Honey

7 Telefonemas


Notas iniciais
Olá! Boa noite ahahahahaha Começei rindo já porque morri de rir desse capítulo.. Não sei né.. Ainda deve ter algumas de vocês acordadas, então aí vai um presentinho no começo do feriado!! Acabei de escrever agora, às onze e cinquenta e até a metade do capítulo está revisado. Não quis revisar agora porque estou doida para postar e dividir as risadas! Este capítulo está mais leve, com uma boas mudanças, para compensar a dor do outro. Hahahahah ganhei um recomendação, galera! Quase explodi de felicidade quando vi! Obrigada Flor (que agora mudou de nick e não lembro de cor) eu ri muito quando li, muita felicidade! Então, muito obrigada pelos comentários e espero que nesse aqui meus fantasminhas apareçam.. Boa leitura!

– Você só pode estar brincando! – Kanda passou a mão pela franja, subindo-a e secando um pouco do suor que descia na testa.

O sol já se punha, e um suave brilho avermelhado, rosado e, em alguns pontos, verde já enchia as nuvens fofas no céu. Era um dia bonito, climaticamente. O céu azul e uma brisa que ia e vinha em alguns minutos. As luzes dos postes da quadra estavam ligadas e irradiavam um certo brilho amarelado, ainda pouco necessário.

Quantos dias haviam passado? Aquela era a quarta..quinta vez que estava naquela casa, certo?

–Vamos, levante! – Kanda ordenava para o albino praticamente morto no meio da quadra. O moreno, sinceramente, achava aquele cara muito mole. Havia apenas algumas horas que estavam ali e ele já se encontrava largado sem forças algumas.

–Eu disse que sou péssimo nisso! – Allen gritou de volta, a respiração descompassada e o suor escorrendo pelos fios brancos. Kanda o fizera jogar a maldita bola inúmeras vezes na cesta e dessas, o albino acertou, se muito, três ou quatro.

Não tinha jeito. Era ruim em basquete, odiava basquete, não tinha altura e muito menos ânimo para basquete.

–Eu já te mostrei como faz! Como pode? É pura física! – O moreno se aproximava em passos pesados, Allen de joelhos no chão, as mãos também e a bola ao lado do corpo.

–Fazer cálculo é uma coisa. A prática é totalmente diferente. – Allen retrucou.

–Na verdade, você não está nem se esforçando. – Acusou, enquanto tomava a bola com fúria e a jogava para a cesta. Ponto. – Viu? Você não precisa nem pensar!

Mesmo com todo o fracasso, aquelas horas pareciam ter servido para amenizar a tensão entre os corpos.

–Veja só! – Allen levantou, perdendo a paciência. Bateu as mãos na coxa para se limpar. – Se eu faço uma coisa, faço com todo meu ser. Se não consigo, é porque não é minha sina. – Chacoalhou os ombros. – Simples assim.

Kanda olhou por cima, uma sobrancelha arqueada para o Honey.

–Você não quer que eu te ensine do jeito ruim, né? – Ameaçou.

–Pior que isso? Impossível. – Também arqueou, porém ambas. – Por favor, nunca seja professor. – Ironizou, pegando a bola do chão. – Fique em silêncio. Preciso de concentração.

Kanda rolou os olhos, bufando. Allen manteve-se em posição de jogada pelos próximos segundos, até que algo dentro de seu ser lhe disse para jogar e assim o fez.

A bola fez um trajeto perfeito, oblíquo, velocidade considerável. Tudo certo.. para bater na placa de metal e rodear o aro com uma volta e meia e só então cair no chão.

–EU FALEI! – Walker berrou, pondo ambas as mãos na cintura e batendo o pé. O moreno sentiu que podia falecer naquele momento.

–Puta que pariu.

–Olha, vamos desistir disso. – Allen se virou e encarou o rosto do Mestre. – Nós estamos aqui há.. quanto mesmo? – Coçou a nuca. – Duas horas! Malditas duas horas! – Ergueu as mãos aos céus.

Kanda mantinha ambas as mãos na cintura, uma postura impaciente.

–Seria menos se você parasse de tagarelar e começasse a fazer isso direito.

–Já disse que estou fazendo!

–Não está não! – Pareciam duas crianças birrentas gritando uma para a outra.

