Homens sem rosto
1 Capítulo 1
Cheiro de pólvora e sangue. Corpos para todo lado. Um campo de batalha. Acordo atordoado em meio ao cenário de destruição e carnificina. Meus pensamentos são um vidro embaçado e minha farda esta salpicada de sangue. Levanto-me com dificuldade e olho ao meu redor procurando pistas de onde estou. Ao lado dos corpos estirados estão armas e estilhaços, há um silencio palpável no ar. Ainda na o sei onde estou. Meus ouvidos estão preenchidos com pequenos zumbidos, como em um filme de áudio ruim.
Caminho entre os corpos feridos e mutilados procurando alguém que reconheça, mas logo desvio o olhar, ignorando os homens de expressões fixas e sem vida. Uma bandeira familiar queima em um estandarte mais adiante. Ao fundo, escuto o chiado das chamas e o barulho das lamentações.
Ouço vozes e comandos à minha direita e me viro. Homens de farda estão correndo em minha direção carregando macas improvisadas e primeiros socorros. Graças a Deus! Me enchi com o calor da esperança. Eles me ajudarão, responderão minhas perguntas, eles... Passaram direto por mim. Me dirijo ao soldado com feições sérias e ele não se da conta da minha presença. Chamo-o novamente. Ele dispara ordens aos outros combatentes que socorrem os poucos homens que estão vivos. Atordoado, viro-me para o lado procurando respostas, e quando não as encontro: corro.
Em algum momento encontro uma enfermaria improvisada em meio ao caos. O lugar cheirava à álcool e ferrugem. Enfermeiras cuidavam dos combatentes feridos com cautela e preocupação. A unica distinção entre os vivos e os mortos eram as expressões tatuadas em seus olhos. Os vivos tinham olhos traumatizados. horrorizados e desfocados, os mortos estavam simplesmente dormindo, gelados e em paz, indiferentes à situação que os rodeava.
Caminho pela enfermaria e percebo que as pessoas continuam me ignorando, como se eu não estivesse lá. Arrepio com o pensamento.
Separados dos feridos estão os corpos das vítimas. Fragmentos de lembranças pintam minha mente em branco e reconheço alguns rostos. O soldado com feições brincalhonas e irônicas com quem costumava jogar baralho na calada da noite, agora está envolto em panos tingidos de vermelho. O homem que salvou-me uma vez de um tiro, agora é só mais um na pilha de vitimas. Um colega que sempre carregada consigo uma foto de sua filha e nos mostrava com orgulho, jaz estirado sobre uma maca. Todos mortos.
Paro. Há um rosto mais que familiar ao lados deles. Tao familiar.. Oh! Com um misto de horror e ânsia eu me lembro. Me lembro do eco de uma bomba explodindo, do som de armas sendo carregadas, do cheiro de suor e desespero. Me lembro de tudo. Seguro o braço de uma enfermeira, clamando por ajuda, mas ela continua andando. Pela primeira vez olho para minhas mãos e o que vejo me assombra: elas estão desfocadas, cobertas por uma fina camada de um pó reluzente, quase transparente. Nao. Nao. Nao! Entro na frente de um soldado, mas ele passa por mim como se eu fosse feito de ar. A realidade é apavorante. Mas é a realidade. Estou morto.
... Depois do que pareceram horas de choque e negação, me abaixo e fito meu rosto. Encaro os olhos que costumavam me observar no espelho. O pavor me anestesiou de tal forma, que não sinto mais nada. Nao encontro a placa de identificação que costumava carregar em meu pescoço. Nao tenho nome. Nao tenho rosto. Sou uma mera lembrança de tudo o que se perde em combate.
Pessoas se aglomeram em volta de um senhor, que pela patente em seu ombro, acredito que seja o general. Estão prestando uma homenagem aos soldados abatidos. Ele começa o elogio fúnebre, repetindo várias e várias vezes a causa que apoia, a bandeira que segue. Talvez pense que repetindo seus motivos ele acredite nos mesmos, que se conforme com as perdas e as justifique.
Homens desfocados olham para seus próprios corpos adormecidos, com o mesmo olhar que esteve talhado em meu rosto. Outros, em choque, compreendem a situação e se ajoelham rogando aos seus deuses o porque daquilo tudo. Mais a frente, os espiritos dos soldados formam uma fila desorganizada e silenciosa, marchando para o próximo massacre. Estão lado a lado com seus inimigos uma vez declarados. Agora nada disso importa. Eu os acompanho.
Olho para o céu cinzento e aceito meu destino; ser mais um combatente sem rosto e sem causa dentre tandos outros que me precedem.
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