Honey

29 Pai e filho


Notas iniciais
Olá, meus amores!! Boa noite!! Agradeço do fundo do coração todos os comentários e as visualizações dos fantasminhas!! Aproveitem esse que é o penúltimo capítulo de Honey! Boa leitura~

Allen acordou no susto quando seu telefone começou a vibrar absurdamente alto sobre a cômoda ao lado da cama.

Seu corpo inteiro parecia ter virado geleia, todo quentinho e aconchegado debaixo dos lençóis enquanto ele criava coragem de atender o corajoso que corria o risco de acordar Kanda.

Com o pensamento, virou o rosto para o lado, com expectativas de encontrar os fios negros do mais velho espalhados pela cama, de se enrolar nos braços dele e irritá-lo um pouquinho – isso se ele já não acordasse emburrado com o toque do celular.

—Atende o telefone, Moyashi. — Mas antes que pudesse se enroscar como uma bola ao lado dele, a voz rouca de Kanda soou, tão profunda que atingiu o coração de Allen e o fez explodir em flores.

—Já vai, senhor resmungão... — Murmurou em resposta, sonolento e com a voz macia, já que era incapaz de sentir algo além de contentamento.

Ele realmente queria ficar daquele jeito mole o dia inteiro, enrolado naquela cama, pensando em palavras para irritar o moreno mas só conseguindo dizer apelidos infantis e sorrindo bobo. Queria poder ficar ali e quem sabe tomar um banho juntos? Quem sabe pentear o cabelo dele? Dormir até mais tarde?

Porém tudo foi embora, evaporando como uma nuvem de fumaça, quando o visor do celular apontou quem ligava: Pai.

Não foi necessário nem um segundo para o estômago de Allen cair e ele se sentar na cama de uma vez.

Um erro, pois também não foi necessário mais que um movimento para fazer todos os seus músculos da lombar para baixo doerem. Ele quase não sentia as pernas, as quais estavam dormentes e formigando. Seu quadril doía de uma forma irritante, mas no momento o que mais assustava era o visor piscando e o quão rápido o seu coração batia.

—Moyashi... — Yuu resmungou de novo, rolando na cama para ficar de frente com o albino e abrindo os olhos para ver o namorado. Ele estava pronto para abrir a boca e dizer mais alguma coisa, mas se parou quando viu o garoto virar para si, a expressão apreensiva, e dizer de forma hesitante.

—Preciso ir para casa.

O tom de voz foi o bastante.

Kanda sentou na cama, o lençol descendo até sua cintura e expondo o peitoral trabalhado. Ainda que meio perturbado, aquilo não era algo que Allen poderia ignorar, e quando Yuu percebeu, sorriu de canto e o puxou para um beijo casto, sem muita troca de saliva por motivos de: acabaram de acordar.

Ele levantou-se, foi até o banheiro e antes que Allen tivesse coragem para se levantar, saiu de lá completamente arrumado e prendendo o cabelo embolado em um coque. Os fios haviam sofrido por demasia na noite passada para se comportarem quando soltos.

—Kanda, por que você está arrumado? — O pequeno perguntou, ainda se cobrindo com o lençol, o rosto com carinha de sono.

Yuu não achava que era possível, mas ele estava adorável de tal forma que talvez tivesse passado a amá-lo ainda mais.

—Vou te levar para casa. — Respondeu, deixando mais um beijo na testa do albino e parando na frente dele.

—Você está beijoqueiro hoje... — Allen comentou com a voz um pouco rouca, rindo baixinho do comportamento do mais velho. — O que foi? — Mas logo perguntou quando o viu parado a sua frente.

—Você é um feijão fofo. — Ele disse, deslizando os dedos longos pelo pescoço marcado do albino, que apertou o lençol nas mãos com mais força tentando conter o sentimento que se expandia por seu corpo como água quente.

—Isso é o seu elogio, Bakanda? — A intenção era irritá-lo, mas o sorriso envergonhado e pequeno fez Yuu revirar os olhos.

—Vá se trocar, eu vou pelo menos te deixar na porta de casa. — O moreno disse, apertando a bochecha de Allen e vendo-o fazer uma careta fofa.

—Aii, Kanda! Você deveria ser carinhoso comigo hoje!! — Reclamou de brincadeira, enquanto movia as pernas fracas até o banheiro com a pura força de vontade de não deixar Yuu zoá-lo por não conseguir andar direito.

Apesar de ter adorado acordar ao lado de Kanda e de ter uma amigável conversa matinal, o receio revirava seu estômago ao lembrar da chamada perdida de Mana. Foi descuido seu não ter avisado que ia dormir fora de casa na noite passada, mas também havia um pouco de rancor pelo pai não ter cumprido com a palavra.

De toda forma, todo mundo sabe quando vai levar bronca ou ter uma conversa séria com os pais. Allen e Mana se davam tão bem que eram raras as ocasiões quando isso acontecia, mas exatamente por isso o albino sabia que, dessa vez, iria ser uma conversa difícil.

—Kanda, me empresta um moletom? — Gritou do banheiro e logo um moletom grande e com cheirinho de lótus estava em sua mão. Vestiu-o, escovou os dentes com os dedos, arrumou o cabelo de forma rápida, decidido a tomar banho quando chegasse em casa.

Quando saiu do banheiro, sua mente estava incrivelmente focada em prováveis discursos que faria e Yuu entendeu que Allen precisava de um tempo sozinho enquanto organizava os pensamentos. Não era assim que imaginava o dia após dormir com ele, mas ambos tinham que lidar com aquilo.

De forma ágil, Allen pegou a lótus em cima da cômoda, colocou o celular no bolso e esperou Kanda do lado de fora do quarto. Logo o moreno estava ali e eles desceram as escadas com incrível lentidão, Yuu tendo que esperar Allen descer todos os degraus resmungando de dor e com o rosto corado. Ele obviamente tirou sarro, o que era esperado daquele sorriso de canto estúpido que ostentava.

Dentro do carro, um silêncio confortável se instalou. Não havia nenhuma pressão e nenhum peso que tornasse aquele ambiente sufocante. Também a suavidade com que Kanda dirigia fazia Allen querer simplesmente fugir daquela cidade.