–Vamos pensar direito, certo? – Allen sugeriu, fechando os olhos e jogando o próprio cabelo para trás. Sentia muito calor, apenas de ser mais de seis da tarde. – Eu não gosto de você, você não gosta de mim. Eu não gosto de basquete, você não gosta de mim. Perdemos, fazemos o Drop, então eu vou viver minha vida feliz e você arranja alguma vadia para te beijar quando você quiser. Certo? – Ergueu o polegar e um sorriso enorme só para ver uma veia estourar na testa do Mestre.

–Você realmente precisa ser punido. – Ele sussurrou, uma aura negra se formando em volta de seu corpo enquanto seus dedos se preocupavam em massagear a têmpora.

Allen fez um bico e cruzou os braços. Era uma ótima saída para uma situação horrível. Preferia pensar que Kanda tinha ficado bêbado naquele dia e lhe pôs o maldito brinco por engano.

Mas não entremos no quesito “parecido com uma mulher”.

Aquele treino de basquete, como Kanda mesmo nomeou, tinha se mostrado eficaz se tratando de comunicação. Se é que berros e xingos eram métodos normais de se comunicar. Entretanto, quem os visse jurava que eram conhecidos, talvez até amigos-inimigos, pessoas normais jogando um esporte ridículo.

Por incrível que pareça, tentar pôr uma bola em um aro tinha tirado da mente albina pensamentos depressivos e beijos que pareciam ter ocorrido em séculos passados. Kanda, aos olhos de uma pessoa de fora e até mesmo de Allen naquele momento, só parecia um garoto rico e imaturo de 18 anos.

–Preste atenção! – Sua voz se elevou e Allen deu um pequeno pulo. – Vou te ensinar pela última vez. Se não conseguir, punição. – Ele vinha andando em sua direção, o rosto contraído em uma mistura estranha de expressões.

–Isso não é justo, Kanda! – Allen berrou, dando passos para longe do moreno. Pareceria uma brincadeira inofensiva, se o Mestre não fosse Kanda.

–Fique calado e se concentre! – Kanda segurou o braço do Honey, normalmente e sem força desnecessária, pôs o menino em posição de Cristo e permaneceu atrás do corpo dele. Tudo em questão de segundos, Allen nem teve tempo de raciocinar.

–O-o que você..? – O albino tentou se virar, começando a ficar meio nervoso. Poxa, estava tudo tão bem com um espaço de três metros entre eles.

–Quieto! – Ele rugiu e Allen sentiu o hálito quente em sua orelha. Fechou os olhos e engoliu em seco. Ele não parecia com segundas intenções, então o albino tentava ao máximo não pensar nelas.

–Eu não entendo por q.. – Tentou.

–Porque você é um bosta que não tem equilíbrio! – Kanda passeava as mãos pelo corpo à sua frente, como se medisse alguma coisa mentalmente.

–Eh?! – Allen estava indignado! – Eu faço Ballet! É essencial o equilíbrio! — Gritou, para só depois se dar conta do silêncio constrangedor que se instalou.

–Você faz o que? – Kanda saiu de trás do Honey, e parou à sua frente. Encarava o menino com o rosto surpreso, Allen ainda na posição Cristo.

–Você não sabia..? – Perguntou, mais como uma constatação de que tinha falado demais. Amaldiçoou-se mentalmente.

Kanda ficou em silêncio por um tempo, e olhava de cima a baixo o corpo do Honey, como se tentasse imaginá-lo de colan rosa e tutu com desenhos de cupcakes em diversas posições de Ballet.

–Meu Deus. – Exclamou. – Por isso toda vez que você jogava a bola uma de suas pernas levantava. – Ele parecia confuso e com uma expressão engraçada.

Sinceramente, nem parecia Kanda. O basquete parecia mudá-lo.

–Minha perna subia? – Allen começou a se mexer, ia tocar a perna involuntariamente.

–Permaneça na posição. – Kanda ordenou, antes de continuar. – Que mulherzinha, você. – Julgou e voltou para trás do albino.

–Para mim você era o gay. – Allen retrucou. – Me beijando quando quer. – Parou quando sentiu as mãos dele em sua cintura, apertando e demarcando.

–Calado. – O moreno sussurrou e os próximos momentos passaram como um filme lento para Allen.

A suavidade das mãos dele não parecia pertencer à Kanda. Até o jeito de falar parecia ter se tornado mais leve.

