Homens de Negócios
3 Surpresa adorável
Os raios de luz entraram pelas janelas do quarto iluminando o que seria parecia ser uma manhã linda. O sol sempre entrou primeiro pela janela de Michael Fisher. Não é uma metáfora, apenas que quando se paga algumas centenas de milhares de dólares no apartamento da cobertura consegue-se alguns privilégios. Como uma ótima vista de Upper East Side, por exemplo.
De qualquer jeito, Michael estava acostumado com privilégios. Desde que se conhecia por milionário, eles eram comuns. Tinha sempre reservas nos melhores restaurantes cinco estrelas aonde quer que fosse, isso quando não fosse comer em seu próprio restaurante cinco estrelas. Nos jogos nunca estavam esgotados os ingressos dos melhores lugares para ele. E era assim desde o começo. Claro que ele trabalhou muito para chegar aonde chegou e ainda trabalhava, mas sempre que podia ia às melhores e mais luxuosas festas da cidade e saía com as modelos mais lindas ‒ que algumas vezes eram bem mais novas que seus 45 anos.
Não o definiria como um playboy, pois ele nem está mais na idade para isso, mas pode-se dizer que seja um bon vivant, boêmio e fanfarrão.
Saiu da cama de pijama e percebeu que Lindsay já o havia feito também. Chegando à enorme sala de estar, encontrou com a faxineira, que tirava o pó dos móveis. Ela o cumprimentou com um “bom dia senhor Fisher”.
‒ Dia, Sue ‒ ele disse, bocejando. ‒ Você viu Lindsay?
Sue levantou os olhos do sofá e encarou o patrão.
‒ Você quer dizer a da vez? Ah ‒ ela voltou ao trabalho ‒, ela está na cozinha, tomando café da manhã.
‒ O que você quer dizer “a da vez”? ‒ se sentiu estúpido por perguntar ‒ Ah, esquece, eu entendi.
Virou-se para a cozinha e ouviu um risinho abafado da faxineira. Já não era a primeira vez que ele tinha uma “da vez”. Ele nunca gostou de relacionamentos sérios então os dele não duravam mais que alguns meses ‒ se chegassem a durar mais de um mês. E ele mal os chamava de relacionamento ‒ e nem a elas de namoradas. E como ele poderia chamá-las? Quer dizer, quando se namora, você as chama de namoradas, quando estão noivos, as chama de noivas e casados, se refere a elas como mulher ou esposa. Mas e quando se sai e dorme com elas apenas uma ou mais vezes, sem levar nada a sério, para nunca mais vê-las? Ele já havia se perguntado isso, sem sucesso para obter resposta, e é uma coisa que simplesmente não dá resultado se jogar no Google.
Michael entrou na cozinha e viu Lindsay à mesa com o motorista de Michael, Brad. Eles estavam numa conversa animada até repararem na presença dele.
‒ Bom dia, patrão! ‒ Brad era alto, negro e tinha uma voz no mínimo engraçada, era um cara legal, mas se o deixasse falar livremente, ele o faria até perder a língua. ‒ Você parece estar de bom humor hoje e eu nem preciso perguntar o que aconteceu na noite passada para saber, né? ‒ riu.
‒ Precisamente ‒ Michael parou ao lado da mesa e olhou ara Lindsay.
‒ Bom dia ‒ disse ela, sorrindo. ‒ Eu tenho que te chamar de patrão também?
‒ Só na cama ‒ retrucou.
‒ Grande homem, esse meu patrão ‒ disse o motorista, depois de dar uma gargalhada. ‒ Sabe, se eu já não fosse crescido eu diria que queria ser ele quando crescesse.
Michael riu. Claro que ele sabia que era brincadeira (ou não). Mas era engraçado pensar que poderia ter alguém que queria ser ele quando crescesse, enquanto ele quando era criança não se inspirou em ninguém para chegar aonde chegou. A fortuna dele vinha de uma empresa muito bem sucedida de café, uma franquia espalhada pelos EUA, o Fisher’s, e tudo começou com um cubículo no centro da cidade onde ele mesmo vendia o café. Hoje a empresa lucrava dezenas de milhões por ano e expandia mais ainda.
‒ Mike ‒ chamou Lindsay ‒, eu descobri que Brad e eu somos da mesma cidade. De Filadélfia! Que coincidência!
‒ Ah sim ‒ respondeu ele, pegando o suco na geladeira. ‒ Que incrível coincidência ‒ o relacionamento mais afetivo e duradouro que Michael já tivera (que durara até hoje e duraria até o final dos dias dele) era o com a ironia.
‒ Sim! ‒ ela não pareceu entender. ‒ Nós até freqüentamos a mesma escola, mas só fomos nos conhecer agora, ambos na casa de um nova-iorquino milionário.
Gostei da parte do milionário, pensou Michael. Um é o motorista do milionário e a outra teve um caso de uma noite com o mesmo, ele pensou em dizer, mas não queria estragar a felicidade de Lindsay.