—Quando vamos voltar à Holanda? — O pequeno perguntou, olhando para Yuu com olhos esperançosos. — Você prometeu da última vez que poderia eu mesmo pegar algumas tulipas quando voltássemos! — Finalizou, um bico no rosto diante do olhar rápido que o moreno lhe dirigiu.

Alguns segundos depois e relutando como se fosse difícil dizer "não" para ele, Kanda disse que se encarregaria de saber uma data e logo Allen estava com um sorrisinho suave nos lábios.

A verdade é que quando pararam em frente à casa do albino, ele não queria descer e enfrentar o que quer que fosse acontecer lá dentro. Queria ficar no conforto do carro, no silêncio de alguém que conseguia lê-lo e entendê-lo facilmente, como duas pessoas conectadas.

—Quer que eu entre com você, Moyashi? — Kanda perguntou num tom ao mesmo tempo sério e provocador, olhando um Allen que encarava através da janela com o lábio inferior mordido.

—Não, eu preciso fazer isso sozinho. — Sussurrou, respirando fundo e voltando-se para o namorado com um sorriso pequeno. Ele pegou suas coisas e segurou a lótus com cuidado, dando um beijo na bochecha de Kanda e abrindo a porta do carro. — Até mais, Bakanda! Obrigado por me trazer!

Quando estava prestes a sair, seu pulso foi agarrado e logo se deparou com os olhos de Kanda mais escuros e enevoados, como quem está imerso em preocupação.

—Não seja estúpido e me ligue. Você não precisa lidar com tudo sozinho.

E mesmo que ele não fosse gentil e meloso, era exatamente o que Allen precisava para se sentir corajoso. Talvez não um corajoso de corpo, mas um corajoso sentimental.

Ele daria tudo de si, não importa o que acontecesse lá dentro.

Esboçando um sorriso nervoso, fechou a porta do carro e subiu as escadinhas até a entrada de sua casa.

Com as mãos trêmulas, o pequeno abriu a porta de casa, ansiedade fluindo de seus poros. Tentou imaginar o que o esperava, mas até mesmo o cenário que imagina ser aquela discussão estava mudado.

Não era de noite, a sala não estava sombria, não estava chovendo.

Lá fora, apesar da nevasca durante a noite, raios de sol perpassavam pelas nuvens e entravam pelas janelas todas abertas da casa.

Ainda era sua amada e aconchegante casa, com mesinhas e esculturas, com cheiro de lar.

Quando Allen fechou a porta atrás de si, não precisou olhar mais que dois segundos para ver Mana sentado na poltrona de frente para a mesinha de centro que abrigava as estatuetas de bailarinas. O pai tinha a cabeça meio baixa, olheiras tomando o rosto cansado de quem não dormira nada. À sua frente, havia um pequeno buquê de flores vermelhas sobre a mesinha, com umas 6 rosas no total.

O coração de Allen quebrou e ele sentiu-se imensamente culpado por não pensar tanto assim no mais velho enquanto jantava com Kanda. Mas para sua defesa ele achava que o homem estaria na delegacia! Não era isso que ele tinha ido fazer?

—Onde você estava? — A voz cansada dele surgiu antes mesmo que Allen pudesse respirar apropriadamente.

—Com o Kanda. — Respondeu, no mesmo segundo e sem pensar muito.

O albino viu quando Mana enrijeceu sobre a cadeira e mentalmente agradeceu por ser de manhã cedo e poder ver todas as reações do pai. O mais velho respirou fundo e massageou os olhos. Sua respiração deu uma guinada e Allen sabia que aquela era a hora.

Era aterrorizante.

—Sente aqui, Allen. — Mana ordenou em um tom baixo que pareceu uma pergunta, mas o albino soube que não era. Ele tinha se acostumado com o Walker mais velho chamando-o de filho, então era óbvio que chamá-lo pelo nome era um sinal de que algo estava errado.

Suspirando intensamente, mas de modo baixo, Allen agradeceu mentalmente por Kanda não ter insistido em vir junto, e andou de pernas moles até o sofá próximo ao pai, sentando-se nele com cuidado e sem falar nada.

Ambos permaneceram de cabeça baixa e em silêncio por segundos, como se estivessem ponderando a situação ou dando-se conta de que ali havia uma falha de comunicação que não poderia ser ignorada.

Allen segurava as próprias mãos, que estavam trêmulas. Ele não sabia quem daria o primeiro passo, então sua mente estava uma bagunça, pensando e imaginando situações que poderiam liderar aquela conversa. Passou por sua mente o que ele diria ao pai sobre seu relacionamento com Kanda, porém ao perceber que não lembrava de discurso nenhum, sentiu-se entrando em pânico.

—São lindas, as flores. — Sem ao menos perceber, soltou a frase de maneira engasgada, visivelmente nervoso e com medo.

—Por que não me avisou que ia sair? — Mana acrescentou rápido e tenso, como se estivesse com a pergunta na ponta da língua, após remoê-la várias e várias vezes. O que provavelmente havia acontecido.

—Achei que você estava ocupado. — E aí estava: a mágoa.

O pai percebeu exatamente quando a voz de Allen quebrou ao final da sentença, quando todas as emoções do garoto voltaram à superfície de imediato. Como pai, é óbvio que ele perceberia, mas nem todos os pais sabem lidam com algumas situações. Eles têm seus próprios medos e inseguranças, e às vezes uma dificuldade absurda em pedir desculpas ou considerar seus filhos como filhos e não bonecos perfeitos e não-magoáveis.

Mana era uma ótima pessoa, disso não havia dúvida. O relacionamento entre ele e Allen era um dos melhores. Havia amor transbordando daquela relação de pai e filho que nem todo mundo tem.

Porém, amar alguém não significa não se magoar. E às vezes, mesmo que você ame, existem momentos em que você simplesmente não sabe lidar com a pessoa.

O fato de Allen sempre ter dito sim, sempre ter sido o orgulho e sempre agir como maduro, tomando suas próprias decisões, deixou Mana inconsciente da posição de filho que o pequeno assumia.