O albino prendeu a respiração quando uma das pernas dele se infiltrou no meio das suas, e, com a ponta dos pés, afastou seus calcanhares.

–Você deve manter o equilíbrio do seu corpo. – Sussurrou, os joelhos empurrando os de Allen e deixando-os um pouco flexionados. – Deve ter postura. Está muito rígido. Relaxe. – A voz dele sibilava como uma cobra. Definitivamente não parecia o rude e grosseiro Kanda Yuu.

Mas Allen pensava que era impossível relaxar. Era Kanda, afinal.

E quando os dedos dele, que estavam na cintura, infiltraram na blusa e encontraram a linha abaixo do umbigo, Allen se exaltou, um arrepio subindo e enfraquecendo as pernas. Um esgar de surpresa pulou de sua boca e ele bateu a mão na mão alheia, saindo da frente dele cambaleando e na máxima rapidez.

–Já disse para não me tocar! – Mantia um dos braços erguidos, como se quisesse formar uma barreira. Nos últimos dias, as crises repentinas de choro de Allen tinha tido uma consequência boa: Kanda se mantivera distante e não parecia querer fazer nada ou brigar por nada.

Nos primeiros dois dias, Walker até estranhou. O japonês chegava, sentava, abria o notebook e digitava, sério e displicente. Chegou a ser interrogado por Alma, que estava igualmente surpreso. Vez ou outra, ele chegava com as madeixas soltas e os longos fios negros meio molhados. Desnecessário mencionar os longos suspiros que arrancava das garotas.

Pobrezinhas, não sabia como ele era.

Nesse tempo, Allen sentiu-se aliviado e confuso. Kanda estava infinitamente diferente. Quando precisava ir ao banheiro ou algo assim, apenas levantava e Allen entendia, dando espaço. Sem xingamentos, ameaças, honey, nada. Às vezes, o albino se pegava pensando se algo de ruim havia acontecido com ele, mas logo mudava o foco por algo de ruim não ter acontecido consigo, e isso, por si só, estava ótimo. Também desconfiava que a mudança repentina era fruto da tensão pré-Jogos Drops, pois, pelo o que entendeu, Kanda era um ávido jogador de basquete orgulhoso e que nunca perdia.

Road também não deixou de perceber a estranheza do samurai, mas aproveitou-se disso, passando a permanecer mais tempo sentada na mesa do albino e conversando sobre coisas aleatórias como chá da tarde e viagens para Viena.

Lavi, por outro lado, parecia mais distante, dormindo mais e se não fosse homem, Allen juraria que estava grávido. Alma também tinha percebido a mudança desse, mas pareceu dar mais atenção a Yuu, como sempre.

De qualquer forma, os dias passaram tranquilos, sem eventuais incidentes. Walker gostou da calmaria e por um tempo, inclusive, esqueceu que era Honey e que tinha um Mestre, em termos chulos, bem filho da puta.

Daquele ângulo, Kanda era normal, o Sistema Honey era normal e aquela situação era normal.

–Você estava tão bem todos esses dias! – Retrucou, a outra mão cobrindo a barriga. Kanda contorceu mais a cara.

– O que?

–Sim! – Negou diversas vezes. Na verdade, tentava tirar a quentura da face. – Estava quieto, no seu canto, como alguém normal!

–Você diz que eu não sou normal? – Ele pôs as mãos na cintura, suspirando. O tom de voz saiu normal, mas o traumatizado Allen se desconcertou completamente.

–B-bem.. é que..

–Chega, chega. – Yuu interrompeu, balançando a mão como se o chamasse. Não parecia querer discutir, o que era bem contrário a personalidade que Allen conhecia. Tanto que quando abriu a boca para retrucar, desistiu e, após alguns segundos, suspiros e um bocado de coragem, caminhou até o moreno com os olhos meio baixos, como se pensassem em algo.

Ficou na mesma posição e em segundos as mãos grandes repetiram os movimento. Ambos calados, o sol dando seus últimos suspiros e Allen tentando não tremer tanto.

– Você deve concentrar todo o peso do seu corpo aqui. – Ele tocou logo abaixo do umbigo fazendo círculos com os dedos. – Veja, sua postura está toda errada! – Grunhiu para si mesmo, estalando a língua e levando a outra mão até a base da coluna do menor.

Allen travou.

–Relaxe.

