Homens de Negócios
2 O que mais poderia dar errado?
Jack ser abandonado no altar rendeu boas histórias, ô se rendeu. Ele detestava fofoca, e, ironicamente, essa arte é como um gene dominante no DNA da família dele – uma família grande, dos quais noventa por cento estavam presentes no dia de seu casamento, para a infelicidade dele. Ele sempre pregou que sua família quieta era uma família de poetas – ele nunca esteve mais correto.
Ele não fazia idéia do que havia acontecido após deixar a praia, acabado. Na verdade, ele fazia sim. Indubitavelmente, os convidados começaram a falar, começaram a comentar, e como se falar e comentar não fossem o suficiente, começaram a inventar.
‒ Eu ouvi dizerem que a noiva fugiu com o irmão do noivo ‒ disse o namorado de uma prima de Jack (que é filho único).
‒ Me disseram que ela é uma lésbica e estava usando ele como desculpa pra que não descobrissem ‒ disse a avó de Jack.
‒ Eu ouvi da irmã dela que ela fugiu num avião agora mesmo pra Los Angeles com um namorado rapper, um negão de dois metros ‒ mas o quê?
‒ A mãe dela me disse que ela largou dele porque ele não tirava o cabelo que ficava no sabonete depois do banho ‒ meia verdade.
‒ Eu ouvi dizerem que ele é um homem muito violento, que batia nela com tudo que estivesse na frente, e que uma vez chegou a jogar um liquidificador na mãe dela ‒ isso veio da família de Terri, mas chega.
Ele conhecia bem sua família, e sabia que ia ficar pior. Como quando tinha dezesseis anos e surgiram boatos de que ele havia engravidado a namorada. Começou na escola, mas o zelador era amigo de um tio dele, sendo que não demorou a todo mundo ficar sabendo desse suposto bebê – todo mundo menos Jack. A história resultou em três testes de gravidez em médicos diferentes, um término de namoro e seis marcas de mão e sapato na bunda de Jack.
Ele não fazia idéia de como isso ia terminar ‒ mal sabia como começara ‒, mas tinha idéia de que rolariam coisas absurdas na boca do povo. Entretanto ele não ligava. Não estava dando a mínima para as besteiras que estavam falando.
Tudo que ele queria era saber da verdade.
Apenas haviam contado para ele que a irmã de Terri não havia chegado à cerimônia e que o pai dela estava no hotel o tempo todo. Depois do que devia ter sido o melhor dia da vida de Jack, ele voltou ao hotel com a mãe. Ele amava Ana, sua mãe, obviamente, mas às vezes ela não cooperava. Como uma terapeuta, ela fez perguntas como “ela parecia feliz para você?”, “quando foi a última briga de vocês?”, “ela estava satisfeita com a vida sexual que levava?”. Ele tentou responder a maioria, mas na primeira oportunidade deixou a mãe e foi para o aeroporto, pegar o primeiro vôo pra Nova York.
Jack uma vez leu uma pesquisa que dizia que, em vôos nacionais, quarenta por cento dos passageiros dormiam, vinte liam livros ou revistas, outros vinte ouviam música, quinze refletiam enquanto os restantes cinco por cento tomavam remédios para dormir. Embora não soubesse exatamente o que levaria alguém a fazer uma pesquisa como essa, no momento ele se encaixaria numa minúscula porcentagem que mostra os que ficaram pensando em Terri Levy e em toda a história que tiveram juntos durante o vôo.
Pensava no que podia ter levado ela a fazer isso com ele. Ela tinha outro? Será que finalmente o pai dela conseguiu convencê-la de que Jack não prestava como marido? Ou pior, será que ela estava mesmo insatisfeita sexualmente? Ou era tudo por causa dos cabelos no sabonete? Mas e se for todo isso junto? Ele não fazia idéia se ela tinha outro marido, ela nunca deu ouvidos ao pai dela e nem pareceu insatisfeita quando transavam; o que colocava os cabelos no sabonete como explicação mais verídica.
Em certo ponto da viagem de volta, ele chorou.
Desembarcou no JFK e quando estava saindo do aeroporto teve uma surpresa: o irmão de Terri, Brian, estava lá.
Brian Levy sempre foi um dos tipos de cara que Jack odiava ou preferia manter distância. Desde que o conheceu, dois anos atrás, ele já tinha namorado “sério” cinco vezes, mas ele tinha certeza de que Brian trocava mais de amante do que de cueca. Jack nunca conseguiu entender como um tampinha, careca e chato como ele conseguia fazer tanto sucesso com as mulheres ‒ a vida é injusta, sim, mas às vezes ela exagera.
A namorada da vez era uma latina, bonita e avantajada. Sem dúvida que logo eles se encaixariam na parte dos casamentos que acontecem para conseguir autorização para moradia legal no país. Terri uma vez disse que isso havia acontecido com Brian pouco depois que eles começaram a namorar, e que o casamento havia durado um mês e aí ele levou um pé na bunda, como sempre.
‒ Ei, Jack! ‒ ele cumprimentou sorrindo, mas aí fez uma expressão triste. ‒ Sinto muito pela minha irmã, cara. Às vezes não sei o que dá na cabeça das mulheres ‒ olhou pro lado. ‒ Ah, falando no diabo, essa é Maya, minha namorada.
‒ Olá ‒ ela disse com um inglês misturado com espanhol, estendendo a mão. Ele cumprimentou-a e até forçou um sorriso.
‒ Então ‒ continuou Brian ‒ você sabe onde está minha irmã?
Das milhares de coisas que Jack poderia ter dito, ele com certeza escolheu a mais sábia. Com um “não sou obrigado a isso” em mente, ele soltou um lento e gostoso...