Isso ocasionou uma mágoa e independência latente dentro do garoto e agora ele estava pondo para fora. Como um vulcão em erupção, Mana percebeu. Mas, bem, ele não soube lidar. Também era difícil sair da zona de conforto e encarar uma feição de Allen que ele não conhecia: a que se mostrava não mais uma criança, mas alguém que sabe impor opiniões e dizer não.

—Allen, não seja assim. Eu disse a você que tive uma emergência. — Ele remexeu-se desconfortável no sofá.

—Eu sei, pai, eu sei. Não é culpa sua. — O albino cuspiu, de repente muito irritado com a negligência dele. Será que não era visível que Mana era sua única família e ele teria apreciado a presença de sua única família?

—É claro que não é, eu não poderia deixar uma responsabilidade que é minha para Meg assumir. É o meu trabalho, você já é adulto o suficiente para entender isso.

Allen se enfureceu.

—Meg? Quem diabos é Meg? — Ele jogou as mãos para cima, exasperado, enquanto o pai arregalou os olhos para si.

—Megan é a nova contratada. Nós viramos amigos e eu estava ajudando ela a-

—Pai, olha, eu não quero saber quem é ela, ok? — O pequeno disse, passando a mão no rosto que ficava quente rapidamente. Allen queria terminar aquela discussão antes de cair no choro. Respirou fundo antes de continuar, tentando se controlar. — Olha, eu entendo que você tem as suas responsabilidades. Eu não disse para você abandonar o seu emprego ou deixar de ajudar essa tal de Megan-

Mana abriu a boca para interrompê-lo e Allen levantou a palma, olhando com determinação e afirmando que iria terminar a própria fala.

A coragem que Kanda lhe passou estava ali, pronta para enfrentar uma possível rejeição.

—Me deixe continuar. Eu não disse para você ser irresponsável, ok? Eu só queria que você tivesse comparecido na minha peça porque era algo imensamente importante para mim e você simplesmente não foi! — A voz dele ia aumentando gradativamente, expondo tudo aquilo que estava entalado em sua garganta. — Eu sei que esse ano fui mais negligente aqui em casa, eu saí mais, entendo isso, mas qual foi a última vez que você realmente participou da minha vida? Em quesito escolar ou do ballet ou, eu não sei, estava presente em algo?

—Você sempre foi responsável com isso, Allen, e não é como se eu não te perguntasse como era o seu dia! Eu perguntei sobre a sua vida, mas você não me falou nada! Esse ano você agiu por conta própria, então não me culpe como se eu tivesse sido o pai negligente!

Allen sentiu os olhos lacrimejarem, porque, poxa, aquilo era difícil. Para alguém que não suportava ser chamado a atenção ou ser motivo de decepção, ver Mana de sobrancelhas franzidas e falando alto era extremamente doloroso. Ele quis chorar, mas empurrou o choro garganta abaixo e continuou.

—Sim, sim, você perguntou! Mas não era como se eu me sentisse confortável o suficiente para falar! — Mana revirou os olhos em uma bufada alta nesse momento, como se não estivesse acreditando no que tinha ouvido. Allen sentiu mais ímpeto de falar e esclarecer aquilo. — Sabe por que, pai? Por que você sempre estava ou de saída, ou cansado do trabalho, ou sentado naquele maldito sofá parecendo abandonado demais para eu sair do papel de filho perfeito e desabafar com você!

—Ora, você sabe que poderia ter feito isso qualquer momento, não fez porque não quis!

—Não fiz porque eu sabia que ia dar nisso! — Ele bateu nas próprias coxas, olhando para todos os lados da sala e tentando não gaguejar ou passar por fraco. — Você acha que o ano foi fácil para mim? Não foi! Eu preciso pensar em mil e uma coisas para a minha vida! Faculdade, sair de casa, futuro, terminar o colégio e todas as outras coisas que são bem mais problemáticas! E quando eu queria falar com você, você sempre me perguntava como eu estava já sabendo que eu ia responder que estava bem! Como queria que reagisse? — Gritou, se mexendo muito desconfortável.

—Que você falasse! Não é minha culpa se você não tem coragem para isso! — Allen sentiu-se incrivelmente machucado, porque aquela conversa era afiada demais para seu coração. — Desde que você começou naquela coisa da escola está desse jeito! Nem parece o filho que eu tenho, você está muito diferente, Allen! Muito distante!

—Diz isso porque agora percebeu que eu não estou disponível para você o tempo inteiro!

—Eu ainda estou falando! Agora você me espera terminar de falar!

O albino olhou para cima, tentando parar as lágrimas e a mágoa. Ele sabia que algumas coisas naquela fala eram verdades, como ter se tornado mais introspectivo, mas também tinha convicção que não estava totalmente errado a respeito do pai.

Como é que aquela quebra não tinha sido percebida até aquele momento?

Talvez a convivência única e exclusiva entre pai e filho tivesse misturado os papéis, e eles viveram daquela forma até que a vida os forçou a crescer, a sair do casulo que era aquela casa. Allen crescendo e indo viver a sua vida era algo para o qual Mana não estava preparado.

—Eu soube que a presença daquele garoto na sua vida estava te afetando demais! Ele te tirou de casa, tomou o seu tempo e ainda colocou todos problemas que te fizeram fechado desse jeito! Não aja como se eu fosse o culpado por você estar irritado!

—O quê? — Allen franziu as sobrancelhas imediatamente. — O senhor está insinuando que estamos aqui agora por causa do Kanda? — Cuspiu, sentindo amargor na língua.

—Sim, é óbvio, Allen! Essa situação se desenrola desde o começo do ano e me diga quem foi que começou tudo isso, hm? — O pai debochou e aquilo era uma merda. Se continuassem daquela forma, aumentando a voz e rolando olhos, a discussão não terminaria naquele dia. Principalmente devido ao orgulho dos dois.

Allen precisou respirar muito fundo. Mana, como mais velho e se entendendo na posição de poder, não daria o braço a torcer e provavelmente não desistiria de parecer certo. Já o pequeno era apenas um garoto que não queria brigar feio com pai – discutir e mostrar o seu ponto de vista, sim. Ficar brigado, nunca.

Ele resolveu, então, ser o mais maduro, mais uma vez.

Era extremamente cansativo, mas tinha que ser feito. Ainda mais se ele ainda quisesse falar sobre Kanda.