E a voz sibilante dele ecoou por todos os poros de seu corpo enquanto Kanda subia um dedo apenas pela sua coluna, causando um chacoalhão e um choque elétrico inimaginável.

–Jogue! – Em meio àquele turbilhão de emoções, e dedos passeando pelo seu corpo, Allen só conseguiu distinguir e emitir comandos após alguns segundos.

E como ele ordenou, jogou, tendo que ficar na ponta dos pés e tentando reunir toda a concentração possível. Quando a bola saiu de suas mãos, Walker sentiu que estava destinado ao fracasso, os dedos dele lhe abandonando e as pernas começando a bambear.

Sua visão teimou em não focalizar e só viu algo laranja demais indo em direção a cesta e depois caindo no chão em baques altos. Não sabia dizer se tinha jogado fraco de mais, ou torto de mais e tudo isso mesmo depois de Kanda ter lhe ens..

–Você conseguiu. – E foi só aí que conseguiu enxergar a trajetória já passada, como se a voz do japonês fosse o que sua mente precisasse para funcionar corretamente. Viu a si mesmo, sendo segurando pelo moreno e lançando a bola, que caiu no meio certinho do aro.

Sentiu que a moleza das pernas subiu por todo seu corpo, fazendo o inverso de lhe cansar. Ali estava uma satisfação que foi o suficiente para formar um sorriso radiante no rosto do albino.

Allen tombou a cabeça para trás, encostando-a no peito do moreno e encarando seu rosto. Sorria brilhantemente.

–Eu consegui, Kanda!

E depois de alguns segundos em que esperava a realidade fria e dura Kanda Yuu chegar, algo veio. E os sistemas de Allen se abalaram novamente. As pernas finalmente perdendo as forças como deveriam ter feito desde o início.

O moreno se afastou, em passos lentos. Virou-se de costas e arrumou os cabelos.

–Vamos jantar e eu te mando para casa. – Tirava a camisa, rendido ao calor e ao suor. – Parabéns, Allen.

Quando Kanda Yuu virou a cabeça, Allen se sentiu uma estátua parada no tempo. Uma estátua meio doida, por que dali poderia jurar que tinha visto uma sombra a mais na boca dele.

Quase um erro de Da Vinci.*

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Estar naquele quarto sempre assustaria Allen, assim como fez na primeira vez. Não que agora houvesse o mesmo clima que anteriormente. Estava sozinho, Kanda no banho, mas não sentia a mesma atmosfera esmagadora como sentira no primeiro dia. Aquele parecia agora apenas um quarto vazio demais considerando o tamanho.

O albino estava sentado no sofá, as pernas cruzadas como borboleta e brincava com a manga da própria blusa. Vestia uma calça cinza clara e uma blusa de manga comprida azul bebê. O quarto estava silencioso e podia ouvir o barulho da água batendo no chão do banheiro. Tinha tomado banho primeiro e agora esperava Kanda para, juntos, descerem e jantarem, como vieram fazendo todos os dias.

Em silêncio.

Aquela sombra a mais no rosto do moreno ainda caminhava pela mente do albino, mas ele não fazia questão de afastá-la, uma vez que ali estava um quadro de um lado do Mestre que Allen não conhecia, e nem imaginava que existia.

As lembranças daquele primeiro dia também marcavam presença e, juntando as duas, Allen ficava mais confuso ainda. Não tinha como ser a mesma pessoa.

Acordou dos próprios pensamentos quando a porta do banheiro se destrancou e Kanda saiu de lá, completamente vestido.

–Vamos. – Ele disse, calçando um sapato japonês que Allen não sabia o nome e se dirigindo para a porta. O Walker levantou correndo, os pés nus batendo no piso. Antes de o moreno alcançar a porta, Allen se pôs em sua frente.

Na verdade, não sabia o porquê de tê-lo feito. Suas pernas se moveram automaticamente.

Quando os olhos negros se viraram em sua direção, os claros não sabiam para onde ir além de permanecer os encarando.

Kanda parecia mais obscuro, apesar do “bom humor”. Ali não havia o brilho que conseguia distinguir nas vezes em que ele... bem.. o beijava.

De alguma forma, aquilo afligia Allen.

–Ahn.. Você está bem? – Foi o que conseguiu falar.

–Você está chorando? – A resposta veio imediatamente.