‒ Vá se foder ‒ disse, sorrindo, e saiu.
A expressão de surpresa no rosto de Brian fez ele se sentir melhor, agora ele poderia riscar um item da lista das coisas que tinha que fazer antes de morrer.
Chamou um taxi, e um senhorzinho grisalho que parecia mal alcançar o acelerador o dirigia. O velho estava de bom humor, pois durante a viagem foi cantarolando alguma música que Jack não fazia idéia de qual poderia ser.
‒ Voltando de viagem, é? ‒ perguntou, sorridente, pegando Jack de surpresa.
‒ Você nem imagina! ‒ ele abriu o sorriso mais falso que conseguiu e depois até se sentiu mal por isso, mas o velho percebeu que era ironia e até parou de cantarolar pelo resto da viagem. Quando saiu, ele deu uma gorjeta a mais para o taxista, pois se sentiu mal com o que fez com o pobre coitado. Parecia que só dava fora.
Finalmente estava em casa. Parecia que fazia dois dias que ele estava naquele dia. Se perguntassem a ele quanto tempo ele havia esperado por Terri no altar, ele diria que foi no mínimo duas horas. Estava exausto, quebrado, destruído. Tudo que queria era dormir para acordar só no dia seguinte, com Terri ao lado dizendo que tudo não passou de um pesadelo.
Subiu as escadas cambaleando, parecia um zumbi. Quando foi destrancar a porta do apartamento 13, notou que não precisava fazê-lo ‒ estava aberto. Estranho, pensou, a única pessoa que tem outra chave daqui é ‒ merda!
Ele abriu a porta devagar e viu que a cozinha estava arrumada exatamente como haviam deixado três dias atrás. Foi entrando silenciosamente, tudo parecia no lugar. Até entrar na sala. Quando o fez, deparou-se com um desconhecido barbudo, gordo, e alto deitado de cueca no sofá, assistindo televisão e bebendo cerveja, como se morasse lá. Jack tateou a mochila à procura do celular para chamar a policia até que...
‒ Jack?! O que você está fazendo a...
‒ O que eu estou fazendo na minha casa? ‒ ele derrubou a mochila e abriu os braços. ‒ Ok senhora proprietária, por que não aproveita e pergunta pro seu amigo al...
Quando se virou, ele não pôde deixar que o “amigo” de Terri se dera ao trabalho de levantar-se ‒ e de que era muito mais alto do que parecia quando deitado.
‒ O que está acontecendo aqui? ‒ ele perguntou segurando a latinha de cerveja. Tinha sotaque francês; oh, os Levy e seu amor por estrangeiros. Seria lindo senão fosse cômico.
‒ É... eu que pergunto, o que está acontecendo aqui? No meu apartamento. ‒ ele pronunciou “meu” arregalando os olhos pra Terri.
‒ Ah, seu? Faz mais de um ano que eu ajudo a pagar as contas desse apartamento, que eu pago o aluguel daqui, eu tenho direito a esse apartamento tanto quanto você! ‒ e apontou o dedo para a cara dele.
‒ Você sabe que jornalistas não ganham bem hoje em dia! E-e eu moro aqui há mais de três anos!
Ele deixou-a rebater porque precisava pensar em mais argumentos.
‒ Não mais ‒ ela apontou para o chão ao lado do sofá, onde estavam umas mochilas que indubitavelmente continham as coisas de Jack. ‒ Agora Jean e eu moramos aqui.
‒ Não é possív...
‒ Você ouviu a moça! ‒ exclamou o barbudo, pondo a mão no ombro dele. De repente Jack sentiu uma coisa que parecia ser medo, mas não era isso, afinal não tinha porque temer o novo namorado francês de sua ex que tinha no mínimo dois metros de altura.
‒ Então você deve ser Jean ‒ virou-se para o barbudo.
‒ Precisamente.
‒ Por que você fez isso comigo? Eu achei que estivesse tudo ótimo entre a gente... ‒ ele disse se virando à ex, olhando-a nos olhos castanhos, que rebateu:
‒ Não estava nada ótimo.
Agora aquilo foi um soco bem dado no estômago dele, ou um chute nas bolas; não sabia se explodia e acabava apanhando do tal Jean ou ia embora aceitando aquilo. Fez o mais racional. “Sorriu” e foi até suas coisas. Sem paciência restante, perguntou:
‒ Está tudo aqui?
‒ Se estiver faltando alguma coisa eu mando por correio; Jean não ficaria feliz de te ver por aqui. ‒ O francês barbudo soltou um “Não mesmo”. ‒ Onde vai ficar?
E de repente percebeu que aquilo foi a gota d’água.
Agora ele estava tipo foda-se tudo e todos.
‒ Oh, te surpreenderia se eu dissesse que não sei também? ‒ Pôs a mochila nas costas e segurou a mala e andou até a porta da cozinha. ‒ Sabem, eu desejo a vocês toda a felicidade do mundo.
Esperou que algum deles pudesse soltar um “sério?”, mas percebeu que não ia rolar então jogou de vez na lata:
‒ Mentira. Eu quero que ambos apodreçam no inferno.
‒ Olha o jeito que fala com a moça!
Mais rápido do que poderia imaginar, ele retrucou:
‒ Não a chamaria assim, moças geralmente se depilam com freqüência.
O queixo de Terri caiu, assim como o de Jean, que se virou a ela, com uma expressão tipo “sério?”. Essa cena foi engraçada e o suficiente para que ele virasse as costas aos dois e saísse. Até que ele havia se saído bem.
‒ Você é tão imaturo Jack Roberts, tenho pena de você! ‒ gritou Terri quando ele estava atravessando a cozinha.
Ele nem se deu ao luxo de virar ou responder; apenas mostrou o dedo do meio e saiu.
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