—Não, pai, o senhor está errado. — Agora o tom de voz era mais baixo, calmo e exausto. Mana pareceu entender aquilo, soltando uma respiração exasperada, que significava que também estava tentando se acalmar. — Kanda não é o motivo da nossa discussão agora. O motivo é que eu e você não sentamos para conversar durante o ano como deveríamos ter parado. Nós nem ao menos falamos da minha estadia com a mãe!

A constatação da verdade fez o coração de Allen doer. Era estranho pensar que a relação deles foi linda e amigável o ano todo justamente porque eles estavam ignorando a parte mais importante de um relacionamento: a conversa sincera.

O que, ironicamente, era algo que ele estava valorizando com Yuu.

—Eu já disse que – O pai tentou, mas Allen já estava desgastado demais.

—Não, por favor, vamos apenas... — Deixou as palavras flutuarem, torcendo para que a tensão ao menos se dissipasse o suficiente para que ele pudesse respirar enquanto pensava em como iria contar os últimos acontecimentos para o mais velho.

Mana pareceu compadecer da situação, porque, apesar de tudo, eles ainda eram muito semelhantes.

Houve um tempo para que ambos respirassem de forma adequada, para que ordenassem os pensamentos e voltassem a se encarar como uma família.

Foi o Walker mais novo que retomou a conversa, sentindo que se não fosse naquele momento, nunca seria.

—Esse ano foi difícil. — Admitiu, com a voz ligeiramente mais calma e baixa. — Em alguns momentos eu não sabia o que estava acontecendo. Em outros eu sabia demais, pensava demais e mudava demais.

O garoto ficou satisfeito que Mana não tentou interrompê-lo.

—Hoje mesmo eu fiz uma descoberta que não passava pela minha cabeça até antes do espetáculo. — Levou os dois pés para o sofá, abraçando os joelhos enquanto mantinha os olhos fixos nas porcelanas. Ele não conseguia levantar os olhos, precisando daquela distância para pensar direito. Ter alguém vendo suas emoções cruas através dos olhos era desconfortável naquele momento de confissão.

—Eu desisti da medicina, pai. — Soltou, acabando por trocar na última hora o tópico a falar. Mana abriu a boca, pronto para perguntar, quando o filho deu continuidade. — Eu vou ser um bailarino. Eu quero ser um. — Nesse momento, ele levantou os olhos e viu o pai raciocinando, então tudo o que fez foi continuar falando e dando argumentos que impedissem a oposição alheia. — Eu sei que não era isso que você queria para mim, mas agora eu não consigo mais me ver indo para a faculdade. Quando eu entrei naquele palco, foi como se minha alma pertencesse àquele lugar. Eu nunca me senti tão vivo e realizado, mesmo estando triste por você não estar lá! — Ele viu que o mais velho tentou protestar, mas não parou. — Foi o sentimento, sabe? De pertencer a algo, de se sentir suficiente para algo... eu não imaginava que seria assim, que eu iria descobrir desse jeito, logo antes dos exames para as faculdades, mas eu só-

A voz desesperada, quase sem fôlego, foi interrompida. E diferente do que Allen imaginou, não havia tanta surpresa assim na voz dele.

—Você dizia que queria dançar quando era pequeno. — Mana disse, as palavras sérias, duras. Sem surpresa, mas sem acusação.

Foi um choque, porque o albino não se lembrava.

—O quê?

—Quando você era pequeno e ia para o Jazz, toda vez que eu te buscava, você voltava falando durante o caminho inteiro que queria dançar como a "mamãe". — Imitou como o garotinho que Allen fora falava.

—É sério? — As sobrancelhas claras franzidas em preocupação, porque sinceramente? Ele nunca havia pensado nisso, ou lembrado disso. Para ele, não havia aquele sonho de infância a ser percorrido.

Mas pelo visto...

—Sim. — Esfregou os dedos na própria testa, parecendo cansado demais. — Mas algum momento você se esqueceu disso e apenas começou a dizer que ia ser diversas outras coisas, até parar em medicina.

—É que eu gosto de ajudar as pessoas. Acho que seria uma ótima profissão, mas... Só não consegui me ver fazendo isso. — O filho disse, apreciando que nenhum dos dois parecia tão tenso mais. Claro, ainda havia aquele clima estranho e o pensamento sobre sua relação com Kanda não deixava de lhe cutucar a consciência. Apesar disso, a conversa continuou.

—E o que você se vê fazendo?

Foi o suficiente para um sorriso tímido nascer nos lábios finos e rosados do garoto.

—Dançar Ballet para a Bolshoi.

—A academia russa? — Perguntou rapidamente, se empertigando na poltrona. Allen balançou a cabeça, parecendo animado. — Sua mãe sonhava em entrar lá mas... Espera, isso não é em Moscou, Allen? — Agora a expressão de Mana passou de surpresa para preocupada.

—Sim, sobre isso...

Não foram necessárias mais palavras.

—Você quer se mudar para a Rússia? — O pai perguntou, parecendo chocado demais com a informação. O que realmente estava. Ele estava se preparando para Allen sair de casa e ir dividir apartamento com alguém para a faculdade, mas não ir para outro país perseguir um sonho extremamente difícil.

—Pai...

—Você ficou louco? Como pretende fazer isso? Como você vai se sustentar se não conhece ninguém na Rússia, não fala russo, sem contar que não temos garantia nenhuma que você consiga a vaga! Quantas pessoas não tentam essa academia e você nem ao menos teve o treinamento certo! Aliás, eu tenho quase certeza que tem um limite de idade para tudo, até para se aposentar, e ainda tem as viagens, o desgaste físico e você pode ter uma fratura que acabaria com a sua carreira!

—Pai!

Ambos se assustaram, Allen mais ainda porque lidar com o fracasso – ter alguém que deveria estar te apoiando citando um fracasso — doía.

—Filho, você precisa pensar bem s-

—Pai, o Kanda sabe falar russo. O pai dele está na Rússia, eles têm uma mansão lá. Eu poderia ir, arrumar um emprego e tentar um professor especialista até conseguir a vaga. Claro que se demorasse muito, eu desistiria e faria uma faculdade de dança ou teatro, mas eu preciso! É a minha vida! Eu preciso tentar!