–O que? – Allen franziu as sobrancelhas e tombou a cabeça. Ia checar, mas os dedos de Kanda foram mais rápido e deslizaram pela sua bochecha. Sem reação, Walker tentava achar um motivo por trás daquilo, porém não se afastava.

–Estou bem. – Ele respondeu. Foi retirando a mão lentamente, sentindo a textura da pele completamente seca e sem resquícios de lágrimas. Terminando, deu a volta no corpo do albino e abriu a porta.

–Vamos. – Manteve a porta aberta, a luz do corredor iluminando o quarto que estava um pouco mais escuro. Allen observou a figura, os olhos de ambos tentando se descobrir. Quando viu que não obteria êxito tão fácil, desistiu e saiu para fora.

As costas largas indo a sua frente, o cabelo negro balançando levemente.

Foi antes de dobrarem o corredor para a escada que Allen percebeu. Já havia passado ali muitas vezes, mas nunca dera a devida atenção aos retratos ali expostos.

Deu prioridade a um e, subitamente, sua respiração falhou.

Era uma mulher e uma criança. Reconheceria as feições do japonês de longe, mas aquela mulher.. Ela o abraçava com carinho, no fundo da fotografia havia uma praia, por isso os rostos de ambos estavam mais brancos e com protetor em círculos. Allen não era burro, sabia quem era a pessoa.

Os cabelos castanhos, a pele branca, o sorriso radiante e os olhos prateados. Prateados.

Como numa maratona, algo apitou dentro de Allen e um choque de energia desceu por suas entranhas. Precisava, precisava!

Correu o resto do corredor e Kanda já se encontrava na metade da escada. Foi pulando os degraus de dois em dois.

–Kanda! – Nem olhava para o corpo, concentrava-se nas elevações, mas parou exatamente dois degraus acima do moreno. Não estava cansado, nem ofegante, mas quando os olhos negros vieram em sua direção, sentiu todo o seu ar ser sugado de uma só vez. – A sua mãe... – Iniciou, completamente desconcertado com aquele olhar. Ele parecia estar lhe avaliando como um todo. Precisou correr a vista pela sala antes de formular a pergunta correta. – Por que está me ignorando?

Ele não lhe respondeu, permaneceu ali, parado, com cara de tacho que já estava irritando Allen. Aquele era o verdadeiro Kanda por trás da postura maldosa?

–Estou?

–Sim! – Respondeu na mesma hora. Tinha de aproveitar o surto de coragem. – Há menos de quatro dias você tentava de tudo para se aproximar de mim! – Por mais que fosse uma aproximação violenta e horrível. Não precisou falar, porém. – O que é essa distância??

Kanda apertou os olhos, e encarou o pequeno dos pés a cabeça. Allen tremeu um pouco com aquele ato. E então, ele subiu um degrau, pondo-os na mesma altura, e o albino tentou subir um, mas desistiu da ideia quando notou que sua percepção estava tão ruim que se tentasse iria tropeçar. Havia chutado com o calcanhar o degrau atrás de si.

–Responda.. – Encolhia levemente, fazendo de tudo para ele não notar. Entretanto não foi capaz de segurar o grito mudo quando uma mão dele agarrou sua cintura e a outra apoiou sua cabeça, puxando-o para si. Automaticamente espalmou as mãos no peito dele, comprimindo a boca e fechando com força os olhos.

Consegui sentir todo o corpo dele encostado ao seu e já aguardava seus lábios quando ouviu um sopro de deboche. Abriu os olhos assim que as mãos se foram e Kanda já estava quase no final da escada.

–Não peça o que não suporta. – Dessa vez, a voz dele não estava mórbida, estava grossa, rude e ele nem mesmo olhou para si quando virou na abertura a direita, onde dava para a sala de jantar.

Foi só quando sua presença já não estava ali, Allen se permitiu respirar. Ainda era perigoso estar com ele, os dias passados possam ter sido só uma encenação de “vou respeitar você”. Engoliu em seco enquanto terminava de descer os degraus com as pernas moles demais, uma mão no coração, agora notando o quanto este batia desesperadamente.

E aquela sensação, sim, ela estava apenas guardada nesses três dias. Aquela coisa no estômago que jurava ser nojo, repulsa.

Aquela distância.. O que seria? Uma muralha?

O que era Kanda? Uma flora de Lótus presa em vidro quebradiço e reforçado?

