é frio e só o que vejo é uma massa de névoa cobrindo a imensidão negra. Um homem vem em minha direção.

- Onde estamos? – Pergunto meio desnorteado, não conseguia nem mesmo ver o rosto daquele de quem necessitava tanto à informação.

- No purgatório. – Tal foi à forma com que aquilo me tocou, que fiquei abatido a ponto de ficar estático e parado no meio daquilo que seria meu destino para sempre.

Informei-me com alguns que estão a mais tempo aqui do que eu, que há uma forma de voltar à vida. Tenho que matar mil homens maus, só não me disseram como irei fazê-lo. Mas a cede que tenho de vingança irá me fazer encontrar a resposta, e aquele que me denunciou e que fez com que eu acabasse me separando de minha amada e meu filho irá pagar por isso.

Todavia, não serei tão rude quanto foi comigo. Erguerei-me sobre ele, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. E o entregarei a morte, que o levará embora gentilmente. Mas tudo isso já faz tanto tempo que nem é possível recordar.

Notas finais
Tomara que tenham gostado. Beijocas!!!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!