Mana estava perplexo com toda aquela informação. Não sabia lidar com aquela mudança repentina e tudo o que passou por seus filtros foi:

—E por que ele faria isso? Por que te ajudaria? Ele não era um bastardo, como você disse? — As sobrancelhas franzidas, a voz acusatória machucava Allen, mas ele soube que precisava falar.

Sugando uma respiração afiada, a voz do pequeno soou baixa, as pernas indo para o chão e as mãos descansando no colo, enquanto brincava com os próprios dedos por nervosismo.

Como pai, Mana já sentia. Ele já sabia. Apenas não queria acreditar, ou não queria aceitar antes que Allen falasse. Mas ele sabia antes mesmo do filho abrir a boca.

—Eu estava errado sobre ele, pai... — O albino sussurrou, parecendo uma criança desamparada, frágil. O mais velho quis tomar o seu garoto no colo, cuidar dele, porque sabia que Allen cabisbaixo não era o certo.

Porém não era capaz de um movimento sequer.

Estava fundo demais no poço da perplexidade e precisaria passar algum tempo lá, até sair das camadas profundas, passando pela raiva, culpa, ignorância, até encarar os fatos como o pai que era: apoiando e amando sua cria.

O ar ficou pesado e tudo parecia difícil demais para uma conversa matinal. Ele sabia que o Mana estava encarando-o estático, esquadrinhando o seu rosto baixo.

Tudo que queria era expulsar aquela sensação incômoda de mentira.

—Kanda foi um bastardo sim, por um bom tempo... Ma-mas ele só precisava de alguém, pai. — Sussurrou. — Alguém que o entendesse, que fosse paciente até que ele se abrisse. — Allen olhou nos olhos do pai por um segundo, querendo mostrar o próprio desespero ao falar as palavras, a esperança e o medo dançando em suas orbes. No próximo segundo, ele estava a encarar as próprias coxas novamente.

—Ele consegue ser um cara arrogante e sensível ao mesmo tempo. Acaba guardando tudo para si, como eu! É orgulhoso também, claro, e muitas vezes eu quero socá-lo mas... m-mas ele só...precisava de alguém para amá-lo...

Como quando uma porta bate forte por causa do vento, ou quando uma onda quebra na beira da praia, o baque, o susto, o expulsar de ar dos pulmões, foi como a sala ficou silenciosa.

De repente, Allen sentiu o sangue todo concentrado em seus ouvidos, as batidas de seu coração podendo ser sentidas na garganta. Ele quis chorar, quis derramar muitas lágrimas quando o pai perguntou:

—Esse alguém é você? Um homem?

E mesmo que Mana não quisesse ter soado acusatório ou homofóbico, foi assim que soou aos ouvidos do menor.

A dor da rejeição foi mais forte do que ele esperava e a barragem estourou, lágrimas de vergonha e dor escorrendo pelas bochechas coradas.

Apesar disso, ele concordou com a cabeça, e levou ambas mãos ao rosto, escondendo-o e se encolhendo como uma bola. Seu corpo inteiro tremia com uma sensação de impotência e aflição. Aflição não por amar, mas por ter o seu amor visto como algo impróprio.

Ele chorou de forma silenciosa, não gemendo de dor, mas as fungadas e as inspirações desesperadas foram muito bem ouvidas pelo pai. Ele sabia disso, no entanto. Ao mesmo tempo que não queria parecer fraco ou redutível, Allen queria que Mana visse que precisava – implorava – por um abraço naquele momento.

O mais velho não o fez, no entanto. Ele não falou, não negou, não gritou, não se mexeu para confortar o pequeno. Parte porque estava desorientado, parte porque seu subconsciente queria que o albino sentisse aquela agonia.

Mana estava magoado por não saber antes e chateado porque seu único filho era gay. Bissexual? Ele já tinha ouvido falar disso – por causa de Cross obviamente – mas não sabia se era o que Allen se considerava. Então assumiu que era gay. Também não era como se estivesse bravo ou algo do tipo. Apenas...

Decepcionado? Sim, decepção.

Porque como pai, ele apoiaria o filho em qualquer coisa. Mas como um ser humano qualquer, ele estava decepcionado. Não era como se ele fosse expulsar o garoto de casa, ou deixar de amá-lo, rejeitá-lo, enfim, deixar de ser um bom pai. Mas ele estava decepcionado como qualquer pessoa que faz planos para os filhos e os vê jogando-os fora.

Era simplesmente algo humano, aquele sentimento. Perder o controle de algo era decepcionante, principalmente porque mostra que a vida não pode ser linear, escrita em um roteiro.

Junto dele vinha também o medo de o seu garotinho sofrer e talvez fosse justamente por isso que ele não ofereceu palavras de afeto e consolo naquele momento. Sem realmente pensar naquilo, Mana queria que o filho conhecesse a dor que o mundo o faria sentir por amar alguém do próprio sexo, ainda que ele amasse, com todo o seu coração, aquela pequena criatura que ele havia criado com tanto carinho.

E ainda cuidaria, óbvio. Só não naquele momento.

Ele seria egoísta por mais algum tempo, porque assim são os humanos.

—Eu preciso de um tempo. — Mana disse, olhando para o chão com rígidez. Allen levantou o rosto assustado com a frase, o rosto inchado pelo choro.

De primeira, odiou muito aquela frase. Achou-a tão injusta e egoísta. Quis gritar com o pai.

Tempo para quê? Não era necessário tempo! Não era como se ele tivesse matado alguém! Pelo contrário, ele estava amando! Sentindo o mais intenso e engrandecedor sentimento que um humano pode sentir. Ele estava colocando alguém ao seu lado, vislumbrando um futuro acompanhado, aprendendo a lidar com outra pessoa e amando cada pedaço irritante dela!

Isso era algo para ser comemorado e não recebido como uma bomba relógio.

Mas depois que respirou duas ou três vezes, Allen percebeu o quão forte Mana apertava os próprios dedos. Percebeu como ele encarava o chão com o lábio inferior mordido, como se estivesse em uma batalha interna.

Allen não estava desculpando-o por não abraçá-lo, nem nada. Mas ele foi capaz de entender que, assim como ele teve um ano para lidar com o florescimento daquele sentimento, o pai poderia ter alguns dias. Talvez semanas, nunca se sabe.