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Afastado os pensamentos, concentrou-se na fartura da mesa. Na primeira vez que tinha estado ali, ficara fascinado com o tanto de alimento que poderia fazer para servir apenas duas pessoas. Sinceramente, se metade das pessoas no mundo tivesse aquela fartura o mundo não seria mundo.

Como de praxe, sentou-se do lado direito de Kanda. Este sentava-se na ponta da mesa de dozes cadeiras. Acima da mesa tinha um lustre, mas Allen nunca o vira em funcionamento, Provavelmente só era ligado em ocasiões especiais. A mesa, muito bem organizada e com talheres de prata, ostentava um toalha bem macia, deslizante, algo bem mais rico do que cetim em tom pastel. A coisa toda não fazia sentido algum quando serviam comida japonesa para Kanda sendo que na mesa só tinha petiscos franceses.

Allen sempre estranhava vê-lo comendo macarrão com hashi enquanto comia panquecas ou salada de frutas com talheres normais.

Quando um dos serviçais os serviu, Allen já tinha posto o guardanapo no colo e permanecia ereto na cadeira. Bons modos sempre teve, óbvio. Naquele dia apenas três serviçais estavam a postos. Um servia um suco que Allen teria que provar para saber o saber, o outro servia e o terceiro apenas fitava o nada com olhos de vidro.

Supunha que Kanda tinha percebido que vários pares de vidro o incomodavam e por isso o número de empregados diminuira ao decorrer dos dias.

Comia, mastingando bem lentamente apenas para acompanhar o japonês. Não estava com fome e nem com pressa, então não custava mastigar algumas dezenas de vezes. Inclusive era bom para a digestão.

Em alguns passares de relógio, Kanda pôs os hashis em uma coisinha engraçada de madeira e limpou o canto da boca. Allen entendeu. Se levantaram quase na mesma hora, o albino se enrolando um pouco com a cadeira agarrada no carpete.

Rapidamente adentraram no salão principal e foram pelo corredor com bonsais. Allen olhava para as paredes, pois ainda não conseguia dirigir a palavra ao Mestre, por mais que havesse mais liberdade para diálogos não formais entre ambos.

“Não peça pelo que não suporta” queria dizer que Allen não podia conhecer o verdadeiro Kanda? Ou melhor, qual era o verdadeiro Kanda? O Mestre das punições ou o moreno calado, triste e de cabelos molhados e soltos?

Mordeu o lábio quando percebeu que estavam chegando ao final do corredor. Kanda estava a sua frente, mas parecia tão distante quanto alunos de blocos diferentes em uma faculdade.

Quase não dava para sentir sua presença. Chegava a ser sufocante.

Quando abriu a boca para deferir qualquer palavra que fosse, já era tarde. E os lábios entreabertos se ocuparam em agradecer ao serviçal por lhe entregar a mochila. Kanda esperou o albino por a bolsa no ombro, encarando-o com aquele olhar que Allen não tinha coragem de encarar por achar silencioso e escuro demais.

Desceram os degraus das escadas e foi só aí que Walker percebeu que não eram mais os dois adolescentes da quadra de basquete. Kanda abriu a porta do carro, deu o comando para o motorista e Allen entrou, sentando-se no banco de trás.

Algo dentro de si gritava alguma coisa, mas algo ainda maior teimava pelo silêncio. Como nos outros dias, o carro se foi e quando Allen olhava para trás, não via mais o moreno.

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Lenalle só podia estar morta. Certeza. Não atendia o maldito telefone nos últimos dias e quando o fazia dava-lhe desculpas esfarrapadas e desligava em menos de dez minutos.

Allen bufou pela terceira vez.

–Você está muito estressado ultimamente. – Sentiu as mãos em seu pescoço, apertando aquele ponto magnífico, relaxando os músculos retesados. O albino pousou a cabeça no encosto e encarou o queixo e a barba por fazer do pai.

–Estou normal.. – Disse, vagarosamente. O cheiro e as mãos de Mana eram divinos.

–Uhum. – Ele disse. Fingia que acreditava e recebia um sorriso estranho do filho e volta. – Como vai seu amigo lá? – Era assim que Mana se referia a Kanda. Era um amigo que implorou a ajuda do seu incrível e inteligente filho para ajudá-lo nos estudos. Era o filho do dono daquela firma que esqueceu o nome mas que usava o perfume deles e era tão fresquinho que mandara um carta, em pleno século XXI, avisando, apenas avisando, que tinha tomado “posse” da vida escolar de seu filho.