‒ Sim! ‒ concordou Brad. ‒ Falando em coincidências ‒ lá vem história, Jack sentou-se na mesa ‒, vocês já ouviram sobre aqueles gêmeos canadenses que foram separados no nascimento, mas aí casaram com mulheres com o mesmo nome e tiveram um filho com o mesmo nome?!
Lindsay pareceu animada com a história e deu um pulinho gritando:
‒ Ah, eu já ouvi!
‒ Eu li sobre essa história também ‒ mentiu. ‒ E li que os irmãos faziam aniversário no mesmo dia também! ‒ fingiu animação.
‒ Sério? ‒ perguntou Lindsay, séria.
Michael olhou para a garota; não sabia se ria ou explicava. Ela era aquele famoso estereótipo de que ou se tem beleza ou inteligência. Alta, magra, morena e de olhos claros, ela era uma mulher linda de corpo e rosto, gentil e simpática, mas não uma das mais inteligentes. Ele a conhecera na dois meses atrás, e dormira com ela algumas vezes. Fora uma convivência rápida, mas ele conseguiu perceber a inteligência ‒ ou falta desta ‒ nela. Mas que seja, ele pensou, não é para casar.
Antes que Jack pudesse responder a o que ele esperava ser uma brincadeira de Lindsay, o telefone tocou na sala, mas logo foi atendido por Sue. A empregada logo entrou na cozinha com uma notícia que literalmente com o fim de semana. De todos os acidentes de trabalho que poderiam ter acontecido, fazendo-o trabalhar ainda mais e mais pesado, Deus deve ter resolvido dá-lo um trabalho ainda mais desgastante, pesado, cansativo e terrível:
‒ Sr Fisher ‒ anunciou a faxineira ‒, era sua mãe. Ela vem te visitar.
O quê
‒ Sério? Bosta. Cadê o telefone?
‒ Oh, eu já desliguei, ela só me pediu para passar o recado ao senhor.
Ah, aquela sugadora de alma...
‒ Ela disse por que vem me visitar?
‒ Só disse que estava com saudades... Ah, e que é para buscá-la na rodoviária às sete.
Ah, claro. É como se a morte pedisse pra it até ela.
Amélia Fisher, mãe de Michael, era uma figura rara. Conservadora com alguns tabus, mas liberal quando se trata dela mesma, ela teve uma vida difícil, ele compreendia, mas achava que ela poderia ter se empenhado um pouquinho mais como mãe. Ela ficou grávida de Michael aos dezenove anos, já casada com o pai dele, que tinha vinte e sete. Como os pais dela eram contra o namoro deles, os dois fugiram da cidade para morar em Nova York e casaram-se quando ela tinha dezoito, e assim Michael nunca conheceu os avôs. Ela apanhava do marido, que freqüentemente chegava bêbado em casa. Até que ele morreu quando Michael tinha seis anos. Ele nunca fora um pai exemplar, nem alguém em que Michael se inspiraria. ´
Depois da morte do marido, Amélia tornou-se uma mãe muito ausente, começou a fumar e beber. Antes de se formar, Michael não saberia dizer quantas vezes sua mãe se esquecera de pegá-lo depois da aula. Perdera a conta de quantos dias seguidos ficou sem falar com ela, mesmo ela estando sob o mesmo teto. Aí ele começou a trabalhar e juntar dinheiro para abrir seu primeiro negócio. Anos depois, começou o café sem a ajuda de um centavo sequer por parte da mãe; e o negócio foi se expandindo até os Fisher enriquecerem. Quando pôde, ele deu a ela uma casa no interior e ficou em Nova York.
A última vez que ele a viu foi numa outra visita no ano passado, uma que se estendeu de visitinha para dois meses. Dois longos meses.
‒ Uou! ‒ disse Brad, após alguns instantes que Michael ficou tentando imaginar o que estava por vir. ‒ Olha só quem já vai conhecer a sogrinha!
Mas o que...?
Lindsay riu. Pelo jeito Brad não havia compreendido que Michael não nutria nenhum tipo de afeto por ela ‒ na verdade nem Lindsay o havia feito. Ele tinha se esquecido completamente dela por instantes, agora precisava se livrar dela. Na última visita, sua mãe dissera que “as putas que ele escolhia para aquecer a cama não iam fazer dele menos solitário”. Então tudo bem. Teve uma idéia. Ia fingir que Lindsay era sua namorada.
‒ Por que você não quer que ela venha te visitar? ‒ perguntou Lindsay.
‒ Oh, eu quero sim.
‒ Então por que você disse bosta?
Calada é uma poeta.
‒ Você tem que entender que minha mãe... ‒ pensou ‒ sua sogrinha é mais complicada do que aparenta, mas você vai conhecê-la. Ela é uma ótima pessoa ‒ quando não está sendo um pé no saco.
Já sabia o que sua mãe tinha a falar sobre Lindsay. “Ela passou três vezes na fila quando estavam distribuindo idiotice?” ou “ela é assim mesmo ou só quer um dólar?”. Mas tudo bem, quem sabe ela não fosse embora logo se Michael mantivesse Lindsay por perto.
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