Por fim, aquela discussão tinha lhe esgotado. Não havia dormido muito de noite – sem arrependimentos por aqui – e colocar tudo para fora havia libertado um peso de suas costas, as quais pareciam mais leves e doloridas.

Ele poderia dormir pela tarde inteira, provavelmente, mas ainda eram pouco mais que 9 da manhã.

—Eu acho que vou tomar um banho. — Allen disse, a voz quebradiça e chorosa, olhos baixos e inchados. Foi estranho pensar que adoraria um abraço de Kanda naquele momento, mas ele realmente adoraria um.

Levantando-se da poltrona, levou consigo a flor que havia deixado em cima da mesinha de centro antes daquilo tudo começar e quando estava virando de costas, ouviu a voz do pai.

—Comprei essas rosas para você. — Da mesma forma, a voz dele estava entupida, abafada, como se também estivesse com a garganta apertada.

Allen encarou o pequeno buquê de rosas vermelhas e o ímpeto de chorar voltou no mesmo instante. Ele sabia que precisava correr para o banheiro.

—Obrigado, pai, são lindas... — Respondeu, fungando um pouco e pegando o buquê. — Vou colocar na água. — Anunciou logo em seguida, apenas uma desculpa para sair mais rápido e ir recolher os próprios cacos.

Andou até a cozinha, abrindo a torneira e enchendo um recipiente para armazenar as flores. Na outra mão segurava a lótus com o maior cuidado do mundo. Subiu as escadas com lentidão, porque não queria parecer desesperado e por que Kanda existe. Ao chegar no quarto, fechou a porta devagar, deixou as amadas flores em cima da cômoda, largou a bolsa e o celular na cama e seguiu para o banheiro.

Ali dentro, Allen lavou tanto o corpo quanto a alma. A culpa por não ser aceito esmagava o seu coração de uma maneira sufocante. Ele tapava a boca com a mão e fazia de tudo para os soluços não saírem altos ao ponto de ecoarem pelo compartimento.

Dentro de seu coração, ele se sentia sozinho e desamparado, como um garoto solitário. Vários e vários cenário de rejeição eterna passavam por sua cabeça, medo domava seus instintos e ele poderia sufocar com as próprias lágrimas.

No entanto, Allen sabia que nada podia ser feito. Em seu amadurecido, ele aprendeu que algumas coisas não podiam ser mudadas e mesmo que um Mana enfurecido destruísse a sala, isso não faria Allen se arrepender de ser ele mesmo.

Era horrível, solitário, esmagador. Mas quando se tem a determinação e a certeza de que está se fazendo o certo, não há barreira intransponível. Ainda que o muro e a rejeição sejam imensos, se você está sendo verdadeiro conseguirá ter forças para ultrapassá-los.

Allen estava sendo verdadeiro e, apesar de tudo, sentia os ombros mais leves. Havia melancolia e cansaço em seu ser, mas também havia a tranquilidade em saber que nada mais poderia ser feito. Ele dera tudo de si.

Enquanto tentava se autoconsolar, ele imaginava como seria o clima naquela casa dali em diante, temendo profundamente um rompimento na relação com seu pai.

O amor que os dois cultivaram durante todos aqueles anos não seria descartado pelo albino. Ele queria ser aceito, amava o pai, e continuaria amando. Não o culparia se ele o rejeitasse, ficaria extremamente desapontado e machucado, mas não o culparia. Queria manter o companheirismo e a cumplicidade pura que eles sempre tiveram e que sempre faria de Mana o melhor pai do mundo.

Allen não queria – e nem iria – pintá-lo como um vilão.

Durante sua tomada de decisão, à medida que ia amadurecendo seus laços irrompíveis com sua família, Mana permanecia sentado no mesmo sofá, na mesma posição, por todos aqueles 30 minutos.

Sua mente estava em uma retrospectiva longínqua desde Christina lhe dizendo que estava grávida até o momento seguinte. Allen recém-nascido abrindo os olhos mais lindos pela primeira vez; Allen engatinhando pela primeira vez. A primeira vez que Allen bebê caiu do berço e como ambos pais ficaram desesperados sem saber se levariam ou não ao hospital. A primeira vez que provou uma sopinha de legumes e repetiu duas tigelinhas. Ele riu ao lembrar que a primeira palavra que o pequeno havia dito fora "nanana", em uma tentativa falha do inglês "banana".

Lembrou-se dos primeiros passos, quando o bebê Allen usava botinhas marrons com pelinhos brancos. De como os olhos dele brilhavam quando abria o guarda roupa de figurinos de Christina. De como ele chorou e não dormiu bem por uma semana quando chegaram em Paris, porque sentia falta da "mama".

Mana nunca se importou em ser pai solteiro. Ele tinha orgulho de cada pequena coisa que seu filho aprendia, e cada pequena vitória — até mesmo conseguir subir os degraus sem usar as mãozinhas — era uma felicidade indescritível. O homem tinha certeza que ganhar o prêmio Nobel não lhe daria a mesma felicidade que ser pai de Allen trazia.

Ser pai é algo estranho.

Às vezes achamos que os pais são apenas pais e esquecemos que eles são humanos. Ninguém nasceu pronto para ser pai, ninguém é treinado para ser pai. Não adianta quantos livros alguém lê se preparando para o primeiro filho, não há nenhum treinamento que te habilite a ser pai.

Ser pai é um aprendizado diário. Sempre haverá falhas, sempre haverá ensinamento mútuo. Um pai ou uma mãe erram. E, apesar de serem vistos apenas como "pais", eles também têm suas próprias inseguranças e medos que nem sempre são de conhecimento dos filhos.

Você já pensou nos sonhos que seus pais abandonaram por você, já pensou nos dias em que eles sorriram de maneira forçada? Quando eles abriram mão de um chocolate porque você queria? Já olhou no fundo dos olhos de seus pais e enxergaram a criança que é forçada a ser adulta todos os dias?