Allen lembrava-se bem das gargalhadas que Manda dera enquanto lia a correspondência. A petulância nas letras custou uma panqueca que caira no chão e o albino teve que se contentar com apenas três, uma vez que seu pai estava ocupado demais rolando de rir no sofá.

“Que pessoa escreve que comprou os direitos escolares da outra?” Ele fazia com os dedos e ria em indignação.

–Está normal. – Repetiu, e Mana levantou as sobrancelhas para o filho. Em uma mão ele segurava o chocolate quente e na outra cutucava o celular. – Lenalle não está atendendo..

O filho respondeu antes que resolvesse perguntar.

–Isso me lembra que Tiky ligou uns dias atrás. – Pausou a massagem e coçou a barba. Tinha que fazê-la naquele dia mesmo.

–Ligou? – Allen entortou a cabeça para visualizar o homem esticando a coluna.

–Sim, não quis deixar recado. – Esfregou de novo a barba, franzindo os olhos para aquela coceira absurda. – Depois ligue pra ele.

–Ok. – Allen respondeu, já de joelhos no sofá e olhando para o pai. – Você precisa fazer a barba. – Contatou e o pai o olhou com ironia. Walker riu.

–Sério? – Também sorriu. – Não sei fazer como sua mãe. Fico todo coçando. – Era uma verdade. A mãe sempre fazia a barba do pai. Allen se lembrava da bagunça com espuma de barbear que fazia e lhe rendia alguns resmungões da matriarca.

–Quer que eu faça para você? – Não custava tentar e da primeira vez que fizera até que não ficou tão ruim. Só tiveram que inventar que estavam cuidando do gato de um amigo por uns dias. Mana não fez questão de esconder o desagrado e Allen riu mais.

–Já sou um homem grandinho. Devo aprender. – Enxotou o filho com a mão e este fez bico, para logo então rir.

Quando o homem estava se virando para subir para o segundo andar, Allen o chamou.

–Pai. – Ele apenas virou a cabeça. – Me dá um abraço?

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Após fracassadas tentativas com a amiga, desistiu. Já devia passar das 23 horas, então estava tudo bem ligar para o moreno. Já devia estar no quinto toque e, poxa, esse povo tinha celular para quê?

Caixa postal.

Quando estava tocando o número de novo, levou um susto pela vibração do nada. Era Lena. Incrível, era só desistir.

–Alô.

Allen-kun! Boa noite! – Quase se irritou com a voz de desculpas.

–Demorou, hein. – Ah, tinha que fazer mesmo.

Para. – Ela riu pela carranca do amigo. – Estive ocupada esses dias.

–Eu vi. Te liguei a semana. Nem Komui sabia onde você estava. – Aquilo era, tipo, o inferno congelando.

–Acontece.. – Allen jurou ouvir um engasgo ou uma hesitação na fala. Mas deixou para lá. Já já Mana bateria na porta e o mandaria dormir. Tinha que ser rápido.

–Está tudo bem?

–Estou levando. Sentindo sua falta naquela sala. – Ela suspirou audivelmente do outro lado da linha e Allen sentiu o coração apertar.

–Também sinto a sua. Tantas coisas aconteceram..

–Você pode me contar tudo no domingo. – Constatou o que ambos já sabiam.

– Sim. – Ia falar mais, sobre sua nova amiga, perguntar se ela tinha feito alguma amizade, mas não. Foi interrompido.

Allen-chan, você vai no Noah´s amanhã? – Ela perguntou e o albino estranhou um pouco a pergunta fora de contexto. Pensou nas tarefas que tinha de fazer e no cansaço que sentia após o treino do dia. Sentia que não moveria uma músculo no dia seguinte.

–Tenho muita coisa para fazer. Por que? – Dependendo do motivo até apertaria as coisas para ir.

–Ah não, tudo bem. Eu só queria sentar e conversar. Podemos fazer isso outro dia.

–Olha, Lena, mas se você quiser..

– Komui está mandando eu desligar. – Allen se esforçou para ouvir as batidas na porta do quarto da amiga, mas achou que estava muito desatento, pois não ouvira nada além da respiração da morena.

–Ahn.. Okay.. Nos falamos depois. – Disse, meio chutado com a rapidez da ligação.

Até depois, boa noite!

Ela desligou tão rápido, que Allen achara que uma parte de sua voz ainda estava vindo pelo fio telefônico e ficou com o celular no ouvido mais alguns segundos até encará-lo confuso.

Menos de um minuto.

Por um lado não gastava crédito, por outro achava que alguma coisa estava estranha.

Ou estava paranoico mesmo.

Novamente, a vibração cortou o espaço e Allen sentiu uma pontadinha de felicidade. Todos o procuravam agora!

Quase riu quando atendeu o telefonema.

Garoto! – A voz rouca de Tiky era..

–Boa noite.. – Quase socou a si mesmo quando percebeu que falou suspirando. Ele riu daquele jeito dele, arranhando o fundo da garganta. Algumas vezes achava que ele fazia de propósito, nas outras tinha certeza.

Liguei mais cedo e seu pai disse que não estava.– Ele começou, meio apressado. Walker podia ouvir o tilintar de copo. Rolou os olhos. Ele com certeza estava naquele lugar.

–Tive uns compromissos. – Subitamente sentiu a voz secar, mas não era como se pudesse impedir. Ele riu. Conhecia tão bem o moreno que quase sentiu o cheiro do cigarro.

Fiquei sabendo que você está enrolado com aquele maldito sistema. – Allen ia perguntar mas.. – Road é minha informante.

Dessa vez, quem riu foi o albino, estava sendo vigiado por aquele homem na quase casa dos trinta?

–Interessado? – Perguntou, mais por diversão do que curiosidade.

Muito. – E calou a boca com a resposta. Agradeceu por ele não poder ver seu rosto. – Envergonhado garoto?

Não.. – Cuspiu, tentado parecer bem composto. Tiky riu. Outra rajada de cigarro.

–Vá ao Noah´s amanhã. – Mais ordenou do que pediu. E bem..

–Ok. – Mordeu o lábio quando viu o quão facilmente cedeu. E tinha negado à Lena!

Então te espero amanhã.

–Tudo bem.. – Mantia os olhos fechados xingando-se. A barriga borbulhava.

Boa noite, garoto. Sonhe comigo. – Ele encerrou, e Allen sabia que ele estava abaixando a voz o máximo possível.

–Boa. – Desligou rápido, pois precisava afundar a cara no travesseiro e morrer sufocado ali.

Na verdade, iria sonhar mesmo.

Deu gritos baixinhos ali, mas criou vergonha na cara e logo sentou-se de novo. Ainda mordia o lábio com força, a voz rouca ditando o ritmo de seu coração.

Iria falar com Lena. Ela tinha que ir consigo ao covil do demônio.

Aquele demônio tão..

Afundou a cabeça de novo quando viu a porta de seu quarto se abrir.

–Vai dormir, filho. –Era Mana. O rosto lisinho, e alguns fiapos de sangue teimando sair.

Quando deparou-se com a figura, soltou a gargalhada do dia. Com toda a emoção e apreensão do dia, aquele som saiu, ecoou pelo quarto e o pai lhe olhou confuso, para logo rir baixo, negando com a cabeça.

Seu filho era feliz. E estava feliz.

Notas finais
Coisas acontecerão uhuhuhuh Kanda mudou de uma hora para outra! Alguém sabe porque, meu deus? Esse japonês de fases! Tsk tsk.. E essa Lenalle seca? O que acham? Gente, quase morri quando escrevi a parte do Tiky lindão hahahahahah Que lugar será este? Mistériossss.. Você gostaram dessa quebrada de clima? Ou ficou muito de supetão mesmo? Tentei organizar tudo tão direitinho.. Ah, aquela referência ao Leo Da Vince: Descobriram a pouco tempo que o sorriso da Mona foi só um borrão hahahahha Tipo, ela possivelmente não estava sorrindo, a tinta que borrou.. Ou seja, uma ilusão.. OU NÃO! Vai de quem acredita se existiu romance ou não, assim como nesse capítulo. Aliás, tivemos muitas referências aqui.. Ah, uma leitora um dia comentou que achou que o Kanda ficava muito "apagado", muito distante por mais que ele tivesse ali. Esse capítulo a intenção era essa mesmo, mas se você está lendo, comente por favor querida! Estou tentando arrumar isso e gostaria da sua opinião! Então é isso.. Olha, já vai dar meia noite! hahaha Certinho! Obrigada pela paciência e por lerem! Kissus!