Nem todo mundo pode ser pai. Apesar de ser um exercício diário, nem todo mundo aprende a ser pai. Algumas pessoas apenas seguem os padrões de reprodução sem empatia nenhuma ao entregar um novo ser a esse mundo. Algumas pessoas usam os filhos para descontarem as próprias frustrações e fracassos. E muitas, muitas pessoas não merecem os filhos que têm. Muitas pessoas estragam suas crias, as destroem, às vezes sem querer e às vezes por querer. Essas pessoas não sabem pedir desculpas, não tem tato e, principalmente, não vêem o ser humano incrível que colocaram no mundo.

O ofício paterno e materno é além disso. É passar além de todas esses erros. Não é apenas alimentar, dar roupas, entupir de regras e superproteger alguém.

Filhos são humanos. Não são uma propriedade. Não devem nada aos pais. Não se deve pôr uma criança no mundo esperando algo em troca. Não se põe uma criança no mundo esperando que ela seja perfeita e que nunca vá alçar voo.

Ser pai é muito além. É amar alguém de tal forma que se abdica do orgulho para pedir desculpas, das regras para apoiar o filho, dos sonhos para dar oportunidades ao filho, das noites de sono para aplacar a dor dos filhos, dos planos imaginados para aceitar o filho. Educar com amor, olhar com atenção, ouvir com entusiasmo.

Nem todas as pessoas servem para ser pais. Muitos filhos não merecem os pais que têm. É um fato.

Mana tinha consciência que não era perfeito. Ele estava frustrado e com raiva naquele momento. Também sentia medo pelo filho. Mas Mana era uma daquelas pessoas cuja alma transparece amor. Ainda que amor não suprima raiva ou mágoa, ele os ultrapassa. E o homem havia ultrapassado muitas coisas para ser um pai de verdade, um pai que merece o título de ser pai.

E, ainda que seu bebê saísse do ninho para enfrentar a barbárie mundana, ele continuaria a ser um pai. E tentaria ser o melhor deles.

—--A&K---

O banho quente relaxou todos os músculos retesados e doloridos de Allen. Suas pernas ainda estavam vacilando depois do exercício de madrugada, mas nada alarmante. Agora, ele se sentia incrivelmente vazio e leve, pronto para dormir o restante do dia até que acordasse por fome mais tarde.

No entanto, assim que saiu do banheiro, vapor criando uma saída triunfal e os olhos baixos demonstrando cansaço, avistou a tela do celular piscando em cima da cama. Ele havia colocado-o em modo silencioso e provavelmente a pessoa que ligava já tinha ligado mais vezes.

Como uma confirmação, assim que chegou próximo ao telefone, a tela apagou, religando novamente e mostrando 6 chamadas perdidas do mesmo número.

Pegando-o na mão, Allen leu com confusão o nome de Breeze como aquela que estava ligando sem parar nos últimos dez minutos. Isso mesmo, a mesma garota que estava ignorando-o nos últimos dias.

Encarando o visor de sobrancelhas franzidas, o garoto pensou no porquê de a loira estar ligando e todas as hipóteses envolviam Alphonse, o que fez seu estômago revirar e um gosto amargo tomar sua boca.

Determinado a ligar de volta, o Walker pulou de susto quando o celular começou a piscar de novo e uma nova ligação era feita.

Ele não pensou duas vezes antes de atender, sentando-se com cuidado na cama porque algo lhe dizia que seria melhor se sentar.

—A-Allen? — A voz quebrada de Breeze soou através da linha antes mesmo do albino dizer algo, e, se antes o menino apenas cogitava que algo ruim tinha acontecido, agora uma sensação gelada e desconfortável empurrou seu estômago em uma confirmação desagradável.

Atrás de seus olhos, uma fincada de dor avisou que mais tarde viria uma enxaqueca daquelas por estresse.

—Breeze? — Perguntou cauteloso, olhos fechados e testa enrugada expressando seu estado de alerta devido ao tom choroso da garota.

—O-oh meu Deus, A-Allen... — A voz da moça foi se fechando, até soluços romperem através do telefone e o albino começar a entrar em pânico por não saber o que estava acontecendo.

—Breeze? Vi que você me ligou várias vezes, o que aconteceu? — Despejou, sangue começando a correr rápido pelas veias. Sem permissão, sua mente criava vários cenários horríveis e uma sensação de ânsia tomou seu corpo.

—A-Alphonse, e-ele... — Mas ela não conseguia se recompor, apenas resmungando e sufocando em lágrimas. O desespero da loira acabou por passar para o garoto, que levantou-se apressado e foi em direção ao guarda roupas, pegando a primeira roupa que viu pela frente para vestir.

Foi quando a menina começou a se desculpar e falar coisas sem sentido que o albino estacou enquanto jogava um suéter na cama e procurava uma boxer confortável.

—M-me desculpe... Me desculpe, A-Allen...E-eu de-devia ter avisado a-antes, e-eu n-

—Avisado? Breeze, do que você está falando? — Ele voltou a andar, apoiando o celular no ombro e colocando a cueca com dificuldade.

—O A-Alphonse, e-le está fora de s-si, ele... Oh, meu Deus...

Allen começou a se irritar com a falta de informações, preocupação instantânea formigando sob sua pele sem nem mesmo um motivo plausível.

—Respire, Bree, pelo amor de Deus. Eu não consigo entender nada e você está me deixando nervoso! — Aumentou a voz, fechando as portas do guarda roupa e colocando e suéter que selecionou. Foi quando a loira tomou duas respirações profundas, a voz baixa, culpada, chorosa, e voltou a falar.

—A-Alphonse perdeu o juízo, Allen... — Houve hesitação até que ela pareceu tomar coragem. — Ele me bateu enquanto falava coisas sem sentido e eu não entendi nada m-mas...E-eu acho que...

—Mas o quê? — Perguntou, aflito, o coração na mão ao saber que aquele desgraçado tinha colocado a mão em Breeze. Como ele pôde? — Onde você está? O que ele fez com você? Onde ele está? Estou indo até aí! — Cuspiu, raiva começando a fluir por seu sistema.

—Não! N-não! Allen, espera! E-eu... — Ela respirou fundo, como se recolhesse coragem o suficiente para falar. — Acho que ele foi até a casa de Kanda...

E a voz fraca soou pela linha, causando um efeito reativo quando foi processada pelo cérebro do Walker.

—O quê? — A voz do albino saiu inesperadamente mais aguda, choque escorrendo por suas entranhas.

Ele estagnou no meio do quarto, enjoo tomando seu baixo ventre e intensificada pelo silêncio da loira.

—E-ele estava dizendo um monte sobre o Kanda e então disse que precisava encontrá-lo e eu... e-eu deveria ter avisado! — Então ela caiu no choro novamente. — Me d-desculpe, A-Allen, e-eu estava com medo! C-com vergonha e-

Enquanto a garota se embolava em choro, desculpas e soluços, a cabeça do albino rodou como uma bola e ele se sentiu tonto de imediato. Alphonse estaria na mansão?

—Breeze, se acalme. — Pediu, soando como um pequeno rosnado, porque ele estava pensando ali! Ele precisava de tempo para raciocinar!

—V-você precisa ligar para o Kanda e a-avis-

—Não tem necessidade, eu estou indo para casa dele, — E dito isso, Allen olhou para a porta do quarto, como se pensasse como sairia de casa sem soar como um rebelde abandonando o pai.

No entanto, havia uma sensação horrível de impotência e medo, ainda que sem um motivo confirmado, correndo por suas veias e isso foi o bastante para ter forças para enfrentar o que quer que estivesse acontecendo. Foi esse instinto protetor que assumiu o controle. — Breeze, quero que ligue para Alma, vou te passar o telefone dele. Você vai ligar e explicar o que aconteceu e então vai pedir para ele te encontrar, ok? — Disse pausadamente, como se estivesse falando com uma criança.

—M-mas eu-

—Escute, não sabemos o que está acontecendo. E se você diz que o Alphonse está fora do normal, eu não vou arriscar. Apenas ligue para Alma, explique a situação, diga que eu estou na casa de Kanda e peça para ele ir até onde você está, certo? Preciso de você segura.

Na verdade, não havia garantia nenhuma que Alma saberia o que fazer, mas era no Alma que todos confiavam. Ele sempre estaria lá para todos e sempre seria o guardião daquele grupo. Foi a primeira pessoa que passou pela cabeça de Allen e ele tinha certeza que, mesmo sem um plano, o Karma ajudaria Breeze.

—Breeze, posso contar com você? — Agora ele levantou a voz, determinado a ir procurar Kanda e descobrir o que diabos estava acontecendo.

Ela confirmou com um murmurar baixo e anotou os números que o albino havia ditado.

—Rápido, por favor, Bree. — E Allen desligou o telefone sem esperar uma resposta, ansiedade corroendo suas entranhas mais uma vez naquele dia. Ele se sentia tonto com todas aquelas emoções e não saberia como lidar com mais.

Por isso, sentiu-se extremamente angustiado ao descer as escadas e ver que Mana permanecia no mesmo lugar, mergulhado em pensamentos e com um olhar distante.

—Vai sair? – Portanto, ouvi-lo falar assim não estava em seus planos.

A sensação desconfortável fez com que engolisse em seco duas vezes antes de andar cauteloso até o homem. Allen sabia que sair depois de uma discussão era um erro e uma falha ainda mais na comunicação, mas aquela era uma situação de emergência.

—Recebi uma ligação de uma amiga e acho q-

Mana, sem dizer nada, levantou-se, o que gerou o silêncio no outro lado. Quando se virou para o filho, notou os olhos inchados e o nariz vermelho que definiam o albino.

Culpa infiltrou-se na sua confiança e coração magoados. Ambos estavam machucados depois daquela confissão e discussão, o que era visível considerando o estado abatido do pai e o estado choroso do filho.

Apesar de tudo, assim que trocaram olhares, ambos sentiram a necessidade irrevogável de finalizar aquela conversa com uma promessa de entendimento, com uma confirmação de que ambos iriam resolver aquilo.

Sem mais uma palavra, Mana abriu os braços e Allen correu até o pai sem pensar duas vezes. Os braços fecharam-se ao redor do garoto, que encostou o rosto no peito do homem e respirou fundo o aroma que sempre lhe acalmava.

A sensação de ser acolhido, apesar de todo o desconforto e de todas as palavras ainda não ditas, foi o suficiente para preencher um pouco do vazio que sentia. Allen, no momento em que recebeu um beijo no meio dos fios platinados, soube que, mais tarde, os sentimentos seriam revisados e, quando ambos estivessem prontos, sentariam novamente.

Ele imaginou que, na próxima vez, Mana exigira a presença de Kanda e apenas o pensamento o fez ficar ao mesmo tempo ansioso e receoso. Mas, por hora, aquelas preocupações eram afastadas com o sussurro baixo de um “eu te amo” por parte do pai, ao qual Allen fechou os olhos com força e respondeu um “também”. Aquilo e os braços mantendo um abraço forte era a confirmação de que tudo ficaria bem em seu devido tempo.

Portanto, sem remorso, Allen despediu-se do pai e saiu correndo pela porta, focando em um problema ainda sem solução. Já Mana ficou parado por um tempo na sala, algumas lágrimas singelas correndo por seu rosto assim que percebeu como o seu menino estava crescido. Eventualmente subiria as escadas, tomaria um banho e iria almoçar e conversar com a única pessoa que, no momento, conseguia tirá-lo do modo “pai super protetor”. Ela seria capaz de dizer-lhe palavras fortes e que ele precisava encarar, mas terminariam o almoço com alguns sorrisos tímidos de dois adultos que encontravam o amor próprio e uma paixão.

No fim das contas, se Allen também estava seguindo a vida, Mana tinha o direito de seguir com a sua e, tendo a certeza que se acertaria com o filho, não viu problemas em abrir um espaço a mais no coração para outra pessoa.

Ao final daquele dia, mesmo Mana se surpreenderia com a pergunta que surgiria em sua mente sem qualquer aviso:

“Megan e Allen se dariam bem ou apenas se suportariam, como ele faria com o coisinha?”

Notas finais
Pronto! Espero que tenham gostado desse capítulo e dessa conversa! Era a minha intenção desde o início esse atrito com o Mana simplesmente porque quis ter mais com a realidade... mas espero que tenha ficado claro que as coisas vão ficar bem no final do capítulo! Espero que tenham gostado! Um grande beijo, muito obrigada pelo apoio e até mais!!